TERREMOTOS
Dizem que passado o terremoto de Lisboa (1755),
o Rei perguntou ao General o que
se havia de fazer. Ele respondeu ao Rei:
'Sepultar os mortos,
cuidar dos vivos e fechar os portos'.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
Tereza
Lélia Almeida.
Os campos da campanha. É assim mesmo que eu sinto: não pode haver suavidade maior, não pode haver grandeza maior naquela vastidão verde e irregular, um sentimento sagrado, aquela paisagem é sacra sim, grandiosa, majestosa, como se estivesse no início dos tempos e sobrasse aquele lugar e um homem e uma mulher muito antigos e onde não coubesse mais nada. Mas é o que eu vejo quando fecho os olhos e vejo o amanhecer naqueles campos perdidos, remotos, antigos. Céu de manhãzinha, o frio sem igual daqueles campos abertos, o vento que zune impiedoso, muito longe no desenho perdido desta tela. Uma carreta de rodas gigantes se aproxima lentamente, no vagar dos bois, de um casebre miserável, perdido na vastidão do campo, entre um açude e uma figueira, perto do Morro do Chapéu. Faz muito frio, dois peões enrolados em palas velhos e surrados conduzem a carreta que leva uma carga frágil e singular. Um dos homens masca um palheiro meio apagado, tem um chapéu enterrado até os olhos semicerrados e se protege do frio encolhendo a cabeça entre os ombros. O outro homem, o que dirige a carreta, é o que volta e meia olha para trás, talvez preocupado com a menina. Procuram o seu Aluízio, tudo cria de Santa Eulália, as terras da família de Gerônimo. A noite ainda é pesada e fria, muito longe o amanhecer se faz notar, como se viesse, lento também, alumiar a carreta de bois, o céu róseo e o minuano impiedoso a moldar o perfil irreparável, exato, poderoso do Morro do Chapéu. A carreta avança e uma menina embrulhada em mantas de lã de ovelha, encolhida no fundo da carreta, tem os olhos abertos, assustados, muito pretos, e aperta com suavidade nos braços uma outra menina, muito pequena, recém-nascida mesmo, que agora dorme e fica muito parecida com a boneca de panos, esta também como que adormecida entre as duas. O sol começa a despontar quando a carreta se aproxima da casa onde moram Dona Luna e seu Aluízio. O homem sai de dentro de casa ao sentir o barulho da carreta se aproximando. Dona Luna toda de preto, enrolada numa manta de lã, sai também para saber quem chega. O encontro é breve muito breve, pois afinal trata-se de cumprir ordens, de entregar uma encomenda incômoda, desfazer-se de um incômodo. "Foi Don Gerônimo quem mandou, é pra se desfazer da criatura, esta aqui, a vadiazinha vai pra Montevidéu pra não envergonhar o patrão", disse o homem que mascava o palheiro. Eva levantou-se da carreta a mando dos homens, com a pequena e a boneca nos braços. Os olhos pretos muito assustados, meio sonolentos e as tranças muito compridas, amassadas, o rostinho vermelho de vergonha e frio, o olhar suplicante para Dona Luna. A voz saiu frágil, sumida: "Por que eu não posso ficar com o bichinho? Ela é tão pequena..." Dona Luna que não entendia bem o que acontecia ficou surpresa de ver um bebê tão pequeno nos braços da menina. "A menina pode entrar" disse a velha, mas os homens seguraram Eva, tiraram a bebê dos seus braços e disseram que tinham pressa, tinham que embarcar a cunhada de Don Gerônimo ainda de manhã, tinha gente em Rivera esperando por ela. O bebê começou a chorar nos braços de Dona Luna que recebera ordens de livrar-se da criatura. Os homens puseram Eva de volta na carreta e se prepararam para partir. A menina sentou na carreta e deixou as pernas pra fora, pendentes, enrolada na manta, o vestido comprido e amassado, as tranças compridas, o olhar perdido, abraçada na boneca de pano. A carreta retoma seu caminho com seus ruídos pesados, metálicos, os animais em movimento e o sol que desponta mais e mais tingindo aquela paisagem infinita de róseos e vermelhos. O vulto de uma menina sentada na carreta é o desenho triste de muita incompreensão, medo, solidão. Dona Luna olhava a cena de Eva partindo, e ela com o bebê nos braços, um bebê que ela ainda nem sabia se era menina ou menino. Era um bebê muito pequeno que chorava de fome, um chorinho de pássaro pequeno, muito agudo e rouco. Dona Luna recebeu do peão de Don Gerônimo uma trouxa pequena onde tinha uns trapos, panos, cueiros muito velhos e que faziam às vezes de roupas para o bebê.
