quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desejos engarrafados:

Lélia Almeida.

No mercado Ver-o-peso de Belém tem garrafas onde está escrito: descarrego, vai-e-volta, aos teus pés, desatrapalha, pegadinho, agarradinho, pega quem tá longe, hei de vencer, comigo ninguém pode.
Comprei todas.
O tempo do abandono:

Lélia Almeida.

Na estação ferroviária abandonada, um relógio parado, um relógio Jeanneret e Krentel, redondo, de Pelotas, o vidro quebrado, os ponteiros intactos, VIII horas, e pichado na parede branca, com carvão: Márcio, me perdoa.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Lista de promessas para o ano novo:

Lélia Almeida.

Tenho uma proposta bem objetiva. Todos os anos faço uma lista para o ano novo, que varia muito pouco os seus itens, peço um amor decente, peço pra cuidar da minha saúde, pra me estressar menos, ganhar mais dinheiro, emagrecer, as mesmas bobagens de sempre. Afinal, somos, quase sempre, desinteressantes seres de repetição. Este ano decidi fazer diferente.
Porque em vez de uma lista de desejos, decidi me dar de presente de fim de ano um balanço, e fiquei estarrecida com tudo o que realizei: fiz cursos importantes, estudei muito, pedi demissão de um trabalho que não era mais compatível com as minhas convicções éticas, cuidei do meu filho, comecei uma prática espiritual que me aproximou de pessoas maravilhosas que se transformaram em amigas novas, o que sempre é uma bênção. Escrevi e publiquei muito e também por conta disto ganhei bons e novos amigos e ótimas alianças de trabalho. Terminei um romance e um livro de crônicas, viajei, namorei, fiz uma faxina em relações que não me satisfaziam mais, reencontrei velhos amigos e isto também foi maravilhoso. E fui muito protegida em momentos tão difíceis, tão duramente difíceis.
Enfim, a lista continua e é maior, bem maior do que esta, mas não vou cansá-los. Apenas sugiro que pensem nisto com carinho, invertam a ordem, uma reversão de expectativas pode ser uma dádiva, não somente pedir ou prometer, mas agradecer e celebrar. Porque talvez não seja uma boa idéia começar o ano com a imposição de algumas missões impossíveis e depois terminá-lo sem reconhecer o tanto que fomos fortes e grandes pelo simples fato de termos sobrevivido bravamente.
Invertam a lista e verão que o que pedimos era tão bobo perto de tudo o que realizamos, talvez esta seja uma maneira nova e mais interessante de começar o novo ciclo que se aproxima.
Que tal experimentar? Comigo funcionou às maravilhas!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010





SEXO VIRTUAL

Lélia Almeida.


