sábado, 24 de outubro de 2009
Os príncipes da cidade sem alma:
Lélia Almeida.
O cemitério municipal. Vamos visitá-lo. Há uma capela nova. Lá estão os meus avós paternos. Estão as fotos. A foto da Zizi é a do dia do aniversário de 80 anos dela, quando o Pedro tinha um ano e era o neto mais novo. E a foto do Dagoberto, o filho mais velho da Zizi. Olho para a foto e lembro dele jovem, quando eu era menina. No olhar dele, o jeito, a expressão de vários homens da minha família. Sobrinhos do meu pai, meus irmãos, meus primos. E lembro do olhar amoroso deles sobre mim. E a falta deste olhar é um vazio sem fim.
Somos de Rivera, escolhemos, eu e meu irmão. É uma questão de afinidade. Amor à língua, à comida, às ruas, às músicas, às pessoas. Há um jeito de ser, de outra consistência, de outro fundamento, diz o meu irmão. Comemos mozarela na City, milhojas pequenas, com pomelo. Chove, olhamos a fachada das casas antigas, e lembramos de um tempo em que éramos como morcegos jovens e varávamos as noites naquelas ruas silenciosas, vagabundos, fantasmas e éramos, mais que irmãos, parceiros, num tempo de muita dor e incompreensão. Ele paga a conta, eu protesto, ele diz que quando ele sai com uma mulher é ele que paga a conta. Digo que não sou uma mulher, que sou uma irmã. E rimos juntos, como nos bons tempos. Quando líamos juntos, quando ouvíamos as mesmas músicas e tínhamos certeza de que nada nos separaria.
As avenidas de Rivera, nos arredores, ampliaram, foram asfaltadas, a cidade floresceu com o free shop, com o dólar. Meu pai sempre disse que Rivera florescia quando Sant’Ana estava na merda. E vice-versa. A cidade, neste momento, floresceu, dizem que o atual prefeito poderá ser o próximo presidente do país. As lojas do free shop parecem de primeiro mundo, as uruguaias falam português fluentemente. O cheiro de perfume caro impregna o ambiente. Tudo sabe a luxo, coisa fina, chique. Na rua principal estão ao hotéis caros, os restaurantes, pizzarias, confeitarias, parrilladas, sorveterias. Nas ruas paralelas estão os botecos, os bolichos, com os produtos locais, sem o charme dos importados. Quesos, raviólis, pan con chorizo, Ripan, postre Riveli, caramelos, chimichurri, yerba mate, carambones, medialunas rellenas, salsa golf, crema hinds, cucarachas para o cabelo, cheiros e lugares, indissociáveis. E as casas antigas, pé direito alto, portas de madeira, janelas com sacadas, pátios internos com clarabóias e vitrôs, casas com almas. E pelas ruas, os ônibus com os nomes dos bairros. Rivera Chico. Pueblito. Enda. Ônibus velhos. Nomes antigos. Almas velhas. Cidades dos meus amores. Caminhamos, eu e meu irmão, sob os escombros. Escombros da nossa infância. Vamos do mesmo jeito, cúmplices, juntos. O que nos une é também de outro tempo. E de outra matéria também. Ele me diz sempre, que sangue não é água. E sei que quando ele está por perto, eu não estou só. De muitas maneiras eu não estou só.
A brincadeira era a de buscar nomes interessantes para os personagens do próximo livro. Mas sempre acontece algo mais interessante nos cemitérios. Os nomes no cemitério de Rivera. Ele entendeu, ele que sempre me entende. O poder das lápides, das palavras escritas e escolhidas no calor da emoção. Uma lápide branca, uma camélia em tom amarelo, Tereza Ponz, te ama tu sobrina. Nomes italianos, espanhóis, muitos vascos, alguns catalães, mas há poloneses e alemães, ingleses também. Árabes, muitos. A mistura é infernal na fronteira, um lugar que se pretende passível de controles, limites, contenções, alfândegas, permisos. A fronteira é o lugar do limite geográfico e da mescla, da mistura. Os nomes nas lápides contam desta história. Meu irmão entendeu. Paramos na frente de um casal. Horacio e Inês Centi. No quiero vivir sin ti. Ela foi primeiro. Ele foi um mês depois. Viveram 30 anos juntos. Nos olhamos e ele diz, Deus me livre um amor assim, eu digo que é o sonho de muita gente. Ele diz que homem e mulher pode ser muito bom, mas que quase sempre é muito complicado. Bom mesmo é irmão e irmã, ele diz, e saímos abraçados do cemitério.
Sorveteria Martinez. Helado de chocolate con granizado. A mesma mulher nos atende. A mesma que nos atendia nos domingos de noite. Quando voltávamos da piscina no verão, o corpo quente, a pele curtida, vermelha. Sorveteria Zun Zun. Sorveteria Martinez. ‘Nossa, ela passou a vida inteira aqui”, eu disse, ele disse, claro, a sorveteria era da família dela, agora é dela. Crema con frutilla, y chocolate caliente, el que endurece.
Um rio que se move ao contrário no tempo. E no espaço, um movimento sem volta. Comportas que se abriram. Desde que o homem do farol entrou na minha vida, dei para ouvir o rio outra vez, suas águas revoltas, imundas, de novo, a me chamarem. E desta vez, o único que sei, é que não sei para onde ir. Minhas lágrimas não param, uma dor represada foi embora de mim, voltei pra casa, voltei pra mim, voltei pra eles, meu pai, meu irmão, a cidade perdida, os escombros, a água suja, a enxurrada. O farol. Um rio que é um campo. A minha perdição. O meu lugar no mundo.
