quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Grande Mestra:


Lélia Almeida.

A tristeza foi a minha Grande Mestra de 2010. Vou chamá-la assim, Grande Mestra, com a reverência das maiúsculas. A tristeza não é a mesma coisa que a depressão, também é diferente da angústia, da ansiedade, da agonia. A tristeza é quieta, e sem o histrionismo da depressão a tristeza é expressiva, tão delicada a tristeza, tão mansa.
Esta madrugada, depois de pelejar todos os dias do ano com a tristeza, nesta madrugada quase desisti da luta. Não é uma luta contra ela, propriamente dita, mas é o como a gente sobrevive todos os dias com ela ali, onipresente. Levantei de madrugada para tomar água. Sentei na sala e disse a Deus, a Virgem Maria, a Deusa Tara, eu não agüento mais, disse assim, com uma intimidade doméstica, de quem se atreve, como último recurso, discutir a relação com a transcendência. Pedi por compreensão, só isso, compreensão disto que me é impossível compreender, e chorei como uma menina, de cansaço e exaustão.
Então, mais íntima ainda, atrevida quase, pedi colo pra Deus, pedi água, eu quero um colo, eu disse, baixinho, eu aprendo tudo o que esta Grande Mestra tiver que me ensinar, mas agora Senhor, neste momento, eu preciso de colo, eu quero colo, senão eu vou morrer.
O amanhecer em Brasília é uma experiência. Não é apenas um amanhecer, é uma experiência. Fiquei olhando pela janela aquela bola de fogo que surgia no horizonte, sentindo as lágrimas que escorriam sem parar e a Grande Mestra ali, na sua presença inequívoca.
Os esotéricos dizem que a hora mais escura da noite é antes do amanhecer. Que é a hora da noite escura da alma de San Juan de la Cruz.
Imediatamente uma grande paz tomou conta de mim, a luz do dia nascendo é da cor da minha tristeza, iluminada, suavemente iluminada. Uma paz tão grande, que mesmo sem conseguir compreender o que tanto me mata em vida todos os dias senti que de alguma maneira, estava tudo certo. E que talvez seja mais sábio pedir por aceitação do que por compreensão. Negociei com a transcendência, pedi a Tara, a Virgem e ao Senhor, que eu posso estar com ela, com a Grande Mestra, mas que não me tirem nem a minha alegria e nem a minha fúria, que eu não sou nada sem elas.
Uma paz imensa eu fui sentindo, tão grande que tive forças pra fazer um café, regar as plantas, dar comida pros gatos, arrumar a casa, deixar preparado metade do almoço e voltar pra cama só mais um pouquinho, vitoriosa, brava e vitoriosa, sem ter desistido.
A tristeza, que foi a minha Grande Mestra de 2010 me ensinou mais uma coisa hoje, já que os ensinamentos têm sido diários. Que a gente nunca está só. Que com Deus é assim, a gente pede colo e Ele dá. Colo quentinho, disfarçado de uma paz verdadeira e uma grande disposição para limpar a casa e arrumar a vida.
Agora já sei, era eu que não estava sabendo pedir. O que eu quero é simples, eu quero colo, colo de Deus.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Receita contra traições, com sangue escorrendo entre os dentes
e mortes imprescindíveis:

Lélia Almeida.

Sofri da mesma traição duas vezes. A primeira quando o meu filho nasceu e minha vida virou um inferno de dúvidas, preocupações e grandes sustos. Um inferno cheio de gratificações, diga-se, mas senti muito que ninguém tivesse me avisado que uma mudança tão avassaladora ia me transformar em menos de um turno em outra pessoa. Minha mãe, pragmática, dizia: engole o choro e toca a viver.
A segunda traição, de mesma natureza, foi quando o mesmo filho entrou nesta zona pantanosa que começa aos dezoito anos e que pode terminar a qualquer momento, inclusive quando o infante tiver 40 anos. É o momento do segundo parto.
E se ele for um rapaz então, como o meu, nós mães, nos tornamos os seres mais odiados e detestados do mundo e todo o idílio que vivemos durante duas décadas com eles, respondendo pavlovianamente a todas as suas demandas, acaba, de uma noite para uma manhã. Ele nos odeia, mas não vai embora. Fica ali para nos lembrar dia e noite que nos odeia e a vida se transforma num inferno.
Estamos agora em plena menopausa, os humores flutuantes como os dele. A vida se transforma num inferno sem as tantas gratificações anteriores. Você, mãe, se transforma na figura de autoridade mimetizada num saco de areia de pancadas, num momento em que muitas outras coisas fantásticas em sua vida estão acontecendo: amadurecimento pessoal, sucesso profissional, novas amizades, casamentos falidos que terminam, novas oportunidades, etc.
Não vou trair ninguém: é um inferno. Mas não desistam dos rapazes. Façam a única coisa que é possível fazer por eles neste momento. Não precisa ser com um afiado facão de cozinha ou de açougue. Sempre há soluções práticas ensinadas pela ancestralidade. Lembrem da mulher macaca que vive dentro de nós. Ou de outras figuras exemplares.
Exausta com as demandas da situação, numa noite insone e no meio de uma reza furiosa, o espírito de uma índia charrua, num sonho iniciático, se abateu sobre mim e me lembrou que sou uma mulher dos pampas, gaúcha fronteiriça onde bravíssimas mulheres guerrearam e mataram para sobreviver na imensidão dos campos. As índias charruas, diferente de outras mulheres, quando violentadas pelos homens brancos, rasgavam com uma faca o próprio útero para que seus filhos não nascessem cativos. Ou lembrem da bravura das vivandeiras, que seguiam os homens nas guerras, e jamais se detinham por conta de marmanjos mimados que se negavam a crescer.
Tomem, minhas amigas, do espírito destas mulheres, deixem a alma selvagem delas recair sobre a de vocês, sintam que elas estão próximas e façam, vocês mesmas o que elas fariam sem dó nem piedade: cortem este cordão umbilical consistente e sem fim, que vai engrossando enquanto eles crescem, cortem com os próprios dentes, e saiam vida afora, urrando um grito liberador, dentes afiados e ensangüentados e vão viver as suas próprias vidas.
Porque não há, senhoras, nada mais que possamos, efetivamente, fazer por eles. Agora eles vão ter de crescer.
E nós temos de voltar a dançar e a cuidar em outro ritmo da vida que nos resta viver. Boa sorte para todas nós!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Hoje a minha faxineira me disse que nem gosta mais tanto assim do marido, mas que vai continuar com ele. Perguntei o motivo e ela disse, Dona Lélia, ele nem me bate!
As mortes das irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal, covardemente assassinadas pela ditadura do general Rafael Leonidas Trujillo da República Dominicana, foram as responsáveis pelo dia 25 de novembro ter se transformado, por determinação das Nações Unidas, em março de 1999, no Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. A história destas protagonistas cheias de coragem e amor à vida nos é contada, primorosamente, no romance de Julia Alvarez, No tempo das borboletas, publicado no Brasil pela Rocco em 2001. Outro livro esclarecedor sobre este período é A festa do bode, do Mario Vargas Llosa, publicado no Brasil pela editora Arx, em 2001. Vale a pena conferir.
Esta não é exatamente uma data de celebração, que seja de reflexão.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Li e gostei:

“Os cães, em seu papel de melhores companheiros do homem, já tiveram inúmeras características positivas e negativas atribuídas a eles. Desde tempos remotos esses animais são associados com as experiências mais soturnas da vida, sendo vistos em eras primitivas como mensageiros da morte. Apesar de menções ao domínio de um “cão negro” ou de uma “nuvem negra” existirem desde a época dos celtas, Samuel Johnson foi provavelmente o primeiro escritor a traçar uma associação dessa imagem com a depressão. Winston Churchill popularizou a metáfora, (...) depois dele, muitos escritores, artistas e cantores descreveram o cão negro.”

O tema é de difícil trato, mas Matthew Johnstone conseguiu escrever um livro sobre a depressão que é uma verdadeira pérola: Eu tinha um cão negro, seu nome era depressão. Os desenhos são simplesmente adoráveis e nos fazem ver a doença de uma maneira gráfica, terna e até mesmo divertida. Os desenhos são do próprio autor e o prefácio é de Gordon Parker, Diretor executivo do Black Dog Institute da Autrália.
Vale a pena conferir, é da Editora Sextante.
Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me dos fascínio que tantos de nossos autores hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de paria e severa no meu obscuro trabalho de escrever”.

Dos papéis de J.M.E. in : A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins

sexta-feira, 5 de novembro de 2010



Benjamin

Lélia Almeida.


