sexta-feira, 28 de dezembro de 2012




Eu e a Sofi levantamos muito cedo por conta do calor, ela vai brincar com os presentes de Natal, eu corto as frutas, faço suco e sento ao lado dela. A casa silenciosa, uma manhã iluminada. Ela monta um jardim com o Lego, fica muito tempo ali, montando o brinquedo. Não me atrevo a pedir para as estrelas nada além disto neste ano de 2013: uma imensa capacidade de concentração para as coisas lúdicas da vida, lembrar de como era sério poder inventar e criar: escrita, arcanos, encontros, amores, as boas risadas com as amigas. Acho que assim tá de bom tamanho pra mim.
Feliz 2013 para todos nós!

sábado, 24 de novembro de 2012





Maldição II. Por Lélia Almeida.

Quando eu nasci Cloto, Láquesis, Átropos, as parcas, debruçadas sobre o meu berço disseram: “Nossa, como ela é feinha! Pra compensar, vai ter uma vida virtuosa”, disse uma. Ao que a outra respondeu: “Nananinha, muito preguiçosa pra ser virtuosa, vai ter uma vida encantada”, arrematou.  Ao que a terceira discordou, “Também não, muito rebelde pra ser encantada.” E vaticinou: “Ela vai ter uma vida prodigiosa. Ela vai imaginar!”
E assim selou-se o meu destino. E a minha maldição.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


No pátio da minha irmã tem uma pitangueira, fui colher pitanga pra fazer uma geleia, as maiores e mais maduras estavam nos galhos mais altos e mais difíceis, entrei no meio das árvores e olhei pra cima, o céu azul e as frutas vermelhas vibrantes se iluminaram em cores e explosão de luz. Um besouro imenso guardava os frutos e a pequena Sofia catava o que caía no chão. Os milagres são sempre pequenos. O universo cristalizado no brilho da calda. Só a vida simples da conta do que é grande, do que é verdadeiro.

 

(Lélia Almeida)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Palavras de uma consulente: Para mim relacionamento tem que ser troca. E medida. Achei sábio, de difícil execução, quase sempre, mas sábio.
(Lélia Almeida)

A vizinha da minha mãe está fazendo um treinamento para maquiadora, perguntou se podíamos ser cobaias. Eu, minha mãe e minha irmã, de vestidos caseiros e chinelinhas fomos regiamente maquiadas e depois fomos tomar café às gargalhadas. Eu disse a elas, na nossa idade é importante ter a consciência de que daqui pra frente é tudo morro abaixo, vamos deslizar com um humor e leveza, meninas, que assim fica mais fácil.
(Lélia Almeida)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Escovo  os cabelos da Sofia depois do banho.
Os cachos, a minha cachopa de cachos, eu digo.
Frescor do banho. Frescor da vida.
Ela pergunta muito séria:
-Tia Lélia, quando eu "ter" filhos tu me ajuda a cortar as unhas deles?
- Ajudo sim, Fifi. Ajudo sim.

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Dilema de anatomia: Sofia e a avó tem um programa predileto, descer de carro uma ladeira que tem no condomínio. Sofia diz: -Ai, Dodó, me deu um frio na pepeca. A Dodó responde: - é frio na barriga que se diz, Fi. Ela responde: - Não é não, Dodó, em mim é na pepeca.

(Lélia Almeida)

Histórias de peixas:
Tive um pesadelo. O meu gato caía pela janela e eu conseguia salvá-lo, no voo. Acordei desaprumada. Fui ao supermercado com a Sofia que me conduziu firme entre as gôndolas. Encontrei a louca no corredor, a de cabelos brancos, e que anda pelas quadras com cadernos escritos guardados em sacos plásticos. Olho pra ela cúmplice, e digo pra Sofia com o olhar perdido, ela é escritora como eu. Dizem que o cabelo branqueou da noite pro dia, depois de um abandono amoroso. Sofia me olha séria, as jabuticabas imensas: Tia Lélia, você não é como ela, não.
Ufa. Estou salva.

(Lélia Almeida)


Da Sofia:
- Tia lélia, você sabe o que é misericórdia?
-Diz.
-É cruz-credo em outra língua.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012





Lagarta, por Lélia Almeida.

A astróloga disse que estou no momento da metamorfose, me deu de presente a metáfora da transformação da lagarta em borboleta. Fui perguntar a quem mais conhece do assunto, minha mãe, a bióloga, a que sempre tem as respostas. Ela disse que este é um dos grandes mistérios da vida, de como a larva constrói o casulo, as células se organizam de outra maneira, disse a minha mãe-mestra, e de como a borboleta, pronta, com cores e padrões únicos, rompe o casulo. Respirei tranquila entendendo a fome que me mata nestes tempos em que a morte se mistura com a vida e a lagarta sorve restos e migalhas por onde passa. Roubo, voraz, pedaços de queijo daqueles que se servem para degustação no supermercado, este queijo que é como um leite, um leite imprescindível, as asas sendo bordadas, a morte pronta, a morte que nunca esteve tão viva. Da borboleta que não vai reproduzir. Que vai transmutar.















Hoje fui lá visitar a minha a dor
aquela que me habita desde tanto tempo
encontrei-a anêmica, fraquinha,
quase sumida.
Então entendi que tem dores
que cansam da gente
e um dia são isto e nada mais,
uma dor vencida.

(Lélia Almeida)

domingo, 12 de agosto de 2012

O tempo da fervura
o tempo do cozimento
aguardo sem ansiedade
confiando na pertinácia da fome.