Um desassossego imenso se instalou desde que voltei, a sensação de que blocos imensos e sólidos se deslocaram, as tais placas subterrâneas que provocam de frêmitos a terremotos. Um desassossego todos os dias. Noites mal dormidas, cansaço e fadiga durante o dia, raiva travestida de toda a sorte de excitação, ódios repentinos, escudos, camadas de escudos para não sentir, para não lembrar, para não ver. Meu pai tão amado, velho, caminhando com dificuldade, me acena de fora do ônibus. Olho pela janela, não sei nunca se vou voltar a vê-lo outra vez. Faz as mesmas mímicas de sempre. Me diz que não esqueça de escovar os dentes, de pentear os cabelos, sou criança de novo e ele me faz rir, me cuida. O ônibus indo embora, ele abanando, até o ônibus sumir e o rio me inunda, a falta dele e esta saudade que não tem cabida nos meus anos e na história da minha vida.
Tenho medo que ele morra. E este medo me paralisa. Sou tomada por uma angústia que se transforma em sintomas. Resfriado. Dor no joelho. Olhos cansados. Taquicardia. Dor no peito. Ansiedades sem nome. Meu irmão e eu sabemos que ele está ficando velho. E nos desdobramos para devolver um pouquinho do ouro daquele tempo. Uma piscina para nadar nas tardes quentes de verão, sorvete no domingo. E a mão dele, que mesmo de longe, sempre esteve ali, perto, sempre. E porque algo maior que as minhas dores e mágoas me faz voltar pra casa e dizer que eu ia secar de frio e de saudade se não voltasse, se não chegasse a tempo.
In: Os príncipes da cidade sem alma, 2008. (Fragmentos, inédito).
Um aparte necessário:
Lélia Almeida.
Excelência, vou lhe contar um segredo. Nunca me convenceu a história daquela Sherezade. Permita-me tamanha traição com esta personagem arquetípica das nossas belas letras, você verá como ela se justifica. Sherezade é uma farsa. E só um homem poderia ter imaginado tal personagem, para tentar instruir leitoras desavisadas. As Penélopes e as Sherezades nunca me convenceram. Funcionaram como as personagens da literatura dirigida às donzelas no século XIX, cheia de heroínas que se perdiam de amores por ineficazes burgueses e que depois eram castigadas, num intento de convencer as leitoras de que a farra não compensa. Toda sorte de adúlteras e prostitutas, transgressoras mortas e punidas, este foi o motivo da açucarada literatura cor-de-rosa para as moçoilas. Em mim, surtiram sempre um efeito contrário. Lúcia, o anjo decaído, sempre me atraiu nos seus piores momentos de bacante, de devassa perdida e diabólica. E também não tive paciência com os suicídios de Emma ou da Karenina, mas sempre desfrutei do antes, da parte em que aquelas libertinas se esfalfavam e divertiam longe dos maridos. E a Sherezade, diga-me, Ministro, o senhor que estudou filosofia, história, e leu muito da literatura clássica, quem iria se convencer com o poder das histórias daquela falastrona? Ela não convenceria nem o Sultão Xariar, nem o caçula Xazaman e homem algum desta ou de outra civilização. E o sultão Xariar, quem poderia crer que um sádico, que gozava resfolegando no sangue daquelas virgens decapitadas, iria se redimir com aquelas histórias edificantes da filha do Vizir? As premissas não convencem. Porque nada neste mundo irrita e cansa mais um homem do que a tagarelice feminina. Os homens só fingem infinita paciência com a falação das mulheres porque pretendem dobrá-las. Sherezade é um embuste, Excelência e, permita-me que lhe diga, o que fez com que este texto não sucumbisse ao esquecimento dos cânones é seu vigor evocativo. Evocativo de um original que talvez tenha se perdido na noite dos tempos, de uma matriz que nunca mais recuperaremos. E que fala de cavernas úmidas, tesouros perdidos, gênios bem servidos, pescadores apolíneos, de sultanas e escravas obscenas e, através do qual adivinhamos as farras da insaciável Sherezade. Ela nunca perderia tantas noites com sua débil lábia feminil, o que dobrou o Sultão foi o poder da barbiana, a eficiência da bífida, a avidez do berbigão, suas incontestes habilidades em farpear com o badalo do sarraceno. Por isso, nem adianta, meu caro Ministro, suplicar com estes olhos pidões de príncipe mouro. Porque eu não contarei nenhuma história, nada de tagarelices e nada de redenção, portanto. As nossas noites e dias de trabalho serão intercaladas, com aquilo que é o único que interessa aos homens e mulheres através dos tempos, que é o tranco, Excelência. O velho e bom tranco. Porque o resto, como alguém já disse, é literatura.
Vamos ao manual de instruções então.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, inédito)
Lélia Almeida.
