sábado, 23 de outubro de 2010




Medo dos cães, meu Pai:

Lélia Almeida.

Hoje eu sei que o medo é frio. Como que metálico. Como devem ser os trilhos por onde deslizava o trem que levava as mulheres da família para fazer o procedimento do outro lado da linha divisória, na fronteira. O procedimento sempre se faz longe de casa, que é pra não se deixar pistas. É assim desde que o mundo é mundo. E não vai mudar. Voltaram sempre quebradas, todas elas, o corpo dobrado no movimento desencontrado da cólica de um caracol vazio, as almas secas. É assim que todas sentem, hoje sei, embora não se fale muito no assunto. É frio, eu dizia, o medo. É gelado. Como os trilhos que são como os objetos cortantes usados no procedimento.
Quando acordei vi um crucifixo na parede branca e cheguei a pensar que estava no céu. Uma freira se aproximou, me alcançou um absorvente, disse que eu podia ir e que a receita estava dentro da minha mochila. Desejou-me boa sorte. O ferro da cama antiga e os objetos cortantes, os trilhos, o medo é frio e metálico.
Minha amiga me esperava dentro do carro. Abriu a porta com cuidado e me ajudou a sentar e a colocar o cinto. Quando a casa ficou para trás eu disse que assim que eu tivesse o dinheiro... Ela respondeu que eu não me preocupasse, a gente sempre faz isso por alguém, essa é a paga, é assim que a gente paga, ela explicou. Chá de macela, o comprimido, cama e um frio que não passa. Sonhei nesse mesmo dia que você era uma menina, desde então quando penso em você, penso numa menina, por causa do sonho, deve ser. Minha mãe e minha avó não tiveram a mesma sorte na viagem de volta do procedimento. Sacolejaram no trem, mortas de dor e tiveram que dar a janta para as crianças e para os maridos e continuar a fazer a vida andar. Uma vida tão cheia que elas mal lembram, agora, e que talvez seja por isso que elas fiquem sem saber o que me contar sobre aquele dia. E sobre todos os outros que se repetiram ao longo de uma vida, quando elas tomavam o trem sem saber se voltavam ou não para preparar o jantar. Era assim naquele tempo, elas me dizem. E o tom da voz da minha mãe fica mais baixo, e o da minha avó, mais metálico.
Ao contrário do que aconteceu com elas, depois do procedimento fui de carro pela mesma estrada para a casa onde vivem agora o meu Pai e os cães de guarda. Fui para lá para descansar. Há mato sobre os trilhos e a máquina está enferrujada perto da estação. Diga que é cólica menstrual, essa é sempre uma boa explicação. E assim você vai pra cama sem muita conversa, ela me orientou, a minha amiga. O tempo passa e o procedimento é sempre o mesmo. Desde as agulhas de tricô e crochê atravessadas, chás, raspagens mal feitas, óbitos.
É frio o medo. E ácido. Não reconheço o cheiro do meu corpo. Suo e tremo de frio. Meu Pai toma o mate na frente da lareira enquanto uma voz grave, de homem, despeja monótona o noticiário na Rádio Belgrano de Buenos Aires. Meu pai dormita ao pé do fogo. Abro a porta e saio na noite gelada enrolada na ruana grossa. O céu imenso, o campo que parece um mar, a figueira. Sento perto do balanço quebrado e choro baixinho. Os cães começam a latir. Cuscos de merda, meu Pai sempre diz, um dia ainda matam um vivente e me encrencam. Estão furiosos. Começo a suar frio sob o peso da ruana e sinto o líquido quente escorrendo entre as minhas pernas, lembro que pensei, a bolsa estourou, pensei que você ia nascer, um delírio como uma estrela cadente jogada naquela imensidão, o campo. Você que não existia mais. O sangue que escorria era você não sendo. Comecei a chorar então e o que saía de mim era como um miado e isso deixou os cães mais loucos ainda. Foi então que ouvi a voz do meu Pai, onde você está, minha filha? Ele perguntou, entre brabo e assustado. Eu disse, tenho medo dos cães, tenho medo de morrer. Ele disse, vamos pra casa, e fique quieta que então eles vão sossegar também. Mal podia andar. E a dor que parecia um trem veloz sobre mim. Mas a voz do meu Pai me assegurava que se eu ficasse quieta tudo ia ficar bem, que os cães iam se acalmar.
Quando lembro daquela volta pra casa, ao lado dele, tenho uma sensação estranha, minha filha. Se é que posso lhe chamar assim. A de que um silêncio tomou conta da minha vida, como quando a gente abaixa o som da TV num filme de terror ou de suspense, pra não sentir medo. E de que tudo ficou bem então. Os latidos dos cães foram diminuindo dentro de mim e a minha vida foi se enchendo de silêncio. E de tudo o que o silêncio pode guardar, culpa, vergonha, medo, essas coisas de mulher. E de uma saudade que nem eu entendo. Uma vida sem os seus barulhos, minha filha.
Uma vez que outra sonho com os trilhos e com os objetos do procedimento que ora brilham ora não, como relâmpagos, no escuro. E aí lembro que um dia você esteve aqui. E para que tudo fique em paz outra vez, volto a dormir e esqueço. Meu Pai tinha razão, posso lhe dizer isso agora, o silêncio é um santo remédio. Um remédio que faz a gente se acalmar e ter a certeza de que a gente não vale nada.

sábado, 9 de outubro de 2010

Expedição:

Lélia Almeida.

Ontem no final do expediente minha secretária que é uma moça maranhense adorável, no vigor dos seus 27 anos, estava passando um batom vermelho e perfume antes de encerrarmos a semana. Perguntei a ela se estava pronta para o crime? Ela disse, - ai Dona Lélia, o mar não tá pra peixe viu! Aqui em Brasília só tem homem casado ou gay! E arrematou, - olha a coisa tá tão complicada que eu e as minhas amigas estamos pensando numa expedição aos mineiros chilenos, aqueles que estão enclausurados lá embaixo da terra, sabe! Desci o elevador às gargalhadas lembrando os tempos das urgências hormonais e que as grandes necessidades sempre clamam por soluções criativas!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ele me quis!

Lélia Almeida.

