Para imprimir um ritmo à prosa sucede mergulharmos no próprio íntimo e reencontrarmos o ritmo anónimo e múltiplo do sangue. A prosa quer-se construída como se constrói uma catedral. Sem nome, sem auxílio. De pé sobre o pavimento, a sós com a nossa consciência simples.
Rilke, in: Carta a Rodin.
sábado, 24 de outubro de 2009
(...) Quantas vezes falamos sem nada dizermos do que é real, mas sem desconhecermos um só instante essa realidade. Um entretém. Quantas vezes sabemos que a alma está pairando no rebordo dos dedos pousados na mesa. E continuamos como se não tivéssemos a alma que, de facto, temos. (...) Pressentimos que, nas nossas vidas, há um anúncio próximo, uma fusão inexorável, e cultivamos o abrandamento do tempo, o afastamento do instante, para tornarmos manso o lance inevitável.
maria gabriela llansol, «onde vais drama-poesia»
maria gabriela llansol, «onde vais drama-poesia»
sexta-feira, 6 de março de 2009
Discurso pronunciado por ocasião da 9ª Anistia Cultural, no Salão Negro do Palácio da Justiça em Brasília, em 06 de março de 2009 por ocasião ao evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2009, promovido pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça/MJ e com parceria do PRONASCI.
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Brasília, 6 de março de 2009.
Senhoras e Senhores,
Muito bom dia. É com imensa alegria que venho celebrar com vocês este Dia 8 de março.
Quero, inicialmente, agradecer a Comissão de Anistia pelo convite de participar desta cerimônia e dizer que, a partir deste momento, o Projeto Mulheres da Paz, uma das ações mais importantes do Programa Nacional de Segurança com Cidadania, começa uma interlocução importante com os trabalhos da Comissão de Anistia e que isto é, para nós, motivo de verdadeira satisfação.
Quero cumprimentar a mesa na pessoa do Dr. Paulo Abrão, presidente da Comissão e dizer algumas palavras antes de apresentar as nossas convidadas.
Para tanto, vou buscar em outros tempos do Movimento Feminista, nas décadas de 60 e 70 do século passado, alguns conceitos dos quais vou me valer para abrir estes trabalhos.
Particularmente prefiro sempre voltar às raízes, às raízes das palavras, dos conceitos, as raízes constituem-se sempre num lugar seguro, consistente, sem o qual não é possível o movimento inovador das ramificações e dos desdobramentos mais surpreendentes.
Vou me referir aos grupos de mulheres, principalmente na Itália, na França e depois na Espanha, companheiras de ativistas e militantes de esquerda que não se contentaram em ocupar um papel subalterno junto aos seus maridos. Perceberam que, de uma maneira geral, tanto no espaço doméstico como no espaço da militância, eram simples secretárias e meras coadjuvantes dos seus companheiros, enquanto eles sim, construíam e organizavam o que veio a se configurar, imediatamente, como partidos e importantes organizações de esquerda.
Na raiz da história do feminismo, que começa muito antes destas décadas estão palavras importantes como autonomia e cumplicidade e que foram traduzidas de muitas maneiras como irmandade, sororidade, sisterhood, etc.
Aquelas mulheres, insatisfeitas, decidiram sair de um papel de coadjuvantes e fundaram seus próprios grupos de mulheres para iniciarem suas reflexões. Reuniram-se em escolas e igrejas, com as companheiras de operários e cidadãos comuns e elegeram alguns temas para começar a conversar. Optaram pelo texto literário, entenderam que a literatura e, principalmente a literatura de autoria feminina daria, através do imaginário, as respostas que elas buscavam. O resultado foi o mais frustrante possível. Toda a literatura européia do século XIX apresentava um sem número de heroínas órfãs, fugindo da casa paterna autoritária e castradora e jogando-as num mundo inóspito onde elas morreriam loucas, doentes, prostituídas, abandonadas e desamparadas.
Muitos anos depois, Liliana Hecker, uma ficcionista argentina, escreveu um texto que se chamava Las hermanas de Shakespeare, onde ela conta a história possível de uma tal Judith Shakespeare, imaginando o que aconteceria se William tivesse uma irmã, talentosa como ele e o que aconteceria com ela se ela quisesse escrever. Ela fugiria de casa para poder escrever e depois, perdida em Londres, se apaixonaria, engravidaria de um cafajeste e morreria de aborto e penúria e não escreveria.
Frustradas com personagens femininas tão precárias aquelas européias começaram a se perguntar, naquelas veladas literárias e de tomada de consciência feminista, onde estavam as mães daquelas protagonistas e porque aquelas heroínas, abandonadas, estavam fadadas a destinos tão cruéis. As mães que cuidam de suas filhas mulheres estavam banidas do imaginário literário, e do imaginário iconográfico das artes plásticas também. Porque não havia, ao contrário da literatura de autoria masculina sobre os homens, uma história de alianças e cumplicidades entre as mulheres.
Sempre me pergunto, numa espécie de exercício de imaginação ativa, que se no colo da Virgem Maria estivesse uma menina, como teria sido a história do mundo e das mulheres? Como seria esta história se tivéssemos sido amparadas pelo amor de nossas mães, que por sua vez teriam sido amparadas e valorizadas pelo amor de outras, numa espiral mágica a um passado insólito.
Virginia Woolf, na década de 20, num outro momento histórico importante para o feminismo, em busca de respostas para perguntas parecidas, entrou na biblioteca de uma importante universidade inglesa e percebeu que só havia autores homens nas prateleiras. E que a história que eles contavam, portanto, tinha de excluir as mulheres como protagonistas e mantê-las como projeções. Ana Karenina, Ema Bovary, Antígona e tantas outras são apenas projeções do imaginário masculino que cria grandes personagens femininas e que sempre, ao final da história, as enlouquece, adoece ou suicida, como castigo e punição as suas transgressões.
Virginia Woolf percebeu que para que as mulheres pudessem escrever, elas precisavam de um quarto próprio e algumas libras por ano. E que a independência financeira era fundamental para que elas se tornassem intelectuais e artistas já que as nossas mães e as nossas avós não nos tinham deixado um legado espiritual e nem um legado material.