Do pouco que consigo lembrar daquele momento, só posso dizer que Benjamin nasceu primeiro do meu pensamento, partejei-o através de uma idéia, ou de uma sucessão de idéias. É o que sei: partejei-o pela cabeça, primeiro, chegou-me assim, como uma idéia, antes mesmo de ser um sentimento. Depois Benjamin tomou-me por inteiro e agora já não posso viver sem ele.
Daquele momento lembro da velocidade e da confusão dos pensamentos, que pareciam nuvens rápidas que se desfaziam enquanto voavam, disformes, uma excitação mental que me deixou noites inteiras de olhos estatelados na escuridão em busca de uma forma, de uma idéia, de uma pista que me levasse até Benjamin. Noites vazias que me faziam atravessar os dias trôpega de exaustão. E que pareciam, a princípio, apenas isso e nada mais, um cenário de vazio e escuridão. Meu corpo inquieto se movimentava ansioso, respondendo à excitação da minha mente. Como a urgência de um parto, que não há como adiar. Até o dia em que, vazia de respostas, cai num sono profundo, o corpo pedindo o calor da entrega, a paz do descanso, e fechei os olhos quebrados e desabei na noite dos tempos.
Era o início dos tempos. Eu estava nua num lugar seco e deserto que parecia uma tênue paisagem lunar sob um céu cheio de estrelas. Fazia muito frio e a minha cabeleira era farta e longa. Eu caminhava sem rumo sabendo que não podia parar, como se buscasse algo ou alguém, atrasada quase, e que por isso eu não podia parar. Uma pressa, um frenesi movia os meus passos, meus pés firmes sobre a terra escura e as sombras que se projetavam da luz das estrelas através do meu corpo sob a superfície da opalina. Não sei dizer de onde ela saiu, a velha que segurava o cajado e que tinha os cabelos eletrizados como os meus, menos fartos, devo dizer. Lembrei de Tirésias, é claro, mas ela não era cega e seus olhos brilhavam com ardor.
- Quem é você? – eu perguntei.
- Pergunta errada, sua tonta, pergunta errada.
- Onde estou? Que lugar é este afinal?
- Este é o lugar onde tudo começou, no início dos tempos.
- Mas no início dos tempos não havia um paraíso exuberante...
- Um homem, uma mulher, uma maçã e uma cobra?
- Sim!
- Ora, faça-me o favor, uma mulher tão estudada, tão inteligente e com tão pouca imaginação! Não me diga que acreditou nesta bobagem!
- Na verdade nunca questionei esta história.
- Preguiça de pensar, mais ainda de imaginar.
- Então não havia um homem e uma mulher no início dos tempos?
- A costela! Já sei, você quer o raio da costela. Faça-me o favor!
- Não, na verdade nem sei o que pensar!
- Não temos tempo menina, faz muito frio aqui, temos de ser rápidas, há muito o que fazer.
- Sim.
- Olhe a paisagem. É seca. É dura. Mas também há beleza no que é selvagem.
- É assustadora.
- Aqui é o lugar de conceber. E de parir. Só isso. Preste atenção.
- Não há nada para olhar. Só desolação.
- Isso porque todos, finalmente, partiram.
- E eu vou ficar aqui sozinha então?
- Não, sua tonta! Você vai obrar comigo! Trabalhar ao contrário, trabalhar para dentro.
- Uma desolação só!
- A desolação é o avesso de uma miragem.
- Vou morrer, sinto como se caísse de uma ponte para o vazio.
- Concentre-se.
- O que é isto?
- Uma cratera e no meio dela há um lodaçal que precisa ser ativado. É a lama primordial. Lama, água e terra apenas, não há o que temer. Venha.
- O que devo fazer?
- Olhar, primeiro. E depois reconhecer.
- Olhar o quê?
- Que todos partiram.
- Disso eu já sei. Faz tanto frio. Tanto frio.
- Veja-os, estão muito longe agora, lá onde a vista não alcança mais.
- Eu os vejo. Meu pai. Minha mãe. Meus irmãos. Todos partiram. E esta luz das estrelas que parece tornar tudo mais frio ainda.
- Concentre-se agora. As mãos na lama. Enfie as mãos na lama, sinta como a lama se movimenta e como é ela quem molda as suas mãos também, assim, imprima força nos braços, isso, nas mãos, nos dedos.
A velha me ajuda a enterrar os braços até a altura dos cotovelos no lodaçal. “Força”, ela diz. E uma tristeza antiga parece desfazer-se enquanto movimento os braços, com a força de quem quisesse resgatar um improvável náufrago de um buraco tão pequeno e profundo. “Força”, ela repete. “E deixe ir aquela gente que já partiu há muito tempo”.
Sequer os vejo mais, quase os imagino como numa reminiscência que teima em voltar. Lembro de uma praia, da água salgada nos cabelos e castelos de areia na beira de um mar imenso.
- Concentre-se, ela diz enérgica, não há mais tempo a perder.
Estou sentada sobre as minhas pernas dobradas, ela, a velha, está atrás de mim e seu corpo velho me sujeita e me ajuda no movimento dos braços que faz com que a lama apareça, cresça, se incorpore, começamos a suar as duas, com a velocidade e o rigor dos movimentos.
- Você terá de inventar e depois criar o que deseja.
- Um homem, eu disse.
- Que seja! Ela disse. – Já!
Trabalhei com força na forma de uma espécie de boneco, esboço, ensaio, tudo muito precário.
- As mãos e o pensamento. Vamos. Fale-me dele.
- Ele se chama Benjamin.
- Bem já mim. Beija mim. Gostei, ela ri.
O corpo de Benjamin é uma perfeição, ele é mais alto e mais forte do que eu, demoro-me especialmente ao desenhar seu membro que cresce no movimento feliz das minhas mãos ágeis. Desenho-lhe as coxas, os glúteos firmes e ela diz: “não se disperse, depois você terá tempo para brincar à vontade”.
Os olhos de Benjamin não têm fim, posso entrar neles como que entra num poço profundo e Benjamin me vê, inteira e me acolhe. Seus braços fortes e seu corpo me envolvem.
- Ele me protege, eu digo.
- Um homem com um membro ereto e proteção! É isso que você quer de um homem, sua estúpida? Trabalhe!
Minhas mãos não param. Já não sinto mais o corpo da velha sobre o meu, outra vez, ela sou eu, como já aconteceu outras vezes. A minha força vem da força dela. Benjamin, belo, grande, forte, limpa a lama do corpo e do cabelo sedoso, adora a brincadeira, me olha assombrado. O brilho de algo metálico me desperta do encantamento de admirá-lo. Há um punhal de prata perto do buraco de onde a lama nasce. Sei que tenho que ser rápida. Corto, seguindo a linha do desenho de uma meia-lua, o seio esquerdo, perto do coração. “Meu amor”, eu digo, “venha, venha a mim”. Benjamin me abraça largo e me beija intensamente antes de se alojar dentro do meu coração. Dentro de mim.
Acordo então da noite dos tempos, me espreguiço, muito longe agora da paisagem lunar, que agora mais parece uma névoa ou a lembrança de um sonho pouco nítido. Acordo cheia de fome, apetites, desejos, saudades, anseios. E sinto o calor que vem da terra, da água, do dentro. Abro a janela, o sol me inunda. Benjamin. A solidão é como uma bênção. Fecho os olhos sob o calor do sol.
Partejei-o inteiro, o meu homem.
E me transformei numa dançarina muito antiga no seu abraço.



In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito, 2008).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Teoria da IFG:

Lélia Almeida.


Sentei entre duas moças num vôo entre o Rio de Janeiro e Brasília. Exausta me acomodei para dormir e finalmente descansar depois de dois dias de trabalho intenso. Depois que as instruções de vôo foram dadas uma delas, uma moça linda de uns 25 anos me disse:
- A senhora viu que TODOS os homens deste avião têm uma aliança numa das mãos.
- Não, não vi.
- A senhora não olha mais pra isso?
- Não querida, na minha idade a gente só olha pro pé deles.
- Pro pé? Por causa do tamanho, por conta daquele cálculo entre uma coisa e a outra?
- Nãooooo, querida! Na minha idade a gente olha pra qualidade do sapato pra ver o tanto que a criatura é pobre, o tanto que dá pra encarar...
- Olha que interessante, nunca pensei nisso, disse a outra moça.
- Mas eu lhe digo uma coisa, voltou a primeira, viajo toda a semana e é uma tristeza viu, cada homem lindo e aquele alianção ali no dedo ó, como uma coleira diminuta, uma tristeza viu, um desperdício.
Decidi que não ia dormir, me interessei pela conversa e perguntei se ela tinha alguma explicação.
- Explicação não, senhora, eu tenho isso e mais do que isso. Eu tenho uma teoria.
- Sério?
- A necessidade da manutenção da sagrada família, por um lado.
- Sim...
- Teve um que teve a cara de pau de me dizer, mas querida, aquilo lá não é um casamento, é uma família!
- Argh!
- kkkkkk!
- E por outro lado é a questão da IFG.
- Um índice novo? Este eu nunca ouvi falar.
- Fui eu que inventei, é a sigla da minha teoria, a teoria da Ilusão da Foda Garantida.
A outra moça começou a rir e resolvemos as três pedir uma cerveja para a aeromoça.
- Os caras casam porque eles não podem viver sem a metidinha, e casados eles não tem que ir a luta, batalhar a caça na dureza da vida e dos sábados solitários, enfim, casar é mais prático, ta ali, ta na mão, uma metidinha pobre e morna, mas garantida. Na maioria das vezes eles nem gostam mais da patroa, mas estão ali, comparecendo, tudo em nome da IFG.
Eu tinha certeza de que o avião inteiro estava nos ouvindo, não me importei e dei corda para aquela pitonisa de 25 anos, tão jovem e desalentada, socializando sua sabedoria comigo, com a amiga e o avião dos deuses de alianção. Deste tamanho, o alianção, ó, ela repetia.
Um índice novo na praça, meninas, e eu nem suspeitava!
Híbrido:


Lélia Almeida.


Qualquer mulher da minha geração viveu experiências parecidas, negue quem quiser. E pela nossa idade, já vivemos de tudo um pouco. Bons e maus casamentos, namoros desastrosos, terriveis enganos e amores maravilhosos e inesquecíveis. Tivemos filhos e algumas de nós já somos avós. Daí a nossa responsabilidade com as gerações vindouras, a das mulheres mais jovens. A minha geração, na verdade, se esbaldou entre o pós-revolução sexual, anti-concepção aqui incluída e o pré-aids, e mentem aquelas que negarem que a farra foi grossa.
Claro que estou falando de coisas quase esquecidas pela contemporaneidade. Nestes tempos em que se fode muito pouco e se fala muito sobre isso, e quando falar muito sobre o assunto se constitui no maior sintoma de que a coisa ta braba, ta rala, ta escassa, geral. Portanto, é correto dizer que qualquer mulher da minha idade já teve no seu repertório, pelo menos,entre outros, um argentino gay travestido de macho, um padre indeciso e um homem-que-está-se-divorciando.
O mundo anda, o tempo passa, mas tem coisas que não mudam.
Meninas, atenção: um-homem-que-está-se-divorciando é uma entidade que não existe. Ou o homem é divorciado, está sozinho e disponível para você, ou ele é casado. Um homem-que-está-se-divorciando é uma espécie de híbrido e quase nunca, ouçam bem, quase nunca vale a pena. Então só resta uma possibilidade, a de que vocês sejam espertas e partam para a esbórnia cientes de que os híbridos não se reproduzem. O que equivale a dizer que a criatura em questão não vai decidir jamais o seu impasse, é você quem vai decidir a parada.
A grande diferença entre as mulheres da minha geração e a das minhas jovens leitoras que me pedem conselhos é o tamanho e a consistência da paciência. Da santa paciência! Vocês saberão se vale a pena este esforço hercúleo, esta empreitada ingrata, mas não se esqueçam: um homem-que-está-se-divorciando é uma categoria facinha de desvendar, é um híbrido, um mulo, o que pode significar, em simples e bom português, que o troço não vai render.
Pensem bem meninas, e depois não digam que eu não avisei.

sábado, 23 de outubro de 2010




Medo dos cães, meu Pai:

Lélia Almeida.

