É Natal e nasceu uma menina:
Lélia Almeida.
Numa tardinha quente de fevereiro, minha mãe, grávida de sete meses, subiu os três andares do edifício onde morava, carregando uma melancia. O trabalho de parto começou naquela noite. E ninguém sabia que era um casal de gêmeos. Meu irmão nasceu um menino muito pequeno e quando minha mãe fez força para expulsar a placenta o médico anunciou que era uma menina, menor que ele ainda. Durante muito tempo o meu apelido familiar foi o resto. Meu irmão ganhou peso e pôde ir para casa e eu fiquei ainda um tempo na incubadora do hospital. Fiquei para ganhar peso através de uma sonda de soro e gotas de leite materno pingadas num chumaço de algodão pelas mãos de freiras fervorosas que me batizaram como Lélia Maria, em homenagem à Virgem, para que eu sobrevivesse. Sinto que todas as decisões da minha vida não foram, inteiramente, tomadas por mim. Mas pelo espírito valente daquela menina que se mantinha a sopros e determinação, dia a pós dia, decidindo ficar.
Todos os dias deste ano de 2010 vivi provas que me pareceram impossíveis de suportar, e ao final de cada dia, agradeci a travessia. Mas hoje eu sei que a decisão de suportar ou desistir não me cabia. Aquela menina diminuta já tinha decidido por mim, lá, no início de tudo. E hoje, quando me desespero entro em sintonia com o espírito dela, o corpo enrolado em fios e panos, numa incubadora que talvez lembrasse a precariedade da manjedoura como a daquela história de tanto amor. Ela respira e não desiste. Eu reverencio aquela menina a cada noite escura que meu coração pede trégua. Então eu fico, eu digo, depois de orar, e agradeço a sua força.
Eu fico. E quero a minha jornada por inteiro.
Com tudo o que me cabe.
Amém!
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
domingo, 26 de dezembro de 2010
sábado, 25 de dezembro de 2010
Acorda, minha filha, o bofe é casado!
Lélia Almeida.
Ele disse que você é a tampa da panela dele ou o chinelo do seu pé torto e que nunca imaginou encontrar uma mulher tão maravilhosa como você?
E convidou você pra sair numa terça ou quinta-feira, na semana das confraternizações de fim de ano, na época do indulto matrimonial?
E marcou cedinho o encontro?
E depois usou as exatas duas horas do motel, pagando nem um minuto a mais dos 55,00 real na promoção do luxo?
E 1h da madrugada a curiosidade tava liquidada?
E disse que estava saindo de uma relação enrolada?
E disse que o Natal era sagrado e que ele passava com os filhos?
E pediu o seu celula e não deu o dele?
Acorda, minha filha, o bofe é casado!!!
Lélia Almeida.
Ele disse que você é a tampa da panela dele ou o chinelo do seu pé torto e que nunca imaginou encontrar uma mulher tão maravilhosa como você?
E convidou você pra sair numa terça ou quinta-feira, na semana das confraternizações de fim de ano, na época do indulto matrimonial?
E marcou cedinho o encontro?
E depois usou as exatas duas horas do motel, pagando nem um minuto a mais dos 55,00 real na promoção do luxo?
E 1h da madrugada a curiosidade tava liquidada?
E disse que estava saindo de uma relação enrolada?
E disse que o Natal era sagrado e que ele passava com os filhos?
E pediu o seu celula e não deu o dele?
Acorda, minha filha, o bofe é casado!!!
Tem homem que adora mulher doida:
Lélia Almeida.
Li esta frase da Maria Werner: “Em alguns contos de fadas, como na vida, (...) A capacidade das mulheres para amar e agir excedia tragicamente os limites a que podiam chegar em suas vidas – esse heroísmo auto-imolador era uma das poucas empresas cavalheirescas acessíveis a elas.” Pensei nas escritoras suicidas, que num gesto derradeiro, deram, historicamente, cabo de si mesmas, fazendo, desta maneira, que sua obra se sobrepusesse às suas vidas. Fiquei pensando como é que isto funciona com os homens e sem pensar muito no assunto só lembrei que tem homem que adora uma mulher louca, que vive enrolado com uma mulher louca, daquelas que tem uma vida cheia de grandes traumas e loucuras e que é exatamente isso o que os deixa fascinados, a adrenalina da doida. Muito feminino isto, em alguns homens, viver nesta vibração do drama e tragédia das doidas.
Mas gosto é que nem nariz, cada um tem o seu.
Lélia Almeida.