Aquelas mulheres européias dos anos 60 e 70, insatisfeitas com o que encontraram no texto literário levantaram uma questão fundamental: era fundamental que as mulheres estabelecessem um outro tipo de relação entre elas, que elas legitimassem as suas práticas e condutas, que elas se apoiassem e se reconhecessem, que elas fossem uma espécie de fiadoras da demandas e necessidades da vida das outras.
E criaram, assim, um dos conceitos que mais me encanta na história do feminismo que é o conceito de affidamento, que além da solidariedade pura e simples propõe que a experiência de outras mulheres é fundamental, estruturante, modelar para todas nós, e nascia ali, deste conceito e desta descoberta o que algumas filósofas feministas de muitos países chamaram de genealogias femininas.
As mulheres que estão presentes nesta mesa, nesta manhã, e muitas das que serão anistiadas na audiência de hoje são, historicamente, as mulheres com que escolhi me parecer. Os meus modelos, as minhas musas, as minhas companheiras de caminhos.
Numa cena do filme sobre a vida da Leila Diniz ela ganha dois kimonos com dizeres em japonês, num estava escrito felicidade, no outro estava escrito coragem, ela, como sabemos, escolheu o da coragem. Estas mulheres que estão presentes aqui, hoje, sempre souberam que a felicidade é um luxo para poucos e que a vida é feita, na verdade, de outros valores e de muitos poucos luxos. E pautaram seus caminhos de vida no exemplo de outras mulheres também, numa prática genealógica, estabelecendo outras relações de affidamento e ensinando a outras mulheres sobre um lugar de dignidade, coragem e de muita fúria.
Nesta sala estão juntas algumas das mulheres mais corajosas e bravas deste país, no auditório ao lado estão sendo homenageadas as mulheres da Força Nacional, não podemos dizer que o Ministério da Justiça, com sua Sala de Retratos tão parecida com a biblioteca inglesa da Virginia Woolf, será o mesmo depois deste 8 de março.
Estas mulheres contam a história do país desde uma outra perspectiva e o trabalho político, pedagógico e cultural da Comissão de Anistia, na recuperação destas histórias e na escuta destas narrativas é um dos mais emocionantes deste governo.
Moema Viezzer ao ouvir a história de Domitila Barrios de Chungara, criou, juntamente com Elizabeth Debray e Elena Poniatowska um novo gênero literário na América Latina que resultou no que hoje se denomina literatura de testemunho. Margarida Genevois foi membro da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo por 25 anos e fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, Jessie Jane Vieira de Souza é historiadora, ex-perseguida política e foi uma das fundadoras da Associação pela Reforma Prisional.
Mas isto é pouco dizer sobre a história destas mulheres que a partir de uma circunstância história, a de terem nascido e vivido num determinado momento da história deste país, construíram biografias e trajetórias exemplares para todas as mulheres brasileiras. Elas contarão, ao se apresentarem, um pouco destas histórias, e vocês entenderão então porque elas são as nossas homenageadas.
Quero terminar a minha fala dizendo que as demandas das Mulheres da Paz que iniciaram há dois anos atrás este projeto aqui no Ministério da Justiça, era uma demanda simples: seus filhos e filhas, homens e maridos tinham sido abatidos nas regiões metropolitanas mais violentas do país, pelo tráfico ou pela polícia e elas queriam justiça.
No ano passado perdemos Vera Lúcia Flores, Mãe de Acari, que morreu esperando por uma resposta do Estado brasileiro sobre o que aconteceu há 19 anos com 11 adolescentes mortos e desaparecidos em Magé, no Rio de Janeiro. E há uma semana exatamente, morreu Euristéia Azevedo, a Téia, uma das fundadoras do Movimento das Mães do Rio, aos 66 anos, de infarto. Dentro de um mês, depois de 11 anos o caso da morte do filho dela na chacina do Maracanã vai a júri popular. O coração da Téia não agüentou, ela não quis ver mais injustiça e adiamentos. Ela partiu.
Ela sempre dizia: Dra. Lélia, nós estamos ficando velhas, e nós somos os arquivos vivos destas histórias, daqui a pouco ninguém mais vai poder contar o que realmente aconteceu.
As mulheres das minhas genealogias femininas, com as quais eu estabeleço relações de affidamento, com as quais eu me identifico e com quem eu quero seguir os meus caminhos de sonhos, trabalhos e reflexões, são mulheres simples como a minha mãe, a minha avó, como as que estão aqui hoje, e como as Mulheres da Paz.
Muito obrigada, bem vindas e um feliz 8 de março para todas nós.
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Brasília, 6 de março de 2009.
Senhoras e Senhores,
Muito bom dia. É com imensa alegria que venho celebrar com vocês este Dia 8 de março.
Quero, inicialmente, agradecer a Comissão de Anistia pelo convite de participar desta cerimônia e dizer que, a partir deste momento, o Projeto Mulheres da Paz, uma das ações mais importantes do Programa Nacional de Segurança com Cidadania, começa uma interlocução importante com os trabalhos da Comissão de Anistia e que isto é, para nós, motivo de verdadeira satisfação.
Quero cumprimentar a mesa na pessoa do Dr. Paulo Abrão, presidente da Comissão e dizer algumas palavras antes de apresentar as nossas convidadas.
Para tanto, vou buscar em outros tempos do Movimento Feminista, nas décadas de 60 e 70 do século passado, alguns conceitos dos quais vou me valer para abrir estes trabalhos.
Particularmente prefiro sempre voltar às raízes, às raízes das palavras, dos conceitos, as raízes constituem-se sempre num lugar seguro, consistente, sem o qual não é possível o movimento inovador das ramificações e dos desdobramentos mais surpreendentes.
Vou me referir aos grupos de mulheres, principalmente na Itália, na França e depois na Espanha, companheiras de ativistas e militantes de esquerda que não se contentaram em ocupar um papel subalterno junto aos seus maridos. Perceberam que, de uma maneira geral, tanto no espaço doméstico como no espaço da militância, eram simples secretárias e meras coadjuvantes dos seus companheiros, enquanto eles sim, construíam e organizavam o que veio a se configurar, imediatamente, como partidos e importantes organizações de esquerda.
Na raiz da história do feminismo, que começa muito antes destas décadas estão palavras importantes como autonomia e cumplicidade e que foram traduzidas de muitas maneiras como irmandade, sororidade, sisterhood, etc.