Escrevi um romance que se chama Anêmona Bristol e que conta a história de uma blogueira tão ruim, mas tão ruim que a personagem termina, por este motivo, ganhando grande popularidade. Anêmona Bristol é o pseudônimo de Ítala Açucena, uma escritora fracassada que se pergunta por que as mulheres têm tanta dificuldade de escrever humor e erotismo.
Para a construção da personagem criei em algumas redes sociais, durante muitos meses, o perfil de Anêmona Bristol, que é uma espécie de piriguete retardada, gostosa e popozuda, e assim pude teclar com marmanjos de todo o país, noites inteiras e conheci um universo peculiar. Peculiar e familiar, se me faço entender. Porque o que tem na rede é o que tem na vida real, na mesa do bar, do boteco, do trabalho, de qualquer lugar onde as pessoas habitam e convivem. E mesmo tendo lido muitos especialistas sobre namoros e encontros na internet, não sou capaz de teorizar sobre o tema. A minha pergunta, a mesma de Ítala Açucena, é simples: por que as mulheres não escrevem humor e não falam sobre sexo.
Descobri algumas coisas que todo mundo que navega sabe. Você passa a ser chamada, imediatamente, por nomes super originais como gata, princesa, linda e querida, o que por si só já é uma retardadice. Estou falando dos homens, mas quero dizer que também conversei com muitas mulheres e a idiotice é a mesma, com seus queridos, gatinhos, meu príncipe, gotoso, etc. A cordialidade no diálogo dura segundos, o tempo da criatura perguntar de onde vc está tc, você aprende a escrever naum, te kero, humm, nesta outra língua que as pessoas da minha idade precisam aprender e que qualquer pessoa de 30 anos domina à perfeição, intercaladas com carinhas com sorriso pra cima, pra baixo, corações vermelhos latejantes de muito mau gosto, vídeos de beijos de língua completamente artificiais, fodas horrorosas e vídeos do youtube com músicas como Have You Ever Really Loved A Woman?, do Bryan Adams, Titanic (LIVE), da Celine Dion, Leviana, do Reginaldo Rossi ou Toda Mulher, do Wando. A cordialidade dura segundos, você diz de onde está teclando, o outro também, ele vai dizer que a sua cidade é linda e que tem muita vontade de conhecer, pergunta se você é casada, ele quase sempre diz que está casado, mas que conta com a imponderabilidade do destino e que por isto está ali babando no seu perfil. Alguns ainda se arvoram a certo grau de sofisticação espiritual dizendo que sentem a sua energia e especulam sobre o quanto é mágico identificar-se com uma pessoa sem conhecê-la, afinal, nada é por acaso, apelando para expedientes relativos à sincronicidade junguiana ou para o repertório astrológico.
Passados os breves segundos da cordialidade vai-se, então, diretamente para a putaria deslavada onde você lê pérolas originalíssimas como toma rola, toma pica, me dá a tua bundinha, te chupo toda, e o procedimento é meio padrão. Há um padrão, do tempo do término da cordialidade até o começo do embate e, imediatamente, o senhor pergunta pelas suas mais secretas fantasias e, sem sequer ler o que você possa ter escrito, declara que deseja, sem mais delongas, o seu rabo. Porque a única e maior transgressão sexual do macharedo brasileiro, de qualquer idade, do Oiapoque ao Chuí, é comer um cu. Pensem o que quiserem, eu não interpreto nada, eu sou uma escritora, eu só ouço e escrevo. Indo para o âmbito internacional, os portugueses clamam por comer-te a gatas (de quatro) e querem traçar a tua rata. E foi neste momento que tive de alinhar o vocabulário, com alguns, porque, além das diferenças regionais, mesmo transcontinentais, havia outras de ordem diversa que me broxavam e impediam de continuar a conversa com homens adultos que falavam do seu pintinho e com mulheres velhas que falavam da sua coisinha.
Alicia Steimberg, uma das escritoras mais geniais da atualidade, argentina, escreveu uma verdadeira obra-prima chamada Amatista, que ganhou um importante prêmio de literatura erótica, La sonrisa vertical, e que, lamentavelmente, nunca foi traduzido ao português.
Steimberg, em Amatista, cria um diálogo entre uma psicanalista e um paciente que faz com que gente leia o livro, de cabo a rabo, sem respirar, uma perfeição. Também é dela uma reflexão sobre literatura erótica onde ela diz que os argentinos não têm o menor problema de dizer que são muito liberais e que trepam muito e com quem lhes apetece, mas que são incapazes de dizer, com o mesmo desprendimento e orgulho, que são grandes punheteiros. Para ela escrever literatura erótica e ter um público leitor interessado significaria mais ou menos isso, uma grande masturbação coletiva. Difícil é fazê-lo com a perfeição que ela alcança. Porque se pensarmos no ato em si, há uma mecânica simples que obedece e movimentos de entra e sai, levanta e sobe, e não há como transformar esta dinâmica simples em algo interessante ou excitante.
