domingo, 11 de setembro de 2011
Manual de sobrevivência - Willian Shakespeare
Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e nem promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto...
Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e nem promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto...
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Maldição. Por Lélia Almeida.
Quando eu nasci as musas, debruçadas sobre o meu berço disseram: "Nossa, como ela é feinha! Pra compensar, você vai ser muito inteligente", disse a primeira, "e clarividente", disparou a segunda, e a terceira, que estava de tmp, lançou a maldição que me persegue vida afora: "e cada vez que você se apaixonar vai emburrecer e perder todos os seus dons!"
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Do verdadeiro território do amor, por Lélia Almeida.
Fim de tarde. Todas de banho tomado e camisola na cama da Vó Pepa. Ela diz, eu e as minha guriazinhas. Contamos para a Sofia do dia em que ela nasceu, olhamos álbuns de fotos, estamos frescas, cabelos molhados, cada uma conta um pedaço da história, lembra de um detalhe, da roupinha amarela, da correria na hora do nascimento, e da nossa alegria que dura cinco anos já. A cama da Vó Pepa é como um navio suspenso no espaço. Estamos guardadas no tempo da memória. A tarde cai, o barco avança noite adentro. Quem conduz a nave, confiante e sorridente, é uma menina-capitã que sabe que aquele espaço suspenso é o verdadeiro território do amor.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Hombre pequeñito, um poema da Alfonsina Storni.
Hombre Pequeñito, de Alfonsina Storni.
Hombre pequeñito, hombre pequeñito,
suelta a tu canario que quiere volar.
Yo soy tu canario, hombre pequeñito,
...déjame saltar.
Estuve en tu jaula, hombre pequeñito,
hombre pequeñito que jaula me das.
Digo pequeñito porque no me entiendes
ni me entenderás.
Tampoco te entiendo, pero mientras tanto
ábreme la jaula, que quiero escapar;
hombre pequeñito, te amé media hora,
no me pidas más.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
O devaneio amoroso está em alta:
(...) Notemos, aliás, que um devaneio, diferentemente do sonho, não se conta. Para comunicá-lo, é preciso escrevê-lo, escrevê-lo com emoção, com gosto, revivendo-o melhor ao transcrevê-lo. Tocamos aqui o domínio do amor escrito, essa moda está acabando. Mas o benefício permanece. Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios. O romance por cartas exprime o amor numa bela emulação das imagens e das metáforas. Para dizer um amor, é preciso escrever. Nunca se escreve demais. Quantos amantes não correm a abrir o tinteiro mal chegam de seus encontros amorosos! O amor nunca termina de exprimir-se e se exprime tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado. Os devaneios de duas almas solitárias preparam a doçura de amar. Um realista da paixão verá aí apenas fórmulas evanescentes. Mas não é menos verdade que as grandes paixões se preparam em grandes devaneios. Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade.
In: A poética do devaneio, de Gaston Bachelard.
domingo, 7 de agosto de 2011
As minhas dores:
Lélia Almeida.
As minhas dores. Nem que eu quisesse, poderia me livrar delas. Elas não passam assim nomás, como nuvens, são profundas e se formaram como sulcos no caminho que é o meu. Não posso guardá-las escondidas como se não fizessem parte da minha vida, da história dos meus dias e das minhas noites. Elas são inseparáveis de tudo o que sonhei e desejei um dia, de tudo o que desejei ser ou ter, inseparáveis do que consegui conquistar.
As minhas dores, quero-as todas só pra mim, minha velhas conhecidas, amigas. Quem seria eu sem elas, as minhas dores? Um ser tolo, superficial, sem dúvidas. Foram elas que me ensinaram as seiscentos e trinta e oito Lélias que eu carregava dentro de mim, as trezentas e oitenta e oito que ficaram pelo caminho, e foram, as minhas dores, sim senhor, que me ajudaram a dar de beber a todas eus e a despedir-me daquelas que eu já nem era mais. Como doem as minhas dores, mas quero-as todas, egoísta, só pra mim. Que seria eu sem elas? Grandes conhecidas e desconhecidas, que me embalaram nas minhas tantas mortes e me acolheram nas minhas tantas vidas, não, não dou minhas dores pra ninguém.
E vamos por aí, mundo afora fazendo tudo para acabar com elas, as benditas e benfazejas dores, abençoadas, que nos ajudam na travessia mais árdua das nossas transformações sagradas e inevitáveis em nós mesmos, é claro, pois sim. Ninguém mais quer as suas dores, há remédios para todas elas, toma remédio que passa, passa pomada que passa, come tal coisa que passa, não come que também passa, tudo para esquecê-las. Quando, na verdade, tínhamos que reverenciá-las. Benditas, as nossas dores, que nos dão a nossa medida mais humana e pequena, filhos delas somos, doloridos de tanta vida e de tanta morte, fartos da exuberância de tantas transformações. Sentir dor passou a ser um defeito, é como ter uma orelha grande, um nariz torto, uma barriga, uma corcunda, um olho vesgo. E temos de remediar, curar, como se doer não fizesse parte da vida. Mas quando dói, dói mais embaixo, dói na alma e não há remédio que faça passar. Por que, como podemos ficar felizes e contentes de novo, sem passar pelas nossas dores? É possível passar pela vida sem viver, é possível passar pelas dores sem senti-las, é possível viver sem morrer? Quantas tenazes resistências em não viver as dores e nossas obrigatórias e inevitáveis mortes, quantas resistências em viver a vida no que ela é, um ciclo de plenitude e finitude.
Quero as minhas dores todinhas, inteiras, sem remédio, nem alívio, porque quando elas passam, só eu sei como é bom de novo, estar ali, velha e fresca, embalada pelo fluxo inevitável, indo para o caminho de mim, o único real, o único possível.
Lélia Almeida.
As minhas dores. Nem que eu quisesse, poderia me livrar delas. Elas não passam assim nomás, como nuvens, são profundas e se formaram como sulcos no caminho que é o meu. Não posso guardá-las escondidas como se não fizessem parte da minha vida, da história dos meus dias e das minhas noites. Elas são inseparáveis de tudo o que sonhei e desejei um dia, de tudo o que desejei ser ou ter, inseparáveis do que consegui conquistar.
As minhas dores, quero-as todas só pra mim, minha velhas conhecidas, amigas. Quem seria eu sem elas, as minhas dores? Um ser tolo, superficial, sem dúvidas. Foram elas que me ensinaram as seiscentos e trinta e oito Lélias que eu carregava dentro de mim, as trezentas e oitenta e oito que ficaram pelo caminho, e foram, as minhas dores, sim senhor, que me ajudaram a dar de beber a todas eus e a despedir-me daquelas que eu já nem era mais. Como doem as minhas dores, mas quero-as todas, egoísta, só pra mim. Que seria eu sem elas? Grandes conhecidas e desconhecidas, que me embalaram nas minhas tantas mortes e me acolheram nas minhas tantas vidas, não, não dou minhas dores pra ninguém.
E vamos por aí, mundo afora fazendo tudo para acabar com elas, as benditas e benfazejas dores, abençoadas, que nos ajudam na travessia mais árdua das nossas transformações sagradas e inevitáveis em nós mesmos, é claro, pois sim. Ninguém mais quer as suas dores, há remédios para todas elas, toma remédio que passa, passa pomada que passa, come tal coisa que passa, não come que também passa, tudo para esquecê-las. Quando, na verdade, tínhamos que reverenciá-las. Benditas, as nossas dores, que nos dão a nossa medida mais humana e pequena, filhos delas somos, doloridos de tanta vida e de tanta morte, fartos da exuberância de tantas transformações. Sentir dor passou a ser um defeito, é como ter uma orelha grande, um nariz torto, uma barriga, uma corcunda, um olho vesgo. E temos de remediar, curar, como se doer não fizesse parte da vida. Mas quando dói, dói mais embaixo, dói na alma e não há remédio que faça passar. Por que, como podemos ficar felizes e contentes de novo, sem passar pelas nossas dores? É possível passar pela vida sem viver, é possível passar pelas dores sem senti-las, é possível viver sem morrer? Quantas tenazes resistências em não viver as dores e nossas obrigatórias e inevitáveis mortes, quantas resistências em viver a vida no que ela é, um ciclo de plenitude e finitude.
Quero as minhas dores todinhas, inteiras, sem remédio, nem alívio, porque quando elas passam, só eu sei como é bom de novo, estar ali, velha e fresca, embalada pelo fluxo inevitável, indo para o caminho de mim, o único real, o único possível.
sábado, 23 de julho de 2011
Os meninos da Candelária:
Para Regina e Iracilda,
para Téia e Vera Lúcia, in memoriam.
Lélia Almeida.
Há exatos 18 anos uma igreja, no coração da cidade do Rio de Janeiro, amanheceu banhada em sangue. Na a madrugada do dia 23 de julho de 1993, perto da meia-noite policiais saídos de vários carros pararam na frente da igreja e abriram fogo contra crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades da Igreja.
O motivo da chacina teria sido a vingança de um dos policiais cuja viatura teria sido apedrejada por alguns dos meninos, ou de outro policial cuja mãe teria sido assaltada por um deles. O que podemos dizer, no entanto, é que o perfil destes policiais é o mesmo do dos grupos de extermínio que proliferam neste país e que tem como missão fazer a limpeza nas ruas da cidade. O que acontece em várias cidades do país, diariamente.
A chacina da Candelária, junto com as de Vigário Geral, do Maracanã, de Acari, entre outras, deu visibilidade a uma ferida nacional que ao invés de fechar, só faz aumentar.
Aprendi com as Mulheres da Paz, e antes delas com as Mães do Rio e com outras do país inteiro, que cada vez que um menino morre elas dizem: Mais uma! E que quer dizer, mais uma mãe que perdeu o seu filho. Perdeu seu filho morto, morto por bala, por bala perdida, pela polícia, pelo tráfico, pelo trânsito, nas mãos da polícia, da milícia, dos grupos de extermínio.
O antropólogo Luiz Eduardo Soares já explicou em inúmeros artigos e palestras e entrevistas que este fenômeno trata-se de um verdadeiro genocídio, de uma guerra legítima, onde as baixas, aqui, no nosso país tão democrático, são as de jovens negros e pobres, como eram os meninos que costumavam dormir nos bueiros da Candelária naquela noite fatídica de julho de 1993.
Segundo os dados calculados pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da organização não governamental Observatório de Favelas, através do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), a projeção é de que 33 mil adolescentes sejam mortos até 2013.
Que país é este que não cuida dos seus meninos? Que país é este que não discute a letalidade juvenil e infantil? Que país é este que faz de conta que não vê que os nossos jovens têm sido abatidos como bichos, todos os dias, 15 jovens por dia, como numa guerra perversa e sem fim?
Fui à festa de aniversário do Vitor, o filho da Inês, que fez 15 anos e mora em São Sebastião. São Sebastião é uma região administrativa de Brasília, ao lado do condomínio rural de classe média onde moro, perto do Jardim Botânico. E quem mora em São Sebastião trabalha no condomínio Ouro Vermelho. As cidades partidas existem em todo o território nacional. Inês é do Maranhão, é negra, não sabe a data do seu aniversário, tem dois meninos, um de 15 e outro de 12 anos. E todo o dia que vem para a faxina passa o tempo todo pendurada no celular monitorando os filhos.
Já choramos juntas muitas vezes, sentadas na mesa da cozinha, tomando café com leite e passando a manteiga no pão, choramos de agonia e preocupação com os nossos meninos.
A festa foi uma farra. Quando cheguei em casa meu filho disse, sabe qual é a única diferença entre mim e o Vitor? Um golpe de sorte. Foi um golpe de sorte que fez com que ele nascesse em São Sebastião e eu em Porto Alegre. No mais, a gente é igual. Descansei o coração, ele tinha compreendido, que é diferente de saber ou de ouvir falar. Compreendido o que todos temos de compreender profundamente.
Que compreender é a única maneira que temos para deixar de ser hipócritas, por exemplo. E para parar de fingir que não temos nada que ver com estas mortes, e que também não temos nada que ver nem com as mortes e nem com as vidas destes jovens negros e pobres. Porque só passamos a ter a ver com alguma coisa quando o menino baleado e morto é o nosso filho, aquele superprotegido que dorme no quarto ao lado do nosso neste momento.
Vi a Ministra Maria do Rosário ontem na missa da Candelária no Rio de Janeiro, junto com as mães que constituem o histórico movimento de familiares de vítimas de violência neste país e com as quais o Estado Brasileiro tem uma dívida impagável.À Ministra Maria do Rosário, ao Ministro José Eduardo Cardozo e à Presidente Dilma Rousseff eu, como uma humilde cidadã brasileira, gostaria de lembrar que estas mulheres têm sido, ao longo da história do país, as grandes articuladoras da campanha do desarmamento, as grandes militantes que enfrentam a polícia, o judiciário, a imprensa e que fazem de sua vida um libelo para berrar a plenos pulmões que não é possível que estes meninos continuem a morrer desta maneira.
Senhores e senhoras ministras, Presidente Dilma, ouçam o que estas mulheres tem a dizer, elas tem reivindicações específicas, elas já ajudaram a desenhar políticas públicas importantes para o governo deste país e terminam sempre por ser esquecidas e suas reivindicações negligenciadas. Elas são as familiares das vítimas de violência deste país. São as mães, as avós, as tias, as mulheres dos jovens mortos.
Comprei velas brancas ontem e vou me reunir com algumas mulheres aqui em Brasília hoje à tarde, mulheres que também perderam os seus filhos da mesma maneira que morreram os meninos da Candelária. Vamos nos juntar para rezar. Terminamos sempre chorando. Uma ferida que não fecha. E depois o choro vai se transformando em outra coisa, uma espécie de fúria, eu diria. Uma fúria quieta, branda. Uma ferida que só aumenta. Então depois lanchamos, cada uma sempre traz algo de casa, feito ontem à noite, para o nosso encontro de hoje, aí quase sempre rimos e contamos as histórias dos filhos vivos.
Porque inscrita na morte e no corpo de cada menino, está inscrita a nossa tristeza, o nosso desalento, a nossa indignação e a nossa incompreensão sem fim.
Vai ser na hora das Vésperas. Vamos repetir juntas o nome dos meninos, que este é o único jeito deles permanecerem vivos:
Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos, presente!
Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos, presente!
Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos, presente!
Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos, presente!
"Gambazinho", 17 anos, presente!
Leandro Santos da Conceição, 17 anos, presente!
Paulo José da Silva, 18 anos, presente!
Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos,presente!
E hoje vamos colocar mais um nome na lista hoje:
O do menino morto por policiais em 20 de junho de 2011, na comunidade de Danon, em Nova Iguaçu:
Juan Moraes, 11 anos, presente!
quarta-feira, 20 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Partir:
Lélia Almeida.
E chega um dia que aquela vida não serve mais, um gesto, um jeito de ser e de se portar, um jeito de gostar e de ser gostada, não serve mais. Não funciona mais a repetição automática de gestos e condutas, as mágoas nos deixam, cansadas de nós, as dores deixam de doer e os nossos sonhos também não são mais os mesmos. Tem um dia que é hora de partir, deixar os amigos que não perceberam as nossas transformações, os trabalhos que não nos gratificam mais e os amores que ficaram pra trás. Tem um dia que é o dia da partida. De arrumar uma mala pequena, onde se possa levar apenas o essencial, muito pouco, porque os começos pedem a leveza para os impulsos. Alguma coisa que já foi inteiramente nossa, não é mais, e não pode, então, partir conosco. No momento da partida pede-se a delicadeza da esperança, a fé no que não se conhece. Na hora da partida temos de saber que estamos indo ao nosso encontro. E com a certeza de que só tem uma vida nova quem entrega, definitivamente, a vida velha.
Lélia Almeida.
E chega um dia que aquela vida não serve mais, um gesto, um jeito de ser e de se portar, um jeito de gostar e de ser gostada, não serve mais. Não funciona mais a repetição automática de gestos e condutas, as mágoas nos deixam, cansadas de nós, as dores deixam de doer e os nossos sonhos também não são mais os mesmos. Tem um dia que é hora de partir, deixar os amigos que não perceberam as nossas transformações, os trabalhos que não nos gratificam mais e os amores que ficaram pra trás. Tem um dia que é o dia da partida. De arrumar uma mala pequena, onde se possa levar apenas o essencial, muito pouco, porque os começos pedem a leveza para os impulsos. Alguma coisa que já foi inteiramente nossa, não é mais, e não pode, então, partir conosco. No momento da partida pede-se a delicadeza da esperança, a fé no que não se conhece. Na hora da partida temos de saber que estamos indo ao nosso encontro. E com a certeza de que só tem uma vida nova quem entrega, definitivamente, a vida velha.
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