Li esta frase da Maria Werner: “Em alguns contos de fadas, como na vida, (...) A capacidade das mulheres para amar e agir excedia tragicamente os limites a que podiam chegar em suas vidas – esse heroísmo auto-imolador era uma das poucas empresas cavalheirescas acessíveis a elas.” Pensei nas escritoras suicidas, que num gesto derradeiro, deram, historicamente, cabo de si mesmas, fazendo, desta maneira, que sua obra se sobrepusesse às suas vidas. Fiquei pensando como é que isto funciona com os homens e sem pensar muito no assunto só lembrei que tem homem que adora uma mulher louca, que vive enrolado com uma mulher louca, daquelas que tem uma vida cheia de grandes traumas e loucuras e que é exatamente isso o que os deixa fascinados, a adrenalina da doida. Muito feminino isto, em alguns homens, viver nesta vibração do drama e tragédia das doidas.
Mas gosto é que nem nariz, cada um tem o seu.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sábado, 18 de dezembro de 2010
Lista de promessas para o ano novo:
Lélia Almeida.
Tenho uma proposta bem objetiva. Todos os anos faço uma lista para o ano novo, que varia muito pouco os seus itens, peço um amor decente, peço pra cuidar da minha saúde, pra me estressar menos, ganhar mais dinheiro, emagrecer, as mesmas bobagens de sempre. Afinal, somos, quase sempre, desinteressantes seres de repetição. Este ano decidi fazer diferente.
Porque em vez de uma lista de desejos, decidi me dar de presente de fim de ano um balanço, e fiquei estarrecida com tudo o que realizei: fiz cursos importantes, estudei muito, pedi demissão de um trabalho que não era mais compatível com as minhas convicções éticas, cuidei do meu filho, comecei uma prática espiritual que me aproximou de pessoas maravilhosas que se transformaram em amigas novas, o que sempre é uma bênção. Escrevi e publiquei muito e também por conta disto ganhei bons e novos amigos e ótimas alianças de trabalho. Terminei um romance e um livro de crônicas, viajei, namorei, fiz uma faxina em relações que não me satisfaziam mais, reencontrei velhos amigos e isto também foi maravilhoso. E fui muito protegida em momentos tão difíceis, tão duramente difíceis.
Enfim, a lista continua e é maior, bem maior do que esta, mas não vou cansá-los. Apenas sugiro que pensem nisto com carinho, invertam a ordem, uma reversão de expectativas pode ser uma dádiva, não somente pedir ou prometer, mas agradecer e celebrar. Porque talvez não seja uma boa idéia começar o ano com a imposição de algumas missões impossíveis e depois terminá-lo sem reconhecer o tanto que fomos fortes e grandes pelo simples fato de termos sobrevivido bravamente.
Invertam a lista e verão que o que pedimos era tão bobo perto de tudo o que realizamos, talvez esta seja uma maneira nova e mais interessante de começar o novo ciclo que se aproxima.
Que tal experimentar? Comigo funcionou às maravilhas!
Lélia Almeida.
Tenho uma proposta bem objetiva. Todos os anos faço uma lista para o ano novo, que varia muito pouco os seus itens, peço um amor decente, peço pra cuidar da minha saúde, pra me estressar menos, ganhar mais dinheiro, emagrecer, as mesmas bobagens de sempre. Afinal, somos, quase sempre, desinteressantes seres de repetição. Este ano decidi fazer diferente.
Porque em vez de uma lista de desejos, decidi me dar de presente de fim de ano um balanço, e fiquei estarrecida com tudo o que realizei: fiz cursos importantes, estudei muito, pedi demissão de um trabalho que não era mais compatível com as minhas convicções éticas, cuidei do meu filho, comecei uma prática espiritual que me aproximou de pessoas maravilhosas que se transformaram em amigas novas, o que sempre é uma bênção. Escrevi e publiquei muito e também por conta disto ganhei bons e novos amigos e ótimas alianças de trabalho. Terminei um romance e um livro de crônicas, viajei, namorei, fiz uma faxina em relações que não me satisfaziam mais, reencontrei velhos amigos e isto também foi maravilhoso. E fui muito protegida em momentos tão difíceis, tão duramente difíceis.
Enfim, a lista continua e é maior, bem maior do que esta, mas não vou cansá-los. Apenas sugiro que pensem nisto com carinho, invertam a ordem, uma reversão de expectativas pode ser uma dádiva, não somente pedir ou prometer, mas agradecer e celebrar. Porque talvez não seja uma boa idéia começar o ano com a imposição de algumas missões impossíveis e depois terminá-lo sem reconhecer o tanto que fomos fortes e grandes pelo simples fato de termos sobrevivido bravamente.
Invertam a lista e verão que o que pedimos era tão bobo perto de tudo o que realizamos, talvez esta seja uma maneira nova e mais interessante de começar o novo ciclo que se aproxima.
Que tal experimentar? Comigo funcionou às maravilhas!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
SEXO VIRTUAL
Lélia Almeida.
Escrevi um romance que se chama Anêmona Bristol e que conta a história de uma blogueira tão ruim, mas tão ruim que a personagem termina, por este motivo, ganhando grande popularidade. Anêmona Bristol é o pseudônimo de Ítala Açucena, uma escritora fracassada que se pergunta por que as mulheres têm tanta dificuldade de escrever humor e erotismo.
Para a construção da personagem criei em algumas redes sociais, durante muitos meses, o perfil de Anêmona Bristol, que é uma espécie de piriguete retardada, gostosa e popozuda, e assim pude teclar com marmanjos de todo o país, noites inteiras e conheci um universo peculiar. Peculiar e familiar, se me faço entender. Porque o que tem na rede é o que tem na vida real, na mesa do bar, do boteco, do trabalho, de qualquer lugar onde as pessoas habitam e convivem. E mesmo tendo lido muitos especialistas sobre namoros e encontros na internet, não sou capaz de teorizar sobre o tema. A minha pergunta, a mesma de Ítala Açucena, é simples: por que as mulheres não escrevem humor e não falam sobre sexo.
Descobri algumas coisas que todo mundo que navega sabe. Você passa a ser chamada, imediatamente, por nomes super originais como gata, princesa, linda e querida, o que por si só já é uma retardadice. Estou falando dos homens, mas quero dizer que também conversei com muitas mulheres e a idiotice é a mesma, com seus queridos, gatinhos, meu príncipe, gotoso, etc. A cordialidade no diálogo dura segundos, o tempo da criatura perguntar de onde vc está tc, você aprende a escrever naum, te kero, humm, nesta outra língua que as pessoas da minha idade precisam aprender e que qualquer pessoa de 30 anos domina à perfeição, intercaladas com carinhas com sorriso pra cima, pra baixo, corações vermelhos latejantes de muito mau gosto, vídeos de beijos de língua completamente artificiais, fodas horrorosas e vídeos do youtube com músicas como Have You Ever Really Loved A Woman?, do Bryan Adams, Titanic (LIVE), da Celine Dion, Leviana, do Reginaldo Rossi ou Toda Mulher, do Wando. A cordialidade dura segundos, você diz de onde está teclando, o outro também, ele vai dizer que a sua cidade é linda e que tem muita vontade de conhecer, pergunta se você é casada, ele quase sempre diz que está casado, mas que conta com a imponderabilidade do destino e que por isto está ali babando no seu perfil. Alguns ainda se arvoram a certo grau de sofisticação espiritual dizendo que sentem a sua energia e especulam sobre o quanto é mágico identificar-se com uma pessoa sem conhecê-la, afinal, nada é por acaso, apelando para expedientes relativos à sincronicidade junguiana ou para o repertório astrológico.
Passados os breves segundos da cordialidade vai-se, então, diretamente para a putaria deslavada onde você lê pérolas originalíssimas como toma rola, toma pica, me dá a tua bundinha, te chupo toda, e o procedimento é meio padrão. Há um padrão, do tempo do término da cordialidade até o começo do embate e, imediatamente, o senhor pergunta pelas suas mais secretas fantasias e, sem sequer ler o que você possa ter escrito, declara que deseja, sem mais delongas, o seu rabo. Porque a única e maior transgressão sexual do macharedo brasileiro, de qualquer idade, do Oiapoque ao Chuí, é comer um cu. Pensem o que quiserem, eu não interpreto nada, eu sou uma escritora, eu só ouço e escrevo. Indo para o âmbito internacional, os portugueses clamam por comer-te a gatas (de quatro) e querem traçar a tua rata. E foi neste momento que tive de alinhar o vocabulário, com alguns, porque, além das diferenças regionais, mesmo transcontinentais, havia outras de ordem diversa que me broxavam e impediam de continuar a conversa com homens adultos que falavam do seu pintinho e com mulheres velhas que falavam da sua coisinha.
Alicia Steimberg, uma das escritoras mais geniais da atualidade, argentina, escreveu uma verdadeira obra-prima chamada Amatista, que ganhou um importante prêmio de literatura erótica, La sonrisa vertical, e que, lamentavelmente, nunca foi traduzido ao português.
Steimberg, em Amatista, cria um diálogo entre uma psicanalista e um paciente que faz com que gente leia o livro, de cabo a rabo, sem respirar, uma perfeição. Também é dela uma reflexão sobre literatura erótica onde ela diz que os argentinos não têm o menor problema de dizer que são muito liberais e que trepam muito e com quem lhes apetece, mas que são incapazes de dizer, com o mesmo desprendimento e orgulho, que são grandes punheteiros. Para ela escrever literatura erótica e ter um público leitor interessado significaria mais ou menos isso, uma grande masturbação coletiva. Difícil é fazê-lo com a perfeição que ela alcança. Porque se pensarmos no ato em si, há uma mecânica simples que obedece e movimentos de entra e sai, levanta e sobe, e não há como transformar esta dinâmica simples em algo interessante ou excitante.
Consta que a população brasileira, dos quase 300.000 verbetes do Houaiss, faz uso de uma média de apenas 4.000 deles, e eu garanto a vocês que no quesito putaria-na-rede o vocabulário deve estar restrito a muito menos de 50 palavras, já que a prática me permitiu contabilizar também esta precariedade quantitativa. Eu e Anêmona Bristol buscávamos poses, posições, e, principalmente, vocabulário, entendendo que há maravilhas na língua portuguesa, palavras mimosas e sugestivas como côncavo, baba-de-moça, vara, pomba, rombudo, badalo, rola, ferro, estojo, urna, cava, cona, bainha, vagem, berbigão, castanha, carlotinha, crica, dedo-sem-unha, dente-de-alho, espia-caminho, hastezinha, pevide, pito, pinguelo, sambico, mitra, três ou três-vinténs, cabaça, monte-de-vênus, larga, aguada, apertada, arrombada, bela, perseguida, bochechuda, cabeluda, crespa, pentelhuda, preta, suada, boca-do-mato, brecha, caixinha de segredos, canoinha, cova, devora cobra, lanho, cofre, ninho-de-rola, rego, escrínio, aranha, bacalhau, barata, bichana, lacraia, mosca, passarinha, perereca, pomba, rola, ursa, touceira, cebola-quente, barbiana, romã, rosinha, xexeca, xoxota, breba, buça, búzio, ferrolho, ganso, rodela, bronha, mastruço, gruta, porongo, estrovenga, bagos, bimba, pimbinha, bilola, bilunga, bastão, fole, bífida, entre outras.
Em se tratando do vocabulário erótico na rede podemos concluir que nada é surpreendente ou instigante e o que temos é de uma pobreza atroz.
Importante esclarecer que o que me interessava era a narrativa da coisa, o palavreado mesmo, e que, portanto, o embate durava o tempo exato que as criaturas suportavam o meu espichado cu doce, sem webcam porque com ela, as palavras, que era o que eu buscava, desapareciam imediatamente.
Fiquei, nas primeiras semanas, estarrecida com a naturalidade que os bofes perguntavam, vc que ver o meu pau? Nossa! Como os homens amam os seus membros, isso é realmente digno de nota e estudo, não conheço nenhuma mulher que tenha tamanha obsessão e genuíno afeto por suas partes íntimas.
E aprendi outras coisas importantes que vou levar para a vida e que como sou generosa vou dividir com você, leitor. Na rede, como na vida, há sempre um que ama mais que o outro, um que se dedica mais, que se esforça mais. Reconheço que no meu exercício literário, onde o espírito da puta se mesclava ao da antropóloga-assistente social em campo, propiciei momentos maravilhosos para algumas criaturas, com a riqueza de detalhes que requer a descrição de um bom fellatio ou de uma eficiente cunilíngua, e a criatura gozava com um simples kasdhjoiwqfksfiowyhwndkshoaidiwhdlwqn! Dá licença, é muita preguiça né! Na vida real deve ser daqueles preguiçosos que deixa uma mulher com LER (Lesão por Esforço Repetitivo) em determinadas situações onde se requer empenho e constância. O sexo na rede é uma debiloidice, eu garanto, assim como na vida real, onde quase sempre também é complicado.
E sobre a minha busca posso dizer que foi um flagrante desastre, uma decepção. Larguei a rede e voltei aos clássicos literários, porque o erotismo não tem a ver com a coisa em si, mas com o contexto e este segredo, sabido por muitos, é facilmente esquecido, tanto na vida, como na rede e na literatura. O que nos excita não é o que se mostra, mas o que se esconde.
