sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Da intimidade:

"No entanto, a intimidade é mais do que um súbito reconhecimento de afeto entre duas pessoas. Eu sei que sim. Mas o que é, na verdade? Talvez seja a experiência que, de vez em quando, temos - raramente, é certo, mas temos - de nos tornarmos cada vez mais transparentes e de sentir o olhar cúmplice e familiar de alguém penetrando suavemente em todos os nossos poros? E, de igual forma, sentir que o nosso olhar interior consegue atravessar e compreender esse outro ser? (Embora, no entanto, comecemos pelo exterior). Nem sequer se pode pensar em intimidade sem antes meditar nas coisas a frio e ser capaz de infligir um ao outro uma espécie de ferida afetuosa."

Robert Dessaix, in Corfu, trad. Ana Teresa de Castro, ed. Gótica.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

[...] ¿Leíste alguna vez la leyenda medieval de Filomena? Keats la llamó Philomel. Un caballero feudal, amo y señor, casado com una mujer mayor, se enamora de la hermana menor de su esposa. La cerca y al final la viola. Para que ella no lo cuente, le corta la lengua. La niña se encierra y a escondidas borda un tapiz donde narra la historia que le há sucedido. Al descubrir el señor feudal este tapiz, decide matarla. Así lo hace. Y al morir ella se transforma en ruiseñor. Por eso el pájaro canta en las noches mientras los demás callan, para ser escuchado. [...] Tengo muchas historias que bordar. (p. 225)

In: SERRANO, Marcela. Antigua vida mía. Santiago de Chile: Alfaguara, 1995.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Saudades do cronópio maior

Lélia Almeida.