Consta que a população brasileira, dos quase 300.000 verbetes do Houaiss, faz uso de uma média de apenas 4.000 deles, e eu garanto a vocês que no quesito putaria-na-rede o vocabulário deve estar restrito a muito menos de 50 palavras, já que a prática me permitiu contabilizar também esta precariedade quantitativa. Eu e Anêmona Bristol buscávamos poses, posições, e, principalmente, vocabulário, entendendo que há maravilhas na língua portuguesa, palavras mimosas e sugestivas como côncavo, baba-de-moça, vara, pomba, rombudo, badalo, rola, ferro, estojo, urna, cava, cona, bainha, vagem, berbigão, castanha, carlotinha, crica, dedo-sem-unha, dente-de-alho, espia-caminho, hastezinha, pevide, pito, pinguelo, sambico, mitra, três ou três-vinténs, cabaça, monte-de-vênus, larga, aguada, apertada, arrombada, bela, perseguida, bochechuda, cabeluda, crespa, pentelhuda, preta, suada, boca-do-mato, brecha, caixinha de segredos, canoinha, cova, devora cobra, lanho, cofre, ninho-de-rola, rego, escrínio, aranha, bacalhau, barata, bichana, lacraia, mosca, passarinha, perereca, pomba, rola, ursa, touceira, cebola-quente, barbiana, romã, rosinha, xexeca, xoxota, breba, buça, búzio, ferrolho, ganso, rodela, bronha, mastruço, gruta, porongo, estrovenga, bagos, bimba, pimbinha, bilola, bilunga, bastão, fole, bífida, entre outras.
Em se tratando do vocabulário erótico na rede podemos concluir que nada é surpreendente ou instigante e o que temos é de uma pobreza atroz.
Importante esclarecer que o que me interessava era a narrativa da coisa, o palavreado mesmo, e que, portanto, o embate durava o tempo exato que as criaturas suportavam o meu espichado cu doce, sem webcam porque com ela, as palavras, que era o que eu buscava, desapareciam imediatamente.
Fiquei, nas primeiras semanas, estarrecida com a naturalidade que os bofes perguntavam, vc que ver o meu pau? Nossa! Como os homens amam os seus membros, isso é realmente digno de nota e estudo, não conheço nenhuma mulher que tenha tamanha obsessão e genuíno afeto por suas partes íntimas.
E aprendi outras coisas importantes que vou levar para a vida e que como sou generosa vou dividir com você, leitor. Na rede, como na vida, há sempre um que ama mais que o outro, um que se dedica mais, que se esforça mais. Reconheço que no meu exercício literário, onde o espírito da puta se mesclava ao da antropóloga-assistente social em campo, propiciei momentos maravilhosos para algumas criaturas, com a riqueza de detalhes que requer a descrição de um bom fellatio ou de uma eficiente cunilíngua, e a criatura gozava com um simples kasdhjoiwqfksfiowyhwndkshoaidiwhdlwqn! Dá licença, é muita preguiça né! Na vida real deve ser daqueles preguiçosos que deixa uma mulher com LER (Lesão por Esforço Repetitivo) em determinadas situações onde se requer empenho e constância. O sexo na rede é uma debiloidice, eu garanto, assim como na vida real, onde quase sempre também é complicado.
E sobre a minha busca posso dizer que foi um flagrante desastre, uma decepção. Larguei a rede e voltei aos clássicos literários, porque o erotismo não tem a ver com a coisa em si, mas com o contexto e este segredo, sabido por muitos, é facilmente esquecido, tanto na vida, como na rede e na literatura. O que nos excita não é o que se mostra, mas o que se esconde.
A pergunta sobre por que as mulheres não escrevem humor e erotismo continua, para mim, sem uma resposta satisfatória. A revolução sexual, que liberou as mulheres para a farra com anticoncepção, não destravou, devidamente, as suas línguas e isso é sintomático. Raras exceções merecem ser mencionadas, relembrando aqui alguns poucos nomes que me são caros como as imbatíveis Hilda Hilst e Márcia Denser, a própria Steimberg, as históricas Anaïs Nin e Collete e duas senhoras brasileiras, sucesso absoluto de público de sua época, a quem Anêmona Bristol homenageia, Adelaide Carraro e Cassandra Rios, dignas de séria e urgente revisitação.
Despeço-me contando sobre um fenômeno que lanço como desafio e charada para os entendidos de sexo na rede. Depois de despachar alguns marmanjos inconvenientes recebi vários vídeos do youtube com trechos do Pequeno Príncipe que reclamavam, através daquela raposa imbecil, que eu era responsável pelo que tinha cativado, eram os mesmos destemidos comedores de rabo, rejeitados e ressentidos, transformados em queixosas misses, choramingando pela foda perdida. Só me ocorre pensar que uma queixa deste tipo anuncie o fim da civilização, o fim do mundo mesmo, uma tristeza sem precedentes na história das relações, tema que entrego de bandeja para os estudiosos da crise da masculinidade de plantão e das feministas doutoras em gênero, porque eu agora vou cuidar de terminar o meu romance, Anêmona Bristol, que será mais um na fila de outros que não consigo publicar em lugar nenhum deste país.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Grande Mestra:


Lélia Almeida.

A tristeza foi a minha Grande Mestra de 2010. Vou chamá-la assim, Grande Mestra, com a reverência das maiúsculas. A tristeza não é a mesma coisa que a depressão, também é diferente da angústia, da ansiedade, da agonia. A tristeza é quieta, e sem o histrionismo da depressão a tristeza é expressiva, tão delicada a tristeza, tão mansa.
Esta madrugada, depois de pelejar todos os dias do ano com a tristeza, nesta madrugada quase desisti da luta. Não é uma luta contra ela, propriamente dita, mas é o como a gente sobrevive todos os dias com ela ali, onipresente. Levantei de madrugada para tomar água. Sentei na sala e disse a Deus, a Virgem Maria, a Deusa Tara, eu não agüento mais, disse assim, com uma intimidade doméstica, de quem se atreve, como último recurso, discutir a relação com a transcendência. Pedi por compreensão, só isso, compreensão disto que me é impossível compreender, e chorei como uma menina, de cansaço e exaustão.
Então, mais íntima ainda, atrevida quase, pedi colo pra Deus, pedi água, eu quero um colo, eu disse, baixinho, eu aprendo tudo o que esta Grande Mestra tiver que me ensinar, mas agora Senhor, neste momento, eu preciso de colo, eu quero colo, senão eu vou morrer.
O amanhecer em Brasília é uma experiência. Não é apenas um amanhecer, é uma experiência. Fiquei olhando pela janela aquela bola de fogo que surgia no horizonte, sentindo as lágrimas que escorriam sem parar e a Grande Mestra ali, na sua presença inequívoca.
Os esotéricos dizem que a hora mais escura da noite é antes do amanhecer. Que é a hora da noite escura da alma de San Juan de la Cruz.
Imediatamente uma grande paz tomou conta de mim, a luz do dia nascendo é da cor da minha tristeza, iluminada, suavemente iluminada. Uma paz tão grande, que mesmo sem conseguir compreender o que tanto me mata em vida todos os dias senti que de alguma maneira, estava tudo certo. E que talvez seja mais sábio pedir por aceitação do que por compreensão. Negociei com a transcendência, pedi a Tara, a Virgem e ao Senhor, que eu posso estar com ela, com a Grande Mestra, mas que não me tirem nem a minha alegria e nem a minha fúria, que eu não sou nada sem elas.
Uma paz imensa eu fui sentindo, tão grande que tive forças pra fazer um café, regar as plantas, dar comida pros gatos, arrumar a casa, deixar preparado metade do almoço e voltar pra cama só mais um pouquinho, vitoriosa, brava e vitoriosa, sem ter desistido.
A tristeza, que foi a minha Grande Mestra de 2010 me ensinou mais uma coisa hoje, já que os ensinamentos têm sido diários. Que a gente nunca está só. Que com Deus é assim, a gente pede colo e Ele dá. Colo quentinho, disfarçado de uma paz verdadeira e uma grande disposição para limpar a casa e arrumar a vida.
Agora já sei, era eu que não estava sabendo pedir. O que eu quero é simples, eu quero colo, colo de Deus.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Receita contra traições, com sangue escorrendo entre os dentes
e mortes imprescindíveis:

Lélia Almeida.

Sofri da mesma traição duas vezes. A primeira quando o meu filho nasceu e minha vida virou um inferno de dúvidas, preocupações e grandes sustos. Um inferno cheio de gratificações, diga-se, mas senti muito que ninguém tivesse me avisado que uma mudança tão avassaladora ia me transformar em menos de um turno em outra pessoa. Minha mãe, pragmática, dizia: engole o choro e toca a viver.
A segunda traição, de mesma natureza, foi quando o mesmo filho entrou nesta zona pantanosa que começa aos dezoito anos e que pode terminar a qualquer momento, inclusive quando o infante tiver 40 anos. É o momento do segundo parto.
E se ele for um rapaz então, como o meu, nós mães, nos tornamos os seres mais odiados e detestados do mundo e todo o idílio que vivemos durante duas décadas com eles, respondendo pavlovianamente a todas as suas demandas, acaba, de uma noite para uma manhã. Ele nos odeia, mas não vai embora. Fica ali para nos lembrar dia e noite que nos odeia e a vida se transforma num inferno.
Estamos agora em plena menopausa, os humores flutuantes como os dele. A vida se transforma num inferno sem as tantas gratificações anteriores. Você, mãe, se transforma na figura de autoridade mimetizada num saco de areia de pancadas, num momento em que muitas outras coisas fantásticas em sua vida estão acontecendo: amadurecimento pessoal, sucesso profissional, novas amizades, casamentos falidos que terminam, novas oportunidades, etc.
Não vou trair ninguém: é um inferno. Mas não desistam dos rapazes. Façam a única coisa que é possível fazer por eles neste momento. Não precisa ser com um afiado facão de cozinha ou de açougue. Sempre há soluções práticas ensinadas pela ancestralidade. Lembrem da mulher macaca que vive dentro de nós. Ou de outras figuras exemplares.
Exausta com as demandas da situação, numa noite insone e no meio de uma reza furiosa, o espírito de uma índia charrua, num sonho iniciático, se abateu sobre mim e me lembrou que sou uma mulher dos pampas, gaúcha fronteiriça onde bravíssimas mulheres guerrearam e mataram para sobreviver na imensidão dos campos. As índias charruas, diferente de outras mulheres, quando violentadas pelos homens brancos, rasgavam com uma faca o próprio útero para que seus filhos não nascessem cativos. Ou lembrem da bravura das vivandeiras, que seguiam os homens nas guerras, e jamais se detinham por conta de marmanjos mimados que se negavam a crescer.
Tomem, minhas amigas, do espírito destas mulheres, deixem a alma selvagem delas recair sobre a de vocês, sintam que elas estão próximas e façam, vocês mesmas o que elas fariam sem dó nem piedade: cortem este cordão umbilical consistente e sem fim, que vai engrossando enquanto eles crescem, cortem com os próprios dentes, e saiam vida afora, urrando um grito liberador, dentes afiados e ensangüentados e vão viver as suas próprias vidas.
Porque não há, senhoras, nada mais que possamos, efetivamente, fazer por eles. Agora eles vão ter de crescer.
E nós temos de voltar a dançar e a cuidar em outro ritmo da vida que nos resta viver. Boa sorte para todas nós!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Hoje a minha faxineira me disse que nem gosta mais tanto assim do marido, mas que vai continuar com ele. Perguntei o motivo e ela disse, Dona Lélia, ele nem me bate!
As mortes das irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal, covardemente assassinadas pela ditadura do general Rafael Leonidas Trujillo da República Dominicana, foram as responsáveis pelo dia 25 de novembro ter se transformado, por determinação das Nações Unidas, em março de 1999, no Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. A história destas protagonistas cheias de coragem e amor à vida nos é contada, primorosamente, no romance de Julia Alvarez, No tempo das borboletas, publicado no Brasil pela Rocco em 2001. Outro livro esclarecedor sobre este período é A festa do bode, do Mario Vargas Llosa, publicado no Brasil pela editora Arx, em 2001. Vale a pena conferir.
Esta não é exatamente uma data de celebração, que seja de reflexão.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Li e gostei:

“Os cães, em seu papel de melhores companheiros do homem, já tiveram inúmeras características positivas e negativas atribuídas a eles. Desde tempos remotos esses animais são associados com as experiências mais soturnas da vida, sendo vistos em eras primitivas como mensageiros da morte. Apesar de menções ao domínio de um “cão negro” ou de uma “nuvem negra” existirem desde a época dos celtas, Samuel Johnson foi provavelmente o primeiro escritor a traçar uma associação dessa imagem com a depressão. Winston Churchill popularizou a metáfora, (...) depois dele, muitos escritores, artistas e cantores descreveram o cão negro.”