Aquelas mulheres, insatisfeitas, decidiram sair de um papel de coadjuvantes e fundaram seus próprios grupos de mulheres para iniciarem suas reflexões. Reuniram-se em escolas e igrejas, com as companheiras de operários e cidadãos comuns e elegeram alguns temas para começar a conversar. Optaram pelo texto literário, entenderam que a literatura e, principalmente a literatura de autoria feminina daria, através do imaginário, as respostas que elas buscavam. O resultado foi o mais frustrante possível. Toda a literatura européia do século XIX apresentava um sem número de heroínas órfãs, fugindo da casa paterna autoritária e castradora e jogando-as num mundo inóspito onde elas morreriam loucas, doentes, prostituídas, abandonadas e desamparadas.
Muitos anos depois, Liliana Hecker, uma ficcionista argentina, escreveu um texto que se chamava Las hermanas de Shakespeare, onde ela conta a história possível de uma tal Judith Shakespeare, imaginando o que aconteceria se William tivesse uma irmã, talentosa como ele e o que aconteceria com ela se ela quisesse escrever. Ela fugiria de casa para poder escrever e depois, perdida em Londres, se apaixonaria, engravidaria de um cafajeste e morreria de aborto e penúria e não escreveria.
Frustradas com personagens femininas tão precárias aquelas européias começaram a se perguntar, naquelas veladas literárias e de tomada de consciência feminista, onde estavam as mães daquelas protagonistas e porque aquelas heroínas, abandonadas, estavam fadadas a destinos tão cruéis. As mães que cuidam de suas filhas mulheres estavam banidas do imaginário literário, e do imaginário iconográfico das artes plásticas também. Porque não havia, ao contrário da literatura de autoria masculina sobre os homens, uma história de alianças e cumplicidades entre as mulheres.
Sempre me pergunto, numa espécie de exercício de imaginação ativa, que se no colo da Virgem Maria estivesse uma menina, como teria sido a história do mundo e das mulheres? Como seria esta história se tivéssemos sido amparadas pelo amor de nossas mães, que por sua vez teriam sido amparadas e valorizadas pelo amor de outras, numa espiral mágica a um passado insólito.
Virginia Woolf, na década de 20, num outro momento histórico importante para o feminismo, em busca de respostas para perguntas parecidas, entrou na biblioteca de uma importante universidade inglesa e percebeu que só havia autores homens nas prateleiras. E que a história que eles contavam, portanto, tinha de excluir as mulheres como protagonistas e mantê-las como projeções. Ana Karenina, Ema Bovary, Antígona e tantas outras são apenas projeções do imaginário masculino que cria grandes personagens femininas e que sempre, ao final da história, as enlouquece, adoece ou suicida, como castigo e punição as suas transgressões.
Virginia Woolf percebeu que para que as mulheres pudessem escrever, elas precisavam de um quarto próprio e algumas libras por ano. E que a independência financeira era fundamental para que elas se tornassem intelectuais e artistas já que as nossas mães e as nossas avós não nos tinham deixado um legado espiritual e nem um legado material.
Aquelas mulheres européias dos anos 60 e 70, insatisfeitas com o que encontraram no texto literário levantaram uma questão fundamental: era fundamental que as mulheres estabelecessem um outro tipo de relação entre elas, que elas legitimassem as suas práticas e condutas, que elas se apoiassem e se reconhecessem, que elas fossem uma espécie de fiadoras da demandas e necessidades da vida das outras.
E criaram, assim, um dos conceitos que mais me encanta na história do feminismo que é o conceito de affidamento, que além da solidariedade pura e simples propõe que a experiência de outras mulheres é fundamental, estruturante, modelar para todas nós, e nascia ali, deste conceito e desta descoberta o que algumas filósofas feministas de muitos países chamaram de genealogias femininas.
As mulheres que estão presentes nesta mesa, nesta manhã, e muitas das que serão anistiadas na audiência de hoje são, historicamente, as mulheres com que escolhi me parecer. Os meus modelos, as minhas musas, as minhas companheiras de caminhos.
Numa cena do filme sobre a vida da Leila Diniz ela ganha dois kimonos com dizeres em japonês, num estava escrito felicidade, no outro estava escrito coragem, ela, como sabemos, escolheu o da coragem. Estas mulheres que estão presentes aqui, hoje, sempre souberam que a felicidade é um luxo para poucos e que a vida é feita, na verdade, de outros valores e de muitos poucos luxos. E pautaram seus caminhos de vida no exemplo de outras mulheres também, numa prática genealógica, estabelecendo outras relações de affidamento e ensinando a outras mulheres sobre um lugar de dignidade, coragem e de muita fúria.
Nesta sala estão juntas algumas das mulheres mais corajosas e bravas deste país, no auditório ao lado estão sendo homenageadas as mulheres da Força Nacional, não podemos dizer que o Ministério da Justiça, com sua Sala de Retratos tão parecida com a biblioteca inglesa da Virginia Woolf, será o mesmo depois deste 8 de março.
Estas mulheres contam a história do país desde uma outra perspectiva e o trabalho político, pedagógico e cultural da Comissão de Anistia, na recuperação destas histórias e na escuta destas narrativas é um dos mais emocionantes deste governo.
Moema Viezzer ao ouvir a história de Domitila Barrios de Chungara, criou, juntamente com Elizabeth Debray e Elena Poniatowska um novo gênero literário na América Latina que resultou no que hoje se denomina literatura de testemunho. Margarida Genevois foi membro da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo por 25 anos e fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, Jessie Jane Vieira de Souza é historiadora, ex-perseguida política e foi uma das fundadoras da Associação pela Reforma Prisional.
Mas isto é pouco dizer sobre a história destas mulheres que a partir de uma circunstância história, a de terem nascido e vivido num determinado momento da história deste país, construíram biografias e trajetórias exemplares para todas as mulheres brasileiras. Elas contarão, ao se apresentarem, um pouco destas histórias, e vocês entenderão então porque elas são as nossas homenageadas.
Quero terminar a minha fala dizendo que as demandas das Mulheres da Paz que iniciaram há dois anos atrás este projeto aqui no Ministério da Justiça, era uma demanda simples: seus filhos e filhas, homens e maridos tinham sido abatidos nas regiões metropolitanas mais violentas do país, pelo tráfico ou pela polícia e elas queriam justiça.
