quinta-feira, 3 de abril de 2014
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
A
consulente leva a metade da consulta me contando que o marido é maravilhoso,
que a casa é linda, que os filhos são ótimos, que o trabalho é bárbaro e o
tanto que ela é feliz e realizada. Enquanto embaralho as cartas me pergunto
porque uma pessoa tão perfeita precisa de uma consulta do Tarot. Continuo
ouvindo o ventríloquo. Acontece com muitas. Até que acontece um gap, um
tropeço. E posso ouvir uma voz quase inaudível: Meu marido tem outra. Ou, meu
filho tá se drogando, ou, estou falida, ou, me sinto tão perdida. É a voz da
alma quebrada. Aí começa a consulta.
(Lélia
Almeida)
quarta-feira, 24 de julho de 2013
O parzinho, por Lélia Almeida:
Pedi para ver os guardanapos de fazenda que estavam
expostos numa cesta na loja de decoração, a moça que me atendeu procurava o par
de cada um que eu gostasse e dizia: este temos o parzinho! Fez isto com umas
cinco peças, até que eu disse num tom furioso: eu não quero o parzinho!!! Quero
peças únicas, só pra mim! Coitada da moça, sobrou pra ela a minha indignação
por não entender porque a gente precisa de 50 anos pra se libertar da obrigação
do parzinho de guardanapos.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
O Amante Alemão, de Lélia Almeida:
O romance “O Amante Alemão” foi escrito
em Brasília durante todo o mês de dezembro de 2006 e a sua montagem durou até
junho de 2007. Durante muitos anos esteve em algumas editoras com uma promessa
de publicação que nunca se realizou.
No
ano de 2011 o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, o IEL, lançou
um edital para vários gêneros literários e o romance foi classificado na
categoria de narrativa longa, sendo agora publicado na Coleção Originais que
cumpre uma das mais importantes missões do Instituto Estadual do Livro:
incentivar qualidade de nossos autores, revelando talentos, trazendo à luz a
primeira obra de escritores, além de publicar nomes já reconhecidos e com uma
carreira consolidada.
As obras foram escolhidas pelo conselho
editorial do instituto após abertura de edital para seleção. O projeto é em
coedição com a Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas (Corag) e tem o apoio
da editora Modelo de Nuvem.
O trabalho de pesquisa sobre um dado
histórico da cidade de Santaluz (que é Santa Cruz do Sul) – o da existência de
uma epidemia de suicídios por enforcamento por trabalhadores rurais, causada
pelo efeito dos agrotóxicos nas plantações do tabaco – serviram de pano de
fundo social para a criação da intriga. Num outro plano simultâneo temos uma
história de amor muito improvável que se desenvolve através de um triângulo
nada convencional.
A articulação destas histórias é uma
espécie de tributo a muitas histórias das narradoras latino-americanas a quem
me filio, já que muitas delas optam por uma visão de mundo em que os nossos
afetos mais profundos reverberam em escolhas, condutas e atitudes que são
sempre políticas.
Além do pano de fundo social, local, a
reflexão sobre as mulheres é soberana – já que esta é a minha escolha como
escritora: a que questiona sobre a maneira como a nossa sociedade cria uma
cultura de amor romântico para a vida das mulheres, um amor que supõe sempre o
cuidado com outro, para o outro, em nome da negação negligente do cuidado mais
importante para a vida de todos e das mulheres, em especial, que é o
autocuidado e, portanto, o amor próprio. O tom folhetinesco se justifica pela
própria necessidade da desconstrução destes mandatos que assumimos como nossos
por toda uma vida, e para lembrar que sem o desmonte destas ilusões, que pode
se dar através do humor, não seremos capazes de nos expressar profundamente em
nossa autenticidade e nossas dúvidas mais verdadeiras.
Estão
garantidos nesta história rocambolesca, como na própria vida, os temperos que
valem a existência: riso, choro, humor, melodrama, farsas, algumas mentiras e
muita sinceridade.