Hoje eu sei que o medo é frio. Como que metálico. Como devem ser os trilhos por onde deslizava o trem que levava as mulheres da família para fazer o procedimento do outro lado da linha divisória, na fronteira. O procedimento sempre se faz longe de casa, que é pra não se deixar pistas. É assim desde que o mundo é mundo. E não vai mudar. Voltaram sempre quebradas, todas elas, o corpo dobrado no movimento desencontrado da cólica de um caracol vazio, as almas secas. É assim que todas sentem, hoje sei, embora não se fale muito no assunto. É frio, eu dizia, o medo. É gelado. Como os trilhos que são como os objetos cortantes usados no procedimento.
Quando acordei vi um crucifixo na parede branca e cheguei a pensar que estava no céu. Uma freira se aproximou, me alcançou um absorvente, disse que eu podia ir e que a receita estava dentro da minha mochila. Desejou-me boa sorte. O ferro da cama antiga e os objetos cortantes, os trilhos, o medo é frio e metálico.
Minha amiga me esperava dentro do carro. Abriu a porta com cuidado e me ajudou a sentar e a colocar o cinto. Quando a casa ficou para trás eu disse que assim que eu tivesse o dinheiro... Ela respondeu que eu não me preocupasse, a gente sempre faz isso por alguém, essa é a paga, é assim que a gente paga, ela explicou. Chá de macela, o comprimido, cama e um frio que não passa. Sonhei nesse mesmo dia que você era uma menina, desde então quando penso em você, penso numa menina, por causa do sonho, deve ser. Minha mãe e minha avó não tiveram a mesma sorte na viagem de volta do procedimento. Sacolejaram no trem, mortas de dor e tiveram que dar a janta para as crianças e para os maridos e continuar a fazer a vida andar. Uma vida tão cheia que elas mal lembram, agora, e que talvez seja por isso que elas fiquem sem saber o que me contar sobre aquele dia. E sobre todos os outros que se repetiram ao longo de uma vida, quando elas tomavam o trem sem saber se voltavam ou não para preparar o jantar. Era assim naquele tempo, elas me dizem. E o tom da voz da minha mãe fica mais baixo, e o da minha avó, mais metálico.
Ao contrário do que aconteceu com elas, depois do procedimento fui de carro pela mesma estrada para a casa onde vivem agora o meu Pai e os cães de guarda. Fui para lá para descansar. Há mato sobre os trilhos e a máquina está enferrujada perto da estação. Diga que é cólica menstrual, essa é sempre uma boa explicação. E assim você vai pra cama sem muita conversa, ela me orientou, a minha amiga. O tempo passa e o procedimento é sempre o mesmo. Desde as agulhas de tricô e crochê atravessadas, chás, raspagens mal feitas, óbitos.
É frio o medo. E ácido. Não reconheço o cheiro do meu corpo. Suo e tremo de frio. Meu Pai toma o mate na frente da lareira enquanto uma voz grave, de homem, despeja monótona o noticiário na Rádio Belgrano de Buenos Aires. Meu pai dormita ao pé do fogo. Abro a porta e saio na noite gelada enrolada na ruana grossa. O céu imenso, o campo que parece um mar, a figueira. Sento perto do balanço quebrado e choro baixinho. Os cães começam a latir. Cuscos de merda, meu Pai sempre diz, um dia ainda matam um vivente e me encrencam. Estão furiosos. Começo a suar frio sob o peso da ruana e sinto o líquido quente escorrendo entre as minhas pernas, lembro que pensei, a bolsa estourou, pensei que você ia nascer, um delírio como uma estrela cadente jogada naquela imensidão, o campo. Você que não existia mais. O sangue que escorria era você não sendo. Comecei a chorar então e o que saía de mim era como um miado e isso deixou os cães mais loucos ainda. Foi então que ouvi a voz do meu Pai, onde você está, minha filha? Ele perguntou, entre brabo e assustado. Eu disse, tenho medo dos cães, tenho medo de morrer. Ele disse, vamos pra casa, e fique quieta que então eles vão sossegar também. Mal podia andar. E a dor que parecia um trem veloz sobre mim. Mas a voz do meu Pai me assegurava que se eu ficasse quieta tudo ia ficar bem, que os cães iam se acalmar.
Quando lembro daquela volta pra casa, ao lado dele, tenho uma sensação estranha, minha filha. Se é que posso lhe chamar assim. A de que um silêncio tomou conta da minha vida, como quando a gente abaixa o som da TV num filme de terror ou de suspense, pra não sentir medo. E de que tudo ficou bem então. Os latidos dos cães foram diminuindo dentro de mim e a minha vida foi se enchendo de silêncio. E de tudo o que o silêncio pode guardar, culpa, vergonha, medo, essas coisas de mulher. E de uma saudade que nem eu entendo. Uma vida sem os seus barulhos, minha filha.
Uma vez que outra sonho com os trilhos e com os objetos do procedimento que ora brilham ora não, como relâmpagos, no escuro. E aí lembro que um dia você esteve aqui. E para que tudo fique em paz outra vez, volto a dormir e esqueço. Meu Pai tinha razão, posso lhe dizer isso agora, o silêncio é um santo remédio. Um remédio que faz a gente se acalmar e ter a certeza de que a gente não vale nada.

sábado, 9 de outubro de 2010

Expedição:

Lélia Almeida.

Ontem no final do expediente minha secretária que é uma moça maranhense adorável, no vigor dos seus 27 anos, estava passando um batom vermelho e perfume antes de encerrarmos a semana. Perguntei a ela se estava pronta para o crime? Ela disse, - ai Dona Lélia, o mar não tá pra peixe viu! Aqui em Brasília só tem homem casado ou gay! E arrematou, - olha a coisa tá tão complicada que eu e as minhas amigas estamos pensando numa expedição aos mineiros chilenos, aqueles que estão enclausurados lá embaixo da terra, sabe! Desci o elevador às gargalhadas lembrando os tempos das urgências hormonais e que as grandes necessidades sempre clamam por soluções criativas!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ele me quis!

Lélia Almeida.

Sofia, a minha sobrinha de quatro anos é apaixonada por um colega de aula chamado João Pedro. Ontem ele a convidou para brincar. Ela me contou depois, com a voz que mal saía e com os olhos que pareciam duas jabuticabas nadando na calda do enamoramento: - Tia Lélia, ele me quis. Ele me quis brincar comigo. Pensei com meus botões: - Putz, começou o sofrimento!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sou só descontentamento e desassossego,
com esta baleia franca agonizante e entalada dentro de mim:


Lélia Almeida.


Si miramos la realidad, las mujeres son más sólidas, más objetivas, más sensatas. Para nosotros, son opacas: las miramos, pero no logramos ir adentro. Estamos tan empapados de una visión masculina que no entendemos. En contrapartida, para las mujeres, nosotros somos transparentes. Lo que me preocupa es que cuando la mujer llega al poder pierde todo aquello. Hay tres sexos: femenino, masculino y el poder. El poder cambia a las personas.(José Saramago)