Foi proposto o desafio: falar de Julio Cortázar. Falar mais especificamente sobre os 20 anos da morte de Cortázar, o cronópio maior, o ícone indiscutível da literatura argentina, amado, idolatrado e popularíssimo junto às figuras de Borges, Maradona ou Evita. Mas, como falar de Cortázar, de seu universo complexo e abrangente? Como fazer uma síntese do autor dos duplos, dos espelhos e dos labirintos? Eis-me aqui, portanto, frente a esse desafio, o de falar desse clássico da literatura contemporânea, estudado pela crítica literária, pela psicanálise, pela filosofia, e de quem dou breves notícias no intuito de realizar uma homenagem saudosa e justa.
O ano de 2004, ano dos 20 anos da morte de Cortázar, ocorrida em 12 de fevereiro de 1984, tem sido e será ainda sublinhado em muitos países como o Ano Internacional de Cortázar. Estão sendo realizadas, em âmbito internacional, palestras, colóquios, simpósios, exposições itinerantes, reedições de sua obra, publicação de esparsos e dispersos, numa tentativa mais do que justificada de manter a chama acesa, de mantê-lo vivo e inesquecível entre nós.
Exímio contista e romancista, misturou o lúdico com o revolucionário e nos brindou com uma obra singular, objeto de paixão e fanatismo por leitores do mundo inteiro. Sendo impossível sintetizar a complexidade de seu trabalho e estilo em poucas linhas, escolho, então, os caminhos traçados muitas vezes pelo próprio autor para se apresentar. E que o situaram na literatura latino-americana como representante inequívoco do que se convencionou chamar de o boom da Literatura Latino-Americana, nas décadas de 60 e 70 do século passado. Os temas do fantástico e do comprometimento político foram marcas certas da literatura desse período, e situaram a realidade cultural do nosso continente no primeiro mundo, apresentando-a como inovadora e sem precedentes.
Gabriel García Márquez ao tentar refletir sobre o chamado fantástico na literatura latino-americana, em seu discurso em Estocolmo, La Soledad de América Latina, em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, disse que a literatura produzida no continente tinha características próprias porque a realidade histórica desses países beirava o absurdo, a fantasia, o imponderável. Chamou de realidade descomunal uma realidade em que se produziam patriarcas que se perpetuavam perversamente no poder, regimes totalitários que mandavam prender, exilar e desaparecer multidões de pessoas, que corresponderiam a populações inteiras dos pequenos países europeus.
Uma realidade em que eram possíveis guerras e revoluções que não acabavam nunca, e que provocam verdadeiros saqueios que resultavam no desamparo e abandono do povo latino-americano. Tudo isso numa paisagem devastada por toda sorte de vendavais, terremotos e outros caprichos da natureza. Márquez sugeriu aos intelectuais europeus que não olhassem para a literatura latino-americana somente como produto exótico dos países dos trópicos, mas também com detalhe e atenção para esses países e sua história, uma história trágica e absurda, como é a dos povos colonizados.
Cortázar, concordando com García Márquez e outros autores do boom, foi autor de textos como Carta a Roberto Fernández Retamar (sobre a situação do intelectual latino-americano), de 1967, O Intelectual e a Política na América Hispânica, América Latina: Exílio e Literatura, Realidade e Literatura na América Latina e Novo Elogio da Loucura, sobre as loucas mães da Praça de Maio, que revelaram seu pensamento sobre a situação dos países latino-americanos nos difíceis anos 60 e 70.