No ano passado perdemos Vera Lúcia Flores, Mãe de Acari, que morreu esperando por uma resposta do Estado brasileiro sobre o que aconteceu há 19 anos com 11 adolescentes mortos e desaparecidos em Magé, no Rio de Janeiro. E há uma semana exatamente, morreu Euristéia Azevedo, a Téia, uma das fundadoras do Movimento das Mães do Rio, aos 66 anos, de infarto. Dentro de um mês, depois de 11 anos o caso da morte do filho dela na chacina do Maracanã vai a júri popular. O coração da Téia não agüentou, ela não quis ver mais injustiça e adiamentos. Ela partiu.
Ela sempre dizia: Dra. Lélia, nós estamos ficando velhas, e nós somos os arquivos vivos destas histórias, daqui a pouco ninguém mais vai poder contar o que realmente aconteceu.
As mulheres das minhas genealogias femininas, com as quais eu estabeleço relações de affidamento, com as quais eu me identifico e com quem eu quero seguir os meus caminhos de sonhos, trabalhos e reflexões, são mulheres simples como a minha mãe, a minha avó, como as que estão aqui hoje, e como as Mulheres da Paz.
Muito obrigada, bem vindas e um feliz 8 de março para todas nós.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
... uma decadência lenta de todos os ‘deve-se’, a morte dos envoltórios de minha vida que parecia apodrecer. Tive que aceitar essa lentidão e o aniquilamento daquilo que eu julgava ser eu mesma. O medo sempre presente de, ao sacrificar o meu velho e competente eu social, acabar morrendo também. Mesmo assim, nesse local depressivo, onde senti a inércia no abraço da matéria total a me envolver como cimento, está presente uma liberação de energia tão profunda que me faz perceber outro sentido de tempo – só sei que minhas unhas cresceram, e preciso cortá-las de novo.
Chego ao que é baixo e lento, não o humano e quente, mas o desapegado. Muito além da idéia de significado ou não significado.
PERERA, Sylvia. In: Caminho para a iniciação feminina. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.
Chego ao que é baixo e lento, não o humano e quente, mas o desapegado. Muito além da idéia de significado ou não significado.
PERERA, Sylvia. In: Caminho para a iniciação feminina. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.
Minha mãe é uma centopéia, assim como a minha filha. Às vezes, nossos passos se atropelam quando caminhamos arrastadamente com os nossos trezentos pés. Mas já deixamos nossas marcas, uma na outra, de milhões de maneiras. Partilhamos o mesmo DNA, os mesmos sonhos, a mesma ousadia. Molly está destinada a ser a mais ousada de todas, e isso corresponde à minha expectativa. Tantas gerações de mulheres a influenciaram. Tantas mães e avós colaboraram com a sua feitura. Que ela ouse seguir seus sonhos aonde que quer eles a levem! Sem ousadia, para que servem os sonhos? Sem ousadia, de que serviram as lutas de sua mãe, sua avó, sua bisavó? Não se engane, esses ancestrais estão nos observando. Se os desapontamos, desapontamos a nós próprios. Virginia Woolf disse: “Lembramo-nos do passado através de nossas mães, se somos mulheres”. E através de nós, nossas mães dirigem seu pensamento para o futuro.
Erica Jong.
Erica Jong.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Eso es una matanza:
Lélia Almeida.
Em Matador, de Pedro Almodóvar, de 1986, há uma cena em que o próprio Almodóvar, como ator e personagem, numa prova de figurino para a cena de um filme diz para a mãe da modelo que está histérica: señora, eso no es um desfile, eso es uma matanza.
No dialeto familiar da minha casa, adotamos a expressão. Que serve para muitas situações. Como por exemplo, não adianta querer enfeitar, a situação é muito pior do que parece, ou, não há regras de cordialidade aqui, isto é uma matança. Algumas outras também.
Nada mais óbvio e concreto que uma matança. Nada mais concreto e irreversível do que a morte.
Perdi seis pessoas dos meus afetos nos últimos três meses. Minha vida, de repente, se encheu de morte. Eram todas de diferentes idades e as causas foram também por diferentes motivos. Cheguei a sentir uma certa naturalidade na ida ao cemitério, ao velório, ao enterro, até o dia que não consegui mais levantar da cama de tanto pavor e pânico. Tinha travado completamente. Alguma coisa devastadora tinha se instalado dentro de mim, uma certeza, jamais sentida antes, de que posso morrer a qualquer momento. Saber disso é uma coisa, entender, cabalmente, é outra.
Quatro homens e duas mulheres. Os homens, que em geral são mais onipotentes, se cuidam menos, arriscam mais, subestimam o real estágio de uma doença. As mulheres duram mais, qualquer estatística nos conta sobre isso. Vão mais ao médico e sabem, quase todas, talvez por seus próprios destinos de cuidadoras, que é preciso ser cuidadoso e que sempre, a qualquer momento, coisas terríveis podem acontecer. E que, portanto, é prudente se proteger, prevenir.
Não sei se esta é uma boa maneira de começar um ano novo, pensando na morte. Mas rezei muito e não bebi durante as festas de fim de ano. Percebi que alguma coisa profunda afetou a minha esperança quando os fogos começaram a explodir, que o meu entusiasmo não era o mesmo. Uma saudade impossível de contar, de ainda não compreender o mundo sem alguns sorrisos imprescindíveis, algumas risadas únicas, como se eu ainda estivesse me perguntando onde foram parar estas pessoas que estavam aqui, agora mesmo, e como elas puderam sumir tão de repente? E como vou continuar a viver sem elas?
Estou ficando velha. É isso e é simples.
Não pedi nada na noite de Natal, nem na do Ano Novo. Mas agradeci tanto, tanto, celebrei a chegada de mais um gato filhote na minha casa, a minha sobrinha de três anos que me trouxe bombons, a minha mãe que viu a novela de mãos dadas comigo, agradeci tanto as coisas quentes e simples como estas. E sei que, daqui pra frente, serei mais delicada nos rituais, mais vagarosa na hora de abrir a janela de manhã cedo e ver o sol, de dormir aconchegada ouvindo a chuva no telhado, dizer sempre, derretida eu te amo, e celebrar as alegrias, que contra a certeza da morte, só mesmo a celebração das alegrias.
Amém.
Lélia Almeida.