Trecho do romance O Amante Alemão: (…) Duzília Flores viveu na cidade o tempo
suficiente para poder testemunhar a morte destas velhas senhoras, que para ela
eram mulheres sólidas, e tempo suficiente para ver suas casas serem destruídas
e crescerem vorazes, no lugar delas, em vastos terrenos, edifícios imensos, de
gosto e construção duvidosa. E assistir à morte de cada uma delas, que mais
pareciam ter desistido de viver num mundo tão diferente daquele que elas haviam
criado.
Morreram muito velhas, e Duzília Flores
quando lembrava delas, quando via suas casas serem arrancadas daqueles
terrenos, pensava em velhos e nobres carvalhos sendo extraídos de seu habitat
natural para serem consumidos impiedosamente em fogos de pouca utilidade e
nobreza. Este foi um dos signos de que a transformação era inevitável – para o
bem e para o mal – a cidade mudava de donos, passava para a mão de outros donos
e perdia valores importantes.
Tudo isto Duzília Flores pôde assistir,
viveu ali tempo suficiente para ver como era a arquitetura daquela pequena
cidade, que mais parecia uma cidade europeia cravada no meio de dois grandes
vales, transformar-se numa cidade cheia de edifícios de mau gosto e com todos
os problemas de uma cidade pequena com muito dinheiro estrangeiro, que são
problemas com violência, corrupção e drogas. A cidade era uma das economias
mais importantes do país na exportação do fumo, enormes complexos industriais
se estendiam na entrada da cidade dando a dimensão poderosa daquela indústria
que dava o sustento aos seus habitantes há muitos anos.
Assim, de um lado da praça, estava o
pequeno entreposto de produtos naturais da ONG em que Duzília Flores iria
trabalhar como assessora de imprensa. Do outro lado da praça, estava o ateliê
da elegante Herta Lotti, a estilista que dividia com a Dona Moissi, há trinta
anos, a fama de bom gosto e eficiência nas lides da costura para grandes
festas, formalizando o sonho daquelas belas mulheres. E longe, longe dos olhos
dessas mulheres estava a máquina que movia as vidas, os sonhos e as dores dos
trabalhadores da cidade, a Companhia Tabacalera.
A mesma Companhia Tabacalera, para quem,
do outro lado do mundo, Johan Hermann, entregava o sangue e a alma todos os
dias da sua vida, com um orgulho quase militar, na verdade, devocionário, desde
que era um menino de apenas dezoito anos de idade.
Dos
editores:
(…) Romance de fôlego, O amante alemão, de Lélia Almeida, consegue a proeza de
ser uma narrativa costurada rigorosamente com intimidades, portanto constituída
da psicologia mais profunda de seus protagonistas, e, ao mesmo tempo, um
romance de costumes, isto é, uma ficção panorâmica na qual a vida de uma cidade
vem à tona. Como em raros romances. (…) Lélia acerta a mão, as duas, uma vez
que a obra é arquitetada numa composição de natureza simultânea. Numa cidade de
colonização alemã e de economia fumageira, o cenário emocional que se apresenta
é tenso e costurado com paixões mais caladas que gritadas. No entanto, elas
gritam, como a tal economia, envenenadora, levando trabalhadores dessa
atividade a suicídios nunca devidamente esclarecidos em suas razões. (…)
Ambicioso e engenhoso, O amante alemão prova que Lélia Almeida, atingida a
maturidade estética, revela-se capaz de escrever um romance que vai além do
romance propriamente dito. Temos mais de um livro neste livro, numa só camada
(e é mais de uma) seduzindo quem lê por nos provocar a febre do afeto que não
se encerra (antes se expande, mesmo encerrado) e a compreensão da realidade e
de seu funcionamento.