Ainda que acusado por muitos, sobre seu inicial exílio voluntário em Paris, longe do front e das difíceis realidades em que vivia o continente, Cortázar afirmou, por meio desses textos, seu engajamento como intelectual e como militante pelos direitos humanos em tribunas internacionais. Para ele, “se alguma vez se pôde ser um grande escritor sem se sentir partícipe do destino histórico imediato do homem, nesse momento não se pode escrever sem essa participação, que é responsabilidade e obrigação, e somente as obras que reflitam, mesmo que sejam de pura imaginação, mesmo que inventem a infinita gama lúdica da qual o poeta e o romancista é capaz, mesmo que jamais indiquem diretamente essa participação, somente elas conterão, de alguma indizível maneira, o tremor, a presença, a atmosfera que as torna reconhecíveis e entranháveis, que desperta no leitor um sentimento de contato e proximidade”.
É legítimo afirmar que, sem os acontecimentos históricos como os da Revolução Cubana, da Revolução Sandinista ou a de San Salvador, os rumos da literatura latino-americana, produzida então, talvez tivessem sido outros. A Revolução Cubana, praticamente contemporânea do boom, e as figuras de Fidel e do Che representaram uma verdadeira quimera para muitos dos escritores que, como García Márquez ou o próprio Cortázar, envolveram-se pessoalmente com esses eventos históricos e seus protagonistas.
A reflexão sobre as questões políticas, que criaram uma literatura de testemunho em todos os nossos países, deu-se, concomitantemente, à produção de uma literatura chamada de Realismo Mágico, Literatura Fantástica ou, ainda, de Real Maravilhoso.
Os textos em que Cortázar tentou sintetizar suas percepções sobre esse tipo de literatura ao qual ele se filiou, foram El Sentimiento de lo Fantástico (conferência apresentada na U.C.A.B) e, principalmente, um texto que, apesar do título – O Estado Atual da Narrativa na América Hispânica –, foi seu ensaio mais completo e erudito sobre o maravilhoso e o fantástico. Considerou o fantástico como uma temática e um procedimento recorrentes em autores da zona cultural do Rio da Prata num período que vai de 1920 aos dias atuais. E que se daria por um mecanismo do acaso, o mesmo acaso que, por exemplo, juntou, concentrou, na época da Renascença italiana ou em outros períodos da história, uma explosão criativa com características próprias.
o sentimento do fantástico seria, para Cortázar, um estranhamento originado das coisas banais da vida e do cotidiano. Longe de se tratar de situações fantasmagóricas e sobrenaturais, de lobisomens ou vampiros, o fantástico seria um estranhamento capaz de romper com o binarismo do racional e irracional, e que se instalaria como uma zona intermediária, uma ponte entre vários caminhos. Seria um espaço intersticial, de uma terceira fronteira, de um terceiro olho.
Para Cortázar, o caminho do fantástico poderia nos ensinar que, a partir da nossa percepção diferenciada desse outro, poderíamos ampliar nossos hábitos mentais de percepção da realidade. Lúdico e revolucionário, amado por muitos e criticado por alguns sobre suas posições políticas, defensor do polêmico boom como um momento de expansão para a literatura latino-americana, ao contrário de outros que o viam como um momento de mera especulação editorial, o grande cronópio amou a música e o cinema a quem dedicou ensaios e produções também singulares.
Sobre sua morte sempre falou-se sem muita precisão. Falou-se que ele teria morrido vítima de leucemia ou vítima de um câncer raro. Mas em biografia recente publicada em Barcelona, a autora uruguaia residente há muitos anos na capital catalã, Cristina Peri-Rossi, amiga próxima e musa de Cortázar, especula a possibilidade de o autor ter sucumbido a complicações provocadas pela Aids. No seu livro sobre Cortázar, que faz parte da coleção Vidas Literárias, da Editora Omega, a autora refere-se ao escândalo sobre a falta de controle dos bancos de sangue da França no início dos anos 90, e propõe que esse problema era ainda anterior ao momento em que as denúncias vieram a público. Cortázar teria feito uma transfusão de sangue em 1981, e todos os sintomas de que padecia no fim de sua vida coincidiam com os da Aids, doença ainda desconhecida e de difícil diagnóstico no início dos anos oitenta.


