domingo, 2 de outubro de 2011
Encontrei com aquele amor de adolescência muitos anos depois, éramos os mesmos, apesar dos cabelos brancos, rugas, dentes comprometidos e o corpo sem vigor, agora. O brilho do olhar era o mesmo e a força das mãos também, ele disse: "somos os mesmos", eu disse: "o tempo do amor é perene, ainda que todo o resto mude". Meninos velhos de coração aquecido e loucos pelos mesmos beijos de outrora.
Quando saía de madrugada daquela casa que me acolhia durante as noites e ficava esperando o táxi para voltar para a minha vida real, a minha primeira visão do mundo era a de uma rua deserta que tinha, na calçada oposta, uma casa de tijolinho a vista com uma uma profusão de azaléias debruçadas sobre o muro. Esta era a paisagem que eu via quando saía daquele lugar onde eu queria ficar, permanecer, não partir jamais, e voltar sempre. Ainda não consigo sair de lá e voltar pra casa. Voltar pra mim.
domingo, 18 de setembro de 2011
Depois do banquete, por Lélia Almeida.
Depois do banquete sentimo-nos assim, fartas, ainda juntando as migalhas que jazem sobre a toalha manchada de vinho, quando a carne soberba, satisfeita, só pensa em descansar. É a hora em que pensamos sem a sabedoria da mendicância. Sem a clarividência de quando estamos ali, na singeleza dos nossos impulsos mais verdadeiros e dos nossos desejos mais secretos. É quando pensamos sem a inteligência da fome: “não ia dar certo mesmo, ele mora tão longe, vou continuar com a minha vida e esquecer” e nos sentimos a salvo outra vez na nossa vida comum. A suntuosidade da experiência, a intensidade do brilho, a surpresa da travessia até o outro, tudo ali agora, sendo triturado nas dobras do intestino e banalizado numa digestão difícil e necessária. Levantamos da mesa contentes e pesadas no final do banquete, esquecidas da leveza do impulso que nos arremessou para o céu que era o outro e aterrissamos outra vez na vida pequena. Apago as luzes da sala, do corredor, é a hora do recolhimento, quando internalizamos finalmente o que foi vivido. Fecho os olhos e abraço o travesseiro. Posso ouvir o corpo outra vez, ele que não se ilude com os banquetes e sabe da pertinácia da fome. E soluço sem respostas perguntando como vou fazer para continuar agora que sei quem sou naquele abraço.
sábado, 17 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
"...Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro ...Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés..."
Sylvia Plath
A Redoma de Vidro
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