Excelência, vou lhe contar um segredo. Nunca me convenceu a história daquela Sherezade. Permita-me tamanha traição com esta personagem arquetípica das nossas belas letras, você verá como ela se justifica. Sherezade é uma farsa. E só um homem poderia ter imaginado tal personagem, para tentar instruir leitoras desavisadas. As Penélopes e as Sherezades nunca me convenceram. Funcionaram como as personagens da literatura dirigida às donzelas no século XIX, cheia de heroínas que se perdiam de amores por ineficazes burgueses e que depois eram castigadas, num intento de convencer as leitoras de que a farra não compensa. Toda sorte de adúlteras e prostitutas, transgressoras mortas e punidas, este foi o motivo da açucarada literatura cor-de-rosa para as moçoilas. Em mim, surtiram sempre um efeito contrário. Lúcia, o anjo decaído, sempre me atraiu nos seus piores momentos de bacante, de devassa perdida e diabólica. E também não tive paciência com os suicídios de Emma ou da Karenina, mas sempre desfrutei do antes, da parte em que aquelas libertinas se esfalfavam e divertiam longe dos maridos. E a Sherezade, diga-me, Ministro, o senhor que estudou filosofia, história, e leu muito da literatura clássica, quem iria se convencer com o poder das histórias daquela falastrona? Ela não convenceria nem o Sultão Xariar, nem o caçula Xazaman e homem algum desta ou de outra civilização. E o sultão Xariar, quem poderia crer que um sádico, que gozava resfolegando no sangue daquelas virgens decapitadas, iria se redimir com aquelas histórias edificantes da filha do Vizir? As premissas não convencem. Porque nada neste mundo irrita e cansa mais um homem do que a tagarelice feminina. Os homens só fingem infinita paciência com a falação das mulheres porque pretendem dobrá-las. Sherezade é um embuste, Excelência e, permita-me que lhe diga, o que fez com que este texto não sucumbisse ao esquecimento dos cânones é seu vigor evocativo. Evocativo de um original que talvez tenha se perdido na noite dos tempos, de uma matriz que nunca mais recuperaremos. E que fala de cavernas úmidas, tesouros perdidos, gênios bem servidos, pescadores apolíneos, de sultanas e escravas obscenas e, através do qual adivinhamos as farras da insaciável Sherezade. Ela nunca perderia tantas noites com sua débil lábia feminil, o que dobrou o Sultão foi o poder da barbiana, a eficiência da bífida, a avidez do berbigão, suas incontestes habilidades em farpear com o badalo do sarraceno. Por isso, nem adianta, meu caro Ministro, suplicar com estes olhos pidões de príncipe mouro. Porque eu não contarei nenhuma história, nada de tagarelices e nada de redenção, portanto. As nossas noites e dias de trabalho serão intercaladas, com aquilo que é o único que interessa aos homens e mulheres através dos tempos, que é o tranco, Excelência. O velho e bom tranco. Porque o resto, como alguém já disse, é literatura.
Vamos ao manual de instruções então.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, inédito)
Sus dedos recorren los carnosos pétalos laterales y el botoncito rosa, resbalando en la tibia humedad. Si son solo palabras, si es sólo la palabra “palabra”. El erotismo es frágil como un lirio, es una jugada magistral en un tablero complicado. El don del cielo desciende sobre los cuerpos, las miradas, las palabras, mientras todas las piezas defienden celosamente su lugar. Después los pequeños peones crecen, se convierten en torres y caballos, la dama se aja, el rey envejece, el alfil pierde la fe. ¡Y adiós dulces humedades y olor a pan recién horneado! Sólo queda un lirio marchito a la orilla de un arroyo seco.
Alicia Steimberg,
in Amatista.
Alicia Steimberg,
in Amatista.
(…) La perdida de um amor y el dolor de uma relación rota es uma sobrecarga de proyección. Es todo lo que és. En la juventud, nuestra vida entera es este sueño maravilloso de que “Esto es”: esta relación es la consumación de mi fantasía y no puedo imaginarme la vida de otro modo. Ningún argumento puede embotar este sentimiento de proyección total, de todo en el otro. Supongo que todos podemos recordar un episodio de una relación adolescente que parecía serlo todo-en-todo y después se destruyó por algún motivo. Cuando una relación se corta, a una persona le lleva un tiempo calmarse y volver a enfocar. Es después de la ruptura, cuando no hay nada nuevo todavía y la vida ha sido despojada de todo su potencial, que tiene lugar esta reacción dolorosa. Para alguna gente es un período peligroso. La psique sabe cómo curar, pero duele. A veces la cura duele más que la herida inicial pero si uno puede sobrevivir, será más fuerte, porque ha encontrado una base de sustentación más amplia. Cada compromiso es un estrechamiento, y cuando ese compromiso falla, es preciso volver a una base más amplia y tener la fuerza de sostenerse en ella. El que me enseñó fue Nietzsche. En cierto momento de su vida, se le ocurrió la idea de lo que llamó “el amor a tu destino”. Sea cual fuere tu destino, sea lo que fuere lo que pase, dices: “Eso es lo que necesito”. Puede parecer un desastre, pero debes hacerle frente como si fuera una oportunidad, un desafío. Sí pones amos en ese momento, y no desaliento, encontrarás que ahí está la fuerza. Cualquier catástrofe a la que puedas sobrevivir es una mejora en tu carácter, tu estatura y tu vida. ¡Qué privilegio! Es ahí donde la espontaneidad de tu propia naturaleza tendrá una oportunidad de fluir. Después, cuando mires atrás, verás que los momentos que parecieron ser grandes fracasos seguidos por naufragios fueron los incidentes que dieron forma a la vida que tienes ahora. Verás que es realmente es así. No puede pasarte nada que no sea positivo. Aun si en el momento parece y se siente como una crisis negativa, no lo es. La crisis te expulsa de ella, y cuando llega el momento de mostrar tu vigor descubres que lo tienes.
La noche negra del alma
Sucede justo antes de la revelación.
Cuando todo está perdido
Y todo parece tiniebla,
Entonces viene la vida nueva
Y todo lo que necesitabas.
In: CAMPBELL, Joseph. Reflexiones sobre la vida. Buenos Aires: Emecé, 1995.
La noche negra del alma
Sucede justo antes de la revelación.
Cuando todo está perdido
Y todo parece tiniebla,
Entonces viene la vida nueva
Y todo lo que necesitabas.
In: CAMPBELL, Joseph. Reflexiones sobre la vida. Buenos Aires: Emecé, 1995.
(...) Quantas vezes falamos sem nada dizermos do que é real, mas sem desconhecermos um só instante essa realidade. Um entretém. Quantas vezes sabemos que a alma está pairando no rebordo dos dedos pousados na mesa. E continuamos como se não tivéssemos a alma que, de facto, temos. (...) Pressentimos que, nas nossas vidas, há um anúncio próximo, uma fusão inexorável, e cultivamos o abrandamento do tempo, o afastamento do instante, para tornarmos manso o lance inevitável.
maria gabriela llansol, «onde vais drama-poesia»
maria gabriela llansol, «onde vais drama-poesia»
sexta-feira, 6 de março de 2009
Discurso pronunciado por ocasião da 9ª Anistia Cultural, no Salão Negro do Palácio da Justiça em Brasília, em 06 de março de 2009 por ocasião ao evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2009, promovido pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça/MJ e com parceria do PRONASCI.