Em Matador, de Pedro Almodóvar, de 1986, há uma cena em que o próprio Almodóvar, como ator e personagem, numa prova de figurino para a cena de um filme diz para a mãe da modelo que está histérica: señora, eso no es um desfile, eso es uma matanza.
No dialeto familiar da minha casa, adotamos a expressão. Que serve para muitas situações. Como por exemplo, não adianta querer enfeitar, a situação é muito pior do que parece, ou, não há regras de cordialidade aqui, isto é uma matança. Algumas outras também.
Nada mais óbvio e concreto que uma matança. Nada mais concreto e irreversível do que a morte.
Perdi seis pessoas dos meus afetos nos últimos três meses. Minha vida, de repente, se encheu de morte. Eram todas de diferentes idades e as causas foram também por diferentes motivos. Cheguei a sentir uma certa naturalidade na ida ao cemitério, ao velório, ao enterro, até o dia que não consegui mais levantar da cama de tanto pavor e pânico. Tinha travado completamente. Alguma coisa devastadora tinha se instalado dentro de mim, uma certeza, jamais sentida antes, de que posso morrer a qualquer momento. Saber disso é uma coisa, entender, cabalmente, é outra.
Quatro homens e duas mulheres. Os homens, que em geral são mais onipotentes, se cuidam menos, arriscam mais, subestimam o real estágio de uma doença. As mulheres duram mais, qualquer estatística nos conta sobre isso. Vão mais ao médico e sabem, quase todas, talvez por seus próprios destinos de cuidadoras, que é preciso ser cuidadoso e que sempre, a qualquer momento, coisas terríveis podem acontecer. E que, portanto, é prudente se proteger, prevenir.
Não sei se esta é uma boa maneira de começar um ano novo, pensando na morte. Mas rezei muito e não bebi durante as festas de fim de ano. Percebi que alguma coisa profunda afetou a minha esperança quando os fogos começaram a explodir, que o meu entusiasmo não era o mesmo. Uma saudade impossível de contar, de ainda não compreender o mundo sem alguns sorrisos imprescindíveis, algumas risadas únicas, como se eu ainda estivesse me perguntando onde foram parar estas pessoas que estavam aqui, agora mesmo, e como elas puderam sumir tão de repente? E como vou continuar a viver sem elas?
Estou ficando velha. É isso e é simples.
Não pedi nada na noite de Natal, nem na do Ano Novo. Mas agradeci tanto, tanto, celebrei a chegada de mais um gato filhote na minha casa, a minha sobrinha de três anos que me trouxe bombons, a minha mãe que viu a novela de mãos dadas comigo, agradeci tanto as coisas quentes e simples como estas. E sei que, daqui pra frente, serei mais delicada nos rituais, mais vagarosa na hora de abrir a janela de manhã cedo e ver o sol, de dormir aconchegada ouvindo a chuva no telhado, dizer sempre, derretida eu te amo, e celebrar as alegrias, que contra a certeza da morte, só mesmo a celebração das alegrias.
Amém.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Da intimidade:
"No entanto, a intimidade é mais do que um súbito reconhecimento de afeto entre duas pessoas. Eu sei que sim. Mas o que é, na verdade? Talvez seja a experiência que, de vez em quando, temos - raramente, é certo, mas temos - de nos tornarmos cada vez mais transparentes e de sentir o olhar cúmplice e familiar de alguém penetrando suavemente em todos os nossos poros? E, de igual forma, sentir que o nosso olhar interior consegue atravessar e compreender esse outro ser? (Embora, no entanto, comecemos pelo exterior). Nem sequer se pode pensar em intimidade sem antes meditar nas coisas a frio e ser capaz de infligir um ao outro uma espécie de ferida afetuosa."
Robert Dessaix, in Corfu, trad. Ana Teresa de Castro, ed. Gótica.
"No entanto, a intimidade é mais do que um súbito reconhecimento de afeto entre duas pessoas. Eu sei que sim. Mas o que é, na verdade? Talvez seja a experiência que, de vez em quando, temos - raramente, é certo, mas temos - de nos tornarmos cada vez mais transparentes e de sentir o olhar cúmplice e familiar de alguém penetrando suavemente em todos os nossos poros? E, de igual forma, sentir que o nosso olhar interior consegue atravessar e compreender esse outro ser? (Embora, no entanto, comecemos pelo exterior). Nem sequer se pode pensar em intimidade sem antes meditar nas coisas a frio e ser capaz de infligir um ao outro uma espécie de ferida afetuosa."
Robert Dessaix, in Corfu, trad. Ana Teresa de Castro, ed. Gótica.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
[...] ¿Leíste alguna vez la leyenda medieval de Filomena? Keats la llamó Philomel. Un caballero feudal, amo y señor, casado com una mujer mayor, se enamora de la hermana menor de su esposa. La cerca y al final la viola. Para que ella no lo cuente, le corta la lengua. La niña se encierra y a escondidas borda un tapiz donde narra la historia que le há sucedido. Al descubrir el señor feudal este tapiz, decide matarla. Así lo hace. Y al morir ella se transforma en ruiseñor. Por eso el pájaro canta en las noches mientras los demás callan, para ser escuchado. [...] Tengo muchas historias que bordar. (p. 225)
In: SERRANO, Marcela. Antigua vida mía. Santiago de Chile: Alfaguara, 1995.
In: SERRANO, Marcela. Antigua vida mía. Santiago de Chile: Alfaguara, 1995.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Saudades do cronópio maior
Lélia Almeida.
Foi proposto o desafio: falar de Julio Cortázar. Falar mais especificamente sobre os 20 anos da morte de Cortázar, o cronópio maior, o ícone indiscutível da literatura argentina, amado, idolatrado e popularíssimo junto às figuras de Borges, Maradona ou Evita. Mas, como falar de Cortázar, de seu universo complexo e abrangente? Como fazer uma síntese do autor dos duplos, dos espelhos e dos labirintos? Eis-me aqui, portanto, frente a esse desafio, o de falar desse clássico da literatura contemporânea, estudado pela crítica literária, pela psicanálise, pela filosofia, e de quem dou breves notícias no intuito de realizar uma homenagem saudosa e justa.