Sofia, a minha sobrinha de quatro anos é apaixonada por um colega de aula chamado João Pedro. Ontem ele a convidou para brincar. Ela me contou depois, com a voz que mal saía e com os olhos que pareciam duas jabuticabas nadando na calda do enamoramento: - Tia Lélia, ele me quis. Ele me quis brincar comigo. Pensei com meus botões: - Putz, começou o sofrimento!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sou só descontentamento e desassossego,
com esta baleia franca agonizante e entalada dentro de mim:


Lélia Almeida.


Si miramos la realidad, las mujeres son más sólidas, más objetivas, más sensatas. Para nosotros, son opacas: las miramos, pero no logramos ir adentro. Estamos tan empapados de una visión masculina que no entendemos. En contrapartida, para las mujeres, nosotros somos transparentes. Lo que me preocupa es que cuando la mujer llega al poder pierde todo aquello. Hay tres sexos: femenino, masculino y el poder. El poder cambia a las personas.(José Saramago)


Ai! Esta baleia franca agonizando na praia de Itaperubá, em Laguna (SC), agonizando frente à nossa impotência, resistindo e sobrevivendo a um coquetel de medicamentos para a eutanásia. Ai! Esta baleia franca entalada dentro de mim, virada numa metáfora de coisas grandes e sagradas, maravilhosas e que parecem que não tem mais lugar e nem cabida neste mundo. Resta-nos observá-la, mirar-nos, bravamente, na sua capacidade de resistência mesmo sabendo que estamos assistindo a sua morte. Passo horas pensando na baleia, tentando adivinhar-lhe as dores, os movimentos impossíveis, a respiração difícil. A baleia levo-a entalada por aonde vou, nestes dias, presa dentro de mim, e um sentimento aterrador se instala sem remédio.
Sinto-me como o protagonista do filme do Bela Tarr, As Harmonias de Werckmeiser, quando a vida de uma pequena cidade do interior da Hungria é transformada com a chegada de uma baleia gigante empalhada. E da sua incompreensão, ao ver a baleia, quando se pergunta sobre como Deus pôde conceber uma criatura daquelas e ainda por cima fazê-la viver no mar!
A baleia é mítica, é sagrada, é um símbolo também, e na sua grandeza é a metáfora que escolho para expressar, neste momento, o meu desassossego e o meu profundo descontentamento. Lembro das muitas vezes ao longo da minha vida que tive de mergulhar muda e só no descontentamento, na paralisia da baleia encalhada, como uma criança que ouve da mãe, engole e choro e não reclama, para aquelas situações quando as nossas sábias e pragmáticas mães sabem como ninguém que não nos resta mais nada além de obedecer e aceitar. E calar. E sempre que não pude expressar o meu descontentamento, a minha discordância, o desassossego comprometeu os meus movimentos mais espontâneos e a minha fala mais verdadeira e por isso a minha alma adoeceu. A minha alma que era um mar, um mar que já não podia conter uma baleia. A baleia que mal respira e que não desiste sob os nossos olhos atônitos.
Tenho convivido com um profundo sentimento de frustração e de estar vivendo uma oportunidade única que está sendo desperdiçada. A minha geração de mulheres sonhou e lutou por muitas coisas lá na origem dos movimentos de mulheres deste país. Digo nas origens porque me filio a uma linhagem de outras mulheres, anteriores, que pensaram e me ensinaram tudo o que me faz, ainda hoje, me perceber como cidadã, mãe, profissional e mulher no mundo. Ensinaram-me, antes de tudo, que o movimento de mulheres sempre reivindicou a autonomia das mulheres, de forma mais importante ainda do que a igualdade com os homens. Permanece soberana, em algumas de nós, a raiz de toda esta luta que tem sido, historicamente, uma luta por autonomia. E eis que temos, neste momento, a possibilidade de duas candidatas mulheres à Presidência da República. E nunca o debate foi tão vazio, de tão baixo nível e as mulheres nunca ficaram tão caladas. A baleia agoniza, mas resiste, sinto sua respiração, sua alma que não se entrega. Ai baleia calada!
Quando a então Ministra Dilma Roussef anunciou publicamente que tinha câncer fiquei estarrecida da maneira como os seus colegas de Esplanada e de partido expressaram publicamente o tanto que este fato podia ajudá-la a crescer nas pesquisas como candidata à Presidência da República. Os comentários foram absurdos e não ouvi nenhuma grita de indignação sobre este tratamento dispensado à Ministra, já naquele momento precisávamos ser pragmáticos, outra vez pragmáticos e batendo o martelo, ali já começava a se gestar o que temos como a estratégia urgente de todos estes meses, a pressa desenfreada, o vale tudo porque ela tem de vencer, doa a quem doa, danem-se as baleias, dane-se o meu desassossego. Falava-se da maneira como a doença podia render-lhe uma imagem de lutadora, de sobrevivente e a então Ministra tinha deixado de ser uma mulher e tinha se transformado numa candidata, ia capitalizar com a doença e com outros episódios também. Não vi ninguém questionar estas declarações desastrosas, perversas, mas parece que nada disso é importante e que minhas considerações sabem a um sentimentalismo inoportuno e incorrigível, devo dizer, a esta altura do campeonato.
Lembro de um livro clássico que muitas mulheres da minha geração leram com atenção, Os seis meses em que fui homem, um texto canônico da Rose Marie Muraro onde ela conta do estresse absoluto vivido quando teve de exercer um cargo de alta responsabilidade, e repetir assim os gestos irrefletidos, como chamo os gestos das mulheres que assumem o poder, porque só conhecemos este jeito de exercer o poder, o jeito masculino de fazê-lo, e ai de nós se não for assim, já que é este jeito que nos mantém ou destitui da coisa toda. A coreografia dos gestos irrefletidos, frutos da consciência embargada, valeu-lhe um câncer de útero. Foi uma das poucas narrativas sinceras que vi sobre o assunto.
Outro clássico que vale a pena lembrar é O cálice e a espada da americana Riane Eisler , onde ela estuda, ao longo da história do mundo, as relações entre os homens e as mulheres. Atenta para o fato de que não haveria nenhuma evidência consistente, depois de tantas tentativas de prová-la, da existência de um matriarcado na história do mundo. Um matriarcado, que em exata oposição ao patriarcado seria uma sociedade onde as mulheres dominariam os homens. Para a autora isso não aconteceu e esclarece que sim, o que criou uma cultura da deusa ao longo da história do mundo e que é a que sobrevive na nossa memória, seriam momentos em que as mulheres, em comunidades matricêntricas, tinham um lugar de destaque e eram valorizadas num patamar de igualdade aos homens que simplesmente exerciam funções diferentes das delas. Aponta Creta como um momento de excelência desta evidência e propõe que estes momentos da história do mundo se constituíram em momentos de grande florescimento cultural, espiritual e de pacificação.