Por
Romar Beling, na apresentação do romance: Das tantas leituras que se possa
realizar de obras da literatura brasileira contemporânea, muito poucas
certamente souberam empreender tamanho mergulho num universo social e cultural,
com estranhamento e com inquietude, como o protagoniza este romance de Lélia
Almeida. Desde as primeiras páginas, fica nítido o olhar despido de qualquer
inocência espraiado sobre a cidade imaginária do Sul do Brasil na qual a
história está ambientada. O narrador é impiedoso na caracterização individual e
coletiva, e o choque cultural imediatamente remete ao sentimento de cisão em
relação a valores. Há uma considerável carga de emoções em jogo, emoções que, a
exemplo do paradoxo do sentimento intenso, transitam do amor ao ódio, da
atração à repulsa, da esperança à desesperança. (…) Este romance que o leitor
agora tem em mãos, é bom que se avise, veio para inquietar, para instigar, para
causar estranhamento. Poderia ser, nunca devemos ignorá-lo, uma das funções da
arte (se a ela se devesse atribuir alguma outra função que não apenas a de nos
proporcionar enlevo). Afinal, o que seria da humanidade se, de tempos em
tempos, um artista (…) não soubesse dizer algo que ultrapasse uma certa mesmice
morna, que, de tal sorte, não aquece nem mentes, nem corações. Eis um livro
para ser lido e prontamente relido. Relido, já nos revelará novos prismas de
seus personagens, do mundo a que alude, numa inquietude salutar. Logo adiante,
terá reservado seu espaço, com simplicidade e com autoridade, como uma obra de
ruptura, em todo e qualquer manual que aponte para leituras indispensáveis.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Casamento arranjado,
por Lélia Almeida.
O fisioterapeuta aplica
a moxa, a Artemísia no meu tornozelo e pergunta como foi que aconteceu tamanho
estrago, não tenho como contar tudo e digo a ele que foi um daqueles momentos
difíceis da vida e ele me chama de gatinha e diz que tem coisas que são inexplicáveis
e que a vida é muito misteriosa. Conta de uma paciente dele cujo namorado
sumiu, na frente dela, no meio do Rio Negro, sumiu, do nada, sucuri, ele diz,
tinha 24 anos o rapaz. Contou a história pra me consolar, pra dizer que coisas
piores sempre podem acontecer. Gatinha. A palavra que me atira no buraco negro
do rio. E estou lá, na casa da infância, num quarto escuro, meu pai, o médico,
faz aplicações de raios ultravioletas por conta dos meus problemas
respiratórios. Minha mãe está no mesmo quarto ao meu lado e segura a minha mão
e eu choro. Não sei se por conta do desconforto da aplicação, se pela febre.
Ele também me chama de gatinha, o meu pai. E ela, pra me acalmar vai imaginando
o dia do meu aniversário de quinze anos. Que vou estar linda, num vestido
amarelo, ela descreve o vestido que sonha pra mim, descreve o baile e que vou
dançar com o meu irmão gêmeo, que vai estar de smoking, muito elegante, e que
vamos dançar a valsa juntos. O buraco. Não sei se choro por conta do
procedimento ou pelo pavor de ficar condenada a este casamento arranjado, um
irmão que certamente também não quer dançar comigo, nem na festa nem jamais. E
minha mãe vai descrevendo o baile, o vestido, a valsa. Naquele ano, quando fiz
quinze anos, meus pais se separaram e a tal festa de aniversário nunca
aconteceu. E por isso eu agradeço todos os dias. O buraco, a valsa
interrompida, as fantasias da minha mãe que não se cumpriram e que desde cedo
me ensinavam que a gente só tem validade neste mundo nos braços de outrem,
todos os dias eu agradeço o meu pé torto, os meus tropeços, indo pra bem longe
dos casamentos mal arranjados, rio afora, redemoinho.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Carne
de segunda:
Quando
minha mãe fez quinze anos, a tia dela disse, minha querida, você não é uma moça
bonita, portanto, seja boa! Ontem vi uma mãe dizendo pra filha adolescente que
ria às gargalhadas com uma amiga na rua: não ria deste jeito, seja mocinha,
assim os rapazes não vão olhar pra você! Não deve haver perversidade maior do
que esta na história da nossa cultura, a de que sejam as próprias mulheres que
tenham de ensinar às suas filhas que elas não valem nada.
(Lélia
Almeida)
O
amante, por Lélia Almeida:
Quando
meu filho nasceu eu estava no meio do mestrado, e tudo isto junto, na época -
bebê e mestrado - significava uma enorme sobrecarga pra mim. Decidi que a
quinta-feira ia ser o meu dia do amante. Mas eu não ia encontrar com nenhum
amante. Ia sozinha ao cinema. E voltava caminhando pra casa, quase sempre de
noite, enquanto alguém ficava com o menino. A volta pra casa, uma caminhada de
20 minutos era o meu único momento de solidão. Lembro sempre daquele ritual,
que me ensinou do tanto que precisamos de tempo para ficarmos sós, longe dos
filhos, do marido, do trabalho, para poder pensar.
E
para poder duvidar.
domingo, 9 de junho de 2013
A bruxa,
por Lélia Almeida:
O João
Francisco está louco por mim. Pensar nisto me anima a vida. Vou dormir pensando
nisto, acordo pensando nisto, que o João Francisco me ama, me quer, me adora.
Convidou-me pra sair na sexta e eu disse que só posso no sábado, pra fazer um
charminho, é claro, pra não dar muito mole. Ligo pra Marcela pra contar, ela
diz que mereço, que é mérito meu ter conquistado aquele gato, lindo, rico,
carrão, e ligo pra Fer e pra Helô. Todas felizes por mim, poderosa você, amiga!
Uma sombra entra no quarto. Não, não é uma sombra. É ela, a Basília, que tem o
dom de acabar com a minha alegria. Nunca gostei desta negra, penso. Minha mãe
me proibiu de falar assim, mas eu sei o tanto que não a suporto e acabou. Não
gosto do olhar dela, que parece que olha dentro de mim, nem da cara séria, ela
que tem quase a minha idade e parece uma velha. Ela espana os livros e eu volto
para o sol, para as risadas com as minhas amigas. Ele tá louco por mim, o João
Francisco, eu repito. João Francisco me ama e a vida é boa. E vou ao salão no
sábado, vou arrumar o cabelo, fazer a mão, o pé, e ficar linda para o João
Francisco. Volto a elas, ele tá caidinho por mim, tá de quatro, tá louquinho
por mim. E a sombra se projeta e se afasta como se o quarto estivesse sob as
asas de uma borboleta de asas negra, uma bruxa. Uma irritação imensa vai
tomando conta de mim. Viro-me pra ela, esta Basília que nunca vai saber o que é
ter um homem do nível do João Francisco aos seus pés e não aguento: – Qual é o
seu problema, nunca viu uma mulher feliz, sua idiota? O João Francisco tá louco
por mim, eu encho a boca os pulmões, dona do mundo, dona do João Francisco e
esta negra horrorosa, metida, que não pode ficar quieta e engolir a língua,
desagradável, e que olha nos meus olhos, e faz a pergunta, a única que não
precisava fazer, a infeliz, invejosa, a estraga prazeres: - E você? Você por
acaso é louca por este João Francisco?
terça-feira, 19 de março de 2013
Fui
encontrar com uma amiga que não via há muito tempo, com o discurso na ponta da
língua e cheia de rancores, que ela não me procura, que não podemos ficar tanto
tempo se nos ver, bla, bla, bla, cheia de todas as razões, mas quando nos
encontramos desabei como uma vagabunda faceira no nosso abraço.
Brigar
com quem a gente ama de verdade é sempre uma guerra perdida, nem tento mais.
(Lélia
Almeida)
sábado, 16 de março de 2013
Quando
as mulheres são falsas vítimas:
Lélia Almeida.
Recebo muitos e-mails elogiosos sobre as
postagens que faço no Facebook, a das imagens de mulheres ou sobre as mulheres.
A brincadeira começou porque sempre entendi que era muito interessante ver como
as mulheres eram pintadas, fotografadas e isto me fazia pensar em como,
sistematicamente, as mulheres são representadas. O meu álbum hoje tem mais de
sete mil imagens e gosto, de maneira especial, da minha coleção de mulheres
leitoras e escritoras com as quais eu mais me identifico. Pessoas do mundo
inteiro me perguntam de onde tiro estas imagens, e elas estão na rede, roubo-as
de quem as rouba de outros num movimento simples de compartilhar o que gosto e
que vem de pessoas que fazem a mesma coisa.
Mas hoje recebi um e-mail curioso. De
uma mulher que se identifica como uma feminista apaixonada, para quem a causa
das mulheres é a coisa mais importante na sua vida, “o movimento de mulheres é
a coisa mais importante da minha vida e estar no movimento é o que há de mais
profundo no meu ser” ela diz e continua: “O seu trabalho divulgando estas
imagens é um verdadeiro desfavor à luta feminista, suas imagens são piegas,
apelando para a beleza, delicadeza e fragilidade que sempre fizeram mal a
existência das mulheres, encerrando-as num estereótipo e se você, que se diz
tão feminista, tivesse um pingo de vergonha na cara, usaria a sua
página para divulgar o trabalho que é feito no enfrentamento contra a violência
contra as mulheres, denunciando as mortes, estupros e as violências aos quais
as mulheres são vítimas. A sua atitude é um desfavor à causa das mulheres e
você deveria repensar a sua atitude ou fazer outra coisa melhor pela mulheres”
e por aí vai.
Minha senhora: ainda considero que a
maior violência que as mulheres sofrem neste mundo é a que as impede de pensar
pela própria cabeça e expressar suas próprias ideias. E aviso que também vou
continuar a postar as imagens que eu gosto entendendo que elas contêm muito
mais do que delicadeza e beleza, se você prestar bem a atenção.
Já fui uma militante feminista, já
trabalhei com políticas públicas para as mulheres, já fiz um doutorado sobre
narradoras latino-americanas e já dediquei uma grande parte da minha vida para
pensar sobre a condição feminina no mundo em que me foi dado viver, e tenho
escrito muito sobre tudo isto. Mas há uma questão que realmente tem-se mostrado
alvo da minha curiosidade e sobre a qual, embora eu tenha só algumas vagas impressões,
sem conclusões definitivas ou bombásticas, vou dividi-la com você.
E que é sobre como esta cultura do
denuncismo, do testemunho e do chororô contra a violência termina por continuar
a vitimizar as mulheres e do quanto algumas mulheres simplesmente amam tudo
isto. Algumas teóricas brilhantes já falaram sobre este tema, Elaine Showalter em
seu livro Histórias Histéricas já
falou da criação de uma cultura onde estas práticas que denunciam que todas as
mulheres são vítimas de tudo o tempo todo, é uma construção cultural
contemporânea que faz com que as mulheres não avancem, que permaneçam mergulhadas
num caldo de cultura cheio de auto piedade, culpas, vergonhas e que talvez haja
um profundo gozo em tudo isto, já que assim elas ficam estagnadas no lugar que
lhes foi assignado, de passividade e que isto, quem sabe, corresponda a um desejo
masoquista muito familiar às mulheres, que sempre tiveram ganhos reais através
da cultura do sacrífico e do sofrimento. É uma hipótese.
Lisa Appignanesi em seu livro Tristes, Loucas e Más - a História Das Mulheres
e Seus Médicos Desde 1800 dedica um capítulo a este tema, do quanto a
cultura da denúncia da violência e das mulheres vítimas afirma mais ainda para
as mulheres esta condição e as faz funcionar sempre num movimento circular,
vicioso, dentro de um labirinto sem saída, e o quanto, muitas delas, sequer
percebem que poderiam fazê-lo – denunciar, testemunhar, mas, principalmente,
reagir a tudo isto de outras maneiras, além de permanecer como vítimas, numa
postura mais afirmativa e inusitada. Também é uma hipótese, a de reagir pelo
imponderável.
Pouco se fala sobre isto. Na aparência
dos fatos, ao refletir com estas teóricas estaríamos repetindo a associação
entre feminismo e histeria, já descrita por tantos. Mas acho que, no caso
destas senhoras, a reflexão é bem mais sincera e complexa e recomendo a
leitura.
Ao longo dos muitos anos que trabalho de
maneiras diferentes com as mulheres já vivi situações e manifestações em que me
vi no meio de verdadeiras representações das histéricas charcotianas, por quem, aliás, tenho profundo apreço. E continuo a
percebê-las ainda hoje, muito presentes, expressão genuína de uma cultura do espetáculo do choro, da queixa e do pobrezinha-de-nós. Mas nós não somos só pobrezinhas. Já ouvi muitas mulheres que repetem a
narrativa da história dos abusos, das moléstias, dos desrespeitos e que são,
muitas vezes, as mesmas que emendam, na continuação da mesma narrativa, e em
outro tom, quase sempre impetuoso, irônico ou divertido, sobre verdadeiras
atrocidades e desrespeitos cometidos contra os filhos, contra os maridos e
amantes, e mesmo contra outras mulheres com quem trabalham, todas amplamente
justificadas com um discurso a quem tudo é
permitido e devido, já que foram ou se sentiram vitimizadas de alguma maneira irreversível.
Todas conhecem o manual de instrução
sobre os horrores cometidos mundo afora contra as mulheres, muitas desconhecem
o tanto que gostam de lidar com esta desgraceira e algumas nem imaginam o tanto
que reproduzem práticas desrespeitosas e violentas em suas próprias condutas.
De algumas mulheres já ouvi frases que
me deixaram perplexa: “O meu negócio é violência!” (referindo-se de que é com
isto que eu trabalho, e isto é o mais importante da minha vida) e com um brilho
assustador em seus olhos, longe da compaixão ou da solidariedade e muito
próximo do prazer e do fanatismo. “Este projeto é o sentido da minha vida!”, “Este
projeto é o que dá valor à minha vida!” e por aí afora, e quase com um ímpeto,
uma convicção e uma alegria difícil de desvendar e compreender, já que estes
projetos lidam com realidades tristíssimas e dramáticas, de mulheres
assassinadas, brutalmente violadas e desrespeitadas.
Não gosto da cultura da vitimização das
mulheres, ela serve a interesses que não são exatamente os das mulheres, porque
vitimizadas elas permanecem como cidadãs de segunda classe, passivas,
defeituosas, erradas. Não gosto do tanto que algumas mulheres se lambuzam de
prazer nesta condição de tristeza sem saída, fazendo coro junto às que
santificam e supervalorizam a maternidade e às que decretaram que todos os
homens do mundo são ou uns agressores natos ou uns frouxos sem saída. Não
gosto da ladainha repetida à exaustão, numa sociedade onde os adultos, incestuosos
de muitas maneiras, sempre passaram a mão em suas crianças, seja de forma
explícita ou através de outros expedientes invasivos e simbióticos que são,
muitas vezes, muito mais comprometedores do que os sexuais. Não me emociono mais
com alguns gritos de guerra e repudio veementemente as práticas femininas
autoritárias e manipuladoras onde as mulheres vitimizadas se arrogam, ad infinitum, direitos de reproduzi-las com os
demais.
Eu prefiro a Lisbet Salander, por
exemplo, que não abre mão de ser quem é, longe do ideário das moças
politicamente corretas, que gozam pouco e gritam muito, que só desqualificam os homens e que me confessam num
mar de lágrimas e muito mimimi que no
fundo, o que mais desejam, é ter um homem, filhos e uma casinha amarela. E que
não sabem por que isto não dá certo com elas!
Eu prefiro as mulheres que pensam, as
vozes dissonantes, as que se rebelam, as que transgridem e as que vivem suas
vidas responsáveis pelas suas contradições e precariedades, prefiro as que
apostam no riso e no humor às que chafurdam em auto piedade envoltas em
demandas absurdas feitas aos homens, aos pais e aos seus filhos homens. E prefiro
as que realmente são solidárias com as outras mulheres como propõem outras premissas feministas tão importantes como a do enfrentamento à violência, como as da irmandade ou sororidade, por exemplo.
Por estas e por outras, minha senhora,
vou continuar a postar o que bem entender na minha página e a pensar o que
quiser com a minha própria cabeça doida e a expressá-lo sentindo-me desobrigada a obedecê-la. E a senhora sinta-se muito livre para me excluir do seu grupo de amigos, porque
no meu grupo de amigos serão sempre bem vindos os que polemizam, os que
discordam, e até os que não gostam do que faço, mas não serão bem vindos os que
se dão o direito de me dizer o que tenho ou não tenho
que fazer. Porque as minhas escolhas e decisões tem sido feitas ao longo de um
caminho nada florido, nada simpático, nada submisso como é o caminho de quem
não precisa mais da aprovação alheia para poder ser quem bem entender.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Cinquenta e um, por Lélia Almeida.
Aprendi muitas coisas abrindo o Tarot para a mulherada neste ano que passou.
No ano passado, quando fiz 50 anos escrevi um texto que se chamava Eu, aos cinquenta e hoje, na véspera de cumprir 51, já não me reconheço naquelas palavras. Aprendi coisas maravilhosas com as mulheres que vieram espiar os arcanos comigo e em algumas consultas chorei desavergonhadamente ouvindo histórias fantásticas, sinceras, corajosas.
É impossível saber quem é a pessoa que chega para uma consulta, quase sempre indicada por alguém que já esteve aqui. E também é impossível saber o que vou ouvir depois que acendo uma vela pequena, um incenso e abro o velho xale espanhol que faz às vezes de uma toalha sobre a qual vou abrir as cartas. As mulheres sempre usam destes expedientes para entender o que se passa com elas, talvez por isto enfartem menos que os homens, se estressem menos, mesmo que isto esteja mudando.
Abro o xale sobre a mesa e improvisamos juntas a criação de um espaço de escuta, de troca, e de cumplicidade. Sou grata a todas as mulheres com quem troquei segredos, truques, impressões, e fiquei mais suave neste reencontro com a grande tribo. Elas e suas histórias são o meu grande presente de aniversário deste ano.
Algumas coisas me chamaram a atenção. Da mulhereda que como eu está entre os 50 e 60, o processo de desconstrução é violento. É comum a associação entre a menopausa e a adolescência, os hormônios alucinados, uma rebeldia absoluta e, um desassossego completo com identidades que não servem mais. Me chamou muito atenção uma história repetida que ouvi em várias consultas e que me fez pensar na existência de um padrão. Muitas destas mulheres, que estão atravessando a década de 50-60 têm um desejo ou uma fantasia vívida de retornar para os ex-maridos de quem já estão separadas a muitos anos, em geral daqueles com quem tiveram seus filhos. Neste momento da vida, quase sempre os filhos foram ou estão partindo e elas estão sós. Uma me disse, aquele cachorro foi o maior algoz da minha vida e agora eu não paro de pensar nele, tudo o que eu queria era poder voltar pra ele e não entendo esta loucura!
Algumas fizeram tentativas reais de reencontro que foram muito frustrantes, outras apenas divagaram e sofreram com estas saudades, e outras ignoraram simplesmente que estes senhores agora têm outras mulheres e famílias e retornaram desabadas para a casa vazia. Que desejo e que fantasia é esta, afinal? De voltar para onde, ou para quem, exatamente? Tem uma que quando vai visitar o filho que mora com o pai em outra cidade se vê acariciando as camisas do ex-marido dentro do armário, escondida, como uma adolescente retardada, ela me disse entre soluços e gargalhadas.
E quase todas admitem que poderiam ter relevado muitas coisas, feito as coisa de um outro jeito, e que quem sabe tudo teria dado certo. Mas estas são conjecturas atuais, impossíveis de serem consideradas no momento da crise dos outros tempos. Fiquei me perguntando sobre isto, sobre para onde se quer voltar? Para eles, para nós mesmas, para o que se tinha naquele tempo e que não volta mais, o tempo do atrapalho dos filhos pequenos, que tanto nos ocupava, da casa por construir, para onde se quer voltar?
Talvez se queira voltar sempre para um lugar e um tempo mágico que nos tire da angústia deste aqui e deste agora, e principalmente se queira voltar correndo porque agora não somos mais jovens e belas e infinitas.
Muitas destas mulheres voltam a repetir a consulta e a maioria ri do delírio da volta ao ex que foi vivido como uma espécie de febre terçã.
Mas elas continuam loucas e irreverentes, todas passando por abalos sísmicos, tsunamis, crises que envolvem problemas de saúde, vários e sérios, de troca de trabalho e de profissão, de casamento, de escolhas de vida. Teve uma que me disse a frase que carrego como um mantra destes tempos: - Não sei o que está acontecendo comigo, eu não me obedeço mais!
Porque este momento tão emblemático, que é um umbral e para o qual não nos preparamos, - num mundo em que ninguém se prepara para realmente envelhecer, negando a naturalidade da própria vida - é, na verdade, um momento igual a todos os demais, para o qual não estávamos nem um pouco preparadas. E tudo isto num mundo que nos nega a experiência de vivermos as nossas mortes internas, diárias, sem as quais não temos como continuar.
Muitas destas mulheres me contatam através do Facebook, onde quase sempre são maravilhosas, bem sucedidas, bem resolvidas e bem amadas. E o que vejo quando as encontro e conheço pessoalmente é sempre muito mais precário, complicado, e muito mais bonito, complexo e interessante. Uma me disse de uma forma muito serena, sinceramente, cheguei até aqui e não gosto do resultado do que construí e havia nela uma calma sábia, de quem sabe dizer para si mesma sem lástima ou culpa ou ressentimento: não gosto, mas é o que temos. E é preciso muita coragem pra se olhar no espelho deste jeito e continuar sem desistir ou se desesperar. Porque a capacidade de alegria destas mulheres, uma alegria fresca e mansa é também sem igual.
Algumas estão encantadas com os netos que estão chegando, descobrindo outras formas de amar e tecendo firmes e seguras a parte que lhes cabe nas malhas da ancestralidade. A maioria delas tem uma profunda consciência de quem não são mais e todas dizem não saber como serão daqui para frente. E todas asseguram que as amigas são parceiras indispensáveis neste momento da travessia, as que nos acompanham pra fazer a mamografia, as que viajam juntas, as que trocam confidências. Uma delas me contou da dúvida que tinha sobre encontrar ou não um cidadão que morava noutra cidade e que ela tinha conhecido pelo Facebook, ela foi, convencida pela melhor amiga que justificou: Você vai! Se não for, não vamos ter o que contar quando estivermos todas juntas no asilo! Ela foi, o namoro não rendeu, mas a história daquele mico foi para os anais da biografia das duas que já se prometeram muitas risadas juntas, na hora das lembranças.
No ano passado minha mãe que tem 79 anos ficou muito insegura na hora de fazer uma cirurgia de catarata e outra de vesícula, minha irmã que tem 40 anos se separou do marido, minha sobrinha de seis anos se alfabetizou e eu fui morar sozinha com os meus gatos e livros, desmontando uma vida familiar que já não existia mais. Brindamos a todas as nossas conquistas no fim do ano, certas de cumprir com as etapas da vida, como tem que ser, agradecendo os medos, as dúvidas e ao fato de estarmos juntas na jornada que afinal não é leve pra ninguém.
Diferentemente do que ousei dizer de mim aos cinquenta, prefiro o silêncio neste meu aniversário de 51 anos. As minhas certezas desabaram todas maduras pelo chão. Além de não me obedecer me desconheço profundamente e vivo surpresa com algumas reações e sensações, mas de uma maneira geral, mal pesem os dias e noites cheios de aflição, me sinto cada vez mais confortável nesta estrada nebulosa, onde sinto que tenho de me conduzir com mais cautela, em outro ritmo.
E fui construindo este conforto ao ouvir estas mulheres que dividiram histórias de vida maravilhosas, corajosas, tristes, dramáticas algumas, divertidíssimas outras.
Algumas se tornaram grandes amigas, e temos a sensação de que nos conhecemos de toda a vida, ali, naquele primeiro contato, despudoradas, sem tempo a perder, e isto é uma bênção.
Adquiri um ritual que talvez possa ser identificado por alguns como infantil, um pouco bobo talvez, mesmo nos dias mais difíceis - porque se desconstruir não é tarefa para fracos - acordo de manhã e agradeço confiante à Virgem e peço que me ajude a ser merecedora.
Aos cinquenta estou assim, rezando em silêncio, rebelde de mim e certa de que, mesmo sem saber bem o que, eu quero mais.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
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