 (Lélia Almeida)

quarta-feira, 25 de julho de 2012







Descobri este livro em 1998 e só hoje ele chegou nas minhas mãos. Esgotado no México, foi reeditado pela editora feminista" Horas y Horas", da Espanha, na Coleção que se chama "La cosecha de nuestras madres", recebi hoje o volume "Los cautiverios de las mujeres. Madresposas, monjas, putas, presas y locas", da Marcela Lagarde de los Ríos, como quem espera uma amiga, um amor, juro que continua valendo muito a pena, é um estudo completo, maravilhoso e sempre atual, recomendo e, sinto muito, não empresto!!!!

quinta-feira, 21 de junho de 2012







Os murmúrios do mundo, por Lélia Almeida.

Ouço os murmúrios do mundo. A voz da minha vizinha de apartamento que diz pra outra, deixa a menina aqui, estou fazendo nêga maluca, deixa ela aqui, estão tão entretidas. A moça do salão que conta que vai penhorar as joias da mãe para pagar os remédios, não tem jeito, ela diz, mulher pobre não pode ser vaidosa e ri baixinho e envergonhada. Minha mãe bordando ao meu lado, que me ensina com paciência o que aprendeu com a mãe e com a avó, a que se chamava Lélia também. Enquanto borda conta histórias da família, namoros, traições, partos, abortos, as biografias anônimas das mulheres comuns. E diz frases como estas: a unha comprida é quase um instrumento, olha só como funciona, me mostra alinhando e dobrando a bainha do pano de prato, ou: o ferro de passar é o melhor amigo de uma costureira, conserta qualquer ruga, qualquer erro também. São os murmúrios das mulheres comuns que tecem as rotinas e que embalam o mundo. Que ficam em casa com as crianças, que tecem e bordam, que não decidem os rumos da humanidade, que quase nunca são ouvidas, que não são consultadas. Ouço seus murmúrios, parece um rio subterrâneo, todas falam mais baixo enquanto obram, e enquanto bordo sei que uma outra ordem nos protege, nos irmana. O ruído apaziguador da máquina de costura, o cheiro das linhas, dos retalhos, a caixa de costura redonda e a tesoura preta. Silêncios, segredos, sussurros, cantigas, ponto cruz, cordoné, pé da galinha, sombra, bastidor, caseadinho, cambraia, cetim, percal, etamine, organdi, uma linguagem universal, a dos murmúrios do mundo. A linguagem das mulheres comuns. Da vida simples, da vida pequena.

quarta-feira, 13 de junho de 2012







Prece para Santo Antonio, por Lélia Almeida.

Santo Antonio, não vou pedir nada ao senhor no dia de hoje. Não vou pedir nada sem antes agradecer, que eu posso até ser pidona e esfomeada, mas sou grata, céus, só eu sei como sou grata. Pois quem seria eu sem os seus favores e a história dos meus amores? Por isso agora, do alto dos meus cinquenta anos, nem penso em pedir nada, mas não posso deixar de agradecer a vida cheia de graças que o senhor me propiciou. O uruguaio que me ensinou a beijar de língua no portão da minha casa numa noite de inverno lá na fronteira, as mãos dadas na matinê e o amor dublado em espanhol mexicano, os namorados dos bailes de carnaval, piratas, ciganos, marinheiros, o namorado alemão, o inglês, a camiseta do Inter do Ricardo, a estatueta que o Russel me deu no Portobello Market, que era um coelho e uma coelha, o Marcelo chegando no aeroporto, o italiano beijando a minha mão, dançando na chuva com o Pablo, o livro da Virginia Wolf que o Nando trouxe de Montevideo e que lemos juntos, chorando, fumando os dedos no banco da praça, mãos dadas na praia com o Johan depois de 20 anos, meu irmão que me consola porque a minha coelha morreu, meu outro irmão que me rouba de um baile de Réveillon e me leva para um terreiro para uma festa de verdade. Os meus primos, ai os meus primos! O que me deu a Mafalda, o Cortázar, o Omar Khayyám, o que disse pra minha mãe que sim, que ia me levar pra casa depois do baile, mães loucas estas que confiam uma prima a um primo! Ele que olhava comigo a vitrine da casa de decoração de madrugada e com quem eu sonhava ter uma casa e com quem tive um filho. As mãos daquele outro safado despertando a minha pele mais profunda e acabando com as minhas vergonhas. O Zé que me dava de beber nas mãos em concha. O olhar perdido do Carlo indo embora no trem que partiu e nunca mais voltou. O abraço de urso do Roberto, o Gian que me chama de meu amor até hoje, ai que vida farta, com estes homens que me ensinaram o melhor de mim e que eu amo com amor infinito e além como aprendi com a Sofia. Os que se misturam com as cidades, ai minha Santa Fé de Bogotá! Os inconfessáveis. Lembro só das coisas boas, Santo Antonio, fiquei boba hoje, com a fartura das boas lembranças. Nem lembro mais dos rios de lágrimas derramados a cada despedida, cada traição, só lembro disso e nada mais. Do primeiro olhar, das promessas e das esperanças imensas que só cabem neste primeiro olhar, os beijos sem fim, os amores cristalizados. E como eles se acomodaram no meu coração e me transformaram numa senhora de olhar saudoso e sorriso maroto. Grata, sobretudo grata, Santo Antonio, pela vida farta que só as namoradeiras têm. Hoje lembro de todos eles. Abençoo cada um, os galinhas e os cretinos também, que a vida sem eles não teria a menor graça, e aos do bem, mais ainda. Obrigada, Santo Antonio, pelo milagre renovado a cada encontro e a certeza que a vida sem os amores é uma vida que não vale a pena ser vivida. A todos eles, meu santo de devoção, a minha homenagem no dia de hoje, e ao senhor, que me provê, a minha eterna gratidão! Amém!