Ai! Esta baleia franca agonizando na praia de Itaperubá, em Laguna (SC), agonizando frente à nossa impotência, resistindo e sobrevivendo a um coquetel de medicamentos para a eutanásia. Ai! Esta baleia franca entalada dentro de mim, virada numa metáfora de coisas grandes e sagradas, maravilhosas e que parecem que não tem mais lugar e nem cabida neste mundo. Resta-nos observá-la, mirar-nos, bravamente, na sua capacidade de resistência mesmo sabendo que estamos assistindo a sua morte. Passo horas pensando na baleia, tentando adivinhar-lhe as dores, os movimentos impossíveis, a respiração difícil. A baleia levo-a entalada por aonde vou, nestes dias, presa dentro de mim, e um sentimento aterrador se instala sem remédio.
Sinto-me como o protagonista do filme do Bela Tarr, As Harmonias de Werckmeiser, quando a vida de uma pequena cidade do interior da Hungria é transformada com a chegada de uma baleia gigante empalhada. E da sua incompreensão, ao ver a baleia, quando se pergunta sobre como Deus pôde conceber uma criatura daquelas e ainda por cima fazê-la viver no mar!
A baleia é mítica, é sagrada, é um símbolo também, e na sua grandeza é a metáfora que escolho para expressar, neste momento, o meu desassossego e o meu profundo descontentamento. Lembro das muitas vezes ao longo da minha vida que tive de mergulhar muda e só no descontentamento, na paralisia da baleia encalhada, como uma criança que ouve da mãe, engole e choro e não reclama, para aquelas situações quando as nossas sábias e pragmáticas mães sabem como ninguém que não nos resta mais nada além de obedecer e aceitar. E calar. E sempre que não pude expressar o meu descontentamento, a minha discordância, o desassossego comprometeu os meus movimentos mais espontâneos e a minha fala mais verdadeira e por isso a minha alma adoeceu. A minha alma que era um mar, um mar que já não podia conter uma baleia. A baleia que mal respira e que não desiste sob os nossos olhos atônitos.
Tenho convivido com um profundo sentimento de frustração e de estar vivendo uma oportunidade única que está sendo desperdiçada. A minha geração de mulheres sonhou e lutou por muitas coisas lá na origem dos movimentos de mulheres deste país. Digo nas origens porque me filio a uma linhagem de outras mulheres, anteriores, que pensaram e me ensinaram tudo o que me faz, ainda hoje, me perceber como cidadã, mãe, profissional e mulher no mundo. Ensinaram-me, antes de tudo, que o movimento de mulheres sempre reivindicou a autonomia das mulheres, de forma mais importante ainda do que a igualdade com os homens. Permanece soberana, em algumas de nós, a raiz de toda esta luta que tem sido, historicamente, uma luta por autonomia. E eis que temos, neste momento, a possibilidade de duas candidatas mulheres à Presidência da República. E nunca o debate foi tão vazio, de tão baixo nível e as mulheres nunca ficaram tão caladas. A baleia agoniza, mas resiste, sinto sua respiração, sua alma que não se entrega. Ai baleia calada!
Quando a então Ministra Dilma Roussef anunciou publicamente que tinha câncer fiquei estarrecida da maneira como os seus colegas de Esplanada e de partido expressaram publicamente o tanto que este fato podia ajudá-la a crescer nas pesquisas como candidata à Presidência da República. Os comentários foram absurdos e não ouvi nenhuma grita de indignação sobre este tratamento dispensado à Ministra, já naquele momento precisávamos ser pragmáticos, outra vez pragmáticos e batendo o martelo, ali já começava a se gestar o que temos como a estratégia urgente de todos estes meses, a pressa desenfreada, o vale tudo porque ela tem de vencer, doa a quem doa, danem-se as baleias, dane-se o meu desassossego. Falava-se da maneira como a doença podia render-lhe uma imagem de lutadora, de sobrevivente e a então Ministra tinha deixado de ser uma mulher e tinha se transformado numa candidata, ia capitalizar com a doença e com outros episódios também. Não vi ninguém questionar estas declarações desastrosas, perversas, mas parece que nada disso é importante e que minhas considerações sabem a um sentimentalismo inoportuno e incorrigível, devo dizer, a esta altura do campeonato.
Lembro de um livro clássico que muitas mulheres da minha geração leram com atenção, Os seis meses em que fui homem, um texto canônico da Rose Marie Muraro onde ela conta do estresse absoluto vivido quando teve de exercer um cargo de alta responsabilidade, e repetir assim os gestos irrefletidos, como chamo os gestos das mulheres que assumem o poder, porque só conhecemos este jeito de exercer o poder, o jeito masculino de fazê-lo, e ai de nós se não for assim, já que é este jeito que nos mantém ou destitui da coisa toda. A coreografia dos gestos irrefletidos, frutos da consciência embargada, valeu-lhe um câncer de útero. Foi uma das poucas narrativas sinceras que vi sobre o assunto.
Outro clássico que vale a pena lembrar é O cálice e a espada da americana Riane Eisler , onde ela estuda, ao longo da história do mundo, as relações entre os homens e as mulheres. Atenta para o fato de que não haveria nenhuma evidência consistente, depois de tantas tentativas de prová-la, da existência de um matriarcado na história do mundo. Um matriarcado, que em exata oposição ao patriarcado seria uma sociedade onde as mulheres dominariam os homens. Para a autora isso não aconteceu e esclarece que sim, o que criou uma cultura da deusa ao longo da história do mundo e que é a que sobrevive na nossa memória, seriam momentos em que as mulheres, em comunidades matricêntricas, tinham um lugar de destaque e eram valorizadas num patamar de igualdade aos homens que simplesmente exerciam funções diferentes das delas. Aponta Creta como um momento de excelência desta evidência e propõe que estes momentos da história do mundo se constituíram em momentos de grande florescimento cultural, espiritual e de pacificação.
A teoria de Eisler, que é muito mais inteligente e abrangente do que eu possa contar numa crônica, propõe que para que entendamos as complexas relações de dominação entre os homens e as mulheres, é necessário um olhar diferenciado sobre estas relações através do que ela chama de uma teoria da transformação cultural, a partir de uma perspectiva holística e que reflete sobre os dois modelos básicos de sociedade que subjaz à grande diversidade superficial da cultura humana. Um seria o modelo dominador, popularmente chamado de matriarcado ou patriarcado, onde uma metade da humanidade exerce a supremacia sobre a outra, e o outro modelo chamado de parceria, baseado num princípio de união e onde a diversidade não é equiparada à inferioridade ou à superioridade.