A teoria de Eisler, que é muito mais inteligente e abrangente do que eu possa contar numa crônica, propõe que para que entendamos as complexas relações de dominação entre os homens e as mulheres, é necessário um olhar diferenciado sobre estas relações através do que ela chama de uma teoria da transformação cultural, a partir de uma perspectiva holística e que reflete sobre os dois modelos básicos de sociedade que subjaz à grande diversidade superficial da cultura humana. Um seria o modelo dominador, popularmente chamado de matriarcado ou patriarcado, onde uma metade da humanidade exerce a supremacia sobre a outra, e o outro modelo chamado de parceria, baseado num princípio de união e onde a diversidade não é equiparada à inferioridade ou à superioridade.
O trabalho de Eisler que começa com estas considerações, no início dos anos 80, teve desdobramentos importantes e o livro que trata sobre o Poder da parceria fez da autora uma importante ativista pela paz. Ela, recentemente, em entrevista ao GNT, disse que o Brasil, através do Bolsa Família, se constitui num exemplo a ser seguido pelo mundo, como uma prática de economia solidária e de pareceria. Ela, portanto, propõem sim, uma alternativa ao que temos no poder, um poder de parceria, onde o lugar das mulheres seja outro, diferenciado, e que sua maneira de estar no poder seja inovadora, negando, entre outras coisas, uma cultura da hierarquia burra, do mundo da guerra e da violência desmedida.
A baleia mal respira dentro de mim, sinto-lhe as ganas de mover-se com força e agilidade, dar uma rabanada com a cauda, mover-se, mas suas forças se esvaem. As minhas mais sinceras esperanças vão-se junto com elas.
A sensação é a de estar vivendo uma oportunidade única e, ao mesmo tempo, a de estar presenciando um irreparável desperdício histórico. O que para mim, na metade da jornada da vida, me abate sobremaneira, sabedora de que não temos muito mais tempo assim para erros incorrigíveis. A oportunidade única deve-se ao fato de que temos, neste momento, duas mulheres candidatas à Presidência da República do País. O desperdício histórico é porque a sociedade brasileira decidiu não pensar sobre este assunto, fazer de conta de que isto não está acontecendo e de onde podemos concluir que se as respostas têm sido imbecis, infantis, senso-comunsíssimas, é porque há uma ausência absoluta das perguntas importantes. E, portanto, a impossibilidade de um debate que não pode ser feito às pressas e nem sob censura.
Fala-se do figurino e do penteado das candidatas, fala-se de sua orientação sexual, falam-se banalidades e superficialidades. A candidata Dilma foi elevada a uma condição de Magna Mater, ao lado do Presidente Lula, que por sua vez, foi elevado a um patamar de líder intergaláctico ou a uma espécie de vice-Deus, coroados agora pelo nascimento de um menino chamado Gabriel, que nasceu abençoado como um anjo, o que nos faz lembrar, uma fábula outra, muito antiga, tão antiga como a existência das baleias, este bicho tão inconveniente a me triturar as vísceras de angústia e agonia.
A propaganda eleitoral do Partido dos Trabalhadores, ao criar esta tríade de presépio, repetida à farta nos comícios, nos discursos e nos palanques, de diferentes maneiras, nega, na prática, o próprio trabalho da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do governo Lula, que coloca as mulheres brasileiras, em seus projetos e programas, como protagonistas autônomas e empoderadas sem fazer este uso reacionário e ideológico da figura da mamãezinha terna, coadjuvante, subserviente e subalterna que tem de cuidar do mundo. E trata, assim, o povo brasileiro como um bando de debilóides. Cala a boca baleia, morre baleia!
Continuo sem respostas para as minhas perguntas. As mulheres querem o poder? E chegando lá como querem exercê-lo? Da mesma maneira que os homens? Há outro jeito das mulheres estarem no poder? Como é esse jeito? E os homens, como vão lidar com as questões propostas pelas mulheres? E se elas não concordarem? E se elas se rebelarem? E se elas não obedecerem? Qual o significado do desinteresse de um grande número de mulheres para que se lancem como candidatas? E qual o significado do voto feminino para tal ou qual candidato? E da rejeição deste mesmo voto para tal ou qual candidato? Baleia preguiçosa, burra, esqueceu de pensar, vai pagar caro por isso, pela inconsciência, baleia burra, morre baleia burra!
A poucas semanas da eleição sinto uma imensa frustração, já entrei na pressa da coisa toda, tomara que termine logo, tomara que termine de uma vez. Morre baleia, morre. Vai morrer na praia, seu bicho burro!
Mais uma vez o debate foi negligenciado. Mais uma vez o debate que envolve os desejos, os direitos e as reivindicações específicas das mulheres foi negligenciado, o mundo avança e a história das mulheres encalha como a baleia franca. Muito provavelmente a candidata Dilma será a próxima presidente do país. Pagaremos um preço alto pelas perguntas que deixamos de fazer, das vezes que deixamos de questionar com senso crítico e autonomia de pensamento, das vezes que deixamos de dizer não, de dizer que assim não nos serve, que não se pode tratar uma mulher de determinadas maneiras, como um ser sem vontade e de todas as vezes que compactuamos mudas com este tratamento e com a conivência e passividade de determinadas condutas, das vezes que nos omitimos, das vezes que calamos frente a impossibilidade de alguns tipos de alianças, das vezes que esquecemos que mais cedo ou mais tarde vamos ter de responder às nossas filhas, às nossas leitoras, às nossas alunas, pelas nossas próprias escolhas.
A baleia agoniza, mas não morre, a desgraçada!
Do outro lado do mundo, também numa praia, no final de junho, onze mulheres israelenses levaram mulheres palestinas para passear em Telavive e Jaffa, sem pedir autorização do governo do premiê Benjamin Netanyahu – em desafio à rigorosa lei de entrada em Israel, conforme nos conta Viviane Vaz em matéria publicada no Correio Braziliense. “Nós comemos num restaurante, tomamos banho de mar e nos divertimos na praia”. A jornalista Ilana Hammerman conta que os passeios entre palestinas e israelenses têm se repetido cada vez com um número maior de mulheres e se transformado num ato espontâneo de desobediência civil e pacífica já que elas não reconhecem a legitimidade da ocupação, dos muros e dos postos de controle instalados por Israel no território palestino da Cisjordânia.
A baleia sente um frêmito, um frêmito como um raio, como uma faísca, um esboço de resposta, quem sabe.
Enquanto as nossas reivindicações não forem claras, enquanto não modularmos o discurso de maneira inteligente e veemente, enquanto não dissermos a nós mesmas e ao mundo qual é a maneira que queremos exercer o poder e se de fato queremos fazê-lo, enquanto não articularmos a conduta, o gesto e a voz, só nos restará o expediente da desobediência, prática feminina tão antiga esta, que nos projeta para a margem do mundo, para fora da institucionalidade, transformadoras e revolucionárias algumas vezes, inoperantes e esquecidas, quase sempre. Que é como voltar sempre ao começo, ao começo do mundo, ao começo dos tempos. A baleia estertora dentro de mim, uma ânsia, sinto cólicas de angústia nestes últimos dias, o peso e a dor enorme de carregar esta baleia moribunda, as minhas esperanças maltratadas, e essa tristeza sem fim, uma oportunidade histórica desperdiçada, quanto retrocesso! Baleia burra. Vai morrer encalhada, vai morrer na praia, baleia burra!