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Brasília, 6 de março de 2009.
Senhoras e Senhores,
Muito bom dia. É com imensa alegria que venho celebrar com vocês este Dia 8 de março.
Quero, inicialmente, agradecer a Comissão de Anistia pelo convite de participar desta cerimônia e dizer que, a partir deste momento, o Projeto Mulheres da Paz, uma das ações mais importantes do Programa Nacional de Segurança com Cidadania, começa uma interlocução importante com os trabalhos da Comissão de Anistia e que isto é, para nós, motivo de verdadeira satisfação.
Quero cumprimentar a mesa na pessoa do Dr. Paulo Abrão, presidente da Comissão e dizer algumas palavras antes de apresentar as nossas convidadas.
Para tanto, vou buscar em outros tempos do Movimento Feminista, nas décadas de 60 e 70 do século passado, alguns conceitos dos quais vou me valer para abrir estes trabalhos.
Particularmente prefiro sempre voltar às raízes, às raízes das palavras, dos conceitos, as raízes constituem-se sempre num lugar seguro, consistente, sem o qual não é possível o movimento inovador das ramificações e dos desdobramentos mais surpreendentes.
Vou me referir aos grupos de mulheres, principalmente na Itália, na França e depois na Espanha, companheiras de ativistas e militantes de esquerda que não se contentaram em ocupar um papel subalterno junto aos seus maridos. Perceberam que, de uma maneira geral, tanto no espaço doméstico como no espaço da militância, eram simples secretárias e meras coadjuvantes dos seus companheiros, enquanto eles sim, construíam e organizavam o que veio a se configurar, imediatamente, como partidos e importantes organizações de esquerda.
Na raiz da história do feminismo, que começa muito antes destas décadas estão palavras importantes como autonomia e cumplicidade e que foram traduzidas de muitas maneiras como irmandade, sororidade, sisterhood, etc.
Aquelas mulheres, insatisfeitas, decidiram sair de um papel de coadjuvantes e fundaram seus próprios grupos de mulheres para iniciarem suas reflexões. Reuniram-se em escolas e igrejas, com as companheiras de operários e cidadãos comuns e elegeram alguns temas para começar a conversar. Optaram pelo texto literário, entenderam que a literatura e, principalmente a literatura de autoria feminina daria, através do imaginário, as respostas que elas buscavam. O resultado foi o mais frustrante possível. Toda a literatura européia do século XIX apresentava um sem número de heroínas órfãs, fugindo da casa paterna autoritária e castradora e jogando-as num mundo inóspito onde elas morreriam loucas, doentes, prostituídas, abandonadas e desamparadas.
Muitos anos depois, Liliana Hecker, uma ficcionista argentina, escreveu um texto que se chamava Las hermanas de Shakespeare, onde ela conta a história possível de uma tal Judith Shakespeare, imaginando o que aconteceria se William tivesse uma irmã, talentosa como ele e o que aconteceria com ela se ela quisesse escrever. Ela fugiria de casa para poder escrever e depois, perdida em Londres, se apaixonaria, engravidaria de um cafajeste e morreria de aborto e penúria e não escreveria.
Frustradas com personagens femininas tão precárias aquelas européias começaram a se perguntar, naquelas veladas literárias e de tomada de consciência feminista, onde estavam as mães daquelas protagonistas e porque aquelas heroínas, abandonadas, estavam fadadas a destinos tão cruéis. As mães que cuidam de suas filhas mulheres estavam banidas do imaginário literário, e do imaginário iconográfico das artes plásticas também. Porque não havia, ao contrário da literatura de autoria masculina sobre os homens, uma história de alianças e cumplicidades entre as mulheres.
Sempre me pergunto, numa espécie de exercício de imaginação ativa, que se no colo da Virgem Maria estivesse uma menina, como teria sido a história do mundo e das mulheres? Como seria esta história se tivéssemos sido amparadas pelo amor de nossas mães, que por sua vez teriam sido amparadas e valorizadas pelo amor de outras, numa espiral mágica a um passado insólito.
Virginia Woolf, na década de 20, num outro momento histórico importante para o feminismo, em busca de respostas para perguntas parecidas, entrou na biblioteca de uma importante universidade inglesa e percebeu que só havia autores homens nas prateleiras. E que a história que eles contavam, portanto, tinha de excluir as mulheres como protagonistas e mantê-las como projeções. Ana Karenina, Ema Bovary, Antígona e tantas outras são apenas projeções do imaginário masculino que cria grandes personagens femininas e que sempre, ao final da história, as enlouquece, adoece ou suicida, como castigo e punição as suas transgressões.
Virginia Woolf percebeu que para que as mulheres pudessem escrever, elas precisavam de um quarto próprio e algumas libras por ano. E que a independência financeira era fundamental para que elas se tornassem intelectuais e artistas já que as nossas mães e as nossas avós não nos tinham deixado um legado espiritual e nem um legado material.
Aquelas mulheres européias dos anos 60 e 70, insatisfeitas com o que encontraram no texto literário levantaram uma questão fundamental: era fundamental que as mulheres estabelecessem um outro tipo de relação entre elas, que elas legitimassem as suas práticas e condutas, que elas se apoiassem e se reconhecessem, que elas fossem uma espécie de fiadoras da demandas e necessidades da vida das outras.