O trabalho de Eisler que começa com estas considerações, no início dos anos 80, teve desdobramentos importantes e o livro que trata sobre o Poder da parceria fez da autora uma importante ativista pela paz. Ela, recentemente, em entrevista ao GNT, disse que o Brasil, através do Bolsa Família, se constitui num exemplo a ser seguido pelo mundo, como uma prática de economia solidária e de pareceria. Ela, portanto, propõem sim, uma alternativa ao que temos no poder, um poder de parceria, onde o lugar das mulheres seja outro, diferenciado, e que sua maneira de estar no poder seja inovadora, negando, entre outras coisas, uma cultura da hierarquia burra, do mundo da guerra e da violência desmedida.
A baleia mal respira dentro de mim, sinto-lhe as ganas de mover-se com força e agilidade, dar uma rabanada com a cauda, mover-se, mas suas forças se esvaem. As minhas mais sinceras esperanças vão-se junto com elas.
A sensação é a de estar vivendo uma oportunidade única e, ao mesmo tempo, a de estar presenciando um irreparável desperdício histórico. O que para mim, na metade da jornada da vida, me abate sobremaneira, sabedora de que não temos muito mais tempo assim para erros incorrigíveis. A oportunidade única deve-se ao fato de que temos, neste momento, duas mulheres candidatas à Presidência da República do País. O desperdício histórico é porque a sociedade brasileira decidiu não pensar sobre este assunto, fazer de conta de que isto não está acontecendo e de onde podemos concluir que se as respostas têm sido imbecis, infantis, senso-comunsíssimas, é porque há uma ausência absoluta das perguntas importantes. E, portanto, a impossibilidade de um debate que não pode ser feito às pressas e nem sob censura.
Fala-se do figurino e do penteado das candidatas, fala-se de sua orientação sexual, falam-se banalidades e superficialidades. A candidata Dilma foi elevada a uma condição de Magna Mater, ao lado do Presidente Lula, que por sua vez, foi elevado a um patamar de líder intergaláctico ou a uma espécie de vice-Deus, coroados agora pelo nascimento de um menino chamado Gabriel, que nasceu abençoado como um anjo, o que nos faz lembrar, uma fábula outra, muito antiga, tão antiga como a existência das baleias, este bicho tão inconveniente a me triturar as vísceras de angústia e agonia.
A propaganda eleitoral do Partido dos Trabalhadores, ao criar esta tríade de presépio, repetida à farta nos comícios, nos discursos e nos palanques, de diferentes maneiras, nega, na prática, o próprio trabalho da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do governo Lula, que coloca as mulheres brasileiras, em seus projetos e programas, como protagonistas autônomas e empoderadas sem fazer este uso reacionário e ideológico da figura da mamãezinha terna, coadjuvante, subserviente e subalterna que tem de cuidar do mundo. E trata, assim, o povo brasileiro como um bando de debilóides. Cala a boca baleia, morre baleia!
Continuo sem respostas para as minhas perguntas. As mulheres querem o poder? E chegando lá como querem exercê-lo? Da mesma maneira que os homens? Há outro jeito das mulheres estarem no poder? Como é esse jeito? E os homens, como vão lidar com as questões propostas pelas mulheres? E se elas não concordarem? E se elas se rebelarem? E se elas não obedecerem? Qual o significado do desinteresse de um grande número de mulheres para que se lancem como candidatas? E qual o significado do voto feminino para tal ou qual candidato? E da rejeição deste mesmo voto para tal ou qual candidato? Baleia preguiçosa, burra, esqueceu de pensar, vai pagar caro por isso, pela inconsciência, baleia burra, morre baleia burra!
A poucas semanas da eleição sinto uma imensa frustração, já entrei na pressa da coisa toda, tomara que termine logo, tomara que termine de uma vez. Morre baleia, morre. Vai morrer na praia, seu bicho burro!
Mais uma vez o debate foi negligenciado. Mais uma vez o debate que envolve os desejos, os direitos e as reivindicações específicas das mulheres foi negligenciado, o mundo avança e a história das mulheres encalha como a baleia franca. Muito provavelmente a candidata Dilma será a próxima presidente do país. Pagaremos um preço alto pelas perguntas que deixamos de fazer, das vezes que deixamos de questionar com senso crítico e autonomia de pensamento, das vezes que deixamos de dizer não, de dizer que assim não nos serve, que não se pode tratar uma mulher de determinadas maneiras, como um ser sem vontade e de todas as vezes que compactuamos mudas com este tratamento e com a conivência e passividade de determinadas condutas, das vezes que nos omitimos, das vezes que calamos frente a impossibilidade de alguns tipos de alianças, das vezes que esquecemos que mais cedo ou mais tarde vamos ter de responder às nossas filhas, às nossas leitoras, às nossas alunas, pelas nossas próprias escolhas.
A baleia agoniza, mas não morre, a desgraçada!
Do outro lado do mundo, também numa praia, no final de junho, onze mulheres israelenses levaram mulheres palestinas para passear em Telavive e Jaffa, sem pedir autorização do governo do premiê Benjamin Netanyahu – em desafio à rigorosa lei de entrada em Israel, conforme nos conta Viviane Vaz em matéria publicada no Correio Braziliense. “Nós comemos num restaurante, tomamos banho de mar e nos divertimos na praia”. A jornalista Ilana Hammerman conta que os passeios entre palestinas e israelenses têm se repetido cada vez com um número maior de mulheres e se transformado num ato espontâneo de desobediência civil e pacífica já que elas não reconhecem a legitimidade da ocupação, dos muros e dos postos de controle instalados por Israel no território palestino da Cisjordânia.
A baleia sente um frêmito, um frêmito como um raio, como uma faísca, um esboço de resposta, quem sabe.
Enquanto as nossas reivindicações não forem claras, enquanto não modularmos o discurso de maneira inteligente e veemente, enquanto não dissermos a nós mesmas e ao mundo qual é a maneira que queremos exercer o poder e se de fato queremos fazê-lo, enquanto não articularmos a conduta, o gesto e a voz, só nos restará o expediente da desobediência, prática feminina tão antiga esta, que nos projeta para a margem do mundo, para fora da institucionalidade, transformadoras e revolucionárias algumas vezes, inoperantes e esquecidas, quase sempre. Que é como voltar sempre ao começo, ao começo do mundo, ao começo dos tempos. A baleia estertora dentro de mim, uma ânsia, sinto cólicas de angústia nestes últimos dias, o peso e a dor enorme de carregar esta baleia moribunda, as minhas esperanças maltratadas, e essa tristeza sem fim, uma oportunidade histórica desperdiçada, quanto retrocesso! Baleia burra. Vai morrer encalhada, vai morrer na praia, baleia burra!