O ano de 2004, ano dos 20 anos da morte de Cortázar, ocorrida em 12 de fevereiro de 1984, tem sido e será ainda sublinhado em muitos países como o Ano Internacional de Cortázar. Estão sendo realizadas, em âmbito internacional, palestras, colóquios, simpósios, exposições itinerantes, reedições de sua obra, publicação de esparsos e dispersos, numa tentativa mais do que justificada de manter a chama acesa, de mantê-lo vivo e inesquecível entre nós.
Exímio contista e romancista, misturou o lúdico com o revolucionário e nos brindou com uma obra singular, objeto de paixão e fanatismo por leitores do mundo inteiro. Sendo impossível sintetizar a complexidade de seu trabalho e estilo em poucas linhas, escolho, então, os caminhos traçados muitas vezes pelo próprio autor para se apresentar. E que o situaram na literatura latino-americana como representante inequívoco do que se convencionou chamar de o boom da Literatura Latino-Americana, nas décadas de 60 e 70 do século passado. Os temas do fantástico e do comprometimento político foram marcas certas da literatura desse período, e situaram a realidade cultural do nosso continente no primeiro mundo, apresentando-a como inovadora e sem precedentes.
Gabriel García Márquez ao tentar refletir sobre o chamado fantástico na literatura latino-americana, em seu discurso em Estocolmo, La Soledad de América Latina, em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, disse que a literatura produzida no continente tinha características próprias porque a realidade histórica desses países beirava o absurdo, a fantasia, o imponderável. Chamou de realidade descomunal uma realidade em que se produziam patriarcas que se perpetuavam perversamente no poder, regimes totalitários que mandavam prender, exilar e desaparecer multidões de pessoas, que corresponderiam a populações inteiras dos pequenos países europeus.
Uma realidade em que eram possíveis guerras e revoluções que não acabavam nunca, e que provocam verdadeiros saqueios que resultavam no desamparo e abandono do povo latino-americano. Tudo isso numa paisagem devastada por toda sorte de vendavais, terremotos e outros caprichos da natureza. Márquez sugeriu aos intelectuais europeus que não olhassem para a literatura latino-americana somente como produto exótico dos países dos trópicos, mas também com detalhe e atenção para esses países e sua história, uma história trágica e absurda, como é a dos povos colonizados.
Cortázar, concordando com García Márquez e outros autores do boom, foi autor de textos como Carta a Roberto Fernández Retamar (sobre a situação do intelectual latino-americano), de 1967, O Intelectual e a Política na América Hispânica, América Latina: Exílio e Literatura, Realidade e Literatura na América Latina e Novo Elogio da Loucura, sobre as loucas mães da Praça de Maio, que revelaram seu pensamento sobre a situação dos países latino-americanos nos difíceis anos 60 e 70.
Ainda que acusado por muitos, sobre seu inicial exílio voluntário em Paris, longe do front e das difíceis realidades em que vivia o continente, Cortázar afirmou, por meio desses textos, seu engajamento como intelectual e como militante pelos direitos humanos em tribunas internacionais. Para ele, “se alguma vez se pôde ser um grande escritor sem se sentir partícipe do destino histórico imediato do homem, nesse momento não se pode escrever sem essa participação, que é responsabilidade e obrigação, e somente as obras que reflitam, mesmo que sejam de pura imaginação, mesmo que inventem a infinita gama lúdica da qual o poeta e o romancista é capaz, mesmo que jamais indiquem diretamente essa participação, somente elas conterão, de alguma indizível maneira, o tremor, a presença, a atmosfera que as torna reconhecíveis e entranháveis, que desperta no leitor um sentimento de contato e proximidade”.
É legítimo afirmar que, sem os acontecimentos históricos como os da Revolução Cubana, da Revolução Sandinista ou a de San Salvador, os rumos da literatura latino-americana, produzida então, talvez tivessem sido outros. A Revolução Cubana, praticamente contemporânea do boom, e as figuras de Fidel e do Che representaram uma verdadeira quimera para muitos dos escritores que, como García Márquez ou o próprio Cortázar, envolveram-se pessoalmente com esses eventos históricos e seus protagonistas.
A reflexão sobre as questões políticas, que criaram uma literatura de testemunho em todos os nossos países, deu-se, concomitantemente, à produção de uma literatura chamada de Realismo Mágico, Literatura Fantástica ou, ainda, de Real Maravilhoso.
Os textos em que Cortázar tentou sintetizar suas percepções sobre esse tipo de literatura ao qual ele se filiou, foram El Sentimiento de lo Fantástico (conferência apresentada na U.C.A.B) e, principalmente, um texto que, apesar do título – O Estado Atual da Narrativa na América Hispânica –, foi seu ensaio mais completo e erudito sobre o maravilhoso e o fantástico. Considerou o fantástico como uma temática e um procedimento recorrentes em autores da zona cultural do Rio da Prata num período que vai de 1920 aos dias atuais. E que se daria por um mecanismo do acaso, o mesmo acaso que, por exemplo, juntou, concentrou, na época da Renascença italiana ou em outros períodos da história, uma explosão criativa com características próprias.
o sentimento do fantástico seria, para Cortázar, um estranhamento originado das coisas banais da vida e do cotidiano. Longe de se tratar de situações fantasmagóricas e sobrenaturais, de lobisomens ou vampiros, o fantástico seria um estranhamento capaz de romper com o binarismo do racional e irracional, e que se instalaria como uma zona intermediária, uma ponte entre vários caminhos. Seria um espaço intersticial, de uma terceira fronteira, de um terceiro olho.
Para Cortázar, o caminho do fantástico poderia nos ensinar que, a partir da nossa percepção diferenciada desse outro, poderíamos ampliar nossos hábitos mentais de percepção da realidade. Lúdico e revolucionário, amado por muitos e criticado por alguns sobre suas posições políticas, defensor do polêmico boom como um momento de expansão para a literatura latino-americana, ao contrário de outros que o viam como um momento de mera especulação editorial, o grande cronópio amou a música e o cinema a quem dedicou ensaios e produções também singulares.
Sobre sua morte sempre falou-se sem muita precisão. Falou-se que ele teria morrido vítima de leucemia ou vítima de um câncer raro. Mas em biografia recente publicada em Barcelona, a autora uruguaia residente há muitos anos na capital catalã, Cristina Peri-Rossi, amiga próxima e musa de Cortázar, especula a possibilidade de o autor ter sucumbido a complicações provocadas pela Aids. No seu livro sobre Cortázar, que faz parte da coleção Vidas Literárias, da Editora Omega, a autora refere-se ao escândalo sobre a falta de controle dos bancos de sangue da França no início dos anos 90, e propõe que esse problema era ainda anterior ao momento em que as denúncias vieram a público. Cortázar teria feito uma transfusão de sangue em 1981, e todos os sintomas de que padecia no fim de sua vida coincidiam com os da Aids, doença ainda desconhecida e de difícil diagnóstico no início dos anos oitenta.