Poema escrito por Cortázar ao cubano Roberto Fernández Retamar , desde Paris, em 29 de outubro de 1967, por ocasião da morte de Che Guevara: “Não sei escrever quando alguma coisa me dói tanto, não sou, não serei nunca o escritor profissional pronto para produzir o que se espera dele, o que pedem ou mesmo o que ele mesmo se pede desesperadamente. A verdade é que a escritura, hoje e perante isso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de dissímulo quase, a substituição do insubstituível. O Che morreu e, a mim, não sobra mais que o silêncio, até quem sabe quando.

Che:
Eu tive um irmão./Não nos vimos nunca/ Mas não importava./Eu tive um irmão/ que andava pelas montanhas/enquanto eu dormia./Amei-o à minha maneira,/tomei da sua voz/livre como a água,/caminhei muitas vezes/pela sua sombra./Não nos vimos nunca/mas não importava,/ meu irmão acordado/enquanto eu dormia,/ meu irmão me mostrando/ atrás da noite/sua estrela eleita.”

terça-feira, 28 de outubro de 2008

É preciso ter paciencia para as coisas importantes.


In: La Sconosciuta, de Giuseppe Tornatore.
Sou chamada de a Rainha Virgem. Não casei e não tenho senhor. Não tive filhos e sou a mãe do meu povo. Deus dê-me forças para suportar essa poderosa liberdade. Sou sua rainha Eu sou eu mesma.

In: Elizabeth, a era de ouro, de Shekhar kapur.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Que me dizem os teus olhos de água?
Que tenho talvez sede, uma sede final.

Que me diz a tua boca bela?
Que a minha felicidade está toda aí.

Que me diz a tua fronte de estrela?
A lâmpada arde dentro de casa.

E os teus belos braços em corbelha?
Que me terás tranqüilo e silencioso.


Noël Vesper(Nouvè Vesper)
-in: Antologia da Poesia Provençal Moderna, Selecção de Louis Bayle e Manuel de Seabra; Tradução Directa do Provençal de Manuel de Seabra; Editorial Futura, 1972-
Meu marido labuta no campo,
eu não paro na lida da casa.
Um casal tem sempre que fazer,
e que ser unido no trabalho.

O casal camponês tem de zelar pelo amor.
O casal da cidade zela pela sua roupa.
Pode trocar-se um fato velho por um novo.
Não se troca o amor de uma vida inteira.

Eu cozo o arroz e preparo o chá.
Tu mondas, semeias, cavas e ceifas.
Quando como um ovo, deixo-te a gema.
Juntos envelheceremos.



Canção Popular chinesa (Século XVIII)
in Claude Roy, A China num Espelho
Tradução de António Ramos Rosa

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os amantes que vinham do Sul:


Lélia Almeida.


Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma menina louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.


Brasília, 18 de junho de 2008.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Uniforme amarelo e branco:

Lélia Almeida.