In: ALMEIDA, Lélia. Senhora Sant’Ana. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1995.
sábado, 31 de outubro de 2009
A única forma de escrever a verdade é supor que o que você colocar no papel jamais será lido. Nem por outra pessoa nem por você mais tarde. Senão você começa a se desculpar. Você tem de ver as palavras emergindo como um longo arabesco de tinta do dedo indicador da sua mão direita; e ver a sua mão esquerda apagando-o. Impossível, é claro. Eu ajusto as contas com o destino, eu ajusto as contas com o destino, este fio negro que vou tecendo ao longo da página.
Margaret Atwood, In: O assassino cego.
Margaret Atwood, In: O assassino cego.
(...) Tenho uma sensação constante de que estou vivendo à beira de algo que vai acontecer, e que nunca consigo alcançar. Meus nervos estão preparados para uma espécie de clímax. Sinto-me tensa, em expectativa. É tão aflitivo que começo a desejar uma catástrofe para aliviar a expectativa. Desejo que todas as calamidades, todas as tragédias, aconteçam logo. Quero cenas, brigas, lágrimas, quero ser devorada, quero bater nas pessoas. Sinto-me inquieta. Não consigo ficar muito tempo em lugar nenhum. Não consigo me sentar e não consigo dormir. Tenho sempre essa sensação de que preciso encontrar um alívio para essa espera, um momento estilhaçador, para poder repousar e dormir. O mundo inteiro me excita, sinto amor pelas pessoas nas ruas, a música mexe comigo a toda hora como uma carícia; sinto um desejo violento, e espero.
Sinto a tempestade chegando, sinto a angústia, mas tudo continua igual, lerdo, sem interrupção, sem relâmpago. Alguma coisa em mim quer romper, explodir. Em vez disso, tenho que tirar prazer rompendo a vida dos outros. Estou constantemente seduzindo os outros, encantando-os, capturando-os, ao mesmo tempo em que desejo que fossem capazes de fazê-lo comigo. Quero tanto ser capturada... Todo mundo me obedece, mas eles não encontram a chave de mim. Gosto de sentir seus corações batendo mais depressa, gosto de ver seus olhos flutuando, seus lábios tremendo, gosto de sentir a emoção neles. É como alimento. Fico fascinada com seus sentimentos. Sou como uma caçadora que não quer matar, mas quero sentir o ferimento. O que espero? Ser tomada pelo desejo do outro e nele me banhar. Arder. Quero ser despedaçada. Ao mesmo tempo que quero calor e simplicidade.
Anaïs Nin, In: A Casa do Incesto e Outras Histórias.
Sinto a tempestade chegando, sinto a angústia, mas tudo continua igual, lerdo, sem interrupção, sem relâmpago. Alguma coisa em mim quer romper, explodir. Em vez disso, tenho que tirar prazer rompendo a vida dos outros. Estou constantemente seduzindo os outros, encantando-os, capturando-os, ao mesmo tempo em que desejo que fossem capazes de fazê-lo comigo. Quero tanto ser capturada... Todo mundo me obedece, mas eles não encontram a chave de mim. Gosto de sentir seus corações batendo mais depressa, gosto de ver seus olhos flutuando, seus lábios tremendo, gosto de sentir a emoção neles. É como alimento. Fico fascinada com seus sentimentos. Sou como uma caçadora que não quer matar, mas quero sentir o ferimento. O que espero? Ser tomada pelo desejo do outro e nele me banhar. Arder. Quero ser despedaçada. Ao mesmo tempo que quero calor e simplicidade.
Anaïs Nin, In: A Casa do Incesto e Outras Histórias.