http://www.escribirte.com.ar/destacados/5/saramago/noticias/864/saramago:-me-preocupa-la-mujer-en-el-poder.htm
MURARO, Rose Marie. Os seis meses em que fui homem. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993.
EISLER, Riane. O Cálice e a Espada: Nossa História Nosso Futuro. Imago: Rio de Janeiro, 1989.
EISLER, Riane. O Poder da parceria. São Paulo: Palas Athena, 2007.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/07/mundo,i=211808/GRUPO+DE+MULHERES+EM+ISRAEL+DESAFIA+TABUS+PARA+SE+APROXIMAR+DE+PALESTINAS.shtml

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Para que serve a psicanálise? Por Contardo Calligaris. Em 26 de Agosto de 2010.

A ASSOCIAÇÃO Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.
A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.
Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: "A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho".
No dia seguinte, Marina Silva comentou: "Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe". Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: "Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto".
Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.
O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.
Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?
Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança "maravilhosa" com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.
Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.
Roberto Succo (com "s"), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever "Roberto Zucco", peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.
Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: "matar" o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.
O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à "maioridade". Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.
Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.
Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.
Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem "friamente" governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.
É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010




Escombros:

Lélia Almeida.

Há um oco dentro de mim. Um vão. Um buraco. E agora estou, finalmente, dentro do buraco que me habita. Este oco é a minha mãe, a que não teve pai. O lugar é como um centro. Um núcleo de titânio, metálico, me ocorre. Minha mãe é um deserto. O buraco é seco. Não verte água e nenhum tipo de secreção. Nem sangue. Nem lágrimas. Lembra a secura de uma caverna escura onde o ar é escasso. Aí está guardada a minha tristeza sem fim. E a minha raiva também. Toco o meu corpo agora e o estrago parece ser de proporções irreversíveis. Toco este corpo que ela me ensinou a odiar e a deformar. E a tristeza é seca e gelada também e me assalta em momentos improváveis. Dói o coração, sinto as pernas cansadas, palpitações. Tenho medo de não agüentar agora que habito o buraco de mim onde esteve guardada, durante tanto tempo, a minha tristeza. Eu pedinte, eu quebrada, o sentimento tão familiar de desamparo. E ela soberana, exigente, implacável. Consegui roubar-lhe a menina que não deixei nascer, a minha primogênita e, tento, muitas vezes, em vão, proteger o meu filho da sua insatisfação sem fim. Minha mãe buraco. Minha mãe oco. Minha mãe cratera. Busco-a no meio da cidade devastada, nos escombros de um tempo que já passou. Não havia angústia no meu grito, no sonho que tive com ela, quando eu chamava por ela. É um amor obrigado, como o dos casamentos arranjados, teríamos inclusive sido amigas, quem sabe, se não fosse a obrigatoriedade deste (des) arranjo. Busco-a sem ânimo, cansada já, sem o peso da preocupação que encheu o meu coração de responsabilidades insuportáveis quando eu era uma menina e ela me contava sobre a morte da mãe, o abandono do pai, o hospital, a tristeza, a perda. Foi ali que comecei a cuidar dela, arrastando esta obrigação como um fardo, vida afora. E agora cansei. Como cansei do amor inútil de cuidar de quem não me ama. E dos desdobramentos patéticos deste amor inútil que reverberaram sobre os meus dias. Minha mãe oca. Onipresente e ausente. Vou embora agora. É impossível reencontrá-la nos escombros da cidade devastada. A cidade é ela, a cidade é o corpo dela. Estendido imenso sobre a minha vida, num espaço que quase me impede de respirar. Antes de partir vou juntar as pedras de alguns muros das casas que me foram caras, marcos de janelas, cacos de telhas, azulejos partidos. Alguns objetos sem significado. Vou guardá-los, como se guardam pequenos cadáveres secos de lagartixas prensados entre as páginas de livros grossos. Só para não esquecer de que um dia estive ali na cidade devastada que é o corpo da minha mãe e que tem uma cratera no lugar do coração, e que às vezes lembra uma boca escancarada, com dentes comprometidos, a me pedir voraz o que ela mesma nunca me pôde dar. Não posso mais ficar, mãe. Levo pedaços dos escombros para não esquecer desta arqueologia sinistra que me forjou, cimentada no desamparo. E na tua ausência que cobriu os meus dias de palavras, de palavras, de palavras. Vou partir agora, minha mãe, minha mãe cratera, e encher este buraco onde habito morta de frio com a minha tristeza, com outras coisas, com literatura, quem sabe, esta que terminou sendo a única ponte possível entre nós. E começar a aprender a sentir. Simplesmente sentir. E poder conhecer quem eu sou longe do teu desamor.

In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito, 2008).

domingo, 11 de julho de 2010

Receita:

Lélia Almeida.

No filme de Michael Mann, de 2009, Public Enemies, com Marion Cottillard no papel de Billie Frechette e Johnny Depp no do melancólico John Dillinger, ele arrebata a moça da sua vida comum de recepcionista e a convida para vir com ele. A moça assustada pergunta:
- But I don´t know anything about you.
- I was raised on a farm in Moooresville, Indiana. My mama ran out on us when I was three, my daddy beat the hell out of me cause he didn't know no better way to raise me. I like baseball, movies, good clothes, fast cars, whiskey, and you... what else you need to know?

Eu sei que você não se parece com o Johnny Depp e não importa, mas não se atreva a chegar perto de mim com uma carta de intenções que não esteja à altura deste diálogo, fazendo o favor!


In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito).

sábado, 10 de julho de 2010

Confissão:

Lélia Almeida.

Durante meses, através do Facebook, me assediou com insistência, um jovem escritor estrangeiro. Contava vantagens para me impressionar: que transitava entre nomes importantes, do tanto que viajava, do quanto era adulado, do tanto que era traduzido, vendido, publicado, do prestígio nas feiras de livros internacionais e eu pensava: é um chato. E fugia. Uma noite proferiu as tais palavras mágicas: não vá, preciso de você, preciso de colo, dê pra mim, me abrace forte, por favor. Eram 3hs da madrugada, eu via o filme sobre a vida da escritora Karen Blixen, aquele que conta a história da baronesa da Dinamarca na África. Estava bêbada de uma taça de vinho mendocino e chorando como uma bezerra desmamada, justo na parte em que o Robert Redford lava os cabelos da Meryl Streep, quando eles estão acampados num safári. Dei soberbamente para o rapaz, então, que insistiu ainda mais no assédio. Na vida, na literatura, no cinema, na rede,em se tratando de romance, é tudo igual: o que funciona é muita imaginação, uma taça de vinho, e umas poucas promessas mentirosas desenhadas agilmente no teclado.E sejam simples, rapazes, que as palavras mágicas ainda são as mais simples.

In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Homenagem à Pilar del Río:

Lélia Almeida.

Uma foto de Pilar del Río em algum dos sites da internet, na biblioteca da casa de Lanzarote, os cabelos embranquecidos, ela envolta em flagrante luto e tristeza, me impactou sobremaneira. No caso dela e de Saramago, dada a grande diferença de idade havida entre os dois, era provável que ele partisse primeiro.
Não pude deixar de pensar que a lida dos homens com o tempo é diferente da das mulheres. Os homens lutam contra o tempo, as mulheres, historicamente treinadas às rotinas do mundo doméstico, da maternidade, do espaço privado, vivem o tempo cumprindo inexoráveis rituais de espera e de paciência e aprendem, assim, a usufruir, para o bem e para o mal, de uma outra qualidade de tempo. A questão é que quase sempre os homens partem antes e isso, convenhamos, não é justo, companheiros! E tudo porque as mulheres cuidam mais de sua saúde, cuidam mais de si mesmas e dos outros e terminam por ser, mais resistentes às chuvas e intempéries da existência.
Convivo em diferentes lugares, com mulheres de diversas idades, de diferentes classes sociais e de interesses variados. Há de tudo um pouco: as que querem um homem pra chamar de “mor”, as vorazes predadoras sexuais que sequer percebem que há uma criatura para além do membro, as que já desistiram completamente dos homens, as que vivem bem sem eles, as que não vivem sem eles, as que procuram a alma gêmea. Há de tudo um pouco, sim, nestes tempos de desencontros avassaladores e toda sorte de mal-entendidos, que quase nos fazem esquecer o tanto que pode ser transformador em nossas vidas, um encontro amoroso.
Ainda sou do tipo que se derrete com os pequenos gestos que só os homens conseguem fazer na coreografia das trocas: o jeito como tomam das nossas mãos, tocam os nossos rostos, nos acolhem num abraço. E como sou uma romântica perdida, fiquei desolada ao ver a viuvez de Pilar del Río, gráfica, estampada naquela foto, pranteando em silêncio, a perda do seu companheiro, José Saramago.
A jornalista e tradutora Pilar del Río era uma mulher de 36 anos quando conheceu Saramago e ele era um homem de 63 anos. Ela apaixonou-se por ele através das palavras, apaixonou-se pelo seu pensamento, encantou-se primeiramente pela sua alma. E foi conhecê-lo e agradecer a interlocução – ele como escritor, ela como leitora – que a tinha transformado numa pessoa mais inteligente, mais sensível, mais humana. Souberam os dois, já neste primeiro contato, que havia mais do que uma simples admiração intelectual. E cinco meses depois se reencontraram para o que seria um definitivo encontro de amor que tinha começado através da comunhão das palavras, do amor à literatura, e de uma visão de mundo convergente no que se referia à política e à militância. Saramago em muitas ocasiões disse, publicamente, que a jovem espanhola Pilar del Río tinha-lhe salvado a vida, ou por outra, que tinha-lhe dado uma vida nova. Organizou sua existência, expandiu suas potencialidades, constituindo-se num daqueles modelos de relacionamento em que os dois, no encontro, fazem florescer o melhor de si.
E construíram uma existência plena em Lanzarote, cenário da história de uma convivência madura e serena, onde as conversas, discussões, viagens e traduções feitas a quatro mãos, continuou como tinha começado. Através de uma interlocução lúcida sobre o mundo e o tempo que lhes coube viver. E o ensinamento definitivo de que é preciso paciência e sabedoria para os encontros.
As atenções todas, nestes últimos dias, estão, justificadamente, voltadas ao falecimento de José Saramago, que teve uma vida longa y llena como una uva, como se diz em espanhol, e que nos deixa, através das suas histórias, sua militância, sua conduta e sua literatura, um legado inestimável.
A minha homenagem é para a espanhola Pilar del Río, que vai continuar, na casa cheia de livros de Lanzarote, a cuidar de Saramago, num silêncio repleto de palavras.
A minha homenagem é para ela.

sábado, 19 de junho de 2010

Pergunta feita para Anaïs Nin no livro Em busca de um homem sensível, de 1966:
P: Qual é, para você, a diferença entre avida afetiva do homem e da mulher?
R: Elas são convergentes. Entre os homens e as mulheres há semelhanças e não contrastes. Quando um homem passa a admitir sua sensibilidade ele se aproxima da mulher. Quando os homens "aceitam" esse lado sensível eles ganha mais vida. Foi na análise, sempre considerada como um terreno masculino, que eu tive condições de falar com os homens. Mas todas essas diferenças tendem a desaparecer. Masculino, feminino, são falsas etiquetas. Na verdade, trata-se muito mais de uma luta entre a poesia e a intelectualização.

In: NIN, Anaïs. Em busca de um homem sensível. São Paulo: Brasiliense, 1987.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Segundo o Kama Sutra, os 30 tipos de beijos são:

1. Beijo de lado
Quando as cabeças das duas pessoas se inclinam em direções opostas e o beijo é produzido nessa postura.
Essa é uma das formas mais comuns de se beijar e a preferida dos filmes. As cabeças inclinadas permitem um melhor contato dos lábios e uma penetração profunda da língua. É um modo excelente de começar um encontro amoroso apaixonado e também um modo de estimular a paixão entre o casal.

2. Beijo inclinado
Quando um dos dois coloca a cabeça para trás e a outra pessoa, que a segura pelo queixo, a beija. A doçura e o afeto são as emoções principais que são transmitidas com esse beijo. Um beijo desse tipo é apropriado para as preliminares, quando se prefere fazer sexo com lentidão e de frente.

3. Beijo direto
Quando os lábios dos dois se unem diretamente e se chupam como se fossem uma fruta madura. É um tipo de beijo em que o importante é que além de serem chupados, os lábios sejam mordiscados e levemente acariciados com a língua. É um beijo tranqüilo e demorado, que pode expressar uma forte paixão e que excita muitas pessoas mais do que o beijo de língua.

4. Beijo pressão
Os lábios se pressionam fortemente com a boca fechada. É um beijo para iniciar a relação ou para terminá-la, não convém mantê-lo por muito tempo. Os dentes se cravam na parte interior dos lábios e pode sair sangue.

5. Beijo superior
Quando um dos dois pega o lábio superior com seus dentes e o outro devolve o "carinho" beijando-lhe o lábio inferior. Na descrição deste beijo fala-se que uma pessoa do casal deve tomar a iniciativa e o outro se limita a correspondê-la. Uma possível razão para isso é que o Kama Sutra foi escrito para homens ativos e mulheres passivas. Mas, nos casais atuais, cada um deve ser o mais criativo possível e deixar que a imaginação se expresse como ela é, e não se limite a responder a iniciativa do outro.

6. Beijo broche
Quando um dos dois se prende aos lábios de seu amante, isso é chamado de beijo broche. E se o que realiza o beijo toca seus dentes, a gengiva ou o céu da boca com a língua, esse beijo chama-se "luta de língua".

7. Beijo palpitante
Quando um dos dois deposita sobre os lábios milhares de beijos bem pequenos percorrendo toda a boca e as comissuras (junção dos lábios).

8. Beijo contato
Quando se toca ligeiramente com a língua a boca do outro e faz apenas contato com os lábios.

9. Beijo para acender a chama
É o beijo na comissura (junção) dos lábios que costuma ser dado no meio da noite para incendiar a paixão.

10. Beijo para distrair
O beijo ideal para quando vocês estiverem assistindo a algo na televisão e a pessoa quer chamar a atenção do parceiro com seus beijos. Para começar, lembre-se de que nem todos os beijos precisam ser na boca. Segundo o Kama Sutra, outros lugares recomendados para iniciar a "batalha" são: a testa, os olhos, as bochechas, o peito, os seios, a zona abaixo da boca, a cabeça, a nuca e o pescoço junto com a clavícula.

11. Beijo nominal
Quando um dos dois se limita a tocar a boca do outro, depois de beijá-la, com os dedos.

12. Beijo com os cílios
Quando se percorre os lábios ou o rosto do outro e se acariciam os cílios com beijos.

13. Beijo com um dedo
Quando o amante percorre a boca da amada por dentro e por fora com um dedo.

14. Beijo com dois dedos
Quando o amante fecha dois dedos, molha-os ligeiramente nos lábios da amada e faz uma pressão sobre sua boca.

15. Beijo que desperta
O beijo que se dá nas têmporas, próximo da raiz do cabelo, quando o outro está dormindo, para despertá-lo com suavidade.

16. Beijo que demonstra
Costumam ser dados à noite e em lugares públicos. Um dos dois se aproxima do outro e o beija suavemente na mão ou no pescoço.

17. Beijo da lembrança
É dado quando os amantes estão descansando após a satisfação sexual e um dos dois coloca a cabeça sobre a coxa do outro e deixa-a cair, como se estivesse com sono, beijando-lhe na coxa ou nos dedos do pé.

18. Beijo transferido
Esse beijo ocorre quando o amante, na presença da amada, beija alguém que esteja próximo dele no rosto, ou mesmo alguma foto ou qualquer outra coisa, olhando para ela como se o beijo fosse para a parceira.

19. Beijo choroso
É produzido quando um dos dois sente tanta falta do outro, que na ausência do outro beija seu retrato.

20. Beijo viajante
Ainda que pareça que os beijos sempre costumam se centralizar na boca, colocar os lábios em outras partes do corpo é uma forma de excitação garantida.

21. Beijo no peito
Os beijos mais efetivos nos seios são os que se aplicam primeiro com os lábios, suavemente e com um pouco de saliva. Depois, intensifica-se a pressão e, se a parceira o deseja e gosta desse tipo de beijo, pode-se pegar os seios com os dentes e pressionar ligeiramente. Algumas pessoas preferem sentir um pouco de dor nos seios quando estão prestes a ter um orgasmo.

22. Beijo sem pressa
A chave é prestar total atenção no corpo do outro. Quanto mais controle você tiver e mais se concentrar em acariciar e beijar cada canto do corpo, mais intensa será a sensação de prazer para ambos.

Onde há amor, há dor
Segundo a tradição erótica da Índia, a mordida é um elemento muito importante e o Kama Sutra dá uma boa lista de mordidas com toda riqueza de detalhes.

As mordidas costumam ser dadas em quase todas as partes do corpo e vão desde a mordida brincalhona, mais provocadora que erótica, até o forte apertão com os dentes que costuma ser dado no calor da paixão e faz com que os orgasmos sejam mais duradouros. No entanto, muitos costumam evitar este último tipo de mordida, porque é difícil de controlar e costuma deixar marcas muito evidentes. Também porque durante o orgasmo as mandíbulas podem sofrer um espasmo e fechar com força, o que pode ocasionar feridas.

As mordidas recomendadas pelo Kama Sutra são:

23. Mordida de Javali
O rastro que deixa na pele são como filas indianas, muito próximas umas das outras e com intervalos vermelhos como as pegadas que costumam ser deixadas pelos javalis no barro. É uma mordida que costuma ser feita no ombro.

24. A nuvem quebrada
Consiste em levantamentos desiguais da pele em círculo, produzidos pelos espaços que há entre os dentes. O Kama Sutra especifica que este tipo de mordida deve ser feita no peito.

25. Mordida escondida
É a mordida que só deixa uma intensa marca vermelha e que deve ser dada no lábio inferior.

26. Mordida clássica
Quando se pega com os dentes uma grande quantidade de pele.

27. O ponto
Quando se pega com os dentes uma pequena quantidade de pele de tal maneira que só fique uma marca como um ponto vermelho.

28. A linha dos pontos
Quando essa pequena porção de pele é mordida com todos os dentes e todos eles deixam sua marca. Deve ser dada na testa ou na coxa.

29. O coral e a jóia
É a mordida que resulta da junção dos dentes e dos lábios. Os lábios são o coral e os dentes são a jóia.

30. A linha de jóias
Quando se dá uma mordida com todos os dentes.

http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1883778-EI4788,00.html

quinta-feira, 10 de junho de 2010

"O nosso ouro não é o ouro comum" (Máxima alquímica medieval).

terça-feira, 8 de junho de 2010

Oración para antes de partir:

Que nos amarre siempre
La intuición para reírnos en el próximo encuentro
Y las ganas de inventar la vida
Porque no nos la entregaron hecha
Que no nos fatiguemos nunca
De establecer la diferencia
Entre partir y abandonar;
Partir es un abrazo a la vida,
Abandonar es un abrazo a la muerte.
Que no olvidemos bajo ninguna circunstancia
Que el mandamiento pide amar al prójimo como a
Sí mismo, pero no más que a sí mismo.
Amén.

De Adelaida Nieto.
Há momentos – talvez este seja
Um deles
Em que precisamos nos
Levar mais a sério, ou morrer,
Quando temos que nos livrar das encantações,
Ritmos pelos quais nos temos
Movido, irrefletidamente,
E resgatar a nós mesmos,
Preservar-nos
Para o silêncio, ou a escuta
Atenta, desobstruída
De oratória, fórmulas,
Estribilhos
Lamentos;
Da estática
Que sobrecarrega os fios...