Minha sobrinha Sofia tem um ano e três meses e vai numa creche que se chama Cantinho Mágico, o uniforme da creche é uma roupa amarela e branca. Quando vamos buscá-la eu digo que ela é a minha ova, a minha ovinha amarela e branca. Ela é filha da minha irmã caçula, é quase minha neta, por assim dizer. Sofia é a sobrinha mais moça da família. A mais velha se chama Michele, e tem 21 anos, e agora elas têm alguma coisa em comum. A cor do uniforme.
Porque o uniforme das presidiárias da Penitenciária Feminina da Capital, de São Paulo, é amarelo e branco, e soube hoje pela mãe dela que se quisermos mandar alguma roupa, algum abrigo, só pode ser destas cores. Amarelo e branco.
Contei para a minha mãe sobre esta triste ironia. Ela disse, que amor, sem saber o que dizer, como se a outra também estivesse numa espécie de creche onde as meninas têm de ir uniformizadas. O que ela disse não combinava com a sua expressão, que era uma expressão de desespero, mas então pude contar algumas coisas de todas estas que ela não quer ouvir nestes dias de tormenta e tristeza. Que estamos juntando laudos médicos para comprovar os anos de tratamento da Michele, as taxas de lítio, que neste momento estão absurdas, que ela deve estar precisando de medicação, que tudo isso pode ajudar na defesa.
Minha mãe não quer saber, não entende esta doença, e eu a conduzo com paciência até a doença, porque preciso dela, preciso da força dela pra tentar resgatar esta menina. Preciso da minha mãe, da força do espírito dela, preciso da minha irmã, e da minha pequena Sofia também, e não sei por onde ir, nem por onde começar. Mas sei que este é um assunto de meninas, e de mulheres.
Há quinze dias ela foi detida no aeroporto de São Paulo com 1kg de cocaína grudados no corpo, tentando embarcar para a Itália. Palavras novas, que eu conhecia só na teoria, passaram a cobrar realidade na minha vida, se tornaram reais. Repito-as, para me acostumar. Inquérito, boletim de ocorrência, jovem infrator em conflito com a lei, delação premiada, tráfico de drogas, enfim.
E penso na menina que dorme na penitenciária com seu informe amarelo e branco. Nas suas noites frias e cheias de medo, ansiedade e solidão, e no como ela deve pensar nesta família que ela quis tanto que a quisesse, nesta família que nunca a quis.
Preparo uma caixa com as instruções que me chegaram através da mãe dela: roupas só se forem da cor indicada, bolachas que não sejam recheadas, sucos que não sejam de cor vermelha, seus cigarros favoritos, carlton cream, mas os que valem ouro dentro da penitenciária são os hollywood, que podem ser trocados por tudo, inclusive telefonemas de celulares anônimos, sabão para lavar roupa.
Preparo a caixa, Michele, uma caixa com cigarros, absorventes, pensei, sempre podem ser úteis, desodorante, sabão para roupa, não consigo pensar nem escolher, eu não conheço você, não sei do que você gosta, nem do que você precisa.
Eu a conheci quando você tinha poucos meses de idade, e quando você ainda era filha do meu irmão. Porque depois você deixou de ser filha dele, e não sei ainda de quem foi esta decisão. E nem como isso foi possível. Meu pai disse, essa menina não é minha neta. Meu irmão disse, esta menina não é minha filha.
Desculpa, Michele, se não sei por onde começar, nem por onde ir, mas olho pra caixa de papelão com estas parcas iguarias, e sei que, dentro dela, você voltou para a minha vida.
Deus é mãe:

Lélia Almeida.