(...) Ela sai de casa apressada, vestida com um casaco pesado demais para a época do ano. Estamos em 1941. Há uma outra guerra em andamento. (...) Caminha decidida em direção ao rio, certa daquilo que fará, mas mesmo assim um tanto distraída, observando as colinas, a igreja e um grupo de carneiros, incandescentes, matizados por um vago tom cor de enxofre, que pastam sob o céu enfarruscado. Pára, vendo os carneiros e o céu, depois retoma o caminho. As vozes murmuram atrás dela; bombardeios zumbem no alto, ainda que procure os aviões e não os veja. (...) Ela (...) fracassou. Não é escritora coisa nenhuma, não de verdade; é apenas uma excêntrica bem-dotada. Pedaços de céu brilham nas poças deixadas pela chuva da noite anterior. Seus sapatos afundam ligeiramente na terra fofa. Ela fracassou, e agora as vozes voltaram, resmungando de modo indistinto bem atrás de seu campo de visão, atrás dela, aqui, não, basta virar que elas somem e vão para um outro canto. As vozes estão de volta e a dor de cabeça se aproxima, tão certa quanto a chuva, a dor de cabeça que vai esmagá-la seja lá o que ela for e tomar o seu lugar. A dor de cabeça aproxima-se e parece que os bombardeiros (está ou não invocando todos eles, ela mesma?) surgiram de novo no céu. Chega à ribanceira, sobe e desce de novo até o rio. Há um pescador mais acima., lá longe, mas ele não vai notá-la, vai? Começa a procurar uma pedra. Trabalha depressa mas com método, como se estivesse seguindo uma receita que tem de ser obedecida escrupulosamente para que dê certo. Escolhe uma, mais ou menos do tamanho e da forma de uma cabeça de porco. No momento em que vai erguê-la do chão e enfiá-la num dos bolsos do casaco (a gola de pêlo faz cócegas em seu pescoço), nota, não pode evitá-lo, a frieza de giz da pedra e sua cor, de um marrom leitoso, com manchas esverdeadas. Pára perto da beira do rio, que lambe a margem, preenchendo as pequenas reentrâncias de lama com uma água muito limpa, que poderia muito bem ser uma outra substância, inteiramente diversa daquela coisa amarelada, parda, sarapintada, de aspecto tão sólido quanto uma rua, que se estende uniforme de uma margem à outra. Ela se adianta. Não tira os sapatos. A água está fria, insuportavelmente fria. Pára, a água fria até os joelhos. (...) Continua desajeitadamente (o fundo é lamacento) até ficar com água pela cintura. Olha de relance para o pescador, que usa um paletó vermelho pescando e um céu nublado refletido em água opaca. Quase involuntariamente (parece involuntário, para ela), avança ou tropeça alguns passos à frente e a pedra a puxa para baixo. Por instantes, ainda, não parece nada; parece um outro fracasso; apenas a água gelada da qual pode sair facilmente, nadando; mas nisso a correnteza a envolve e a leva com uma força tão repentina e vigorosa que a impressão é a de que um homem muito forte surgiu do fundo, agarrou suas pernas e segurou-as de encontro ao peito. Parece algo pessoal. (...) Rápida a corrente a leva. Ela parece estar voando, uma figura fantástica, os cabelos soltos, a aba do casaco enfunada atrás. Flutua, pesada, por entre hastes de luz marrom, granular. Não vai muito longe. Seus pés (os sapatos se foram) batem de vez em quando no fundo e, quando o fazem, convocam uma nuvem indolente de sujeira, povoada por silhuetas negras de esqueletos de folhas que param quase imóveis na água, depois que ela some de vista. Fiapos de mato de um verde quase negro enroscam em seu cabelo e no pêlo do casaco e, por instantes, um chumaço grosso de capim lhe tampa os olhos, depois acaba se soltando e sai flutuando, torcendo-se, destorcendo-se e retorcendo-se. (...) Por fim, acaba parando num dos pilares da ponte de Southease. A correnteza a empurra, ataca, mas ela está presa bem firme na base da coluna quadrada, atarracada, de costas para o rio e de cara para a pedra. Enrodilha-se em volta, um braço dobrado sobre o peito e o outro boiando acima da curva do quadril. Um pouco acima dela está a superfície ondeada, brilhante. O céu se reflete incerto ali, branco e pesado de nuvens, cruzado pelo recorte negro da silhueta das gralhas. Carros e caminhões trovejam sobre a ponte. Um menino pequeno, não mais que três anos de idade, cruza a ponte com a mãe, pára na grade, agacha-se e enfia entre as frestas o pauzinho que vinha carregando, para que caia na água. A mãe o chama, mas ele insiste em ficar um pouco mais, vendo o pauzinho ser levado pela correnteza. (...) Ei-los então, num dia no começo da Segunda Guerra Mundial: o menino e sua mãe sobre a ponte, o pauzinho flutuando pela superfície da água e o corpo no fundo do rio, como se Virgina estivesse sonhando com a superfície, o pauzinho, o menino, a mãe, o céu e as gralhas. Um caminhão verde-oliva cruza a ponte, carregado de soldados fardados, que acenam para o menino que acabou de derrubar o pauzinho. Ele acena de volta. E exige que a mãe o pegue no colo, para que possa ver melhor os soldados; para ficar mais visível. Tudo isso entra na ponte, ressoa através de suas madeiras e entra no corpo de Virginia. Seu rosto, comprimido de lado contra o pilar, absorve tudo: o caminhão e os soldados, a mãe e o filho.