O tema é de difícil trato, mas Matthew Johnstone conseguiu escrever um livro sobre a depressão que é uma verdadeira pérola: Eu tinha um cão negro, seu nome era depressão. Os desenhos são simplesmente adoráveis e nos fazem ver a doença de uma maneira gráfica, terna e até mesmo divertida. Os desenhos são do próprio autor e o prefácio é de Gordon Parker, Diretor executivo do Black Dog Institute da Autrália.
Vale a pena conferir, é da Editora Sextante.
Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me dos fascínio que tantos de nossos autores hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de paria e severa no meu obscuro trabalho de escrever”.

Dos papéis de J.M.E. in : A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins

sexta-feira, 5 de novembro de 2010



Benjamin

Lélia Almeida.


Do pouco que consigo lembrar daquele momento, só posso dizer que Benjamin nasceu primeiro do meu pensamento, partejei-o através de uma idéia, ou de uma sucessão de idéias. É o que sei: partejei-o pela cabeça, primeiro, chegou-me assim, como uma idéia, antes mesmo de ser um sentimento. Depois Benjamin tomou-me por inteiro e agora já não posso viver sem ele.
Daquele momento lembro da velocidade e da confusão dos pensamentos, que pareciam nuvens rápidas que se desfaziam enquanto voavam, disformes, uma excitação mental que me deixou noites inteiras de olhos estatelados na escuridão em busca de uma forma, de uma idéia, de uma pista que me levasse até Benjamin. Noites vazias que me faziam atravessar os dias trôpega de exaustão. E que pareciam, a princípio, apenas isso e nada mais, um cenário de vazio e escuridão. Meu corpo inquieto se movimentava ansioso, respondendo à excitação da minha mente. Como a urgência de um parto, que não há como adiar. Até o dia em que, vazia de respostas, cai num sono profundo, o corpo pedindo o calor da entrega, a paz do descanso, e fechei os olhos quebrados e desabei na noite dos tempos.
Era o início dos tempos. Eu estava nua num lugar seco e deserto que parecia uma tênue paisagem lunar sob um céu cheio de estrelas. Fazia muito frio e a minha cabeleira era farta e longa. Eu caminhava sem rumo sabendo que não podia parar, como se buscasse algo ou alguém, atrasada quase, e que por isso eu não podia parar. Uma pressa, um frenesi movia os meus passos, meus pés firmes sobre a terra escura e as sombras que se projetavam da luz das estrelas através do meu corpo sob a superfície da opalina. Não sei dizer de onde ela saiu, a velha que segurava o cajado e que tinha os cabelos eletrizados como os meus, menos fartos, devo dizer. Lembrei de Tirésias, é claro, mas ela não era cega e seus olhos brilhavam com ardor.
- Quem é você? – eu perguntei.
- Pergunta errada, sua tonta, pergunta errada.
- Onde estou? Que lugar é este afinal?
- Este é o lugar onde tudo começou, no início dos tempos.
- Mas no início dos tempos não havia um paraíso exuberante...
- Um homem, uma mulher, uma maçã e uma cobra?
- Sim!
- Ora, faça-me o favor, uma mulher tão estudada, tão inteligente e com tão pouca imaginação! Não me diga que acreditou nesta bobagem!
- Na verdade nunca questionei esta história.
- Preguiça de pensar, mais ainda de imaginar.
- Então não havia um homem e uma mulher no início dos tempos?
- A costela! Já sei, você quer o raio da costela. Faça-me o favor!
- Não, na verdade nem sei o que pensar!
- Não temos tempo menina, faz muito frio aqui, temos de ser rápidas, há muito o que fazer.
- Sim.
- Olhe a paisagem. É seca. É dura. Mas também há beleza no que é selvagem.
- É assustadora.
- Aqui é o lugar de conceber. E de parir. Só isso. Preste atenção.
- Não há nada para olhar. Só desolação.
- Isso porque todos, finalmente, partiram.
- E eu vou ficar aqui sozinha então?
- Não, sua tonta! Você vai obrar comigo! Trabalhar ao contrário, trabalhar para dentro.
- Uma desolação só!
- A desolação é o avesso de uma miragem.
- Vou morrer, sinto como se caísse de uma ponte para o vazio.
- Concentre-se.
- O que é isto?
- Uma cratera e no meio dela há um lodaçal que precisa ser ativado. É a lama primordial. Lama, água e terra apenas, não há o que temer. Venha.
- O que devo fazer?
- Olhar, primeiro. E depois reconhecer.
- Olhar o quê?
- Que todos partiram.
- Disso eu já sei. Faz tanto frio. Tanto frio.
- Veja-os, estão muito longe agora, lá onde a vista não alcança mais.
- Eu os vejo. Meu pai. Minha mãe. Meus irmãos. Todos partiram. E esta luz das estrelas que parece tornar tudo mais frio ainda.
- Concentre-se agora. As mãos na lama. Enfie as mãos na lama, sinta como a lama se movimenta e como é ela quem molda as suas mãos também, assim, imprima força nos braços, isso, nas mãos, nos dedos.
A velha me ajuda a enterrar os braços até a altura dos cotovelos no lodaçal. “Força”, ela diz. E uma tristeza antiga parece desfazer-se enquanto movimento os braços, com a força de quem quisesse resgatar um improvável náufrago de um buraco tão pequeno e profundo. “Força”, ela repete. “E deixe ir aquela gente que já partiu há muito tempo”.
Sequer os vejo mais, quase os imagino como numa reminiscência que teima em voltar. Lembro de uma praia, da água salgada nos cabelos e castelos de areia na beira de um mar imenso.
- Concentre-se, ela diz enérgica, não há mais tempo a perder.
Estou sentada sobre as minhas pernas dobradas, ela, a velha, está atrás de mim e seu corpo velho me sujeita e me ajuda no movimento dos braços que faz com que a lama apareça, cresça, se incorpore, começamos a suar as duas, com a velocidade e o rigor dos movimentos.
- Você terá de inventar e depois criar o que deseja.
- Um homem, eu disse.
- Que seja! Ela disse. – Já!
Trabalhei com força na forma de uma espécie de boneco, esboço, ensaio, tudo muito precário.
- As mãos e o pensamento. Vamos. Fale-me dele.
- Ele se chama Benjamin.
- Bem já mim. Beija mim. Gostei, ela ri.
O corpo de Benjamin é uma perfeição, ele é mais alto e mais forte do que eu, demoro-me especialmente ao desenhar seu membro que cresce no movimento feliz das minhas mãos ágeis. Desenho-lhe as coxas, os glúteos firmes e ela diz: “não se disperse, depois você terá tempo para brincar à vontade”.
Os olhos de Benjamin não têm fim, posso entrar neles como que entra num poço profundo e Benjamin me vê, inteira e me acolhe. Seus braços fortes e seu corpo me envolvem.
- Ele me protege, eu digo.
- Um homem com um membro ereto e proteção! É isso que você quer de um homem, sua estúpida? Trabalhe!
Minhas mãos não param. Já não sinto mais o corpo da velha sobre o meu, outra vez, ela sou eu, como já aconteceu outras vezes. A minha força vem da força dela. Benjamin, belo, grande, forte, limpa a lama do corpo e do cabelo sedoso, adora a brincadeira, me olha assombrado. O brilho de algo metálico me desperta do encantamento de admirá-lo. Há um punhal de prata perto do buraco de onde a lama nasce. Sei que tenho que ser rápida. Corto, seguindo a linha do desenho de uma meia-lua, o seio esquerdo, perto do coração. “Meu amor”, eu digo, “venha, venha a mim”. Benjamin me abraça largo e me beija intensamente antes de se alojar dentro do meu coração. Dentro de mim.
Acordo então da noite dos tempos, me espreguiço, muito longe agora da paisagem lunar, que agora mais parece uma névoa ou a lembrança de um sonho pouco nítido. Acordo cheia de fome, apetites, desejos, saudades, anseios. E sinto o calor que vem da terra, da água, do dentro. Abro a janela, o sol me inunda. Benjamin. A solidão é como uma bênção. Fecho os olhos sob o calor do sol.
Partejei-o inteiro, o meu homem.
E me transformei numa dançarina muito antiga no seu abraço.