Poema escrito por Cortázar ao cubano Roberto Fernández Retamar , desde Paris, em 29 de outubro de 1967, por ocasião da morte de Che Guevara: “Não sei escrever quando alguma coisa me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto para produzir o que se espera dele, o que pedem ou mesmo o que ele mesmo se pede desesperadamente. A verdade é que a escritura, hoje e perante isso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissímulo quase, a substituição do insubstituível. O Che morreu e, a mim, não sobra mais que o silêncio, até quem sabe quando.
Che:
Eu tive um irmão./Não nos vimos nunca/ Mas não importava./Eu tive um irmão/ que andava pelas montanhas/enquanto eu dormia./Amei-o à minha maneira,/tomei da sua voz/livre como a água,/caminhei muitas vezes/pela sua sombra./Não nos vimos nunca/mas não importava,/ meu irmão acordado/enquanto eu dormia,/ meu irmão me mostrando/ atrás da noite/sua estrela eleita.”
Lélia Almeida.
Foi proposto o desafio: falar de Julio Cortázar. Falar mais especificamente sobre os 20 anos da morte de Cortázar, o cronópio maior, o ícone indiscutível da literatura argentina, amado, idolatrado e popularíssimo junto às figuras de Borges, Maradona ou Evita. Mas, como falar de Cortázar, de seu universo complexo e abrangente? Como fazer uma síntese do autor dos duplos, dos espelhos e dos labirintos? Eis-me aqui, portanto, frente a esse desafio, o de falar desse clássico da literatura contemporânea, estudado pela crítica literária, pela psicanálise, pela filosofia, e de quem dou breves notícias no intuito de realizar uma homenagem saudosa e justa.
O ano de 2004, ano dos 20 anos da morte de Cortázar, ocorrida em 12 de fevereiro de 1984, tem sido e será ainda sublinhado em muitos países como o Ano Internacional de Cortázar. Estão sendo realizadas, em âmbito internacional, palestras, colóquios, simpósios, exposições itinerantes, reedições de sua obra, publicação de esparsos e dispersos, numa tentativa mais do que justificada de manter a chama acesa, de mantê-lo vivo e inesquecível entre nós.
Exímio contista e romancista, misturou o lúdico com o revolucionário e nos brindou com uma obra singular, objeto de paixão e fanatismo por leitores do mundo inteiro. Sendo impossível sintetizar a complexidade de seu trabalho e estilo em poucas linhas, escolho, então, os caminhos traçados muitas vezes pelo próprio autor para se apresentar. E que o situaram na literatura latino-americana como representante inequívoco do que se convencionou chamar de o boom da Literatura Latino-Americana, nas décadas de 60 e 70 do século passado. Os temas do fantástico e do comprometimento político foram marcas certas da literatura desse período, e situaram a realidade cultural do nosso continente no primeiro mundo, apresentando-a como inovadora e sem precedentes.
Gabriel García Márquez ao tentar refletir sobre o chamado fantástico na literatura latino-americana, em seu discurso em Estocolmo, La Soledad de América Latina, em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, disse que a literatura produzida no continente tinha características próprias porque a realidade histórica desses países beirava o absurdo, a fantasia, o imponderável. Chamou de realidade descomunal uma realidade em que se produziam patriarcas que se perpetuavam perversamente no poder, regimes totalitários que mandavam prender, exilar e desaparecer multidões de pessoas, que corresponderiam a populações inteiras dos pequenos países europeus.
Uma realidade em que eram possíveis guerras e revoluções que não acabavam nunca, e que provocam verdadeiros saqueios que resultavam no desamparo e abandono do povo latino-americano. Tudo isso numa paisagem devastada por toda sorte de vendavais, terremotos e outros caprichos da natureza. Márquez sugeriu aos intelectuais europeus que não olhassem para a literatura latino-americana somente como produto exótico dos países dos trópicos, mas também com detalhe e atenção para esses países e sua história, uma história trágica e absurda, como é a dos povos colonizados.
Cortázar, concordando com García Márquez e outros autores do boom, foi autor de textos como Carta a Roberto Fernández Retamar (sobre a situação do intelectual latino-americano), de 1967, O Intelectual e a Política na América Hispânica, América Latina: Exílio e Literatura, Realidade e Literatura na América Latina e Novo Elogio da Loucura, sobre as loucas mães da Praça de Maio, que revelaram seu pensamento sobre a situação dos países latino-americanos nos difíceis anos 60 e 70.
Ainda que acusado por muitos, sobre seu inicial exílio voluntário em Paris, longe do front e das difíceis realidades em que vivia o continente, Cortázar afirmou, por meio desses textos, seu engajamento como intelectual e como militante pelos direitos humanos em tribunas internacionais. Para ele, “se alguma vez se pôde ser um grande escritor sem se sentir partícipe do destino histórico imediato do homem, nesse momento não se pode escrever sem essa participação, que é responsabilidade e obrigação, e somente as obras que reflitam, mesmo que sejam de pura imaginação, mesmo que inventem a infinita gama lúdica da qual o poeta e o romancista é capaz, mesmo que jamais indiquem diretamente essa participação, somente elas conterão, de alguma indizível maneira, o tremor, a presença, a atmosfera que as torna reconhecíveis e entranháveis, que desperta no leitor um sentimento de contato e proximidade”.
É legítimo afirmar que, sem os acontecimentos históricos como os da Revolução Cubana, da Revolução Sandinista ou a de San Salvador, os rumos da literatura latino-americana, produzida então, talvez tivessem sido outros. A Revolução Cubana, praticamente contemporânea do boom, e as figuras de Fidel e do Che representaram uma verdadeira quimera para muitos dos escritores que, como García Márquez ou o próprio Cortázar, envolveram-se pessoalmente com esses eventos históricos e seus protagonistas.