A pergunta sobre por que as mulheres não escrevem humor e erotismo continua, para mim, sem uma resposta satisfatória. A revolução sexual, que liberou as mulheres para a farra com anticoncepção, não destravou, devidamente, as suas línguas e isso é sintomático. Raras exceções merecem ser mencionadas, relembrando aqui alguns poucos nomes que me são caros como as imbatíveis Hilda Hilst e Márcia Denser, a própria Steimberg, as históricas Anaïs Nin e Collete e duas senhoras brasileiras, sucesso absoluto de público de sua época, a quem Anêmona Bristol homenageia, Adelaide Carraro e Cassandra Rios, dignas de séria e urgente revisitação.
Despeço-me contando sobre um fenômeno que lanço como desafio e charada para os entendidos de sexo na rede. Depois de despachar alguns marmanjos inconvenientes recebi vários vídeos do youtube com trechos do Pequeno Príncipe que reclamavam, através daquela raposa imbecil, que eu era responsável pelo que tinha cativado, eram os mesmos destemidos comedores de rabo, rejeitados e ressentidos, transformados em queixosas misses, choramingando pela foda perdida. Só me ocorre pensar que uma queixa deste tipo anuncie o fim da civilização, o fim do mundo mesmo, uma tristeza sem precedentes na história das relações, tema que entrego de bandeja para os estudiosos da crise da masculinidade de plantão e das feministas doutoras em gênero, porque eu agora vou cuidar de terminar o meu romance, Anêmona Bristol, que será mais um na fila de outros que não consigo publicar em lugar nenhum deste país.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A Grande Mestra:
Lélia Almeida.
A tristeza foi a minha Grande Mestra de 2010. Vou chamá-la assim, Grande Mestra, com a reverência das maiúsculas. A tristeza não é a mesma coisa que a depressão, também é diferente da angústia, da ansiedade, da agonia. A tristeza é quieta, e sem o histrionismo da depressão a tristeza é expressiva, tão delicada a tristeza, tão mansa.
Esta madrugada, depois de pelejar todos os dias do ano com a tristeza, nesta madrugada quase desisti da luta. Não é uma luta contra ela, propriamente dita, mas é o como a gente sobrevive todos os dias com ela ali, onipresente. Levantei de madrugada para tomar água. Sentei na sala e disse a Deus, a Virgem Maria, a Deusa Tara, eu não agüento mais, disse assim, com uma intimidade doméstica, de quem se atreve, como último recurso, discutir a relação com a transcendência. Pedi por compreensão, só isso, compreensão disto que me é impossível compreender, e chorei como uma menina, de cansaço e exaustão.
Então, mais íntima ainda, atrevida quase, pedi colo pra Deus, pedi água, eu quero um colo, eu disse, baixinho, eu aprendo tudo o que esta Grande Mestra tiver que me ensinar, mas agora Senhor, neste momento, eu preciso de colo, eu quero colo, senão eu vou morrer.
O amanhecer em Brasília é uma experiência. Não é apenas um amanhecer, é uma experiência. Fiquei olhando pela janela aquela bola de fogo que surgia no horizonte, sentindo as lágrimas que escorriam sem parar e a Grande Mestra ali, na sua presença inequívoca.
Os esotéricos dizem que a hora mais escura da noite é antes do amanhecer. Que é a hora da noite escura da alma de San Juan de la Cruz.
Imediatamente uma grande paz tomou conta de mim, a luz do dia nascendo é da cor da minha tristeza, iluminada, suavemente iluminada. Uma paz tão grande, que mesmo sem conseguir compreender o que tanto me mata em vida todos os dias senti que de alguma maneira, estava tudo certo. E que talvez seja mais sábio pedir por aceitação do que por compreensão. Negociei com a transcendência, pedi a Tara, a Virgem e ao Senhor, que eu posso estar com ela, com a Grande Mestra, mas que não me tirem nem a minha alegria e nem a minha fúria, que eu não sou nada sem elas.
Uma paz imensa eu fui sentindo, tão grande que tive forças pra fazer um café, regar as plantas, dar comida pros gatos, arrumar a casa, deixar preparado metade do almoço e voltar pra cama só mais um pouquinho, vitoriosa, brava e vitoriosa, sem ter desistido.
A tristeza, que foi a minha Grande Mestra de 2010 me ensinou mais uma coisa hoje, já que os ensinamentos têm sido diários. Que a gente nunca está só. Que com Deus é assim, a gente pede colo e Ele dá. Colo quentinho, disfarçado de uma paz verdadeira e uma grande disposição para limpar a casa e arrumar a vida.
Agora já sei, era eu que não estava sabendo pedir. O que eu quero é simples, eu quero colo, colo de Deus.