Outro dia acordei com um humor do cão. Rosnava pela casa e nada me fazia melhorar. Há algumas pessoas que convivem comigo há muito tempo e que ainda não sabem desta evidência tão simples: sempre que fico furiosa deste jeito é porque não estou conseguindo ficar triste. Então a fúria fica maior do que eu, caio num pranto sem fim, vou até o fundo daquele horror e choro como uma bezerra desmamada até ficar triste e me acalmar.
Sonhei que dizia para uma terapeuta, meu filho fez dezoito anos e quer ir embora de casa e eu vou morrer se ele fizer isso comigo! Simples o sonho, mais simples ainda o sentimento. O deste segundo parto de quando temos de expulsá-los das nossas vidas, regidas por rotinas em que eles e seus horários são soberanos, e que parece que vão deixar de ter sentido quando eles não estiverem mais. Meu filho quer viajar, morar longe, morar sozinho, fazer exatamente tudo o que fiz na idade dele. E maldigo todas as vezes que eu quis estar sozinha, quando estava cansada e ele me demandava o impossível, todas as vezes que ele atrapalhou os meus namoros e os meus planos que não cabiam mais na nossa vida de mãe e filho. E penso que os melhores anos da minha vida foram estes, vendo este menino crescer, e quando penso que ele não vai estar na hora do jantar, nos domingos na tardinha, choro mais ainda.
Choro tanto que o caseiro que cuida do sítio onde moro, um cabloco que é um pedaço de mau caminho, fala mansa, olho verde, chapéu preto e louco de exibido, chega na janela e diz, mas isso é jeito de chorar dona Lélia, que eu não posso ver uma mulher chorando esse tanto assim, sô!! eu disse pra ele que ia morrer se o meu filho fosse embora de casa, ele riu e me olhou como se eu fosse uma menina velha, ah é isso, morre não, além do mais, sozinha é que a senhora não vai ficar, que a madama ainda rende um bom caldo, viu?!
Dei uma fungada, arrumei o cabelo desgrenhado e botei a água prum café.
- O senhor acha mesmo? eu perguntei.
Que Deus nunca abandona a gente, viu, que sempre tem um anjo da guarda por perto, olhos verdes, fala mansa, mãos firmes e cheiro forte de tabaco. Um anjo da guarda lembrando que não tem chuva que pra sempre dure e nem tristeza que não acabe.
Deus é mãe. Parece com o meu caseiro de olho verde vezenquando.
Mas é mãe.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Atraso

Era uma vez um país onde muitos acocaram na boquinha da garrafa, adoraram a Eguinha Pocotó e dançaram o créu com a Mulher Melancia. E na semana em que este país aprovou a pesquisa com as células-tronco e deu um passo definitivo à civilidade, nesta mesma semana e neste mesmo país, Carlão e Bernardinho se casaram, mas não puderam beijar na boca! O beijo foi censurado!
Atraso e hipocrisia no país mais galinha do mundo! Ou devo dizer, no país mais careta e moralista do mundo?
Sábado à noite as comportadas famílias brasileiras puderam assistir ao último capítulo da novela Duas Caras de Aguinaldo Silva. Um casamento coletivo foi realizado e, como é de praxe, todo mundo casou e foi feliz para sempre.
Durante os meses de novela a discussão sobre o politicamente correto e sobre algumas políticas governamentais estiveram na ordem do dia. Bem ou mal, falou-se sobre quotas na universidade, sobre inclusão, sobre racismo e sobre paternidade homoerótica (juro que não fui eu que inventei este termo). Dondocas descobriram que a vida com o povão na favela podia ser uma farra e alguns bandidos se reabilitaram, como foi o caso do inescrupuloso Carlão, que explorou o pobre Bernardinho à farta.
No país que cria uma ficção, em plena novela das oito, onde uma criança pode, legalmente, ter dois pais e uma mãe, e onde um dos pais pode casar com outro homem, acontece o inusitado: casar pode, mas não pode dar beijo na boca!
Assim caminha a humanidade e assim caminha a sociedade global brasileira: um passo a frente, dez para trás. Atraso, minha gente, o nome disso é atraso. Talvez quando tivermos os resultados das primeiras pesquisas com as células-tronco, dentro de alguns anos, Carlão e Bernardinho, quem sabe, depois de assinar a união estável na frente de um juiz, poderão pegar na mão e dar um virginal beijo no rosto. Espantoso!
Porque na vida real a coisa é outra. Na vida real, a coisa é gay. O mundo está gay. As relações são gays, a estética é gay, a moda é gay, e o fashion é ser gay. O cenário obrigatório é queer eye for the straight gay. Confesso que estou exausta com a coisa gay. Estou exaurida com a moda gay. Estou de saco cheio da caricatura. Estou cheia da histeria da ditadura gay para quem tudo é homofóbico, e estou farta da assepsia do politicamente correto e da punheta virtual também. E do feminismo que só discute, na academia e nos movimentos sociais, relações parentais homoeróticas, técnicas reprodutivas para casais homossexuais, quando a discussão sobre gênero, na atualidade, tem um único e último objetivo que é a discussão sobre a coisa gay.
Eu mesma, depois deste desabafo, serei, muito provavelmente, espinafrada por estas poucas linhas, denunciada como preconceituosa e homofóbica. Mas eu realmente estou de saco cheio destes tempos muito sem graça em que estamos vivendo.
Particularmente, tenho saudades da sacanagem e do deboche, sinto falta do tempo em que os homens gostavam de foder com as mulheres e as mulheres se derretiam para dar a bichana. Sinto falta dos tempos em que homens e mulheres podiam se esfregar e assediar e amassar sem que isso fosse um sintoma, uma doença, um desvio, uma ameaça, tenho saudades dos tempos em que era considerado relativamente saudável, - para dizê-lo em bom português, e para que não esqueçamos os nomes das coisas - homens e mulheres gostarem de namorar, transar, trepar ou foder. Estou quase saudosa de pérolas pré-históricas como a coçada no saco, a boa e velha pegada, um peito cabeludo e um mundo de homens sem brincos.
Estou cansada com o exagero da coisa gay, mesmo sabendo que o exagero é necessário para que algumas demandas venham a público. Assim como foi absolutamente necessário que as feministas queimassem sutiãs, há muitos anos atrás, e assim como foram necessários gestos definitivos e exagerados para que reivindicações e novas condutas se estabelecessem.
E mesmo cansada da moda e da patrulha gay que assola a contemporaneidade, digo que o que vi sábado à noite me fez ter medo de um retrocesso à obscuridade da noite dos tempos. Foi patético, Bernardinho e Carlão ali, lado a lado, dando um passo sério e definitivo, em direção a formas afetivas mais livres e menos preconceituosas. Mas sem beijo na boca! Com beijo na boca censurado!
Atraso, o nome disso é atraso.