De Adrienne Rich

domingo, 6 de junho de 2010

Trópico - 2 junho 2010
O escritor Wilson Bueno foi assassinado no último domingo, dia 30/5, em Curitiba. Autor de uma das obras mais sofisticadas e inventivas da literatura brasileira contemporânea, havia terminado há poucas semanas seu próximo romance, "As Armas do Coração". Durante mais de cinco anos, ele foi um assíduo colaborador de "Trópico"; leia a seguir um de seus artigos, uma carta à escritora Hilda Hilst:
Hilda Hilst caminha aos uivos
Por Wilson Bueno
Hilda, minha cara Hilda, agora que você não morre mais, entabulo contigo esta conversa no escuro. É uma carta também arrepiada de medo, esta em que me desvisto em ti todas as coisas trêmulas e fatigadas.
Três anos não são três meses nem três dias de teu silêncio sucinto, este em que a morte horrível nele continua a pôr ovos, você que sempre existiu, para mim, assim de um modo triunfante - do garrancho das cartas suntuosas, poucas e raras, ao obsessivo tilintar do telefone sem fio, aqui em Vila Pequena, pinheirais de Curitiba, arredores. Na Casa do Sol, em Campinas, sei que me recebias, pelo telefone negro e velho; pesado de tantas tramas das vozes pelas fibras...
Sem horário ou método - tanto o telefone podia tocar às dez da noite quanto às oito horas da manhã, no Brasil. Sim, às vezes justo nessa hora em que eu -e você- empreendíamos a sempre difícil travessia do equilibrista na direção dos escombros de um novo dia. Umas vezes, terra devastada; outras, a atravessarmos a surpreendente alegria dos dias-colibris, cheios de minutos e de relógios. Você, nem que aquelas damas que não se fazem mais, toda manhã morria.
Houve a vez em que, a falar dos veros exercícios espirituais que os santos primitivos se impunham, derivei a conversa ao budismo, então uma de minhas obsessões. Lembrei Bashô e Issa. Mais Issa que Bashô. E você, estupefata, depois do longo silêncio em que lhe cessaram as palavras-estrelas, pontuadas de palavrões, o que dava à sua fala, assim como que umas fúrias de cão, se impôs, curta, restritiva:
- Que horror essa coisa de haicai... O sapo, puft!, na lagoa... Não gosto, não gosto disso.
E a vida impaciente das coisas, senhora com quem refalo, agora em que não morres mais, falo e refalo, projetados, os dois, ao abismo de mil novecentos e noventa e três. As tuas mil e uma mortes, Hilda; você que, como Clarice, só sabia ser íntima, e nos morria nos braços a cada susto, a cada noite bêbada de sono.
Sim, agora eu sei, senhora bruxa, a tua história tecida no vento de cada dia; eu sei, de ti, os derruimentos da carne e o colapso final dos ossos; da pele da cara, encarquilhada, e o que, não sendo ruga, vincos, são olhos, pequeninos e anciãos, ainda que dotados de uma extravagância assim um pouco diabólica. Um demônio que chorasse, Hilda; você era um demônio bom e, se chorava via Embratel dentro da noite grande de Curitiba-Campinas-Curitiba, um feixe de luz zunia pelas fibras óticas, pelos fios distendidos das conexões sem Deus. Oito horas da noite no Brasil e já eras tudo o que no álcool engrola e dizima, dissolve e carcome.
Em uma das muitas agonias de Caio Fernando Abreu, você soluçava, a lágrima e o sentimento do mundo, em nova aposta, Hilda, em nova aposta contra a morte, desde sempre perdida, Hilda, Hilda Hilst, meu amor. E me falava, me falava umas coisas estranhas (que nunca pude confirmar) de que Caio ouvia, com a pressão arterial zerada, vizinho do fim, o lúgubre soar de tambores tangidos por índias velhas e chorosas, às margens ferventes do Letes.
Hilda, não consigo disfarçar -acho que estou, que estou sim, com muita saudade de você.
Três anos, pelo fevereiro de 2007, em que busco nas ondas do rádio, ali onde você costumava escutar os mortos com antenas improvisadas, de lata, na noite invadida de pirilampo, latifúndio adentro dos Almeida Prado, seus ancestrais, três anos já que lhe reivento a voz grave, esporrenta, a brandir por campos e descampados, senhora obscena do desejo: “Ama-me, Apolonio, ama-me!”. Apolonio de Almeida Prado Hilst, o poeta louco, seu pai, que se correspondia com Mário de Andrade, e que a desejava sempre, com ganas de amante sequioso, toda a vez em que a sua graça de menina buscava um encontro com ele, no pátio dos uivantes hospícios.
Os amantes, tantos, casuais, ou de compromisso, os amantes, Hilda, que lhe escalavam o corpo feliz de Rita Hayworth, ao tempo em que ainda se faziam, nos dourados anos 50, astros e estrelas -do rádio ao cinema; da revista “O Cruzeiro” às demoiselles acinturadas de “Chuvisco”. Em que ilha de dição da rádio Nacional pousas, quase longilínea no salto alto, a piteira longa com um cigarro insolente na ponta?
Em 1950 estreavas, já poeta de abismos, com “Presságio”. E dali a “Alcoólicas” e “Do Amor”, andaram as estrofes trancadas dentro de um quarto como quem vai morrer -Hilda, Hilda Hilst, meu amor...
Pelo telefone, em 1991, começou esta conversa no escuro e, acho, já falavas desde Marduk, posto que fomos, de planeta em planeta, a navegar a solidão noturna e agora, sim, chegamos à estação em que deveras falas, de Marduk falas, desde Marduk... E se vacilávamos frente ao que na Vida é o Amor Demais, lembravas Marduk, a morada a seguir, depois desta aqui movediça e obsedante... E se tramavas ainda outra vez a morte em vossos interstícios de dama sombria, lembrávamos Marduk, por mais chovesse em Curitiba e o sinistro esplendor das estrelas cadentes povoassem o teu céu de Campinas. O céu que nos protege, lembra, Hilda? Lembra, lembra de novo, o que de coisas nos ameaçavam! A nós, os ambos, mortos de medo.
Buscaste a glória, com avidez de atriz estreante, e já te querias, Hilda, que tolice!, a vender aos borbotões nas livrarias. Eu me lembro, Hilda, eu me lembro que invejavas Regine Laforgue e os seus milhões de livros de mão em mão e achavas impossível que não catassem, aos trilhões, tuas pérolas aos porcos... Ah, Hilda , não sabias o quanto eras secreta.
De “Qadós” à “Obscena Senhora D”, passando pela areia movediça do inquietante “Com Meus Olhos de Cão”, a tua prosa, a um tempo inventiva e libertária, nos desconstruiu o humano, bêbada de si, no rastro do Amor feito uma cadela no cio. Quem há de tocar, sem que lhe queimem -de vez- a pele das mãos uma folha que seja de vossa floresta de urtigas? Que pretensão a tua; que pretensão cheia de unhas dar-vos inteira à decifração mais vã e menos comedida!
Teu texto - te disse um dia, e hás de lembrar sempre, mesmo em Marduk, ou mesmo que Marduk não exista-, lê-lo, só se previamente de acordo, cúmplices das vilanias de tuas babas e humores, posto que dali não sairemos jamais impunes. Contigo, Hilda, paga-se, antes de tudo, o pecado de estar vivo. Uma prosa acossada, quase psicótica; o mais das vezes arrepiantes divertimentos paranóides. Onde só o que nos salva é a poesia... Quem se habilita?
E Bedecilda, Hilda, que nome, o de sua mãe, meu Deus! Também assistes dela a desagregação moral e, ainda assim, és dura na queda, Hilda, e por mais que a ame, lhe deseja, a rigor, a morte mesmo, a travessia para o Marduk estrelado, já que a morte-em-vida é um exercício que põe em choque regra e realidade, códigos e sonhos, e é dessa matéria a morte-em-vida de sua mãe que está sempre a morrer, como se morrer fosse mais de uma vez, Hilda, Hilda Hilst, meu amor.
Na Casa do Sol, os menininhos saltitavam, Hilda, as soltas batas até o chão, nus por baixo, os sucessivos cigarros de maconha, o licor de cacau, os poemas de Keats, as vespertinas de Lorca, o riso em flor de um bar aberto sobre a paisagem, os inomináveis de Beckett, os cantares de Rosa, Rosácea em flor e, acima de tudo, o múltiplo e rigoroso Pessoa; de Doris Lessing, Hilda, uma flor colhida em Newport; de Virginia Woolf, todos os passos –ainda- às margens do Ouse. E um livro que, pelo telefone, comentamos, várias vezes comentamos, à sombra de Tânatos -“Suicídio - Modo de Usar”. Ler e escrever -teu martírio e gozo; tuas quedas no abismo e tuas epifanias, Hilda, Hilda Hilst, meu amor.
O cavalo de olhos furados, Hilda, os gatos cambaleantes, os setenta e cinco cães que outra vez latem e ganem, uivam e grunhem -de dor ou júbilo-, a zôo orquestração do horror mais manso em que te cercavas, Hilda, rainha dos bichos postos de lado, chutados das lanchonetes, pela água fervente quase queimados vivos. De todos, um cão, ao menos, ainda se lembra de ti, os olhos súplices e as presas gastas.
Três anos. Nem precisava tanto! Novos amigos comuns debandaram a Marduk. Aí onde, decerto, já lhes oferece o café preto e o pão alemão com que costumavas brindar os hóspedes fortuitos de Campinas. Que morada escolheste, Hilda, a partir da leitura da “Carta a El Greco”, do enorme Nikos Kazantzakis? Bem sabes, não a escolheste; foste, isto sim, a escolhida para morar ali, pelo ato escabroso de ler. A Casa do Sol foi o teu refúgio e também a tua condenação. Acataste, com humildade de monja, o convento de si mesma. Um porão de achados.
Hilda, estou com saudade, estou com muita saudade de você.
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Wilson Bueno - escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).