Lélia Almeida.
A tristeza foi a minha Grande Mestra de 2010. Vou chamá-la assim, Grande Mestra, com a reverência das maiúsculas. A tristeza não é a mesma coisa que a depressão, também é diferente da angústia, da ansiedade, da agonia. A tristeza é quieta, e sem o histrionismo da depressão a tristeza é expressiva, tão delicada a tristeza, tão mansa.
Esta madrugada, depois de pelejar todos os dias do ano com a tristeza, nesta madrugada quase desisti da luta. Não é uma luta contra ela, propriamente dita, mas é o como a gente sobrevive todos os dias com ela ali, onipresente. Levantei de madrugada para tomar água. Sentei na sala e disse a Deus, a Virgem Maria, a Deusa Tara, eu não agüento mais, disse assim, com uma intimidade doméstica, de quem se atreve, como último recurso, discutir a relação com a transcendência. Pedi por compreensão, só isso, compreensão disto que me é impossível compreender, e chorei como uma menina, de cansaço e exaustão.
Então, mais íntima ainda, atrevida quase, pedi colo pra Deus, pedi água, eu quero um colo, eu disse, baixinho, eu aprendo tudo o que esta Grande Mestra tiver que me ensinar, mas agora Senhor, neste momento, eu preciso de colo, eu quero colo, senão eu vou morrer.
O amanhecer em Brasília é uma experiência. Não é apenas um amanhecer, é uma experiência. Fiquei olhando pela janela aquela bola de fogo que surgia no horizonte, sentindo as lágrimas que escorriam sem parar e a Grande Mestra ali, na sua presença inequívoca.
Os esotéricos dizem que a hora mais escura da noite é antes do amanhecer. Que é a hora da noite escura da alma de San Juan de la Cruz.
Imediatamente uma grande paz tomou conta de mim, a luz do dia nascendo é da cor da minha tristeza, iluminada, suavemente iluminada. Uma paz tão grande, que mesmo sem conseguir compreender o que tanto me mata em vida todos os dias senti que de alguma maneira, estava tudo certo. E que talvez seja mais sábio pedir por aceitação do que por compreensão. Negociei com a transcendência, pedi a Tara, a Virgem e ao Senhor, que eu posso estar com ela, com a Grande Mestra, mas que não me tirem nem a minha alegria e nem a minha fúria, que eu não sou nada sem elas.
Uma paz imensa eu fui sentindo, tão grande que tive forças pra fazer um café, regar as plantas, dar comida pros gatos, arrumar a casa, deixar preparado metade do almoço e voltar pra cama só mais um pouquinho, vitoriosa, brava e vitoriosa, sem ter desistido.
A tristeza, que foi a minha Grande Mestra de 2010 me ensinou mais uma coisa hoje, já que os ensinamentos têm sido diários. Que a gente nunca está só. Que com Deus é assim, a gente pede colo e Ele dá. Colo quentinho, disfarçado de uma paz verdadeira e uma grande disposição para limpar a casa e arrumar a vida.
Agora já sei, era eu que não estava sabendo pedir. O que eu quero é simples, eu quero colo, colo de Deus.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Receita contra traições, com sangue escorrendo entre os dentes
e mortes imprescindíveis:
Lélia Almeida.
Sofri da mesma traição duas vezes. A primeira quando o meu filho nasceu e minha vida virou um inferno de dúvidas, preocupações e grandes sustos. Um inferno cheio de gratificações, diga-se, mas senti muito que ninguém tivesse me avisado que uma mudança tão avassaladora ia me transformar em menos de um turno em outra pessoa. Minha mãe, pragmática, dizia: engole o choro e toca a viver.
A segunda traição, de mesma natureza, foi quando o mesmo filho entrou nesta zona pantanosa que começa aos dezoito anos e que pode terminar a qualquer momento, inclusive quando o infante tiver 40 anos. É o momento do segundo parto.
E se ele for um rapaz então, como o meu, nós mães, nos tornamos os seres mais odiados e detestados do mundo e todo o idílio que vivemos durante duas décadas com eles, respondendo pavlovianamente a todas as suas demandas, acaba, de uma noite para uma manhã. Ele nos odeia, mas não vai embora. Fica ali para nos lembrar dia e noite que nos odeia e a vida se transforma num inferno.
Estamos agora em plena menopausa, os humores flutuantes como os dele. A vida se transforma num inferno sem as tantas gratificações anteriores. Você, mãe, se transforma na figura de autoridade mimetizada num saco de areia de pancadas, num momento em que muitas outras coisas fantásticas em sua vida estão acontecendo: amadurecimento pessoal, sucesso profissional, novas amizades, casamentos falidos que terminam, novas oportunidades, etc.