In: Anovaela. (Fragmento, texto inédito, 2008).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Teoria da IFG:

Lélia Almeida.


Sentei entre duas moças num vôo entre o Rio de Janeiro e Brasília. Exausta me acomodei para dormir e finalmente descansar depois de dois dias de trabalho intenso. Depois que as instruções de vôo foram dadas uma delas, uma moça linda de uns 25 anos me disse:
- A senhora viu que TODOS os homens deste avião têm uma aliança numa das mãos.
- Não, não vi.
- A senhora não olha mais pra isso?
- Não querida, na minha idade a gente só olha pro pé deles.
- Pro pé? Por causa do tamanho, por conta daquele cálculo entre uma coisa e a outra?
- Nãooooo, querida! Na minha idade a gente olha pra qualidade do sapato pra ver o tanto que a criatura é pobre, o tanto que dá pra encarar...
- Olha que interessante, nunca pensei nisso, disse a outra moça.
- Mas eu lhe digo uma coisa, voltou a primeira, viajo toda a semana e é uma tristeza viu, cada homem lindo e aquele alianção ali no dedo ó, como uma coleira diminuta, uma tristeza viu, um desperdício.
Decidi que não ia dormir, me interessei pela conversa e perguntei se ela tinha alguma explicação.
- Explicação não, senhora, eu tenho isso e mais do que isso. Eu tenho uma teoria.
- Sério?
- A necessidade da manutenção da sagrada família, por um lado.
- Sim...
- Teve um que teve a cara de pau de me dizer, mas querida, aquilo lá não é um casamento, é uma família!
- Argh!
- kkkkkk!
- E por outro lado é a questão da IFG.
- Um índice novo? Este eu nunca ouvi falar.
- Fui eu que inventei, é a sigla da minha teoria, a teoria da Ilusão da Foda Garantida.
A outra moça começou a rir e resolvemos as três pedir uma cerveja para a aeromoça.
- Os caras casam porque eles não podem viver sem a metidinha, e casados eles não tem que ir a luta, batalhar a caça na dureza da vida e dos sábados solitários, enfim, casar é mais prático, ta ali, ta na mão, uma metidinha pobre e morna, mas garantida. Na maioria das vezes eles nem gostam mais da patroa, mas estão ali, comparecendo, tudo em nome da IFG.
Eu tinha certeza de que o avião inteiro estava nos ouvindo, não me importei e dei corda para aquela pitonisa de 25 anos, tão jovem e desalentada, socializando sua sabedoria comigo, com a amiga e o avião dos deuses de alianção. Deste tamanho, o alianção, ó, ela repetia.
Um índice novo na praça, meninas, e eu nem suspeitava!
Híbrido:


Lélia Almeida.


Qualquer mulher da minha geração viveu experiências parecidas, negue quem quiser. E pela nossa idade, já vivemos de tudo um pouco. Bons e maus casamentos, namoros desastrosos, terriveis enganos e amores maravilhosos e inesquecíveis. Tivemos filhos e algumas de nós já somos avós. Daí a nossa responsabilidade com as gerações vindouras, a das mulheres mais jovens. A minha geração, na verdade, se esbaldou entre o pós-revolução sexual, anti-concepção aqui incluída e o pré-aids, e mentem aquelas que negarem que a farra foi grossa.
Claro que estou falando de coisas quase esquecidas pela contemporaneidade. Nestes tempos em que se fode muito pouco e se fala muito sobre isso, e quando falar muito sobre o assunto se constitui no maior sintoma de que a coisa ta braba, ta rala, ta escassa, geral. Portanto, é correto dizer que qualquer mulher da minha idade já teve no seu repertório, pelo menos,entre outros, um argentino gay travestido de macho, um padre indeciso e um homem-que-está-se-divorciando.
O mundo anda, o tempo passa, mas tem coisas que não mudam.
Meninas, atenção: um-homem-que-está-se-divorciando é uma entidade que não existe. Ou o homem é divorciado, está sozinho e disponível para você, ou ele é casado. Um homem-que-está-se-divorciando é uma espécie de híbrido e quase nunca, ouçam bem, quase nunca vale a pena. Então só resta uma possibilidade, a de que vocês sejam espertas e partam para a esbórnia cientes de que os híbridos não se reproduzem. O que equivale a dizer que a criatura em questão não vai decidir jamais o seu impasse, é você quem vai decidir a parada.
A grande diferença entre as mulheres da minha geração e a das minhas jovens leitoras que me pedem conselhos é o tamanho e a consistência da paciência. Da santa paciência! Vocês saberão se vale a pena este esforço hercúleo, esta empreitada ingrata, mas não se esqueçam: um homem-que-está-se-divorciando é uma categoria facinha de desvendar, é um híbrido, um mulo, o que pode significar, em simples e bom português, que o troço não vai render.
Pensem bem meninas, e depois não digam que eu não avisei.

sábado, 23 de outubro de 2010




Medo dos cães, meu Pai:

Lélia Almeida.