A reflexão sobre as questões políticas, que criaram uma literatura de testemunho em todos os nossos países, deu-se, concomitantemente, à produção de uma literatura chamada de Realismo Mágico, Literatura Fantástica ou, ainda, de Real Maravilhoso.
Os textos em que Cortázar tentou sintetizar suas percepções sobre esse tipo de literatura ao qual ele se filiou, foram El Sentimiento de lo Fantástico (conferência apresentada na U.C.A.B) e, principalmente, um texto que, apesar do título – O Estado Atual da Narrativa na América Hispânica –, foi seu ensaio mais completo e erudito sobre o maravilhoso e o fantástico. Considerou o fantástico como uma temática e um procedimento recorrentes em autores da zona cultural do Rio da Prata num período que vai de 1920 aos dias atuais. E que se daria por um mecanismo do acaso, o mesmo acaso que, por exemplo, juntou, concentrou, na época da Renascença italiana ou em outros períodos da história, uma explosão criativa com características próprias.
o sentimento do fantástico seria, para Cortázar, um estranhamento originado das coisas banais da vida e do cotidiano. Longe de se tratar de situações fantasmagóricas e sobrenaturais, de lobisomens ou vampiros, o fantástico seria um estranhamento capaz de romper com o binarismo do racional e irracional, e que se instalaria como uma zona intermediária, uma ponte entre vários caminhos. Seria um espaço intersticial, de uma terceira fronteira, de um terceiro olho.
Para Cortázar, o caminho do fantástico poderia nos ensinar que, a partir da nossa percepção diferenciada desse outro, poderíamos ampliar nossos hábitos mentais de percepção da realidade. Lúdico e revolucionário, amado por muitos e criticado por alguns sobre suas posições políticas, defensor do polêmico boom como um momento de expansão para a literatura latino-americana, ao contrário de outros que o viam como um momento de mera especulação editorial, o grande cronópio amou a música e o cinema a quem dedicou ensaios e produções também singulares.
Sobre sua morte sempre falou-se sem muita precisão. Falou-se que ele teria morrido vítima de leucemia ou vítima de um câncer raro. Mas em biografia recente publicada em Barcelona, a autora uruguaia residente há muitos anos na capital catalã, Cristina Peri-Rossi, amiga próxima e musa de Cortázar, especula a possibilidade de o autor ter sucumbido a complicações provocadas pela Aids. No seu livro sobre Cortázar, que faz parte da coleção Vidas Literárias, da Editora Omega, a autora refere-se ao escândalo sobre a falta de controle dos bancos de sangue da França no início dos anos 90, e propõe que esse problema era ainda anterior ao momento em que as denúncias vieram a público. Cortázar teria feito uma transfusão de sangue em 1981, e todos os sintomas de que padecia no fim de sua vida coincidiam com os da Aids, doença ainda desconhecida e de difícil diagnóstico no início dos anos oitenta.
Poema escrito por Cortázar ao cubano Roberto Fernández Retamar , desde Paris, em 29 de outubro de 1967, por ocasião da morte de Che Guevara: “Não sei escrever quando alguma coisa me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto para produzir o que se espera dele, o que pedem ou mesmo o que ele mesmo se pede desesperadamente. A verdade é que a escritura, hoje e perante isso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissímulo quase, a substituição do insubstituível. O Che morreu e, a mim, não sobra mais que o silêncio, até quem sabe quando.
Che:
Eu tive um irmão./Não nos vimos nunca/ Mas não importava./Eu tive um irmão/ que andava pelas montanhas/enquanto eu dormia./Amei-o à minha maneira,/tomei da sua voz/livre como a água,/caminhei muitas vezes/pela sua sombra./Não nos vimos nunca/mas não importava,/ meu irmão acordado/enquanto eu dormia,/ meu irmão me mostrando/ atrás da noite/sua estrela eleita.”
terça-feira, 28 de outubro de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Que me dizem os teus olhos de água?
Que tenho talvez sede, uma sede final.
Que me diz a tua boca bela?
Que a minha felicidade está toda aí.
Que me diz a tua fronte de estrela?
A lâmpada arde dentro de casa.
E os teus belos braços em corbelha?
Que me terás tranqüilo e silencioso.
Noël Vesper(Nouvè Vesper)
-in: Antologia da Poesia Provençal Moderna, Selecção de Louis Bayle e Manuel de Seabra; Tradução Directa do Provençal de Manuel de Seabra; Editorial Futura, 1972-
Que tenho talvez sede, uma sede final.
Que me diz a tua boca bela?
Que a minha felicidade está toda aí.
Que me diz a tua fronte de estrela?
A lâmpada arde dentro de casa.
E os teus belos braços em corbelha?
Que me terás tranqüilo e silencioso.
Noël Vesper(Nouvè Vesper)
-in: Antologia da Poesia Provençal Moderna, Selecção de Louis Bayle e Manuel de Seabra; Tradução Directa do Provençal de Manuel de Seabra; Editorial Futura, 1972-
Meu marido labuta no campo,
eu não paro na lida da casa.
Um casal tem sempre que fazer,
e que ser unido no trabalho.
O casal camponês tem de zelar pelo amor.
O casal da cidade zela pela sua roupa.
Pode trocar-se um fato velho por um novo.
Não se troca o amor de uma vida inteira.
Eu cozo o arroz e preparo o chá.
Tu mondas, semeias, cavas e ceifas.
Quando como um ovo, deixo-te a gema.
Juntos envelheceremos.
Canção Popular chinesa (Século XVIII)
in Claude Roy, A China num Espelho
Tradução de António Ramos Rosa
eu não paro na lida da casa.
Um casal tem sempre que fazer,
e que ser unido no trabalho.
O casal camponês tem de zelar pelo amor.
O casal da cidade zela pela sua roupa.
Pode trocar-se um fato velho por um novo.
Não se troca o amor de uma vida inteira.
Eu cozo o arroz e preparo o chá.
Tu mondas, semeias, cavas e ceifas.
Quando como um ovo, deixo-te a gema.
Juntos envelheceremos.
Canção Popular chinesa (Século XVIII)
in Claude Roy, A China num Espelho
Tradução de António Ramos Rosa
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Os amantes que vinham do Sul:
Lélia Almeida.
Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma menina louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.
Brasília, 18 de junho de 2008.
Lélia Almeida.
Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma menina louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.
Brasília, 18 de junho de 2008.
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