Lélia Almeida.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Leite Vermelho:

Lélia Almeida

Reuniu-se na Associação Brasileira de Imprensa no Rio de Janeiro, no dia nove de novembro, um grupo de cinqüenta mães representantes das comunidades mais violentas do Rio de Janeiro. O objetivo do encontro foi o de apresentarem demandas pontuais do que elas consideram suas realidades específicas, e para as quais elas entendem que o Estado não tem respostas nem providências.
Apresentaram-se dizendo seus nomes, o nome de suas comunidades e de seus filhos e filhas mortas, vítimas da violência nas zonas conflagradas, que se assemelham, em seus dramas, às das realidades das demais regiões metropolitanas do país.
Sou Maria José, e meu filho se chamava Carlos André, procuro por justiça há nove anos, são nove anos de espera, meu filho foi executado; Teia, mãe do William, nove anos de ausência e de saudades; Vilma, mãe de Talita; Sônia, mãe de policial morto, executado por traficantes. Ana, mãe de Thiago, procuro por justiça há 16 anos. A verdade é que a vida não vale nada onde moramos, meu filho morreu porque era negro e pobre, é um pedaço da gente que vai embora pra sempre.
Elas são os arquivos vivos, silenciados e esquecidos das histórias atrozes das chacinas de Queimados, do Maracanã, de Vigário Geral ou da Baixada. Elas são as Mães do Rio, as Mães de Acari, as Mães de Vigário Geral e são as protagonistas do capítulo de uma história do país que ainda não foi contada. E cujo roteiro, final e personagens são sempre os mesmos e que relatam como os nossos jovens são abatidos como bichos, todos os dias, transformando a vida dessas mães num verdadeiro calvário de dor e incompreensão. Isso aqui é uma terra de ninguém, de um lado estamos nós e nossos filhos, e do outro estão os maus policiais, a milícia ou o tráfico, que a gente não sabe quem mata mais que o outro.
As narrativas se parecem, e contam a história dos filhos mortos na ida para a escola, da necessidade de pagar o pedágio para os traficantes para que os meninos possam chegar a salvo na escola sem que sejam jogados das passarelas ou queimados no meio do caminho, por exemplo.
Estas mulheres não assistem Sex and the City, nem Mothern, e não conhecem os questionamentos do feminismo sobre a maternidade, suas demandas são simples e suas reflexões não são acadêmicas nem sofisticadas. Elas perderam seus filhos, seus filhos foram assassinados, elas pararam suas existências para procurar por Justiça. Algumas interromperam suas vidas para procurar os corpos de suas crianças, como as mães de Acari, que procuram pelos corpos dos seus onze filhos há quinze anos, e que ouvem a máxima de que não há como fazer Justiça nem punir ninguém, porque sem corpo não tem crime.
Estas mulheres, na sua grande maioria, perderam os maridos, porque eles constituíram novas famílias ou partiram, já que é insuportável, de muitas maneiras, conviver com estas mulheres que só tem um motivo para continuar vivendo, que é o de procurar por justiça, procurar uma explicação.
Estas mulheres encontram consolo ao se reunir com outras mulheres que sentem a mesma dor. Tentam transformar o luto em luta, e não se abatem, o motivo para que elas continuem vivendo é poderoso, elas gritam o nome dos seus filhos pelas ruas do país, a cada dia das mães, elas se reúnem e lembram o nome deles, porque quando elas deixarem de fazer isso a história de sadismo e violência que assola as regiões metropolitanas deste país vai estar legitimada e mais banalizada do que já está.
Elas não se fazem muitas perguntas sobre a dupla jornada de trabalho, nem sobre as novas tecnologias reprodutivas, nem sobre como os pais devem criar seus filhos, elas não sofisticaram a reflexão como muitas outras mulheres do mundo civilizado.
Como as emblemáticas Mães da Praça de Mayo, na Argentina, e como muitas outras mães pobres dos países periféricos, que assistem à morte e ao desaparecimento de seus filhos, diariamente, em circunstâncias brutais, e que, na maior parte das vezes, não vêem a Justiça acontecer, estas mães não tiveram a possibilidade de sofisticar a reflexão.
Joana Angélica, mãe de Carlos que foi executado em Queimados disse, estes filhos todos, desaparecidos, executados, e por cuja morte a Justiça não faz nada, são todos filhos de todas as mães, e nós somos mães de todos eles. Elas se chamam de mães comunitárias. E este é um triste e importante legado que as mulheres latino-americanas, junto com as outras mulheres pobres e vítimas de violência do mundo inteiro, trazem para a pauta das discussões feministas, o de colocar a discussão sobre a maternidade num outro patamar, onde ela é coletiva, onde ela é social.
As demandas dessas mães estão sendo levantadas pelo Ministério da Justiça para finalizar o Projeto Mães da Paz, do Programa Nacional de Segurança com Cidadania, o Pronasci. Com suas histórias dramáticas, elas fazem parte do público-alvo do projeto, juntamente com outros grupos de mães de apenados, mães de jovens em situação de risco e vulnerabilidade social e outras mulheres que se relacionam com os jovens que são o público-alvo do programa.
Homenagens às mães, de Lélia Almeida.

[...] Pensar contra si mesmo é freqüentemente uma atitude fecunda; mas no caso de minha mãe a história era outra: ela viveu contra si mesma. Rica em apetites, empregou toda a sua energia para reprimi-los e suportou essa renúncia convertendo-a em cólera. Em sua infância, comprimiram seu corpo, seu coração, seu espírito, num espartilho de princípios e interdições. Ensinaram-na a apertar ela mesma, com firmeza os cordões. Subsistia nela uma mulher corajosa e arrebatada; mas contrafeita, mutilada e estranha a si própria.

De Simone de Beauvoir, quando conta a morte de sua mãe no seu inesquecível Uma morte muito suave.