Hoje eu sei que o medo é frio. Como que metálico. Como devem ser os trilhos por onde deslizava o trem que levava as mulheres da família para fazer o procedimento do outro lado da linha divisória, na fronteira. O procedimento sempre se faz longe de casa, que é pra não se deixar pistas. É assim desde que o mundo é mundo. E não vai mudar. Voltaram sempre quebradas, todas elas, o corpo dobrado no movimento desencontrado da cólica de um caracol vazio, as almas secas. É assim que todas sentem, hoje sei, embora não se fale muito no assunto. É frio, eu dizia, o medo. É gelado. Como os trilhos que são como os objetos cortantes usados no procedimento.
Quando acordei vi um crucifixo na parede branca e cheguei a pensar que estava no céu. Uma freira se aproximou, me alcançou um absorvente, disse que eu podia ir e que a receita estava dentro da minha mochila. Desejou-me boa sorte. O ferro da cama antiga e os objetos cortantes, os trilhos, o medo é frio e metálico.
Minha amiga me esperava dentro do carro. Abriu a porta com cuidado e me ajudou a sentar e a colocar o cinto. Quando a casa ficou para trás eu disse que assim que eu tivesse o dinheiro... Ela respondeu que eu não me preocupasse, a gente sempre faz isso por alguém, essa é a paga, é assim que a gente paga, ela explicou. Chá de macela, o comprimido, cama e um frio que não passa. Sonhei nesse mesmo dia que você era uma menina, desde então quando penso em você, penso numa menina, por causa do sonho, deve ser. Minha mãe e minha avó não tiveram a mesma sorte na viagem de volta do procedimento. Sacolejaram no trem, mortas de dor e tiveram que dar a janta para as crianças e para os maridos e continuar a fazer a vida andar. Uma vida tão cheia que elas mal lembram, agora, e que talvez seja por isso que elas fiquem sem saber o que me contar sobre aquele dia. E sobre todos os outros que se repetiram ao longo de uma vida, quando elas tomavam o trem sem saber se voltavam ou não para preparar o jantar. Era assim naquele tempo, elas me dizem. E o tom da voz da minha mãe fica mais baixo, e o da minha avó, mais metálico.
Ao contrário do que aconteceu com elas, depois do procedimento fui de carro pela mesma estrada para a casa onde vivem agora o meu Pai e os cães de guarda. Fui para lá para descansar. Há mato sobre os trilhos e a máquina está enferrujada perto da estação. Diga que é cólica menstrual, essa é sempre uma boa explicação. E assim você vai pra cama sem muita conversa, ela me orientou, a minha amiga. O tempo passa e o procedimento é sempre o mesmo. Desde as agulhas de tricô e crochê atravessadas, chás, raspagens mal feitas, óbitos.
É frio o medo. E ácido. Não reconheço o cheiro do meu corpo. Suo e tremo de frio. Meu Pai toma o mate na frente da lareira enquanto uma voz grave, de homem, despeja monótona o noticiário na Rádio Belgrano de Buenos Aires. Meu pai dormita ao pé do fogo. Abro a porta e saio na noite gelada enrolada na ruana grossa. O céu imenso, o campo que parece um mar, a figueira. Sento perto do balanço quebrado e choro baixinho. Os cães começam a latir. Cuscos de merda, meu Pai sempre diz, um dia ainda matam um vivente e me encrencam. Estão furiosos. Começo a suar frio sob o peso da ruana e sinto o líquido quente escorrendo entre as minhas pernas, lembro que pensei, a bolsa estourou, pensei que você ia nascer, um delírio como uma estrela cadente jogada naquela imensidão, o campo. Você que não existia mais. O sangue que escorria era você não sendo. Comecei a chorar então e o que saía de mim era como um miado e isso deixou os cães mais loucos ainda. Foi então que ouvi a voz do meu Pai, onde você está, minha filha? Ele perguntou, entre brabo e assustado. Eu disse, tenho medo dos cães, tenho medo de morrer. Ele disse, vamos pra casa, e fique quieta que então eles vão sossegar também. Mal podia andar. E a dor que parecia um trem veloz sobre mim. Mas a voz do meu Pai me assegurava que se eu ficasse quieta tudo ia ficar bem, que os cães iam se acalmar.
Quando lembro daquela volta pra casa, ao lado dele, tenho uma sensação estranha, minha filha. Se é que posso lhe chamar assim. A de que um silêncio tomou conta da minha vida, como quando a gente abaixa o som da TV num filme de terror ou de suspense, pra não sentir medo. E de que tudo ficou bem então. Os latidos dos cães foram diminuindo dentro de mim e a minha vida foi se enchendo de silêncio. E de tudo o que o silêncio pode guardar, culpa, vergonha, medo, essas coisas de mulher. E de uma saudade que nem eu entendo. Uma vida sem os seus barulhos, minha filha.
Uma vez que outra sonho com os trilhos e com os objetos do procedimento que ora brilham ora não, como relâmpagos, no escuro. E aí lembro que um dia você esteve aqui. E para que tudo fique em paz outra vez, volto a dormir e esqueço. Meu Pai tinha razão, posso lhe dizer isso agora, o silêncio é um santo remédio. Um remédio que faz a gente se acalmar e ter a certeza de que a gente não vale nada.

sábado, 9 de outubro de 2010

Expedição:

Lélia Almeida.

Ontem no final do expediente minha secretária que é uma moça maranhense adorável, no vigor dos seus 27 anos, estava passando um batom vermelho e perfume antes de encerrarmos a semana. Perguntei a ela se estava pronta para o crime? Ela disse, - ai Dona Lélia, o mar não tá pra peixe viu! Aqui em Brasília só tem homem casado ou gay! E arrematou, - olha a coisa tá tão complicada que eu e as minhas amigas estamos pensando numa expedição aos mineiros chilenos, aqueles que estão enclausurados lá embaixo da terra, sabe! Desci o elevador às gargalhadas lembrando os tempos das urgências hormonais e que as grandes necessidades sempre clamam por soluções criativas!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ele me quis!

Lélia Almeida.

Sofia, a minha sobrinha de quatro anos é apaixonada por um colega de aula chamado João Pedro. Ontem ele a convidou para brincar. Ela me contou depois, com a voz que mal saía e com os olhos que pareciam duas jabuticabas nadando na calda do enamoramento: - Tia Lélia, ele me quis. Ele me quis brincar comigo. Pensei com meus botões: - Putz, começou o sofrimento!