E criaram, assim, um dos conceitos que mais me encanta na história do feminismo que é o conceito de affidamento, que além da solidariedade pura e simples propõe que a experiência de outras mulheres é fundamental, estruturante, modelar para todas nós, e nascia ali, deste conceito e desta descoberta o que algumas filósofas feministas de muitos países chamaram de genealogias femininas.
As mulheres que estão presentes nesta mesa, nesta manhã, e muitas das que serão anistiadas na audiência de hoje são, historicamente, as mulheres com que escolhi me parecer. Os meus modelos, as minhas musas, as minhas companheiras de caminhos.
Numa cena do filme sobre a vida da Leila Diniz ela ganha dois kimonos com dizeres em japonês, num estava escrito felicidade, no outro estava escrito coragem, ela, como sabemos, escolheu o da coragem. Estas mulheres que estão presentes aqui, hoje, sempre souberam que a felicidade é um luxo para poucos e que a vida é feita, na verdade, de outros valores e de muitos poucos luxos. E pautaram seus caminhos de vida no exemplo de outras mulheres também, numa prática genealógica, estabelecendo outras relações de affidamento e ensinando a outras mulheres sobre um lugar de dignidade, coragem e de muita fúria.
Nesta sala estão juntas algumas das mulheres mais corajosas e bravas deste país, no auditório ao lado estão sendo homenageadas as mulheres da Força Nacional, não podemos dizer que o Ministério da Justiça, com sua Sala de Retratos tão parecida com a biblioteca inglesa da Virginia Woolf, será o mesmo depois deste 8 de março.
Estas mulheres contam a história do país desde uma outra perspectiva e o trabalho político, pedagógico e cultural da Comissão de Anistia, na recuperação destas histórias e na escuta destas narrativas é um dos mais emocionantes deste governo.
Moema Viezzer ao ouvir a história de Domitila Barrios de Chungara, criou, juntamente com Elizabeth Debray e Elena Poniatowska um novo gênero literário na América Latina que resultou no que hoje se denomina literatura de testemunho. Margarida Genevois foi membro da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo por 25 anos e fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, Jessie Jane Vieira de Souza é historiadora, ex-perseguida política e foi uma das fundadoras da Associação pela Reforma Prisional.
Mas isto é pouco dizer sobre a história destas mulheres que a partir de uma circunstância história, a de terem nascido e vivido num determinado momento da história deste país, construíram biografias e trajetórias exemplares para todas as mulheres brasileiras. Elas contarão, ao se apresentarem, um pouco destas histórias, e vocês entenderão então porque elas são as nossas homenageadas.
Quero terminar a minha fala dizendo que as demandas das Mulheres da Paz que iniciaram há dois anos atrás este projeto aqui no Ministério da Justiça, era uma demanda simples: seus filhos e filhas, homens e maridos tinham sido abatidos nas regiões metropolitanas mais violentas do país, pelo tráfico ou pela polícia e elas queriam justiça.
No ano passado perdemos Vera Lúcia Flores, Mãe de Acari, que morreu esperando por uma resposta do Estado brasileiro sobre o que aconteceu há 19 anos com 11 adolescentes mortos e desaparecidos em Magé, no Rio de Janeiro. E há uma semana exatamente, morreu Euristéia Azevedo, a Téia, uma das fundadoras do Movimento das Mães do Rio, aos 66 anos, de infarto. Dentro de um mês, depois de 11 anos o caso da morte do filho dela na chacina do Maracanã vai a júri popular. O coração da Téia não agüentou, ela não quis ver mais injustiça e adiamentos. Ela partiu.
Ela sempre dizia: Dra. Lélia, nós estamos ficando velhas, e nós somos os arquivos vivos destas histórias, daqui a pouco ninguém mais vai poder contar o que realmente aconteceu.
As mulheres das minhas genealogias femininas, com as quais eu estabeleço relações de affidamento, com as quais eu me identifico e com quem eu quero seguir os meus caminhos de sonhos, trabalhos e reflexões, são mulheres simples como a minha mãe, a minha avó, como as que estão aqui hoje, e como as Mulheres da Paz.
Muito obrigada, bem vindas e um feliz 8 de março para todas nós.
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Brasília, 6 de março de 2009.
Senhoras e Senhores,
Muito bom dia. É com imensa alegria que venho celebrar com vocês este Dia 8 de março.
Quero, inicialmente, agradecer a Comissão de Anistia pelo convite de participar desta cerimônia e dizer que, a partir deste momento, o Projeto Mulheres da Paz, uma das ações mais importantes do Programa Nacional de Segurança com Cidadania, começa uma interlocução importante com os trabalhos da Comissão de Anistia e que isto é, para nós, motivo de verdadeira satisfação.
Quero cumprimentar a mesa na pessoa do Dr. Paulo Abrão, presidente da Comissão e dizer algumas palavras antes de apresentar as nossas convidadas.
Para tanto, vou buscar em outros tempos do Movimento Feminista, nas décadas de 60 e 70 do século passado, alguns conceitos dos quais vou me valer para abrir estes trabalhos.
Particularmente prefiro sempre voltar às raízes, às raízes das palavras, dos conceitos, as raízes constituem-se sempre num lugar seguro, consistente, sem o qual não é possível o movimento inovador das ramificações e dos desdobramentos mais surpreendentes.
Vou me referir aos grupos de mulheres, principalmente na Itália, na França e depois na Espanha, companheiras de ativistas e militantes de esquerda que não se contentaram em ocupar um papel subalterno junto aos seus maridos. Perceberam que, de uma maneira geral, tanto no espaço doméstico como no espaço da militância, eram simples secretárias e meras coadjuvantes dos seus companheiros, enquanto eles sim, construíam e organizavam o que veio a se configurar, imediatamente, como partidos e importantes organizações de esquerda.