http://www.escribirte.com.ar/destacados/5/saramago/noticias/864/saramago:-me-preocupa-la-mujer-en-el-poder.htm
MURARO, Rose Marie. Os seis meses em que fui homem. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993.
EISLER, Riane. O Cálice e a Espada: Nossa História Nosso Futuro. Imago: Rio de Janeiro, 1989.
EISLER, Riane. O Poder da parceria. São Paulo: Palas Athena, 2007.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/07/mundo,i=211808/GRUPO+DE+MULHERES+EM+ISRAEL+DESAFIA+TABUS+PARA+SE+APROXIMAR+DE+PALESTINAS.shtml

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Para que serve a psicanálise? Por Contardo Calligaris. Em 26 de Agosto de 2010.

A ASSOCIAÇÃO Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.
A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.
Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: "A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho".
No dia seguinte, Marina Silva comentou: "Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe". Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: "Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto".
Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.
O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.
Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?
Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança "maravilhosa" com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.
Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.
Roberto Succo (com "s"), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever "Roberto Zucco", peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.
Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: "matar" o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.
O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à "maioridade". Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.
Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.
Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.
Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem "friamente" governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.
É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010




Escombros:

Lélia Almeida.

Há um oco dentro de mim. Um vão. Um buraco. E agora estou, finalmente, dentro do buraco que me habita. Este oco é a minha mãe, a que não teve pai. O lugar é como um centro. Um núcleo de titânio, metálico, me ocorre. Minha mãe é um deserto. O buraco é seco. Não verte água e nenhum tipo de secreção. Nem sangue. Nem lágrimas. Lembra a secura de uma caverna escura onde o ar é escasso. Aí está guardada a minha tristeza sem fim. E a minha raiva também. Toco o meu corpo agora e o estrago parece ser de proporções irreversíveis. Toco este corpo que ela me ensinou a odiar e a deformar. E a tristeza é seca e gelada também e me assalta em momentos improváveis. Dói o coração, sinto as pernas cansadas, palpitações. Tenho medo de não agüentar agora que habito o buraco de mim onde esteve guardada, durante tanto tempo, a minha tristeza. Eu pedinte, eu quebrada, o sentimento tão familiar de desamparo. E ela soberana, exigente, implacável. Consegui roubar-lhe a menina que não deixei nascer, a minha primogênita e, tento, muitas vezes, em vão, proteger o meu filho da sua insatisfação sem fim. Minha mãe buraco. Minha mãe oco. Minha mãe cratera. Busco-a no meio da cidade devastada, nos escombros de um tempo que já passou. Não havia angústia no meu grito, no sonho que tive com ela, quando eu chamava por ela. É um amor obrigado, como o dos casamentos arranjados, teríamos inclusive sido amigas, quem sabe, se não fosse a obrigatoriedade deste (des) arranjo. Busco-a sem ânimo, cansada já, sem o peso da preocupação que encheu o meu coração de responsabilidades insuportáveis quando eu era uma menina e ela me contava sobre a morte da mãe, o abandono do pai, o hospital, a tristeza, a perda. Foi ali que comecei a cuidar dela, arrastando esta obrigação como um fardo, vida afora. E agora cansei. Como cansei do amor inútil de cuidar de quem não me ama. E dos desdobramentos patéticos deste amor inútil que reverberaram sobre os meus dias. Minha mãe oca. Onipresente e ausente. Vou embora agora. É impossível reencontrá-la nos escombros da cidade devastada. A cidade é ela, a cidade é o corpo dela. Estendido imenso sobre a minha vida, num espaço que quase me impede de respirar. Antes de partir vou juntar as pedras de alguns muros das casas que me foram caras, marcos de janelas, cacos de telhas, azulejos partidos. Alguns objetos sem significado. Vou guardá-los, como se guardam pequenos cadáveres secos de lagartixas prensados entre as páginas de livros grossos. Só para não esquecer de que um dia estive ali na cidade devastada que é o corpo da minha mãe e que tem uma cratera no lugar do coração, e que às vezes lembra uma boca escancarada, com dentes comprometidos, a me pedir voraz o que ela mesma nunca me pôde dar. Não posso mais ficar, mãe. Levo pedaços dos escombros para não esquecer desta arqueologia sinistra que me forjou, cimentada no desamparo. E na tua ausência que cobriu os meus dias de palavras, de palavras, de palavras. Vou partir agora, minha mãe, minha mãe cratera, e encher este buraco onde habito morta de frio com a minha tristeza, com outras coisas, com literatura, quem sabe, esta que terminou sendo a única ponte possível entre nós. E começar a aprender a sentir. Simplesmente sentir. E poder conhecer quem eu sou longe do teu desamor.

In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito, 2008).

domingo, 11 de julho de 2010

Receita:

Lélia Almeida.

No filme de Michael Mann, de 2009, Public Enemies, com Marion Cottillard no papel de Billie Frechette e Johnny Depp no do melancólico John Dillinger, ele arrebata a moça da sua vida comum de recepcionista e a convida para vir com ele. A moça assustada pergunta:
- But I don´t know anything about you.
- I was raised on a farm in Moooresville, Indiana. My mama ran out on us when I was three, my daddy beat the hell out of me cause he didn't know no better way to raise me. I like baseball, movies, good clothes, fast cars, whiskey, and you... what else you need to know?

Eu sei que você não se parece com o Johnny Depp e não importa, mas não se atreva a chegar perto de mim com uma carta de intenções que não esteja à altura deste diálogo, fazendo o favor!


In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito).