Nós, as vadias:
Lélia Almeida.
Vou começar este texto avalizando integralmente o editorial do Sul21 que diz “Mais uma vez as aspirações populares, as contestações públicas e a política de modo amplo se renovam e mais uma vez os políticos, os partidos e muitos dos que se apregoam “de esquerda” (mesmo que se digam atualizados) demoram a perceber as mudanças em curso, seu significado e sua importância. É preciso que eles se esforcem para estar sintonizados com seu tempo e para que não sejam atropelados pelos acontecimentos.”
Estive na Marcha das Vadias aqui em Brasília no sábado, 18 de junho. Cheguei cedo no Conjunto Nacional e fiquei vendo as tribos chegarem para a marcha, tribos, gentes de todas as idades, crenças, credos, roupas, homens, mulheres, e sentamos todos na calçada para escrever as palavras de ordem da marcha, todas elas contra o machismo: “Vem pra luta vem, contra o machismo, vem”; “A nossa luta é todo o dia, mulher não é mercadoria”; “Mexeu com uma, mexeu com todas!”; “Machismo mata!”; “Estupro não é piada!”; “Somos todas camareiras”; “Não é não!”; “O corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser”; “Decote não é crime, estupro é”.
Inscrições e símbolos pintados no corpo, no rosto, homens e mulheres vestidas de vadias, de freiras, com burcas, maçãs na boca, todos envoltos em símbolos e dizeres que tinham um mesmo significado, o protesto contra a violência sexual contra as mulheres.
Mais de 800 pessoas numa manhã esplendorosa em Brasília, numa marcha pacífica e cheia de vigor saindo do Conjunto Nacional, passando pela rodoviária e indo para a Torre da TV. Fui para ver as gentes, fui para ouvir, sentir, fazer parte da cidade, da muvuca das marchas, da farra. E fiz uma verdadeira volta ao túnel do tempo, lembrando da alegria e da fé daqueles tempos que ocupávamos as ruas para brigar pela democracia e por tantas liberdades imprescindíveis.
Durante a marcha a mistura das pessoas da cidade, que andavam pelas ruas e perguntavam do que se tratava. Um gari me disse, mas doutora, a senhora não acha estranho defender mulé vadia? Expliquei pra ele que o propósito da marcha era denunciar a violência contra as mulheres e contra a máxima de que são as proprias mulheres que provocam situações de violência ao se vestirem desta ou daquela maneira, sendo assim, duplamente vitimizadas. Inútil aprofundar muito a discussão ali no calor dos gritos e das músicas, ele disse, é, pode ser e ficou coçando a orelha. Uma senhora que carregava uma menina pela mão me perguntou se mulher decente podia participar, eu perguntei a ela se ela estava vendo alguma mulher ali que não era decente, ela sorriu cúmplice e disse, meu marido me mata se me encontra aqui, mas eu não vou perder isso por nada deste mundo e nem ela, disse apontando pra filha, e dei o meu apito pras duas.
Sempre que as mulheres dão as mãos e saem às ruas, o mundo muda, não duvidem disso jamais, revisitem a história do mundo, mesmo que pareça que caminhamos em círculos sem fim, já que as repetições são insanas, e os retrocessos absurdos. Sempre que as mulheres saem às ruas para brigar contra as injustiças alguma coisa acontece, ainda que as mudanças tardem e a gente sempre tenha que relembrar, refazer, retornar aos motivos essenciais, primeiros, e ajudar as mais jovens a lembrar o quanto é importante não esquecer. Êita movimento de mulheres este, idas e vindas, avanços e tantos atrasos. Nunca foram criadas tantas políticas para as mulheres como nestes tempos e nunca se viu tanto retrocesso, números alarmantes de toda sorte de violência, a discussão sobre o aborto negligenciada, rifada, como tantas outras que ainda nos concernem sim, e que fazem parte das nossas vidas e das vidas das nossas filhas.
Não vi nenhuma senadora, nenhuma deputada, nenhuma ministra na marcha em Brasília, vi as gentes comuns, as mulheres das ruas, donas-de-casa, estudantes, prostitutas, as que vivem a dureza da cidade e da vida real. E entendi que quando as políticas se institucionalizam elas perdem o fogo do espírito. Este mesmo fogo que a gente só recupera na ciranda das marchas, no calor das mãos dadas, ao som das palavras de ordem que traduzem atos de fé e que reverberam para além dos votos e das alianças vãs.
Gostei de voltar pra casa repetindo “A-vio-lên-cia-con-tra-a-mu-lher-não-é-o-mun-do-que-a-gen-te-quer!”, suada, a cara pintada, as mãos sujas de tinta, os pés cansados, o cartaz amassado embaixo do braço, certa de que sempre termino por encontrar a minha turma. Estas gentes esquisitas que sabem e sentem que o mundo está pulsando, que os vulcões adormecidos estão despertando, que as placas subterrâneas estão se deslocando, que impérios antiquíssimos estão ruindo, e que acreditam que não só um outro mundo é possível, mas que há um mundo que, definitivamente, está deixando de existir.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
Parto, de partir:
Lélia Almeida.
Quando o menino nasceu, minhas mãos se encheram de afazeres, meu coração de preocupações e meus dias de pequenas e inusitadas alegrias. Vê-lo crescer, ali, ao pé da árvore hesitante que eu também era me deu, finalmente, o sentimento de pertença que eu buscara durante toda a minha vida. Pois não foi como filha, nem como esposa, nem como profissional que eu achei o meu lugar no mundo. Foi a maternidade que me fez encontrar a minha turma, o meu lugar, junto às outras mães. Estes seres anônimos e sempre tão parecidos e previsíveis, e que repetem uma coreografia inerente, trazida como herança na mais recôndita genética e que é sempre simples e compreensível em qualquer lugar do mundo. Alimentar o menino, vesti-lo, aconchegá-lo depois do tombo, limpar-lhe o joelho destampado, tênis novo, furado, chulé, pano quente no ouvido com otite no meio da noite, caderno com orelha e letra incompreensível, “- Come, por favor, pára de falar e come.”
Descortinamos as verdades do mundo e nos tornamos um pouco filósofas, médicas, mediadoras, físicas, na troca comum da descoberta dos dias. Estamos na praia de noite, caminhando e ele diz agarrado na minha mão,
“-Ué, e não é que apagaram a luz do céu e ficou tudo escuro!” Choro copiosamente no dia em que o Ayrton Senna morreu, ele acompanha os dias do velório, a espera para o enterro e pergunta solene, “- Por que tem pessoas que quando morrem são enterradas embaixo da terra e outras que vão pro céu?”
Catchup, batata frita, gelatina de cereja, ovo molinho e bife milalêis, bicicleta, gato, Cavaleiros do Zoodíaco, Príncipe da Pérsia, Lego, The Strokes, Chaves, Friends, pipoca, moleton com capuz, tatoo, piercing, reunião dançante com cachorro-quente, cinema e cortar o cabelo, unhas pretas, imundas, mais chulé, outro gato, ódio à matemática, Allstar cor-de-rosa, chupão no pescoço, “-Não fica triste mãe, nem sempre dá certo, é assim mesmo, a vida tem vida própria”, ele me explica. Baseado, porres, contas absurdas de celular, noites sem aparecer e sem avisar, namoros relâmpagos, outros nem tanto, a primeira viagem de excursão da escola, circo, competição de natação, baterista numa banda chamada Blue Velvet.
Aprendi tudo o que sei com ele, tudo o que é realmente importante, que são as coisas da vida pequena. Arroz branco com gema de ovo, beijo de borboleta, beijo de esquimó, mais noites em claro com otite, febrão. A porta abre, depois de dias de ausência, vou dormir aliviada, ele está vivo. Cabelo montanha, olho remelento, meia furada. Barba, bigode, uma força e uma fome descomunais.
Os dias cheios, as mãos fartas de tantas tarefas e eu cheia de ciência, de sabedoria, exibida, competindo com todas as mães do mundo que contam as histórias simples dos seus filhos como as maiores façanhas e conquistas da humanidade. Ele aprendeu a amarrar os sapatos, a abotoar a camisa, a ler, a escrever, a dirigir.
E um dia, você está ali, as mãos no mesmo movimento nervoso de sempre, dobrando as camisas, arrumando a mala, fechando a mala, vendo ele partir, ele ir embora. É o segundo parto. E você não chora, porque você sempre disse que era isso mesmo o que ele tinha que fazer. Procurar a sua turma, seu rumo, seu norte. O menino parte. Abana de longe, no embarque do avião que vai levá-lo para outra cidade, no outro extremo do país. Você cambaleia enquanto volta pra casa. E quando entra em casa, abre a porta e o silêncio da ausência dele enovela os seus dias e desassossega as suas noites. Você percebe então uma coisa muito simples, que as suas mãos, de uma hora para outra, ficaram vazias. De uma noite para uma manhã, as suas mãos tão cheias, ficaram vazias. E sem utilidade.
Não sei o que fazer com as minhas mãos que eram tão atarefadas, tenho medo de emburrecer sem as perguntas dele que moviam as minhas repostas. Não durmo. Ouço-o chegando no meio da noite e descubro que estava sonhando. Ouço uma música no meio do Shopping e meu coração paralisa numa saudade difícil de contar.Não tenho vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas descobri que continuo pertencendo à mesma confraria. A de outras mães, agora. Como esta senhora que senta ao meu lado no metrô e me mostra uma foto do filho que foi para uma missão no Haiti. Ela me conta, “- Não tenho vontade de nada, não tenho vontade de voltar pra casa, sabe, e o pior é que nem posso contar isso pra ninguém, porque pensam que a gente é doida, grudenta, possessiva. Mas não é nada disto, ela me diz. É o tal do ninho vazio, eu tenho saudade do menino, e da minha vida com ele.” E ela aperta o meu braço entendendo que sei do que ela está falando, porque soluçamos abraçadas no embalo do metrô. Não estamos sós. Continuamos a repetir a coreografia que nos irmana. As duas vamos chegar a casa em poucos minutos, uma casa imensa agora, o silêncio será absoluto, forjado nestas noites mal dormidas e sem fim e vamos cumprir a sina, a de reinventar a vida possível no ninho vazio.
Quando nos despedimos no metrô ela disse, meu médico disse que as mulheres na menopausa devem fazer alguma coisa com as mãos, eu acho que vou voltar a bordar e a tecer agora que tenho tempo. Faça isso também, ela me aconselhou. Faça algo com as mãos.
Mãos vazias, eu pensei. Mãos vazias podem ser úteis para quem gosta de escrever, eu pensei antes de dormir. E agradeci a Deus pela minha nova amiga.
Lélia Almeida.
Quando o menino nasceu, minhas mãos se encheram de afazeres, meu coração de preocupações e meus dias de pequenas e inusitadas alegrias. Vê-lo crescer, ali, ao pé da árvore hesitante que eu também era me deu, finalmente, o sentimento de pertença que eu buscara durante toda a minha vida. Pois não foi como filha, nem como esposa, nem como profissional que eu achei o meu lugar no mundo. Foi a maternidade que me fez encontrar a minha turma, o meu lugar, junto às outras mães. Estes seres anônimos e sempre tão parecidos e previsíveis, e que repetem uma coreografia inerente, trazida como herança na mais recôndita genética e que é sempre simples e compreensível em qualquer lugar do mundo. Alimentar o menino, vesti-lo, aconchegá-lo depois do tombo, limpar-lhe o joelho destampado, tênis novo, furado, chulé, pano quente no ouvido com otite no meio da noite, caderno com orelha e letra incompreensível, “- Come, por favor, pára de falar e come.”
Descortinamos as verdades do mundo e nos tornamos um pouco filósofas, médicas, mediadoras, físicas, na troca comum da descoberta dos dias. Estamos na praia de noite, caminhando e ele diz agarrado na minha mão,
“-Ué, e não é que apagaram a luz do céu e ficou tudo escuro!” Choro copiosamente no dia em que o Ayrton Senna morreu, ele acompanha os dias do velório, a espera para o enterro e pergunta solene, “- Por que tem pessoas que quando morrem são enterradas embaixo da terra e outras que vão pro céu?”
Catchup, batata frita, gelatina de cereja, ovo molinho e bife milalêis, bicicleta, gato, Cavaleiros do Zoodíaco, Príncipe da Pérsia, Lego, The Strokes, Chaves, Friends, pipoca, moleton com capuz, tatoo, piercing, reunião dançante com cachorro-quente, cinema e cortar o cabelo, unhas pretas, imundas, mais chulé, outro gato, ódio à matemática, Allstar cor-de-rosa, chupão no pescoço, “-Não fica triste mãe, nem sempre dá certo, é assim mesmo, a vida tem vida própria”, ele me explica. Baseado, porres, contas absurdas de celular, noites sem aparecer e sem avisar, namoros relâmpagos, outros nem tanto, a primeira viagem de excursão da escola, circo, competição de natação, baterista numa banda chamada Blue Velvet.
Aprendi tudo o que sei com ele, tudo o que é realmente importante, que são as coisas da vida pequena. Arroz branco com gema de ovo, beijo de borboleta, beijo de esquimó, mais noites em claro com otite, febrão. A porta abre, depois de dias de ausência, vou dormir aliviada, ele está vivo. Cabelo montanha, olho remelento, meia furada. Barba, bigode, uma força e uma fome descomunais.
Os dias cheios, as mãos fartas de tantas tarefas e eu cheia de ciência, de sabedoria, exibida, competindo com todas as mães do mundo que contam as histórias simples dos seus filhos como as maiores façanhas e conquistas da humanidade. Ele aprendeu a amarrar os sapatos, a abotoar a camisa, a ler, a escrever, a dirigir.
E um dia, você está ali, as mãos no mesmo movimento nervoso de sempre, dobrando as camisas, arrumando a mala, fechando a mala, vendo ele partir, ele ir embora. É o segundo parto. E você não chora, porque você sempre disse que era isso mesmo o que ele tinha que fazer. Procurar a sua turma, seu rumo, seu norte. O menino parte. Abana de longe, no embarque do avião que vai levá-lo para outra cidade, no outro extremo do país. Você cambaleia enquanto volta pra casa. E quando entra em casa, abre a porta e o silêncio da ausência dele enovela os seus dias e desassossega as suas noites. Você percebe então uma coisa muito simples, que as suas mãos, de uma hora para outra, ficaram vazias. De uma noite para uma manhã, as suas mãos tão cheias, ficaram vazias. E sem utilidade.
Não sei o que fazer com as minhas mãos que eram tão atarefadas, tenho medo de emburrecer sem as perguntas dele que moviam as minhas repostas. Não durmo. Ouço-o chegando no meio da noite e descubro que estava sonhando. Ouço uma música no meio do Shopping e meu coração paralisa numa saudade difícil de contar.Não tenho vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas descobri que continuo pertencendo à mesma confraria. A de outras mães, agora. Como esta senhora que senta ao meu lado no metrô e me mostra uma foto do filho que foi para uma missão no Haiti. Ela me conta, “- Não tenho vontade de nada, não tenho vontade de voltar pra casa, sabe, e o pior é que nem posso contar isso pra ninguém, porque pensam que a gente é doida, grudenta, possessiva. Mas não é nada disto, ela me diz. É o tal do ninho vazio, eu tenho saudade do menino, e da minha vida com ele.” E ela aperta o meu braço entendendo que sei do que ela está falando, porque soluçamos abraçadas no embalo do metrô. Não estamos sós. Continuamos a repetir a coreografia que nos irmana. As duas vamos chegar a casa em poucos minutos, uma casa imensa agora, o silêncio será absoluto, forjado nestas noites mal dormidas e sem fim e vamos cumprir a sina, a de reinventar a vida possível no ninho vazio.
Quando nos despedimos no metrô ela disse, meu médico disse que as mulheres na menopausa devem fazer alguma coisa com as mãos, eu acho que vou voltar a bordar e a tecer agora que tenho tempo. Faça isso também, ela me aconselhou. Faça algo com as mãos.
Mãos vazias, eu pensei. Mãos vazias podem ser úteis para quem gosta de escrever, eu pensei antes de dormir. E agradeci a Deus pela minha nova amiga.
domingo, 22 de maio de 2011
À SOMBRA DA CHAMA DE UMA VELA:
Lélia Almeida.
O que não é visto não é lembrado.
(Ditado Popular)
Aquilo sobre o que ninguém escreve
ou fala não existe.
(Érico Veríssimo)
Também tenho encontrado
mulher de todo pêlo
morocha, castanha, ruiva
rica, pobre, remediada
gorda, negra, alta, baixa
moça de família, china rampeira
mulher com medo de rato
e fêmea que briga como macho.
Mas fui aprendendo aos pouquinhos
que hai moças e moças
e que é sempre bom a gente atentar
no que diz a língua do povo:
Em São Borja e São Vicente,
Pra casar não se demora
Que as moças lá desses pagos
Cortam a gente de espora!
Lá na terra de Pelotas
As moças vivem fechadas.
De dia fazem biscoito,
De noite bailam caladas.
Ó moço, se eu le contasse,
Vancê diria que eu minto:
As moças de Livramento
Usam pistola no cinto!
A fala acima é de José Fandango, tropeiro conhecedor dos pagos gaúchos, um dos tantos personagens de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e que, neste momento, cruzando o segundo volume de O continente, "num verão muito seco (...) foi levar a tropa a São Gabriel". E revela, de modo exemplar, a lenda da mulher gaúcha como forte, viril, varonil, em suma, a lendária mulher de faca na bota.
É também o texto de Érico Veríssimo o que mais amplamente se ocupou de retratar uma diversificada galeria de personagens femininas, vivíssimas para sempre no imaginário do público leitor gaúcho.
Ana Terra, Bibiana, Luzia são, sem dúvidas, personagens femininas fortes, inesquecíveis e com uma força arquetípica constatável nos inúmeros solares, edifícios, projetos "Ana Terra", ou nas inúmeras também Anas Terras e Bibianas nascidas até hoje no Rio Grande do Sul a fora, num movimento recorrente como é o movimento que solidifica a força dos mitos. Mitos de mulheres de força, teimosia, perseverança, garra, determinação.
No caso de Ana Terra, por exemplo: tendo a casa paterna destruída pelos castelhanos e mortos pai e irmãos e o corpo violentado, parte cheia de coragem para reconstruir sua vida no pequeno povoado que se transformará na cidade de Santa Fé, cenário e palco onde se desenvolvem os duzentos anos de história da família Terra/Cambará.
Ana Terra não é movida apenas pelo ódio à violência provocada pelos castelhanos; sua força e determinação, sua teimosia e perseverança (típica dos Terra) são fruto de um sentimento poderoso, absoluto: é preciso criar seu filho Pedro, torná-lo homem, sobreviver. E é desta brava figura que depende a vida do menino. Investida de fúria e vontade, Ana Terra parte com um menino pela mão para conquistar seu território, e a maternidade é o sentimento, a função que lhe dá esta fúria, sua força.
Bibiana Terra, neta de Ana Terra, tem igual destino. É obstinada como a avó, briguenta. Enfrenta o pai para casar com o Capitão Rodrigo e cria três filhos em meio a esperas, perigos, solidão e às idas e vindas do marido a guerras e a outras mulheres. Para ambas, cuidar da terra é mais do que parece: cuidar da terra é cuidar da descendência e da manutenção da sobrevivência que é, afinal, o que importa e o que concerne às mulheres. É assim que Bibiana, com uma praticidade e objetividade agudas, casa o filho Bolívar com Luzia Silva, num casamento de interesses contratuais, conseguindo reaver assim sua casa de infância, seu quintal, a tradição da família Terra, e investir o filho e o neto de poder político e prestígio social.
Nada que um bom pai de família não fizesse por uma filha casadoira. Bibiana, como a avó, é teimosa, perseverante, briga sem limites e pruridos pelo que quer e consegue sempre o que deseja. Para ela, como para Ana Terra, o que importa é a família, a descendência, o filho, o neto.
Ana Terra e Bibiana se consolidam na nossa literatura como mulheres indubitavelmente fortes, e toda a crítica especializada usa de qualificativos masculinizantes para legitimar esta força: são poderosas, viris, varonis. E esta força que tem uma expressão masculina nasce de um motivo específico, feminino, que é a maternidade.
Ana Terra e Bibiana são bravas e fortes mulheres, e são mães; acima de tudo são mães.
A contrapartida destas figuras exemplares pautadas no arquétipo da Grande Mãe, Mãe Terra, é Luzia, neta de Aguinaldo Silva e mulher de Bolívar Cambará, nora, portanto, de Bibiana. Inscrita na capítulo "A Teiniaguá", no segundo volume de O Continente, reforça com seu comportamento feminino diferenciado aspectos significativos da lenda. Luzia é bonita, rica, sedutora, vem da cidade grande, toca cítara, faz versos, emite opiniões próprias, é cruel e não se situa dentro de um modo de ser feminino proposto às personagens femininas ao longo do texto, quiçá
ao longo de toda a nossa literatura. Um modo de ser feminino idealizado, muito distante do modo como as mulheres são e vivem realmente. Luzia desempenha papel de estrangeira; nem ela nem o avô são originários de Santa Fé. Ele nordestino, ela órfã e adotiva, o que obscurece e mitifica mais sua origem, reforçando a percepção trágica do Dr. Winter, que a nomeia significativamente de Melpômene. Esta Lorelei perversa, de olhos de réptil, tem sua força e seu poder na sedução a que sucumbe Bolívar e numa determinação que a põe em guerra com Bibiana, numa disputa por Licurgo e pelo Sobrado até sua morte, vitimada por um tumor maligno.
Se a terra e as boas águas nutrem o nosso imaginário, quando falamos em Ana Terra e Bibiana, com Luzia o que aparece é o fogo destruidor, poderoso, sedutor, como quer seu próprio nome e a lenda na qual seu perfil está calcado. Luzia é também uma forte, mas sua força, ao contrário de Ana Terra e Bibiana, não tem motivação na sublime função materna, mas na sexualidade que seduz e aniquila Bolívar, uma sexualidade que vemos muito mais explicitada na desejo do Dr. Winter e no ódio de Bibiana, do que na conduta propriamente dita de Luzia. Esta força sexual, por assim dizer, é representativa ao longo do texto, sobretudo se recordarmos que Helga Kunz evocava à jovem Bibiana os olhos da Teiniaguá e que, na tradição das "outras" dos varões Terra/Cambará, Ismália Caré evocará à velha Bibiana um jeito, alguma coisa de Luzia.
Na contrapartida das mães dignas e fortes: Ana Terra, Bibiana, Flora e Silva, estão as "outras" no rastro de Luzia-Teiniaguá-Lorelei-Melpômene, as Helga Kunz, Ismália Caré, Toni Weber, Roberta Ladário, Sônia Fraga, Mary Lee, Mandy. A princesa moura é estrangeira, como o desejo é estrangeiro. As "outras", todas estrangeiras, perigosas, ameaçadoras, excluídas tanto do âmbito cultural como da classe social dos Terra/Cambará, encarnam uma sexualidade impulsiva e destruidora.
A equação é simples, recorrente ao longo da representação e construção das personagens femininas na literatura: o corpo feminino dividido entre um corpo materno digno e um corpo prostituído indigno; ou bem Marias ou bem Evas, ou bem santas ou bem putas, como se sabe.
Submetidas à prescrição patriarcal "parirás na dor", as tais mães fortes e poderosas expiam a culpa do pecado original e vêem-se deslegitimadas na própria maternidade ao terem seu corpo dividido com as "outras". E o desfecho de cada uma delas é revelador: Ana Terra pede para enterrarem a roca de fiar com ela para que Bibiana não seja mais uma escrava; Bibiana já velha, ao saber da morte da bisneta Aurora, sente-se aliviada ao pensar que será uma a menos a amargar um destino de mulher; Luzia é sacrificada por um tumor maligno.
Entre elas, no entanto, esquecida pela crítica, no rastro do próprio anonimato criado pelo texto, Maria Valéria Terra, com uma vela na mão, perpassa O tempo e o vento suscitando questões, subvertendo um modo de ser feminino que subjaz às normas e condutas.
A trilogia O tempo e o vento de Érico Veríssimo abre com a cena do Sobrado sitiado, os homens em guerra e dentro do Sobrado, Alice, mulher de Licurgo Cambará entra em trabalho de parto e viemos a saber, com os demais homens da casa, que a criança nasceu morta e que era uma menina. Este episódio, bastante significativo ao longo do texto, suscitou nossas primeiras indagações de como a maternidade tem sido representada pelo imaginário literário e a minha suspeita de haver um silêncio ao redor desta experiência, tipicamente feminina, mas que, ao legitimar a função única da mulher dentro da cultura patriarcal, deveria estar mais exposta, mais festejada, melhor presenciada. Viemos, nós leitores, e aqueles homens cansados, suados, semimortos, em meio a uma guerra, a saber do parto de Alice Cambará, por Maria Valéria, sua irmã.
Maria Valéria apresenta-se, por assim dizer, de início, como a porta-voz de uma experiência típica do mundo e do corpo das mulheres, que, no entanto, ela jamais experimenta. Com a morte de Alice Cambará, Maria Valéria torna-se a referência materna por excelência na vida dos meninos Rodrigo e Toríbio Cambará e para os filhos destes para quem até a velhice, ela será a Dinda, a Madrinha, aquela que não é mãe mas que cuida e protege.
Maria Valéria aqui traça um contorno que - ao contrário do que quer a crítica - não a nivela como uma mãe a mais dentro de uma entidade feminina homogênea, mas que é inovador: desmistificando a idéia de uma natureza feminina feita indistintamente para a reprodução, Maria Valéria propicia uma leitura, bastante em voga em espaços interdisciplinares, de que a maternidade, o sentimento materno, o instinto maternal são construções culturais, ideológicas e que, muito além do determinismo biológico, a maternidade é apenas um afeto como outro qualquer (BADINTER, 1985) e que a figura materna é aquela que cuida.
Maria Valéria, a Madrinha, a Dinda, cuida e protege sem ser mãe. Não gesta, não pare. Está à margem da prescrição patriarcal às mulheres que expiam a culpa do pecado original: "parirás na dor". Tal prescrição se configura como castigo imposto ao corpo feminino pelo pecado original e tem como resultado a cisão definitiva do corpo feminino: o corpo virgem-materno-digno e o corpo prostituído-impuro-indigno. Essa tem sido a representação do corpo feminino ao longo da literatura: madonas, prostitutas, dignas esposas, indignas amásias.
A maternidade, historicamente, passa a ser o espaço da falta de identidade, da impossibilidade de auto-realização da mulher, da sua dependência e infantibilidade, da ausência do desejo e da sexualidade. Disso também o texto nos fala. Maria Valéria ao matar-se virgem, casta, ao não ter o corpo fendido (para cada Cambará macho há uma esposa e uma amante), não sofre a punição da ordem patriarcal e parece sentir-se muito à vontade, portanto, tanto com a experiência feminina como com a convivência masculina. O silêncio que permeia a experiência da maternidade, aqui, incluiria a experiência feminina com o próprio corpo como um todo: virgindade, menstruação, perda da virgindade, iniciação de uma vida sexual adulta, gravidez, gestação, parto, amamentação, etc. Tais aspectos da vivência do corpo feminino como um todo são de importância vital dentro da idéia de que é a partir do corpo, nossa matriz primeira, que construímos uma identidade, questão bastante problemática para as mulheres.
Este silêncio que é aparente (estas experiências são silenciosas, mas presentes em todas as personagens femininas do texto) parece reclamar uma "imperfeição" a mais do corpo feminino e que historicamente foi muito difícil de ser equacionada (MILES, 1989): a de que para que haja uma gestação tem de se admitir o corpo feminino como um corpo sexuado. É, afinal, o mistério de Maria, típico, cristão, constituinte do "eterno feminino" no imaginário masculino. Maria Valéria passa incólume por tais questões. Cuida dos filhos de Alice sem tê-los parido, é companheira de Liburgo sem submeter-se sexualmente a ele.
A castidade de Maria Valéria questiona a violência do relacionamento heterossexual a quem eram submetidas as mulheres. Não sendo mãe nem esposa, Maria Valéria, livre de determinadas atribuições intrinsícas a tais funções, transita com relativa liberdade e bastante determinação numa fronteira absolutamente delineada ao longo do texto e demarcada em total afirmativa pela crítica: a fronteira entre um território feminino e um território masculino. É uma mulher no mundo do dentro e do fora da casa, por onde acontecimentos políticos, guerras, nascimentos de crianças e tachos de marmelada se mesclam de tal maneira que o espaço dicotômico criado pelo patriarca aqui não se sustenta, se mescla.
Maria Valéria aparece também no texto como a figura central, ela herda um conhecimento de Ana Terra e Bibiana e o transmite a Flora e Sílvia. Essas, mesmo esposas e mães, têm na Dinda uma confiança inabalável para a resolução dos problemas, dos mais prosaicos aos mais existenciais. É assim que Maria Valéria intervém no episódio de Alicinha e seu descontrole com o roubo da boneca pelos meninos, resolvendo a questão, ou sendo quem controla Flora quando Rodrigo vai para a guerra, diminuindo a dramaticidade destas idas e vindas dos homens num movimento que para ela é absurdo, ilógico.
Mas a sombra também fala, pouco, mas fala: seguindo o que na atualidade temos mais condições de avaliar, a oralidade, a sabedoria transmitida oralmente, sem registro escrito histórico, encontra em Maria Valéria um discurso cheio de ditos e falares, prática feminina histórica por onde experiência, sabedoria, conhecimento e criatividade se juntavam. Uma leitura desta voz, direta e espontânea, mostra a modalidade de seus diferentes timbres. É surpreendente também que o fato de que, mesmo sendo mulher, vivenciando a clausura, a espera, a solidão, Maria Valéria seja a única personagem feminina do texto que não maldiz a condição feminina. Ana Terra, ao trazer a neta Bibiana ao mundo, pede que enterrem com ela a roca de fiar para que a neta não padeça como ela. Em outro momento, Bibiana, octogenária e à beira da morte, ao saber da morte da bisneta Aurora a bendiz por não ter que sofrer. Luzia é sacrificada com um tumor maligno e lemos pelos olhos de Licurgo, seu filho, tempos depois da morte da mãe, um depoimento onde ele atesta que sua vida foi um suicídio lento e constante. Anita, Aurora e Alicinha morrem. Flora, com os filhos adultos e a morte de Rodrigo, percebe-se absolutamente desamparada, transformando-se numa quase filha-protegida de Floriano. Traça para si um final de resignação e sacrifício, atributos que dignificaram estas personagens femininas ao longo do texto e da crítica. Triste legado esse.
Maria Valéria não morre. Octogenária, cega, tateia pela casa carregando uma vela acesa, uma chama que não se apaga. Vemos no fogo desta chama um significado de conhecimento, ao invés do fogo simbolizado por Luzia, de destruição. Opõe-se também à terra/água nutrientes e protetoras de Ana Terra.
O procedimento narrativo cada vez que Maria Valéria entra em cena é de aparição, "surgiu", "uma presença", "um vulto", o que a caracteriza como sombra, "o fantasma predileto" de Rodrigo Cambará.
Por fim, características como a castidade, o anonimato, a inteireza, a sabedoria, a introspecção (para citar alguns), encontram ecos no arquétipo de Héstia, o que nos permite supor que Maria Valéria, ao invés da sombra que reduplica o arquétipo fundado por Ana Terra, funda um arquétipo novo, retirando-a assim da já tradicional tríade instituída pelo texto e pela crítica composta por Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. Floriano Cambará, pretenso crítico do machismo gaúcho, ao questionar seus mitos e valorizar a "raça" das mulheres, não consegue safar-se da maldição da feminino estereotipado: ama Sílvia mas é amante de Mandy. Mas Floriano, como Érico Veríssimo, mantém a chama da vela acesa, a sombra permanece, "o Sobrado está vivo", diz Floriano Cambará no início-fim de O tempo e o vento ao ouvir os passos da Dinda pela casa.
Este trabalho, seu motivo, persegue uma pergunta, simples: como se ilumina uma sombra? Há caminhos e descaminhos quando se pensa a história das mulheres, os arquétipos, mitos, estereótipos que petrificaram, cristalizaram seus corpos e vozes. Como se ilumina uma sombra?
A pergunta permanece, permanece ainda.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
A mãe de mim:
Lélia Almeida.
Começou na sexta-feira o chorinho do bebê. O choro de um bebê tão pequeno que o meu primeiro impulso foi o de sair no meio da noite e procurá-lo na rua, lembrando das histórias das mães desesperadas que abandonam seus filhos no lixo na calada da noite. Fui tomada por uma angústia atroz ao ouvir aquele chorinho frágil e intermitente. Chamei o meu filho para que ouvisse o choro comigo na janela, pronta para descer e procurar no lixo o corpo de um bebê que eu imaginava ser uma menina muito pequena. Meu filho não ouviu nada. Sentou ao meu lado na cama, segurou a minha mão e disse que o choro devia vir de algum apartamento vizinho. Ficou comigo até que eu adormecesse. Voltei a ouvir o choro do bebê por mais algumas noites mas não me atrevi a buscá-lo na rua escura no meio da noite. O choro este que vem de dentro de mim. Um choro represado de quem nunca soube como era sentir, numa casa onde sentir era um luxo. E não gostar um luxo maior ainda. Quando foi que ela desistiu de mim, eu me pergunto, e como é que se desiste de uma filha. Eu já sei de algumas respostas e elas são isto e nada mais, respostas prováveis. O desassossego do meu coração não entende as explicações. Uma herança maldita esta, que eu tento reverter, reiventar, quase sempre sem conseguir. A noite é quieta. Sei que a menina voltará a chorar muitas vezes. Tenho que aprender a cuidá-la, tenho de poder acalmá-la, aninhá-la entre os meus braços e meus peitos envelhecidos. Sentir seu corpo pequeno convulsionado pelo choro e seus incômodos. Minha voz será forte e serena para que eu possa consolá-la com firmeza. E ela adormecerá nos meus braços, entregue, uma menina que sou eu, agora que eu sou ela e sou a mãe de mim.
sábado, 7 de maio de 2011
DIA DAS MÃES
Lélia Almeida.
Como homenagem ao dia das mães escolhi a voz de diferentes autores para um diálogo sobre a função materna ou o sentimento da maternidade. A voz desses autores ressoa próxima na minha memória: leituras antigas, imagens soltas, vozes, ecos, silenciosas conversas com os livros.
Sobre os autores e textos citados, uma breve informação. As referências a Érico Veríssimo são através de O Continente II, editado pela Globo. O texto de Elisabeth Badinter, O mito do amor materno. Um amor conquistado, editado pela Nova Fronteira é leitura obrigatória para a desmistificação da maternidade como uma natural vocação feminina. O livro de Valesca de Assis, o primeiro texto de ficção sobre a colonização alemã em Santa Cruz do Sul, A valsa da Medusa foi editado pela Movimento. Simone de Beauvoir é citado atavés do livro Simone de Beauvoir hoje, entrevista histórica com Simone de Beauvoir com Alice Schwarzer, editado pela Rocco. Clarice Lispector aparece citada em seu texto de estréia na literatura brasileira, o sempre fantástico e emocionante Perto do coração selvagem, editado pelo Círculo do Livro.
Fazer uma seleção é sempre procedimento injusto e incompleto. Tantas vozes, autores e nós mesmos poderíamos fazer as reflexões mais profundas e poéticas sobre o tema. A escolha foi breve, rápida. Trechos de textos, pinceladas sobre este assunto tão controverso, tão presente, sempre emocionante. Que falem os autores, então. Eu, de minha parte, a partir do valioso apoio e colaboração do Grupo Mulher e Cidadania (UNISC e Movimento Intersindical), quero desejar a todas as mulheres que cuidam sem cessar, que embalam o mundo das mais diferentes maneiras, o meu FELIZ DIA DAS MÃES!
1) "A memória então lhe voltou. Era Bolívar Cambará, estava em sua casa, em seu quarto e fazia algum tempo que se deitara para dormir. Mas o medo ainda lhe comprime o peito, e era mais terrível ainda porque ele não lhe conhecia a causa. Alguma coisa o fizera soltar um grito e acordar assustado, alguma coisa que decerto estava agora escondida num dos cantos do quarto escuro... Por isso a voz de sua mãe era uma esperança de socorro. Ele queria luz: ele queria a mãe.
Uma porta se abriu e Bibiana apareceu com uma vela acesa na mão. A chama alumiava-lhe o rosto. E por um segundo Bolívar de novo voltou à infância. Pareceu-lhe até sentir o cheiro de óleo da lamparina. O rosto da mãe lhe deu a sensação de segurança de que ele precisava. Seu primeiro ímpeto foi o de caminhar para ela, buscando a proteção de seus seios, de seus braços, de seu ventre. Para ele mãe e luz eram duas coisas inseparáveis. Quando menino, muitas vezes acordava assustado no meio da noite, começava a chorar e só se acalmava quando a mãe acendia a lamparina e o tomava nos braços para o embalar".
(VERÍSSIMO, Érico. O continente II).
2) "Eu me sinto segurando uma criança, pensou Joana. Dorme, meu filho, dorme, eu lhe digo. O filho é morno e eu estou triste. Mas é a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido, longínquo. E quando meu filho me toca não me rouba pensamento como os outros. Mas depois, quando eu lhe der leite com estes seios frágeis e bonitos, meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida. Ele se distanciará de mim e eu serei a velha mãe inútil. Não me sentirei burlada. Mas vencida apenas e direi: eu nada sei, posso parir um filho e nada sei. Deus receberá minha humildade e dirá: pude parir um mundo e nada sei. Estarei mais perto d'Ele e da mulher da voz. Meu filho se moverá nos meus braços e eu me direi: Joana, Joana, isso é bom. Não pronunciarei outra palavra porque a verdade será o que agradar aos meus braços".
(LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem).
3) "Sim, o vulto que se debruçava sobre ele lembrava em muito sua mãe e Tristan sentiu-se definitivamente ligado ao amparo daquela mulher, aos traços difusos, que iam se tornando fortes: a testa pequena, os olhos grandes e atentos, a boca determinada, o cabelo muito claro e em leve desalinho. Apenas um mínimo tremor na pálpebra direita sugeria preocupação. As palavras que dizia eram tranqüilizadoras. Eram palavras de mãe.
Doces perguntas, femininas perguntas: quem era? de onde vinha? por que tão imprudentemente se tinha arriscado, descalço, naquelas matas de bichos peçonhentos? sentia-se melhor? queria algo? tinha frio? Nada, nada. Tristan não queria que o menor movimento afastasse aquele colo quente, aquele hálito de pêssego, aquela face ameigada pela ternura. Só queria, se pudesse, voltar para dentro de sua mãe, um pouquinho só, e sentir o que todas as crianças sentiram, menos ele, tão órfão, tão só".
(ASSIS, Valesca de. A valsa da Medusa).
4)"É à mulher primitiva que devemos o fato de nós sermos destros, por exemplo. Como explica Nigel Calder, "a preferência por uma das mãos, a típica preferência destra do humano moderno, é um fenômeno feminino". Desde tempos imemoriais que a mulher acostumou-se a carregar seu bebê no lado esquerdo de seu corpo, onde pode ser reconfortado pelo bater do seu coração; isso libera sua mão direita para agir, e teria sido o incentivo no sentido da evolução da predominância dos destros em seres humanos mais tardios. Calder mostra que o apoio para a "feminilidade na preferência da mão" aparece no fato de até hoje as meninas desenvolverem sua preferência de mão, como na fala, muito mais rápida e decididamente do que os meninos".
(MILES, Rosalind. A história do mundo pelas mulheres).
5)"- A. S. - A senhora foi freqüentemente atacada por sua posição em relação à maternidade, e isso por mulheres. Elas a acusam de recusar a maternidade.
- S. B. - Ah, não! Eu não a recuso! Acho apenas que hoje é uma armadilha infantil para uma mulher. Por isso, aconselharia uma mulher a não se tornar mãe. Mas não faço um julgamento de valor. O que se deve condenar não são as mães, mas a ideologia que incita todas as mulheres a se tornarem mães e em que condições devem sê-lo.
Junta-se a isso uma mistificação perigosa da relação mãe-filho. Acho que se as pessoas dão tanta importância à família e aos filhos é porque, no todo, vivem numa grande solidão: não têm amigos, amor, ternura, ninguém. Estão sós. Portanto, fazem filhos para terem alguém. Dá-se o mesmo com o filho. Ele se torna um substitutivo. Em todo caso, quando cresce, livra-se. Não constitui absolutamente uma garantia contra a solidão".
(SCHWARZER, Alice. Simone de Beauvoir hoje).
6)"O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não existe. As diferentes maneiras de expressar o amor materno vão do mais ou menos, passando pelo nada, ou quase nada.
Convictos de que a boa mãe não é uma realidade entre outras, partimos à procura das diferentes faces da maternidade, mesmo as que hoje são rejeitadas, provavelmente porque nos amedrontam".
(BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado. O mito do amor materno).
quinta-feira, 24 de março de 2011
Amor em tempo real:
Lélia Almeida.
(Os feeds que compõe Amor em tempo real foram postados no Facebook de 19 de janeiro a 22 de março de 2011 e acompanhados por um público leitor que dava sugestões no formato e no conteúdo da história. A história literária terminou quando a história real começou.)
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Hoje ele contou do tempo em que viveu na casa que tinha sido um estábulo. Uma casa pequena e aconchegante. Quando chegava em casa não tinha ninguém eperando por ele. Lembra desse vazio. E do alemão que cuidava do lugar e que tinha um cão, um husky que tinha um olho azul e outro verde. Durante muitos meses aquele cão era isso e nada mais. Alguém que o esperava.
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Quando eu abraçar você no aeroporto vão ter de chamar a polícia para nos separar. Adoro, eu digo, adoro os seus excessos, o seu exagero. Ele disse, não é exagero, é fome.
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Hoje tomamos vinho. Usei o colar de pérolas, o de duas voltas, com o vestido preto. Belíssima, ele disse, belíssima, você! Ouvimos música e nos balançamos muito distraídos. Ele disse, parece que você está num barco, à deriva. Eu disse, eu estou, meu amor, estou à deriva, estou perdida.
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Hoje ele trouxe as fotos. Tem uma em preto e branco, numa praia do sul do país. Na foto ele é um menino franzino de sobrancelhas grossas e segura uma bóia que é um pato. As mesmas sobrancelhas, eu penso, e amo o menino que ele foi também.
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A conexão está péssima hoje. Ele diz que é por conta da neve, da umidade. Sinto a sua falta, ele diz, nem sei como isso é possível, mas sinto a sua falta. A luz é pouca, vejo apenas o contorno do rosto dele e ouço a voz definitiva: eu gostaria de ter tido um filho com você. Eu também, digo soluçando.
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Como uma pêra na frente da cam. Seguro a pêra com as mãos enfiadas nas luvas de renda preta. Depois tiro as luvas e lambo os dedos. Ele olha. Chega muito perto da câmera e sussurra. Um dia eu vou comer você assim, tão suave e vorazmente como você come esta pêra.
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Ele perguntou se eu acreditava que o mundo ia acabar em 2012. Chorei como uma menina perdida e disse a ele que vamos ter pouco tempo, muito pouco tempo para viver este amor sem fim. E que não é justo perdê-lo agora que sei que ele existe.
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A conexão caiu e só voltou duas horas depois. Ficamos irritados, desesperados. Expliquei que tinha visto no noticiário sobre uma explosão do sol e sobre as partículas de plasma que estavam sendo jogadas na atmosfera, e que a repórter tinha explicado que por conta do fenômeno a conexão ia ser afetada. “Foi-me dado amar você num mundo estranho e difícil”, ele disse.
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Você gosta de ser olhada, então. Eu não sabia que gostava, expliquei, descobri isto agora, com você. Pode se exibir à vontade, ele disse, eu não canso de olhar pra você. Somos insaciáveis um do outro, curiosos, crianças outra vez.
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Tela-a -tela. Quando ele me olha ele não me vê. Quando eu olho pra ele, baixo os olhos. Vejo a mim mesma olhando pra ele. Estou enamorada de nós. Faço poses, a que ele vê não sou a que eu vejo. Desencontro dos olhares. A voz num sussurro. Promessas, quantas promessas. Como na vida real. Projeções, tela-a-tela.
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Hoje desligamos a cam. E falamos no telefone. A voz dele é mais doce ainda e os sussurros mais profundos. Fecho os olhos. Ele é outro, outro homem, e é o mesmo. Uma voz sem idade, ele me diz, você tem uma voz fora do tempo. Assim é a voz dos amantes, uma voz fora do tempo.
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Este tempo é só isto. Uma promessa. E eu que tinha tanta saudade de uma promessa, e eu que vivia de uma maneira tão previsível. Eu não preciso de mais nada neste momento, além desta suspensão do tempo. Eu prometo, ele diz. Eu espero, eu digo.
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Palavras novas, idioma novo. Palavras novas das coisas da vida pequena, a que importa. Olhos, nariz, sobrancelha, queixo, orelha, bochecha, testa, lábios, língua, cabelo, brincos, óculos, echarpe, camisola, anel, cobertor, travesseiro, boa-noite, meu amor.
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Você está distante, eu digo. Ele explica que deve ser por causa do tempo, faz frio e venta muito, acho que vai nevar, ele diz. Os olhos tão tristes. Não posso ver você assim, tenho o coração apertado. Boca de cereja, ele diz, você tem uma boca de cereja. A tristeza é irremediavelmente vermelha. Noite de frio e saudade.
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Não posso estar em outro lugar, tenho que estar aqui, ele diz. Eu entendo, digo, também me sinto assim. É aqui que me sinto em casa, como as pessoas que chegam em casa depois do trabalho e se contam o que fizeram durante o dia. Você é a minha casa, ele diz. E você a minha, eu digo.
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Vamos dançar? ele perguntou. De rosto colado. Eu seguro você, eu acarinho os seus cabelos enquanto dançamos. Fechos os olhos, ele escolhe a música, a nossa música, ele diz. Já temos uma música agora.
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Hoje eu resolvi fumar. Eu não sabia que você fumava, ele disse. Eu não fumo, só fumo quando bebo, expliquei. Queria acender o seu cigarro e depois beijar você com cheiro de cigarro e gosto vinho. Você é amável, eu disse. Sou mais do que um homem amável agora, ele disse. Agora eu sou um homem apaixonado por você.
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Eu sei quando você está pronta, ele diz, já aprendi. Conte-me, eu peço. É quando você começa a tocar a ponta da orelha e a girar o brinco, como se o brinco fosse um mamilo, eu gosto de pensar. E você, quando começa a enroscar o cabelo, eu digo, eu também já sei quando você está pronto. Venha então, minha adorada. Eu vou sim, sussurro, confiante.
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Mostrei uma foto minha hoje, onde estou com o meu filho, no dia da festa de aniversário de sete anos dele. Ele disse que o meu olhar era o de uma mãe amorosa e que o menino tinha os olhos expressivos como os meus. Na foto, o menino tem merengue no queixo e sorri envergonhado. Ele chega muito perto da cam e diz: Eu queria ser seu filho também, e seu pai, e o seu amor.
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Choro na frente da cam. Ele se sobressalta e pergunta o que houve de tão grave para que eu chore assim. Eu digo entre soluços que estou emocionada. Que procurei por ele a vida inteira e que ele estava ali, do outro lado do mundo, naquele país tão lindo, que está sob a neve agora. Ele diz que sou boba, que sou boba e linda e que queria beijar as minhas lágrimas e me abraçar.
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Há um vento muito estranho lá fora, acho que vai chover, ele conta. Estou arrasada com o terremoto, eu digo, não consigo parar de chorar quando vejo as cenas, um mundo devastado este, eu digo. Me sinto muito só hoje também, ele diz. São saudades, meu querido, saudades sem fim, eu explico para nós dois.
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Eu poderia desejar muitas coisas, das tantas que imaginei durante todo este tempo de espera, mas a que mais quero é esta, andar de mãos dadas com você, ele diz. Eu entendo, eu digo, não desejo outra coisa também, andar de mãos dadas com você. Somos simples.
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Você é o meu porto seguro, ele disse, e agora este espaço virtual é a nossa casa branca, a que vou construir para viver com você um dia. Porto seguro e casa branca. Já temos metáforas. Até parece um namoro de verdade.
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Hoje tiramos fotos com o celular. Fotos daquilo que podemos ver com a cam. Uma nova e estranha maneira de se encontrar, ele diz. Estamos conectados, eu disse, é o que importa. Vamos passar da distância absoluta para a intimidade absoluta. Como num salto, eu digo, como num salto vertiginoso.
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Amanhã não estarei aqui para o nosso encontro, ele diz, rindo baixinho. Estarei a caminho. Digo que terei olheiras horríveis depois de uma noite sem dormir. Ele diz que vamos ter tempo para dormir e descansar, finalmente. E que ainda precisa terminar de arrumar a mala.
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Fecho a porta do apartamento. Já estive muito nervosa, agora estou inexplicavelmente calma. Carrego uma pêra que parece pulsar na minha mão esquerda. È noite ainda. Subo no táxi e digo ao motorista: para o aeroporto, por favor.
sábado, 19 de março de 2011
As mães da guerra:
Lélia Almeida.
Acordei com o coração apertado no meio da noite, com medo da guerra. Fomos muitas esta noite, as mães que não dormimos e repetimos gestos iguais como no movimento de uma dança onde nos parecemos e reconhecemos. Levantei e fui tomar água e olhar o meu menino que dormia e meu coração ficou mais apertado, o meu e o delas também. É só um detalhe o que me separa das mães da Líbia esta noite, das mães americanas, das francesas, das italianas também, um detalhe e nada mais: um golpe de sorte. Sorte porque casualmente a guerra não é aqui, da maneira como é lá neste momento. Mas estamos todas despertas, alertas, tentando embalar o mundo nesta noite infindável e escura.
A qualquer momento as bombas vão começar a cair, a qualquer momento a poderosa máquina da guerra, um trambolho tecnológico e imenso, movido pelo ódio e a insensatez e que acorda e adormece como um monstro de muitas vidas, estará em movimento outra vez. Por isso estamos alertas. Acendo velas no meu oratório e me persigno junto com todas elas, no meio desta noite escura. Somos muitas e oramos. Estamos vestidas de preto e oramos. Somos as mães do mundo, as mães gregas, as mães de Guernica, as da Praça de Mayo, as japonesas, as colombianas, as judias, as bósnias, as salvadorenhas, as afegãs, as iraquianas, as brasileiras, as americanas também. E os nossos filhos foram para a guerra. Os nossos meninos, promessas de amor e sonhos das nossas vidas: a semente, o fruto e a flor. Não há explicação que justifique perder a vida para uma morte insana, os nossos meninos ainda em flor oferecem suas vidas ao monstro devorador e a noite cai sobre nossas almas, numa condenação. Oramos, pranteamos o mundo e o desejo de morte de alguns. Nossas mãos fortes feitas para o amor estão aflitas, se contorcem, nossos olhos em pouco tempo estarão secos, de pedra, duros de incomprensão. Nosso pranto é um lamento, uma cantiga de ninar, um hino de amor à vida, de não à morte, à guerra, os meninos estão em perigo. Mas ninguém nos ouve. Somente nós, as mães do mundo, ouvimos um poderoso murmúrio subterrâneo que nos desperta e nos irmana nesta noite. Ouvimos o nosso pranto e nossa oração.
A história então se repete. É sempre a mesma. Uma mãe é despertada por um eficiente oficial do exército, num povoado deserto, semi-abandonado, na véspera da guerra, onde metade dos moradores locais já partiram para os campos de refugiados. O oficial é breve e tem pressa. Seu filho morreu ontem, numa manobra preparatória. A mulher, vestida de preto como nós, as mães do mundo e da guerra, pede para ver o menino, não pode acreditar, o oficial impaciente diz que é impossível, o corpo do menino explodiu pelos ares, mas traz enrolado num jornal os pertences do bravo soldado e parte apressado. A mãe, na porta da casa que tem de abandonar, abre o pacote e vê o par de sapatos do seu príncipe, do seu menino em flor, sapatos destruídos, rotos, furados, cheios de terra e sangue misturados. Cheira os sapatos, lambe, abraça junto ao corpo, ao colo, beija, lava os sapatos. Como se lavasse o corpo do seu menino, seus pés pequenos de ontem, os pés fortes de hoje, tira a terra misturada com o sangue seco e pensa em todos os gestos que lhe roubaram, limpar-lhe o rosto de olhos fechados, lavar-lhe o corpo destruído, curar-lhe as feridas. Acarinhá-lo, vestir-lhe roupas limpas, lembrar sua vida breve, honrar sua morte prematura. Beija os sapatos, enfia seu rosto de olhos secos no espaço côncavo entre os dois sapatos, um espaço vazio, e fica ali para sempre enquanto cai a escuridão da noite.
As bombas vão começar a cair, dizem, a qualquer momento. A mulher parte, vestida de preto, um ponto preto minúsculo numa multidão de mães perdidas mundo afora com as mãos vazias e os peitos secos. A nossa oração não pára, o pranto também não, levaram nossos meninos, assim como levaram os pais dos nossos meninos, e como levaram os avós dos nossos meninos um dia. O pranto e a reza atravessam o mundo e os nossos corações, os das mães do mundo e da guerra.
Que o saldo da guerra nunca foi a paz. O saldo da guerra é sempre a morte.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Os amantes que vinham do Sul:
Lélia Almeida.
Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma mulher louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Ah, sim! Os seres humanos. É necessário um biólogo corajoso para aplicar estas novas descobertas sobre infidelidade entre os animais ao estudo das pessoas, pessoas que vociferam e continuam a insistir em conceitos como livre-arbítrio, consciência e imprevisibilidade. Ocorre que há um número considerável de intrépidos teóricos e muitos propõem que a enorme vontade humana de trair tem uma base na evolução.
Os bebês precisam de cuidados por muito tempo, o que, provavelmente, levou os casais a terem uma ligação forte logo no início de nossa evolução. Mas mesmo um homem feliz em seu casamento pode ser levado a uma escapada pela vontade de espalhar um pouco mais de seus genes na população. A mulher, por sua vez, pode querer ter relações sexuais com um homem que parece ter genes melhores ou que, pelo menos, lhe ofereça um pedaço de carne de zebra em troca de seus favores. Muitos biólogos especializados em evolução afirmam que os lapsos na monogamia ajudaram a desenvolver o ciúme sexual do macho, trazendo as desagradáveis manifestações culturais como a desfiguração genital das mulheres, o costume chinês de prender os pés das meninas para que estes não cresçam, e outros mecanismos pelos quais os machos controlaram os desejos das fêmeas. Embora a mulher tenha boas razões para sentir-se também com raiva das infidelidades do esposo, esta é geralmente em menor grau. Além disso, a mulher terá maior dificuldade para segurar o homem o tempo necessário para envolver os testículos dele em um protetor de ferro.
Mas as mulheres não são completamente indefesas. A evolução dotou-as de meios que as poupam de serem controladas de perto pelos homens, graças sobretudo à dádiva da ovulação críptica. Ao contrário das fêmeas dos macacos resos, as nádegas das mulheres não ficam vermelhas quando elas ficam férteis. Ao contrario das mariposas, elas não mandam para o ar feromônios que irradiam sua situação, nem ficam miando na janela como as gatas. Assim fica difícil para o macho controlá-la nos dias de ovulação.
Para melhor confundir os homens as mulheres têm seios. Entre os grandes macacos, peitos cônicos sinalizam que a fêmea está lactante e, portanto, tem baixo valor reprodutivo. Mas, entre os humanos, os seios permanentemente cheios são ambíguos e não revelam facilmente aos machos se elas estão férteis ou lactantes, novamente confundindo os esforços dos homens para restringir as atividades reprodutivas femininas. Talvez isso explique por que os homens são fixados em seios: eles estão procurando pistas. Pena é que eles estão olhando para os lugares errados.
NATALIE ANGIER em A beleza da fera. Novas formas de ver a natureza da vida. Ed. Rocco, 1998.
Os bebês precisam de cuidados por muito tempo, o que, provavelmente, levou os casais a terem uma ligação forte logo no início de nossa evolução. Mas mesmo um homem feliz em seu casamento pode ser levado a uma escapada pela vontade de espalhar um pouco mais de seus genes na população. A mulher, por sua vez, pode querer ter relações sexuais com um homem que parece ter genes melhores ou que, pelo menos, lhe ofereça um pedaço de carne de zebra em troca de seus favores. Muitos biólogos especializados em evolução afirmam que os lapsos na monogamia ajudaram a desenvolver o ciúme sexual do macho, trazendo as desagradáveis manifestações culturais como a desfiguração genital das mulheres, o costume chinês de prender os pés das meninas para que estes não cresçam, e outros mecanismos pelos quais os machos controlaram os desejos das fêmeas. Embora a mulher tenha boas razões para sentir-se também com raiva das infidelidades do esposo, esta é geralmente em menor grau. Além disso, a mulher terá maior dificuldade para segurar o homem o tempo necessário para envolver os testículos dele em um protetor de ferro.
Mas as mulheres não são completamente indefesas. A evolução dotou-as de meios que as poupam de serem controladas de perto pelos homens, graças sobretudo à dádiva da ovulação críptica. Ao contrário das fêmeas dos macacos resos, as nádegas das mulheres não ficam vermelhas quando elas ficam férteis. Ao contrario das mariposas, elas não mandam para o ar feromônios que irradiam sua situação, nem ficam miando na janela como as gatas. Assim fica difícil para o macho controlá-la nos dias de ovulação.
Para melhor confundir os homens as mulheres têm seios. Entre os grandes macacos, peitos cônicos sinalizam que a fêmea está lactante e, portanto, tem baixo valor reprodutivo. Mas, entre os humanos, os seios permanentemente cheios são ambíguos e não revelam facilmente aos machos se elas estão férteis ou lactantes, novamente confundindo os esforços dos homens para restringir as atividades reprodutivas femininas. Talvez isso explique por que os homens são fixados em seios: eles estão procurando pistas. Pena é que eles estão olhando para os lugares errados.
NATALIE ANGIER em A beleza da fera. Novas formas de ver a natureza da vida. Ed. Rocco, 1998.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
POLITICK MEMORYHOUSE STROKE
Pedro Domingues.
Depois de um dia de dor seca com essa família de eternos estranhos
vem uma memória que me faz chorar e me trás de volta:
a baleia que canta "Fígaro" com três gongos de goela.
O amor de mãe vem pelas árvores
correndo em minha direção
eu me sinto, eu sinto ela.
Eu me lembro quando ela fez pipoca
tentando nos trazer de volta da horrível monotonia de um domingo perdido.
Estou sob sua asa novamente,
sentindo seu coração,
enquanto a baleia do desenho animado canta por um futuro em um mar escuro e
por um futuro sem tanto medo.
Minha mãe é minha baleia,
minha mãe é meu perdão para longe de todos os venenos
que correm pela terra.
Minha mãe é meu amor,
todas as mulheres do começo ao fim.
Ela é meu furacão
numa terra de comodidade emocional e negação.
As lágrimas ainda correm por dentro
deste mar atrás do olho
que eu aprendi a observar através dela.
Ele começa onde esta terra seca termina,
este segundo poder.
Então me transformo em poeta novamente
para estar próximo dela
para atravessar como um furacão
novamente ao mar com todos os membros
desta doce e brutal resistência
VIVA LA RESISTENCE!
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Para o Zé, de Adélia Prado:
Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer te amo.
Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba.
Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho.
Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Fui buscar a Sofia na escola, a minha sobrinha. Fim de tarde, avós, pais e mães buscando as crianças, uma confusão de gentes e correria. Vejo a minha menina procurando,os olhos dela me encontram, duas jabuticabas sorrindo. Ela vem correndo e se abraça em mim. Delícia de abraço. Menina suada, fim de tarde, vamos rumo ao entardecer as duas, de mãos dadas e felizes.
Amor é reconhecimento.
Amor é reconhecimento.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Declaração de amor:
A coisa precisa ficar séria. Estive muito sozinha, mas nunca vivi sozinha. Quando estava com alguém, me sentia feliz, mas, ao mesmo tempo tudo parecia coincidência. Aquelas pessoas eram meus pais, mas poderiam ter sido outras. Por que esse rapaz de olhos castanhos é meu irmão e não aquele de olhos verdes do outro lado da plataforma? A filha do taxista era minha amiga, mas eu poderia ter igualmente ter colocado o braço em torno do pescoço de um cavalo. Estive apaixonada por um homem. Eu poderia igualmente tê-lo abandonado e partido com um estranho que cruzou conosco pela rua. Olhe para mim ou não. Me dê sua mão ou não. Não, não me dê sua mão, desvie o olhar. Hoje é noite de lua nova, noite muito tranqüila, sem derramamento de sangue pela cidade. Nunca brinquei com ninguém, apesar disso nunca abri os olhos e disse: “Agora é sério”. “Finalmente é sério”. Assim, fiquei mais velha. Era eu a única que não era séria? O tempo não tem nada de sério? Nunca fui solitária, nem quando estive sozinha nem acompanhada. Mas eu teria gostado de ser solitária. Solidão significa o seguinte: finalmente estou inteira. Agora posso afirmar isso, pois hoje me sinto solitária. As coincidências precisam ter um fim. Lua nova das decisões. Não sei se existe destino, ma existe decisão! Decida! Nós agora somos o tempo. Não apenas a cidade, mas o mundo todo tem parte na nossa decisão. Agora nós dois somos mais do que dois. Encarnamos algo. Estamos na praça do povo e a praça está cheia de gente que deseja o mesmo que nós. Estamos decidindo o jogo de todos. Estou pronta. Agora é a sua vez. O jogo está em suas mãos. Agora ou nunca. Você precisa de mim. Você vai precisar de mim. Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais. Veja os meus olhos. Eles são o retrato da necessidade, do futuro de todos os que estão na praça. Ontem à noite sonhei com um estranho, com o meu homem. Apenas com ele eu poderia ser solitária, me abrir para ele, totalmente. Recebê-lo em mim como um ser inteiro. Envolvê-lo num labirinto de felicidade partilhada. Eu sei que ele é você.
Cena, quase final, do filme "Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.
A coisa precisa ficar séria. Estive muito sozinha, mas nunca vivi sozinha. Quando estava com alguém, me sentia feliz, mas, ao mesmo tempo tudo parecia coincidência. Aquelas pessoas eram meus pais, mas poderiam ter sido outras. Por que esse rapaz de olhos castanhos é meu irmão e não aquele de olhos verdes do outro lado da plataforma? A filha do taxista era minha amiga, mas eu poderia ter igualmente ter colocado o braço em torno do pescoço de um cavalo. Estive apaixonada por um homem. Eu poderia igualmente tê-lo abandonado e partido com um estranho que cruzou conosco pela rua. Olhe para mim ou não. Me dê sua mão ou não. Não, não me dê sua mão, desvie o olhar. Hoje é noite de lua nova, noite muito tranqüila, sem derramamento de sangue pela cidade. Nunca brinquei com ninguém, apesar disso nunca abri os olhos e disse: “Agora é sério”. “Finalmente é sério”. Assim, fiquei mais velha. Era eu a única que não era séria? O tempo não tem nada de sério? Nunca fui solitária, nem quando estive sozinha nem acompanhada. Mas eu teria gostado de ser solitária. Solidão significa o seguinte: finalmente estou inteira. Agora posso afirmar isso, pois hoje me sinto solitária. As coincidências precisam ter um fim. Lua nova das decisões. Não sei se existe destino, ma existe decisão! Decida! Nós agora somos o tempo. Não apenas a cidade, mas o mundo todo tem parte na nossa decisão. Agora nós dois somos mais do que dois. Encarnamos algo. Estamos na praça do povo e a praça está cheia de gente que deseja o mesmo que nós. Estamos decidindo o jogo de todos. Estou pronta. Agora é a sua vez. O jogo está em suas mãos. Agora ou nunca. Você precisa de mim. Você vai precisar de mim. Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais. Veja os meus olhos. Eles são o retrato da necessidade, do futuro de todos os que estão na praça. Ontem à noite sonhei com um estranho, com o meu homem. Apenas com ele eu poderia ser solitária, me abrir para ele, totalmente. Recebê-lo em mim como um ser inteiro. Envolvê-lo num labirinto de felicidade partilhada. Eu sei que ele é você.
Cena, quase final, do filme "Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Rituais I:
As pessoas me perguntam: Quais são os rituais que podemos adotar? Bom, antes disto é importante perguntar, para que se quer um ritual? Deveriam ter um ritual para sua própria vida. Todo ritual concentra as mentes naquilo que se está fazendo. Por exemplo, o ritual do casamento é uma meditação sobre o passo que se está dando, o aprendizado de ser parte de um par em vez de ser um indivíduo só. O ritual nos permite fazer o trânsito.
O ritual nos introduz ao sentido do que está acontecendo.
Uma ação de graças antes das refeições faz com que saibamos que vamos comer algo que já esteve vivo.
Todo o ritual é desta ordem; põe a mente em contato com o que realmente estamos fazendo.
O principal ritual na maioria dos ritos de iniciação da puberdade é um ritual onde mudam o seu nome. Morre-se para o nome anterior e renasce-se com outra identidade.
O menino tem de “representar” a sua transformação num homem. A menina tem que “compreender” que é uma mulher. A vida o exige.
O homem jamais tem uma experiência semelhante. É por isto que muitos rituais de iniciação masculinos são tão violentos, tanto que o homem sabe com segurança que já não é uma criança. E é por isto que um jovem tem de ser separado da sua mãe. Na nossa cultura há mães que compreendem isto e ajudam na separação. Nas culturas primitivas, ele são separados definitivamente.
Rituais II:
Por isto está este ritual que permite a mulher deixar o seu filho homem partir. Ao longo dos anos o capelão da família, o guru, vem e lhe pede algo valioso que ela deve entregar. Começa com alguma jóia (que são praticamente as suas únicas posses) e depois ela tem que abandonar uma comida que gosta muito. Tem que apreender a desprender-se de coisas que valoriza. Depois vem a época em que o seu filho já não é mais um menino e então a mulher já aprendeu que as coisas mais apreciadas na sua vida podem partir.
J. Campbell.
As pessoas me perguntam: Quais são os rituais que podemos adotar? Bom, antes disto é importante perguntar, para que se quer um ritual? Deveriam ter um ritual para sua própria vida. Todo ritual concentra as mentes naquilo que se está fazendo. Por exemplo, o ritual do casamento é uma meditação sobre o passo que se está dando, o aprendizado de ser parte de um par em vez de ser um indivíduo só. O ritual nos permite fazer o trânsito.
O ritual nos introduz ao sentido do que está acontecendo.
Uma ação de graças antes das refeições faz com que saibamos que vamos comer algo que já esteve vivo.
Todo o ritual é desta ordem; põe a mente em contato com o que realmente estamos fazendo.
O principal ritual na maioria dos ritos de iniciação da puberdade é um ritual onde mudam o seu nome. Morre-se para o nome anterior e renasce-se com outra identidade.
O menino tem de “representar” a sua transformação num homem. A menina tem que “compreender” que é uma mulher. A vida o exige.
O homem jamais tem uma experiência semelhante. É por isto que muitos rituais de iniciação masculinos são tão violentos, tanto que o homem sabe com segurança que já não é uma criança. E é por isto que um jovem tem de ser separado da sua mãe. Na nossa cultura há mães que compreendem isto e ajudam na separação. Nas culturas primitivas, ele são separados definitivamente.
Rituais II:
Por isto está este ritual que permite a mulher deixar o seu filho homem partir. Ao longo dos anos o capelão da família, o guru, vem e lhe pede algo valioso que ela deve entregar. Começa com alguma jóia (que são praticamente as suas únicas posses) e depois ela tem que abandonar uma comida que gosta muito. Tem que apreender a desprender-se de coisas que valoriza. Depois vem a época em que o seu filho já não é mais um menino e então a mulher já aprendeu que as coisas mais apreciadas na sua vida podem partir.
J. Campbell.
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