Na raiz da história do feminismo, que começa muito antes destas décadas estão palavras importantes como autonomia e cumplicidade e que foram traduzidas de muitas maneiras como irmandade, sororidade, sisterhood, etc.
Aquelas mulheres, insatisfeitas, decidiram sair de um papel de coadjuvantes e fundaram seus próprios grupos de mulheres para iniciarem suas reflexões. Reuniram-se em escolas e igrejas, com as companheiras de operários e cidadãos comuns e elegeram alguns temas para começar a conversar. Optaram pelo texto literário, entenderam que a literatura e, principalmente a literatura de autoria feminina daria, através do imaginário, as respostas que elas buscavam. O resultado foi o mais frustrante possível. Toda a literatura européia do século XIX apresentava um sem número de heroínas órfãs, fugindo da casa paterna autoritária e castradora e jogando-as num mundo inóspito onde elas morreriam loucas, doentes, prostituídas, abandonadas e desamparadas.
Muitos anos depois, Liliana Hecker, uma ficcionista argentina, escreveu um texto que se chamava Las hermanas de Shakespeare, onde ela conta a história possível de uma tal Judith Shakespeare, imaginando o que aconteceria se William tivesse uma irmã, talentosa como ele e o que aconteceria com ela se ela quisesse escrever. Ela fugiria de casa para poder escrever e depois, perdida em Londres, se apaixonaria, engravidaria de um cafajeste e morreria de aborto e penúria e não escreveria.
Frustradas com personagens femininas tão precárias aquelas européias começaram a se perguntar, naquelas veladas literárias e de tomada de consciência feminista, onde estavam as mães daquelas protagonistas e porque aquelas heroínas, abandonadas, estavam fadadas a destinos tão cruéis. As mães que cuidam de suas filhas mulheres estavam banidas do imaginário literário, e do imaginário iconográfico das artes plásticas também. Porque não havia, ao contrário da literatura de autoria masculina sobre os homens, uma história de alianças e cumplicidades entre as mulheres.
Sempre me pergunto, numa espécie de exercício de imaginação ativa, que se no colo da Virgem Maria estivesse uma menina, como teria sido a história do mundo e das mulheres? Como seria esta história se tivéssemos sido amparadas pelo amor de nossas mães, que por sua vez teriam sido amparadas e valorizadas pelo amor de outras, numa espiral mágica a um passado insólito.
Virginia Woolf, na década de 20, num outro momento histórico importante para o feminismo, em busca de respostas para perguntas parecidas, entrou na biblioteca de uma importante universidade inglesa e percebeu que só havia autores homens nas prateleiras. E que a história que eles contavam, portanto, tinha de excluir as mulheres como protagonistas e mantê-las como projeções. Ana Karenina, Ema Bovary, Antígona e tantas outras são apenas projeções do imaginário masculino que cria grandes personagens femininas e que sempre, ao final da história, as enlouquece, adoece ou suicida, como castigo e punição as suas transgressões.
Virginia Woolf percebeu que para que as mulheres pudessem escrever, elas precisavam de um quarto próprio e algumas libras por ano. E que a independência financeira era fundamental para que elas se tornassem intelectuais e artistas já que as nossas mães e as nossas avós não nos tinham deixado um legado espiritual e nem um legado material.
Aquelas mulheres européias dos anos 60 e 70, insatisfeitas com o que encontraram no texto literário levantaram uma questão fundamental: era fundamental que as mulheres estabelecessem um outro tipo de relação entre elas, que elas legitimassem as suas práticas e condutas, que elas se apoiassem e se reconhecessem, que elas fossem uma espécie de fiadoras da demandas e necessidades da vida das outras.
E criaram, assim, um dos conceitos que mais me encanta na história do feminismo que é o conceito de affidamento, que além da solidariedade pura e simples propõe que a experiência de outras mulheres é fundamental, estruturante, modelar para todas nós, e nascia ali, deste conceito e desta descoberta o que algumas filósofas feministas de muitos países chamaram de genealogias femininas.
As mulheres que estão presentes nesta mesa, nesta manhã, e muitas das que serão anistiadas na audiência de hoje são, historicamente, as mulheres com que escolhi me parecer. Os meus modelos, as minhas musas, as minhas companheiras de caminhos.
Numa cena do filme sobre a vida da Leila Diniz ela ganha dois kimonos com dizeres em japonês, num estava escrito felicidade, no outro estava escrito coragem, ela, como sabemos, escolheu o da coragem. Estas mulheres que estão presentes aqui, hoje, sempre souberam que a felicidade é um luxo para poucos e que a vida é feita, na verdade, de outros valores e de muitos poucos luxos. E pautaram seus caminhos de vida no exemplo de outras mulheres também, numa prática genealógica, estabelecendo outras relações de affidamento e ensinando a outras mulheres sobre um lugar de dignidade, coragem e de muita fúria.
Nesta sala estão juntas algumas das mulheres mais corajosas e bravas deste país, no auditório ao lado estão sendo homenageadas as mulheres da Força Nacional, não podemos dizer que o Ministério da Justiça, com sua Sala de Retratos tão parecida com a biblioteca inglesa da Virginia Woolf, será o mesmo depois deste 8 de março.
Estas mulheres contam a história do país desde uma outra perspectiva e o trabalho político, pedagógico e cultural da Comissão de Anistia, na recuperação destas histórias e na escuta destas narrativas é um dos mais emocionantes deste governo.
Moema Viezzer ao ouvir a história de Domitila Barrios de Chungara, criou, juntamente com Elizabeth Debray e Elena Poniatowska um novo gênero literário na América Latina que resultou no que hoje se denomina literatura de testemunho. Margarida Genevois foi membro da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo por 25 anos e fundadora da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, Jessie Jane Vieira de Souza é historiadora, ex-perseguida política e foi uma das fundadoras da Associação pela Reforma Prisional.