In: As horas, de Michael Cunningham.
In: As horas, de Michael Cunningham.
(...) O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a ... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo o meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer , que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.
In: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, (1944)
In: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, (1944)
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
D’O Livro dos Sonhos:
Lélia Almeida.
I
Tive um sonho naquela noite. Dormimos lado a lado. Cada um enrolado num edredon o que não deixava que os corpos se tocassem, tomei da sua mão e toquei seus pés para aquecer os meus, mas ele já não estava mais ali, já tinha partido para uma espécie de profundeza, sua respiração denunciava que ele já não estava ali. Meu corpo ansiava pelo calor do corpo dele, adormeci profundamente também e sonhei. Sonhei que estávamos nus e tentávamos nos amar, mas era muito difícil, ele tinha uma expressão facial de muita tristeza e dor, os corpos se desencontravam, o pau dele, que na ponta tinha uma espécie de cone oriental todo adornado e desenhado, me procurava e tentava entrar em muitas partes do meu corpo, com dificuldades, até que as partes se encaixaram e tudo fluiu com muita desenvoltura e prazer. E havia um animal aquático muito grande na beira de uma praia, que podia ser uma baleia, o animal gozava e de dentro dele saía um líquido espesso, meio gelatinoso que formava uma espécie de membrana viscosa e espessa, branca também, sobre a superfície da areia brilhante da beira do mar, uma membrana que podia ser a vela de um barco, uma tela de linho branco, frágil, transparente e muito resistente, e nela dormíamos da mesma maneira que estávamos na cama, juntos, mas separados, lado a lado, e o mar começava a levar a membrana-barco-vela-tela sobre as suas ondas, e nós sobre ela, adormecidos e entregues.
II
No sonho estávamos sentados numa mesa de bar. Muito próximos. E eu dizia que estava vivendo um momento muito rico, que muitas coisas incríveis estavam acontecendo como se houvesse uma conexão entre os acontecimentos. Ele pegava as minhas duas mãos, muito carinhoso, lembrei da cena do encantamento dos primeiros gestos. E fiquei encantada de estarmos nos tocando, como se isso fosse impossível de acontecer, eu beijava com muita timidez a mão dele e então nos beijávamos na boca e eu dizia. O Mago! E ele fazia uma espécie de bênção sobre as nossas mãos, abençoando, selando o nosso encontro, a nossa aliança. Depois ele me contava dos pais, das férias, que ele talvez visse os pais logo, já que estava perto do aniversário dele, em setembro, e eu pensava que ele tinha uma vida normal. Depois ele saía do bar e eu não sabia se ele voltaria porque tinha deixado todas as coisas dele no bar. E quando ele voltava estava fumando, o que era muito atípico. E eu olhava para o rosto dele que tinha aquela sombra de quem tem uma barba muito cerrada, e estávamos em pé indo para um jardim e eu olhava para o rosto dele, transformado agora, a boca estava pintada de alactaka, um corante, do kama sutra, com contornos pretos e ele era um djin, um gênio, um árabe.