Não vou trair ninguém: é um inferno. Mas não desistam dos rapazes. Façam a única coisa que é possível fazer por eles neste momento. Não precisa ser com um afiado facão de cozinha ou de açougue. Sempre há soluções práticas ensinadas pela ancestralidade. Lembrem da mulher macaca que vive dentro de nós. Ou de outras figuras exemplares.
Exausta com as demandas da situação, numa noite insone e no meio de uma reza furiosa, o espírito de uma índia charrua, num sonho iniciático, se abateu sobre mim e me lembrou que sou uma mulher dos pampas, gaúcha fronteiriça onde bravíssimas mulheres guerrearam e mataram para sobreviver na imensidão dos campos. As índias charruas, diferente de outras mulheres, quando violentadas pelos homens brancos, rasgavam com uma faca o próprio útero para que seus filhos não nascessem cativos. Ou lembrem da bravura das vivandeiras, que seguiam os homens nas guerras, e jamais se detinham por conta de marmanjos mimados que se negavam a crescer.
Tomem, minhas amigas, do espírito destas mulheres, deixem a alma selvagem delas recair sobre a de vocês, sintam que elas estão próximas e façam, vocês mesmas o que elas fariam sem dó nem piedade: cortem este cordão umbilical consistente e sem fim, que vai engrossando enquanto eles crescem, cortem com os próprios dentes, e saiam vida afora, urrando um grito liberador, dentes afiados e ensangüentados e vão viver as suas próprias vidas.
Porque não há, senhoras, nada mais que possamos, efetivamente, fazer por eles. Agora eles vão ter de crescer.
E nós temos de voltar a dançar e a cuidar em outro ritmo da vida que nos resta viver. Boa sorte para todas nós!
e mortes imprescindíveis:
Lélia Almeida.
Sofri da mesma traição duas vezes. A primeira quando o meu filho nasceu e minha vida virou um inferno de dúvidas, preocupações e grandes sustos. Um inferno cheio de gratificações, diga-se, mas senti muito que ninguém tivesse me avisado que uma mudança tão avassaladora ia me transformar em menos de um turno em outra pessoa. Minha mãe, pragmática, dizia: engole o choro e toca a viver.
A segunda traição, de mesma natureza, foi quando o mesmo filho entrou nesta zona pantanosa que começa aos dezoito anos e que pode terminar a qualquer momento, inclusive quando o infante tiver 40 anos. É o momento do segundo parto.
E se ele for um rapaz então, como o meu, nós mães, nos tornamos os seres mais odiados e detestados do mundo e todo o idílio que vivemos durante duas décadas com eles, respondendo pavlovianamente a todas as suas demandas, acaba, de uma noite para uma manhã. Ele nos odeia, mas não vai embora. Fica ali para nos lembrar dia e noite que nos odeia e a vida se transforma num inferno.
Estamos agora em plena menopausa, os humores flutuantes como os dele. A vida se transforma num inferno sem as tantas gratificações anteriores. Você, mãe, se transforma na figura de autoridade mimetizada num saco de areia de pancadas, num momento em que muitas outras coisas fantásticas em sua vida estão acontecendo: amadurecimento pessoal, sucesso profissional, novas amizades, casamentos falidos que terminam, novas oportunidades, etc.
Não vou trair ninguém: é um inferno. Mas não desistam dos rapazes. Façam a única coisa que é possível fazer por eles neste momento. Não precisa ser com um afiado facão de cozinha ou de açougue. Sempre há soluções práticas ensinadas pela ancestralidade. Lembrem da mulher macaca que vive dentro de nós. Ou de outras figuras exemplares.
Exausta com as demandas da situação, numa noite insone e no meio de uma reza furiosa, o espírito de uma índia charrua, num sonho iniciático, se abateu sobre mim e me lembrou que sou uma mulher dos pampas, gaúcha fronteiriça onde bravíssimas mulheres guerrearam e mataram para sobreviver na imensidão dos campos. As índias charruas, diferente de outras mulheres, quando violentadas pelos homens brancos, rasgavam com uma faca o próprio útero para que seus filhos não nascessem cativos. Ou lembrem da bravura das vivandeiras, que seguiam os homens nas guerras, e jamais se detinham por conta de marmanjos mimados que se negavam a crescer.