Mas isto é pouco dizer sobre a história destas mulheres que a partir de uma circunstância história, a de terem nascido e vivido num determinado momento da história deste país, construíram biografias e trajetórias exemplares para todas as mulheres brasileiras. Elas contarão, ao se apresentarem, um pouco destas histórias, e vocês entenderão então porque elas são as nossas homenageadas.
Quero terminar a minha fala dizendo que as demandas das Mulheres da Paz que iniciaram há dois anos atrás este projeto aqui no Ministério da Justiça, era uma demanda simples: seus filhos e filhas, homens e maridos tinham sido abatidos nas regiões metropolitanas mais violentas do país, pelo tráfico ou pela polícia e elas queriam justiça.
No ano passado perdemos Vera Lúcia Flores, Mãe de Acari, que morreu esperando por uma resposta do Estado brasileiro sobre o que aconteceu há 19 anos com 11 adolescentes mortos e desaparecidos em Magé, no Rio de Janeiro. E há uma semana exatamente, morreu Euristéia Azevedo, a Téia, uma das fundadoras do Movimento das Mães do Rio, aos 66 anos, de infarto. Dentro de um mês, depois de 11 anos o caso da morte do filho dela na chacina do Maracanã vai a júri popular. O coração da Téia não agüentou, ela não quis ver mais injustiça e adiamentos. Ela partiu.
Ela sempre dizia: Dra. Lélia, nós estamos ficando velhas, e nós somos os arquivos vivos destas histórias, daqui a pouco ninguém mais vai poder contar o que realmente aconteceu.
As mulheres das minhas genealogias femininas, com as quais eu estabeleço relações de affidamento, com as quais eu me identifico e com quem eu quero seguir os meus caminhos de sonhos, trabalhos e reflexões, são mulheres simples como a minha mãe, a minha avó, como as que estão aqui hoje, e como as Mulheres da Paz.
Muito obrigada, bem vindas e um feliz 8 de março para todas nós.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
... uma decadência lenta de todos os ‘deve-se’, a morte dos envoltórios de minha vida que parecia apodrecer. Tive que aceitar essa lentidão e o aniquilamento daquilo que eu julgava ser eu mesma. O medo sempre presente de, ao sacrificar o meu velho e competente eu social, acabar morrendo também. Mesmo assim, nesse local depressivo, onde senti a inércia no abraço da matéria total a me envolver como cimento, está presente uma liberação de energia tão profunda que me faz perceber outro sentido de tempo – só sei que minhas unhas cresceram, e preciso cortá-las de novo.
Chego ao que é baixo e lento, não o humano e quente, mas o desapegado. Muito além da idéia de significado ou não significado.
PERERA, Sylvia. In: Caminho para a iniciação feminina. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.
Chego ao que é baixo e lento, não o humano e quente, mas o desapegado. Muito além da idéia de significado ou não significado.
PERERA, Sylvia. In: Caminho para a iniciação feminina. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.
Minha mãe é uma centopéia, assim como a minha filha. Às vezes, nossos passos se atropelam quando caminhamos arrastadamente com os nossos trezentos pés. Mas já deixamos nossas marcas, uma na outra, de milhões de maneiras. Partilhamos o mesmo DNA, os mesmos sonhos, a mesma ousadia. Molly está destinada a ser a mais ousada de todas, e isso corresponde à minha expectativa. Tantas gerações de mulheres a influenciaram. Tantas mães e avós colaboraram com a sua feitura. Que ela ouse seguir seus sonhos aonde que quer eles a levem! Sem ousadia, para que servem os sonhos? Sem ousadia, de que serviram as lutas de sua mãe, sua avó, sua bisavó? Não se engane, esses ancestrais estão nos observando. Se os desapontamos, desapontamos a nós próprios. Virginia Woolf disse: “Lembramo-nos do passado através de nossas mães, se somos mulheres”. E através de nós, nossas mães dirigem seu pensamento para o futuro.
Erica Jong.
Erica Jong.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Eso es una matanza:
Lélia Almeida.
Em Matador, de Pedro Almodóvar, de 1986, há uma cena em que o próprio Almodóvar, como ator e personagem, numa prova de figurino para a cena de um filme diz para a mãe da modelo que está histérica: señora, eso no es um desfile, eso es uma matanza.
No dialeto familiar da minha casa, adotamos a expressão. Que serve para muitas situações. Como por exemplo, não adianta querer enfeitar, a situação é muito pior do que parece, ou, não há regras de cordialidade aqui, isto é uma matança. Algumas outras também.
Nada mais óbvio e concreto que uma matança. Nada mais concreto e irreversível do que a morte.
Perdi seis pessoas dos meus afetos nos últimos três meses. Minha vida, de repente, se encheu de morte. Eram todas de diferentes idades e as causas foram também por diferentes motivos. Cheguei a sentir uma certa naturalidade na ida ao cemitério, ao velório, ao enterro, até o dia que não consegui mais levantar da cama de tanto pavor e pânico. Tinha travado completamente. Alguma coisa devastadora tinha se instalado dentro de mim, uma certeza, jamais sentida antes, de que posso morrer a qualquer momento. Saber disso é uma coisa, entender, cabalmente, é outra.
Quatro homens e duas mulheres. Os homens, que em geral são mais onipotentes, se cuidam menos, arriscam mais, subestimam o real estágio de uma doença. As mulheres duram mais, qualquer estatística nos conta sobre isso. Vão mais ao médico e sabem, quase todas, talvez por seus próprios destinos de cuidadoras, que é preciso ser cuidadoso e que sempre, a qualquer momento, coisas terríveis podem acontecer. E que, portanto, é prudente se proteger, prevenir.