III
Sonhei contigo. Tinhas vindo me visitar e eu estava muito feliz, parecíamos duas meninas brincando, muito íntimas, e estávamos as duas felizes. Eu abria as gavetas do meu quarto e te mostrava os meus cadernos de escrever, de capas de cetim, forrados com tecidos coloridos e sofisticados, os cadernos onde vou anotando o que depois escrevo. Mostrava um a um e adorávamos o ritual. Noutras gavetas havia jóias, anéis com pedras grandes, exageradas, outras mais delicadas, lenços, perfumes. E tu me dizias como era bom poder ver as minhas coisas femininas. Então pedias para que eu posasse para ti. Já tinhas pedido para a tua colega que era muito loira, e ela não tinha querido. Eu fiquei muito envergonhada e muito envaidecida, relutei em aceitar porque havia familiares meus por perto, mas eu queria sim. Então eu disse que, mesmo não sendo bela e nem proporcional, já tinha posado para um escultor uma vez. E me explicaste: não vou te desenhar, vou desenhar as tuas partes. Vais sentar nua numa superfície de vidro e eu vou estar embaixo vendo o desenho que forma as tuas partes repousadas no vidro. Isto é a lagarta. Prensada no meio das páginas.
IV
Cordélia, me ocorreu, a caçadora. Uma amiga do tempo da faculdade, a quem eu não via a muito tempo me apresentou a menina e disse, seu nome é Cordélia, como a da floresta. Um sonho iniciático, depois eu estava no meio de mulheres árabes, todas muito ricas trajadas com peças e brocados de ouro e muitas jóias e eu adorava o toque daqueles tecidos e as cores, adorava ser rica, e um homem alemão muito belo, com um carro potente e grande, me cortejava, ele tinha as pernas muito feridas. Depois todos tinham crescido, os filhos tinham se multiplicado, e eu e as mulheres tínhamos envelhecido. E éramos mulheres mais velhas com espírito de meninas. Eu ia de carro com a minha mãe ou com alguém como ela para um lugar no interior e passávamos por uma construção de pedras amarelas muito antigas no meio da floresta com esculturas de bronze e basalto, pombos, alguém disse, o colar dos pombos, o calor dos pombos, das pombas, eu disse, eu adorava vir a este lugar quando eu era pequena. E eu era conduzida a um lugar onde estavam outras mulheres que eram mães, como mães que iam me iniciar, como a mulher árabe aquela, a ricamente vestida. Atravesso uma passarela submersa em águas verdes e aparentemente pouco limpas. Há homens de muitas tribos ouvindo músicas estridentes, são homens rudes, fortes, viris. Há um homem deitado numa banheira, com calção de banho, ele geme, ele se confunde com o alemão doente, mas ele geme de dor no peito, no braço esquerdo, no coração, é um gemido de prazer, sexual quase, embora ele pareça velho e doente. Quando passamos pelo prédio de pedras amarelas eu lembrei do antigo hospital de tuberculosos, um edifício belo e imenso, de terracota, perdido no meio da paisagem da Catalunha, com os ferros dos portões que pareciam rendas. Tinha uma aura ao redor do prédio, quase uma bruma e depois eu ouvia vozes, choros muito fracos de meninos abandonados de peitos presos e corpos febris em pijamas listrados, desbotados, de cores neutras. E há um o caminho de folhas secas, avançamos num carro pequeno e não entendo porque visto roupas que ora me fazem sentir ridícula, ora muito confortável. E os véus transparentes, uma mulher diz, você precisa da licença da sacerdotisa para escrever. Avançamos, o hospital parece estar suspenso na planície, lá longe, mas perto o suficiente para que eu ouça os gemidos, os suspiros. E há, no fim de um caminho de terra vermelha, que não está pavimentado, um portal. Um umbral, um semicírculo de flores, jasmim, lágrimas-de-Cristo, brincos-de-princesa, sapatinho-de-judia, tudo misturado, lírios em algum lugar. Um cavalo branco passa, faz frio neste lugar e folhas secas em abundância, douradas, revoam, una hojarasca. Há uma inscrição muito antiga no frontispício do portal, ao lado do antiqüíssimo relógio de sol. Diz: as Belas Artes. E eu sou uma sacerdotisa. Mas no sonho não há só ruínas. Tudo reluz agora. O corpo, as roupas, a textura da seda. Sento no banco de pedra na frente do portal, dispo as roupas desconfortáveis e visto o véu branco e transparente. Meu corpo é velho e forte, solto os cabelos, acomodo as pernas na pedra fria, baixo a cabeça, o queixo quase encosta no peito, olho meus seios caídos, há muito deixei de ser uma menina, sou uma mulher muito antiga e carrego nas minhas carnes brancas os mistérios do tempo. Respiro fundo. Opalinas. Volto ao leite, a um leite impossível, improvável como o portal das Belas Artes e suas flores. E descanso finalmente numa espécie de paz há muito desejada. Fecho os olhos e oro. Oro em paz. O silêncio é o meu elemento agora, sob o véu. O silêncio infinito. O silêncio sem fim. O silêncio onde são gestadas as palavras.
In: O Livro dos Sonhos, 2008. (Fragmentos inéditos).
Lélia Almeida.
I
Tive um sonho naquela noite. Dormimos lado a lado. Cada um enrolado num edredon o que não deixava que os corpos se tocassem, tomei da sua mão e toquei seus pés para aquecer os meus, mas ele já não estava mais ali, já tinha partido para uma espécie de profundeza, sua respiração denunciava que ele já não estava ali. Meu corpo ansiava pelo calor do corpo dele, adormeci profundamente também e sonhei. Sonhei que estávamos nus e tentávamos nos amar, mas era muito difícil, ele tinha uma expressão facial de muita tristeza e dor, os corpos se desencontravam, o pau dele, que na ponta tinha uma espécie de cone oriental todo adornado e desenhado, me procurava e tentava entrar em muitas partes do meu corpo, com dificuldades, até que as partes se encaixaram e tudo fluiu com muita desenvoltura e prazer. E havia um animal aquático muito grande na beira de uma praia, que podia ser uma baleia, o animal gozava e de dentro dele saía um líquido espesso, meio gelatinoso que formava uma espécie de membrana viscosa e espessa, branca também, sobre a superfície da areia brilhante da beira do mar, uma membrana que podia ser a vela de um barco, uma tela de linho branco, frágil, transparente e muito resistente, e nela dormíamos da mesma maneira que estávamos na cama, juntos, mas separados, lado a lado, e o mar começava a levar a membrana-barco-vela-tela sobre as suas ondas, e nós sobre ela, adormecidos e entregues.
II
No sonho estávamos sentados numa mesa de bar. Muito próximos. E eu dizia que estava vivendo um momento muito rico, que muitas coisas incríveis estavam acontecendo como se houvesse uma conexão entre os acontecimentos. Ele pegava as minhas duas mãos, muito carinhoso, lembrei da cena do encantamento dos primeiros gestos. E fiquei encantada de estarmos nos tocando, como se isso fosse impossível de acontecer, eu beijava com muita timidez a mão dele e então nos beijávamos na boca e eu dizia. O Mago! E ele fazia uma espécie de bênção sobre as nossas mãos, abençoando, selando o nosso encontro, a nossa aliança. Depois ele me contava dos pais, das férias, que ele talvez visse os pais logo, já que estava perto do aniversário dele, em setembro, e eu pensava que ele tinha uma vida normal. Depois ele saía do bar e eu não sabia se ele voltaria porque tinha deixado todas as coisas dele no bar. E quando ele voltava estava fumando, o que era muito atípico. E eu olhava para o rosto dele que tinha aquela sombra de quem tem uma barba muito cerrada, e estávamos em pé indo para um jardim e eu olhava para o rosto dele, transformado agora, a boca estava pintada de alactaka, um corante, do kama sutra, com contornos pretos e ele era um djin, um gênio, um árabe.
III
Sonhei contigo. Tinhas vindo me visitar e eu estava muito feliz, parecíamos duas meninas brincando, muito íntimas, e estávamos as duas felizes. Eu abria as gavetas do meu quarto e te mostrava os meus cadernos de escrever, de capas de cetim, forrados com tecidos coloridos e sofisticados, os cadernos onde vou anotando o que depois escrevo. Mostrava um a um e adorávamos o ritual. Noutras gavetas havia jóias, anéis com pedras grandes, exageradas, outras mais delicadas, lenços, perfumes. E tu me dizias como era bom poder ver as minhas coisas femininas. Então pedias para que eu posasse para ti. Já tinhas pedido para a tua colega que era muito loira, e ela não tinha querido. Eu fiquei muito envergonhada e muito envaidecida, relutei em aceitar porque havia familiares meus por perto, mas eu queria sim. Então eu disse que, mesmo não sendo bela e nem proporcional, já tinha posado para um escultor uma vez. E me explicaste: não vou te desenhar, vou desenhar as tuas partes. Vais sentar nua numa superfície de vidro e eu vou estar embaixo vendo o desenho que forma as tuas partes repousadas no vidro. Isto é a lagarta. Prensada no meio das páginas.