Camille Paglia, em entrevista recente, disse que o feminismo contemporâneo não atende mais às demandas das mulheres e que as mulheres têm de voltar a refletir sobre a centralidade da maternidade em suas vidas.
Quem diria, quem-te-viu-quem-te-vê!
Tenho de concordar com a Paglia, de quem já discordei muitas vezes em outros tempos. No Brasil, atualmente, quanto mais o feminismo se institucionaliza, mais longe das mulheres ele se coloca, muito embora esta discussão não caiba numa homenagem.
Erica Jong, outra ilustre feminista americana, já alertou que o simples fato dos peitos femininos reagirem em abundância de leite ao choro de uma criança, nos deu um determinado lugar na história do mundo, para o bem e para o mal, diga-se. E que este lugar não deve ser subestimado como querem determinadas feministas.
E quando o assunto é a enigmática identidade feminina não avançamos muito além das discussões sobre o papel fundamental dos pais na vida de suas filhas. Mas outra discussão se impõe e essa, diferentemente de outros países, nunca foi levada a termo pelo feminismo brasileiro. E o foi de maneira bastante superficial pela nossa literatura. A verdade é que a grande encrenca da vida das meninas e sobre a qual elas devem refletir com atenção ao longo de uma vida, são as suas mães.
No entanto, as teóricas feministas italianas, espanholas, francesas ou as mexicanas, e outras centenas de mulheres ficcionistas, no mundo inteiro, têm se ocupado deste tema de maneira quase sempre original e comovente.
Lembrei da representação de algumas figuras maternas que me foram caras, tanto no cinema como na literatura. E que me fizeram pensar sobre o intrincado fenômeno da maternidade na vida das mulheres.
Listas são expedientes que primam pela injustiça, pelo esquecimento e pela incompletude. Os filmes e livros que seguem não são, necessariamente, aqueles que considero os melhores sobre o tema, inclusive, porque gosto muito de alguns que nem considero tão bons. Mas que apresentam figuras maternas e reflexões importantes sobre a maternidade e que me fizeram pensar sobre o assunto.

No cinema,

1. Tudo sobre minha mãe do Pedro Almodóvar.
2. A excêntrica família de Antonia de Marleen Gorris.
3. Sonata de outono de Ingmar Bergman.
4. O clube da felicidade e da sorte de Ang Lee.
5. Minha mãe é uma sereia de Richard Benjamin.
6. Colcha de retalhos de Jocelyn Moorhouse.
7. Eclipse Total de Taylor Hackford.
8. A história oficial de Luis Puenzo.
9. A escolha de Sofia de Alan Pakula.
10. Quatro meses, três semanas e dois dias de Cristian Mungiu.
11. Correndo com tesouras de Ryan Murphy.
12. Café da manhã em Plutão de Neil Jordan.
13. Filhos da esperança de Alfonso Cuarón.
14. Kill Bill, vol 2 de Quentin Tarantino.
15. La luna de Bernardo Bertolucci.
16. Mamãe faz cem anos de Carlos Saura.
17. A outra de Woody Allen.
18. A criança de Jean Pierre Dardenne e Jean-Luc Dardenne.
19. Quase famosos de Cameron Crowe.
20. Laurel Canyon de Lisa Cholodenko.

Na literatura,

1. Uma morte muito suave de Simone de Beauvoir.
2. O Penhoar chinês de Rachel Jardim.
3. Paula de Isabel Allende.
4. Os cisnes selvagens de Jung Chang.
5. Medo aos cinqüenta de Erica Jong.
6. O amante de Marguerite Duras.
7. Há vinte anos, Luz de Elza Osório.
8. A caixa de santinhos de Esperanza de Maria Amparo Escandón.
9. A hóspede especial de Sue Miller.
10. Bondade de Carol Shields.
11. A falta que ela me faz de Joyce Carol Oates.
12. A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas de Maria José Silveira.
13. A morte da mãe de Maria Isabel Barreno.
14. A senhora dos sonhos de Sara Sef.
15. As Mulheres de Tijucopapo de Marilene Felinto.
16. Notícia da cidade selvagem de Lídia Jorge.
17. A história da Aia de Margaret Atwood.
18. Hanna e suas filhas de Marianne Fredriksson.
19. Como água para chocolate de Laura Esquivel.
20. Dicionário de nomes próprios de Amélie Nothomb.
Pasaporte:

De Rosario Castellanos.

¿Mujer de ideas? No, nunca he tenido una.
Jamás repetí otras ( por pudor o por faltas nemotécnicas).
¿Mujer de acción? Tampoco.
Basta mirar la talla de mis pies y de mis manos.

Mujer, pues, de palabra. No, de palabra no.
Pero sí de palabras,
muchas, contradictorias, ay, insignificantes,
sonido puro, vacuo cernido de arabescos,
juego de salón, chisme, espuma, olvido.

Pero si es necesaria una definición
para el papel de identidad, apunte
que soy mujer de buenas intenciones
y que he pavimentado
un camino fácil y directo al infierno.

sexta-feira, 14 de março de 2008

O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.

Clarice Lispector.