Tomem, minhas amigas, do espírito destas mulheres, deixem a alma selvagem delas recair sobre a de vocês, sintam que elas estão próximas e façam, vocês mesmas o que elas fariam sem dó nem piedade: cortem este cordão umbilical consistente e sem fim, que vai engrossando enquanto eles crescem, cortem com os próprios dentes, e saiam vida afora, urrando um grito liberador, dentes afiados e ensangüentados e vão viver as suas próprias vidas.
Porque não há, senhoras, nada mais que possamos, efetivamente, fazer por eles. Agora eles vão ter de crescer.
E nós temos de voltar a dançar e a cuidar em outro ritmo da vida que nos resta viver. Boa sorte para todas nós!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Hoje a minha faxineira me disse que nem gosta mais tanto assim do marido, mas que vai continuar com ele. Perguntei o motivo e ela disse, Dona Lélia, ele nem me bate!
As mortes das irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal, covardemente assassinadas pela ditadura do general Rafael Leonidas Trujillo da República Dominicana, foram as responsáveis pelo dia 25 de novembro ter se transformado, por determinação das Nações Unidas, em março de 1999, no Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. A história destas protagonistas cheias de coragem e amor à vida nos é contada, primorosamente, no romance de Julia Alvarez, No tempo das borboletas, publicado no Brasil pela Rocco em 2001. Outro livro esclarecedor sobre este período é A festa do bode, do Mario Vargas Llosa, publicado no Brasil pela editora Arx, em 2001. Vale a pena conferir.
Esta não é exatamente uma data de celebração, que seja de reflexão.
As mortes das irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal, covardemente assassinadas pela ditadura do general Rafael Leonidas Trujillo da República Dominicana, foram as responsáveis pelo dia 25 de novembro ter se transformado, por determinação das Nações Unidas, em março de 1999, no Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. A história destas protagonistas cheias de coragem e amor à vida nos é contada, primorosamente, no romance de Julia Alvarez, No tempo das borboletas, publicado no Brasil pela Rocco em 2001. Outro livro esclarecedor sobre este período é A festa do bode, do Mario Vargas Llosa, publicado no Brasil pela editora Arx, em 2001. Vale a pena conferir.
Esta não é exatamente uma data de celebração, que seja de reflexão.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Li e gostei:
“Os cães, em seu papel de melhores companheiros do homem, já tiveram inúmeras características positivas e negativas atribuídas a eles. Desde tempos remotos esses animais são associados com as experiências mais soturnas da vida, sendo vistos em eras primitivas como mensageiros da morte. Apesar de menções ao domínio de um “cão negro” ou de uma “nuvem negra” existirem desde a época dos celtas, Samuel Johnson foi provavelmente o primeiro escritor a traçar uma associação dessa imagem com a depressão. Winston Churchill popularizou a metáfora, (...) depois dele, muitos escritores, artistas e cantores descreveram o cão negro.”
O tema é de difícil trato, mas Matthew Johnstone conseguiu escrever um livro sobre a depressão que é uma verdadeira pérola: Eu tinha um cão negro, seu nome era depressão. Os desenhos são simplesmente adoráveis e nos fazem ver a doença de uma maneira gráfica, terna e até mesmo divertida. Os desenhos são do próprio autor e o prefácio é de Gordon Parker, Diretor executivo do Black Dog Institute da Autrália.
Vale a pena conferir, é da Editora Sextante.
“Os cães, em seu papel de melhores companheiros do homem, já tiveram inúmeras características positivas e negativas atribuídas a eles. Desde tempos remotos esses animais são associados com as experiências mais soturnas da vida, sendo vistos em eras primitivas como mensageiros da morte. Apesar de menções ao domínio de um “cão negro” ou de uma “nuvem negra” existirem desde a época dos celtas, Samuel Johnson foi provavelmente o primeiro escritor a traçar uma associação dessa imagem com a depressão. Winston Churchill popularizou a metáfora, (...) depois dele, muitos escritores, artistas e cantores descreveram o cão negro.”
O tema é de difícil trato, mas Matthew Johnstone conseguiu escrever um livro sobre a depressão que é uma verdadeira pérola: Eu tinha um cão negro, seu nome era depressão. Os desenhos são simplesmente adoráveis e nos fazem ver a doença de uma maneira gráfica, terna e até mesmo divertida. Os desenhos são do próprio autor e o prefácio é de Gordon Parker, Diretor executivo do Black Dog Institute da Autrália.
Vale a pena conferir, é da Editora Sextante.
Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me dos fascínio que tantos de nossos autores hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de paria e severa no meu obscuro trabalho de escrever”.
Dos papéis de J.M.E. in : A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins
Dos papéis de J.M.E. in : A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins
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