IV
Cordélia, me ocorreu, a caçadora. Uma amiga do tempo da faculdade, a quem eu não via a muito tempo me apresentou a menina e disse, seu nome é Cordélia, como a da floresta. Um sonho iniciático, depois eu estava no meio de mulheres árabes, todas muito ricas trajadas com peças e brocados de ouro e muitas jóias e eu adorava o toque daqueles tecidos e as cores, adorava ser rica, e um homem alemão muito belo, com um carro potente e grande, me cortejava, ele tinha as pernas muito feridas. Depois todos tinham crescido, os filhos tinham se multiplicado, e eu e as mulheres tínhamos envelhecido. E éramos mulheres mais velhas com espírito de meninas. Eu ia de carro com a minha mãe ou com alguém como ela para um lugar no interior e passávamos por uma construção de pedras amarelas muito antigas no meio da floresta com esculturas de bronze e basalto, pombos, alguém disse, o colar dos pombos, o calor dos pombos, das pombas, eu disse, eu adorava vir a este lugar quando eu era pequena. E eu era conduzida a um lugar onde estavam outras mulheres que eram mães, como mães que iam me iniciar, como a mulher árabe aquela, a ricamente vestida. Atravesso uma passarela submersa em águas verdes e aparentemente pouco limpas. Há homens de muitas tribos ouvindo músicas estridentes, são homens rudes, fortes, viris. Há um homem deitado numa banheira, com calção de banho, ele geme, ele se confunde com o alemão doente, mas ele geme de dor no peito, no braço esquerdo, no coração, é um gemido de prazer, sexual quase, embora ele pareça velho e doente. Quando passamos pelo prédio de pedras amarelas eu lembrei do antigo hospital de tuberculosos, um edifício belo e imenso, de terracota, perdido no meio da paisagem da Catalunha, com os ferros dos portões que pareciam rendas. Tinha uma aura ao redor do prédio, quase uma bruma e depois eu ouvia vozes, choros muito fracos de meninos abandonados de peitos presos e corpos febris em pijamas listrados, desbotados, de cores neutras. E há um o caminho de folhas secas, avançamos num carro pequeno e não entendo porque visto roupas que ora me fazem sentir ridícula, ora muito confortável. E os véus transparentes, uma mulher diz, você precisa da licença da sacerdotisa para escrever. Avançamos, o hospital parece estar suspenso na planície, lá longe, mas perto o suficiente para que eu ouça os gemidos, os suspiros. E há, no fim de um caminho de terra vermelha, que não está pavimentado, um portal. Um umbral, um semicírculo de flores, jasmim, lágrimas-de-Cristo, brincos-de-princesa, sapatinho-de-judia, tudo misturado, lírios em algum lugar. Um cavalo branco passa, faz frio neste lugar e folhas secas em abundância, douradas, revoam, una hojarasca. Há uma inscrição muito antiga no frontispício do portal, ao lado do antiqüíssimo relógio de sol. Diz: as Belas Artes. E eu sou uma sacerdotisa. Mas no sonho não há só ruínas. Tudo reluz agora. O corpo, as roupas, a textura da seda. Sento no banco de pedra na frente do portal, dispo as roupas desconfortáveis e visto o véu branco e transparente. Meu corpo é velho e forte, solto os cabelos, acomodo as pernas na pedra fria, baixo a cabeça, o queixo quase encosta no peito, olho meus seios caídos, há muito deixei de ser uma menina, sou uma mulher muito antiga e carrego nas minhas carnes brancas os mistérios do tempo. Respiro fundo. Opalinas. Volto ao leite, a um leite impossível, improvável como o portal das Belas Artes e suas flores. E descanso finalmente numa espécie de paz há muito desejada. Fecho os olhos e oro. Oro em paz. O silêncio é o meu elemento agora, sob o véu. O silêncio infinito. O silêncio sem fim. O silêncio onde são gestadas as palavras.
In: O Livro dos Sonhos, 2008. (Fragmentos inéditos).
sábado, 24 de outubro de 2009
Os príncipes da cidade sem alma:
Lélia Almeida.