Não sei se esta é uma boa maneira de começar um ano novo, pensando na morte. Mas rezei muito e não bebi durante as festas de fim de ano. Percebi que alguma coisa profunda afetou a minha esperança quando os fogos começaram a explodir, que o meu entusiasmo não era o mesmo. Uma saudade impossível de contar, de ainda não compreender o mundo sem alguns sorrisos imprescindíveis, algumas risadas únicas, como se eu ainda estivesse me perguntando onde foram parar estas pessoas que estavam aqui, agora mesmo, e como elas puderam sumir tão de repente? E como vou continuar a viver sem elas?
Estou ficando velha. É isso e é simples.
Não pedi nada na noite de Natal, nem na do Ano Novo. Mas agradeci tanto, tanto, celebrei a chegada de mais um gato filhote na minha casa, a minha sobrinha de três anos que me trouxe bombons, a minha mãe que viu a novela de mãos dadas comigo, agradeci tanto as coisas quentes e simples como estas. E sei que, daqui pra frente, serei mais delicada nos rituais, mais vagarosa na hora de abrir a janela de manhã cedo e ver o sol, de dormir aconchegada ouvindo a chuva no telhado, dizer sempre, derretida eu te amo, e celebrar as alegrias, que contra a certeza da morte, só mesmo a celebração das alegrias.
Amém.
Lélia Almeida.
Em Matador, de Pedro Almodóvar, de 1986, há uma cena em que o próprio Almodóvar, como ator e personagem, numa prova de figurino para a cena de um filme diz para a mãe da modelo que está histérica: señora, eso no es um desfile, eso es uma matanza.
No dialeto familiar da minha casa, adotamos a expressão. Que serve para muitas situações. Como por exemplo, não adianta querer enfeitar, a situação é muito pior do que parece, ou, não há regras de cordialidade aqui, isto é uma matança. Algumas outras também.
Nada mais óbvio e concreto que uma matança. Nada mais concreto e irreversível do que a morte.
Perdi seis pessoas dos meus afetos nos últimos três meses. Minha vida, de repente, se encheu de morte. Eram todas de diferentes idades e as causas foram também por diferentes motivos. Cheguei a sentir uma certa naturalidade na ida ao cemitério, ao velório, ao enterro, até o dia que não consegui mais levantar da cama de tanto pavor e pânico. Tinha travado completamente. Alguma coisa devastadora tinha se instalado dentro de mim, uma certeza, jamais sentida antes, de que posso morrer a qualquer momento. Saber disso é uma coisa, entender, cabalmente, é outra.
Quatro homens e duas mulheres. Os homens, que em geral são mais onipotentes, se cuidam menos, arriscam mais, subestimam o real estágio de uma doença. As mulheres duram mais, qualquer estatística nos conta sobre isso. Vão mais ao médico e sabem, quase todas, talvez por seus próprios destinos de cuidadoras, que é preciso ser cuidadoso e que sempre, a qualquer momento, coisas terríveis podem acontecer. E que, portanto, é prudente se proteger, prevenir.
Não sei se esta é uma boa maneira de começar um ano novo, pensando na morte. Mas rezei muito e não bebi durante as festas de fim de ano. Percebi que alguma coisa profunda afetou a minha esperança quando os fogos começaram a explodir, que o meu entusiasmo não era o mesmo. Uma saudade impossível de contar, de ainda não compreender o mundo sem alguns sorrisos imprescindíveis, algumas risadas únicas, como se eu ainda estivesse me perguntando onde foram parar estas pessoas que estavam aqui, agora mesmo, e como elas puderam sumir tão de repente? E como vou continuar a viver sem elas?
Estou ficando velha. É isso e é simples.
Não pedi nada na noite de Natal, nem na do Ano Novo. Mas agradeci tanto, tanto, celebrei a chegada de mais um gato filhote na minha casa, a minha sobrinha de três anos que me trouxe bombons, a minha mãe que viu a novela de mãos dadas comigo, agradeci tanto as coisas quentes e simples como estas. E sei que, daqui pra frente, serei mais delicada nos rituais, mais vagarosa na hora de abrir a janela de manhã cedo e ver o sol, de dormir aconchegada ouvindo a chuva no telhado, dizer sempre, derretida eu te amo, e celebrar as alegrias, que contra a certeza da morte, só mesmo a celebração das alegrias.
Amém.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Da intimidade:
"No entanto, a intimidade é mais do que um súbito reconhecimento de afeto entre duas pessoas. Eu sei que sim. Mas o que é, na verdade? Talvez seja a experiência que, de vez em quando, temos - raramente, é certo, mas temos - de nos tornarmos cada vez mais transparentes e de sentir o olhar cúmplice e familiar de alguém penetrando suavemente em todos os nossos poros? E, de igual forma, sentir que o nosso olhar interior consegue atravessar e compreender esse outro ser? (Embora, no entanto, comecemos pelo exterior). Nem sequer se pode pensar em intimidade sem antes meditar nas coisas a frio e ser capaz de infligir um ao outro uma espécie de ferida afetuosa."
Robert Dessaix, in Corfu, trad. Ana Teresa de Castro, ed. Gótica.
"No entanto, a intimidade é mais do que um súbito reconhecimento de afeto entre duas pessoas. Eu sei que sim. Mas o que é, na verdade? Talvez seja a experiência que, de vez em quando, temos - raramente, é certo, mas temos - de nos tornarmos cada vez mais transparentes e de sentir o olhar cúmplice e familiar de alguém penetrando suavemente em todos os nossos poros? E, de igual forma, sentir que o nosso olhar interior consegue atravessar e compreender esse outro ser? (Embora, no entanto, comecemos pelo exterior). Nem sequer se pode pensar em intimidade sem antes meditar nas coisas a frio e ser capaz de infligir um ao outro uma espécie de ferida afetuosa."
Robert Dessaix, in Corfu, trad. Ana Teresa de Castro, ed. Gótica.
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