O cemitério municipal. Vamos visitá-lo. Há uma capela nova. Lá estão os meus avós paternos. Estão as fotos. A foto da Zizi é a do dia do aniversário de 80 anos dela, quando o Pedro tinha um ano e era o neto mais novo. E a foto do Dagoberto, o filho mais velho da Zizi. Olho para a foto e lembro dele jovem, quando eu era menina. No olhar dele, o jeito, a expressão de vários homens da minha família. Sobrinhos do meu pai, meus irmãos, meus primos. E lembro do olhar amoroso deles sobre mim. E a falta deste olhar é um vazio sem fim.
Somos de Rivera, escolhemos, eu e meu irmão. É uma questão de afinidade. Amor à língua, à comida, às ruas, às músicas, às pessoas. Há um jeito de ser, de outra consistência, de outro fundamento, diz o meu irmão. Comemos mozarela na City, milhojas pequenas, com pomelo. Chove, olhamos a fachada das casas antigas, e lembramos de um tempo em que éramos como morcegos jovens e varávamos as noites naquelas ruas silenciosas, vagabundos, fantasmas e éramos, mais que irmãos, parceiros, num tempo de muita dor e incompreensão. Ele paga a conta, eu protesto, ele diz que quando ele sai com uma mulher é ele que paga a conta. Digo que não sou uma mulher, que sou uma irmã. E rimos juntos, como nos bons tempos. Quando líamos juntos, quando ouvíamos as mesmas músicas e tínhamos certeza de que nada nos separaria.
As avenidas de Rivera, nos arredores, ampliaram, foram asfaltadas, a cidade floresceu com o free shop, com o dólar. Meu pai sempre disse que Rivera florescia quando Sant’Ana estava na merda. E vice-versa. A cidade, neste momento, floresceu, dizem que o atual prefeito poderá ser o próximo presidente do país. As lojas do free shop parecem de primeiro mundo, as uruguaias falam português fluentemente. O cheiro de perfume caro impregna o ambiente. Tudo sabe a luxo, coisa fina, chique. Na rua principal estão ao hotéis caros, os restaurantes, pizzarias, confeitarias, parrilladas, sorveterias. Nas ruas paralelas estão os botecos, os bolichos, com os produtos locais, sem o charme dos importados. Quesos, raviólis, pan con chorizo, Ripan, postre Riveli, caramelos, chimichurri, yerba mate, carambones, medialunas rellenas, salsa golf, crema hinds, cucarachas para o cabelo, cheiros e lugares, indissociáveis. E as casas antigas, pé direito alto, portas de madeira, janelas com sacadas, pátios internos com clarabóias e vitrôs, casas com almas. E pelas ruas, os ônibus com os nomes dos bairros. Rivera Chico. Pueblito. Enda. Ônibus velhos. Nomes antigos. Almas velhas. Cidades dos meus amores. Caminhamos, eu e meu irmão, sob os escombros. Escombros da nossa infância. Vamos do mesmo jeito, cúmplices, juntos. O que nos une é também de outro tempo. E de outra matéria também. Ele me diz sempre, que sangue não é água. E sei que quando ele está por perto, eu não estou só. De muitas maneiras eu não estou só.
A brincadeira era a de buscar nomes interessantes para os personagens do próximo livro. Mas sempre acontece algo mais interessante nos cemitérios. Os nomes no cemitério de Rivera. Ele entendeu, ele que sempre me entende. O poder das lápides, das palavras escritas e escolhidas no calor da emoção. Uma lápide branca, uma camélia em tom amarelo, Tereza Ponz, te ama tu sobrina. Nomes italianos, espanhóis, muitos vascos, alguns catalães, mas há poloneses e alemães, ingleses também. Árabes, muitos. A mistura é infernal na fronteira, um lugar que se pretende passível de controles, limites, contenções, alfândegas, permisos. A fronteira é o lugar do limite geográfico e da mescla, da mistura. Os nomes nas lápides contam desta história. Meu irmão entendeu. Paramos na frente de um casal. Horacio e Inês Centi. No quiero vivir sin ti. Ela foi primeiro. Ele foi um mês depois. Viveram 30 anos juntos. Nos olhamos e ele diz, Deus me livre um amor assim, eu digo que é o sonho de muita gente. Ele diz que homem e mulher pode ser muito bom, mas que quase sempre é muito complicado. Bom mesmo é irmão e irmã, ele diz, e saímos abraçados do cemitério.
Sorveteria Martinez. Helado de chocolate con granizado. A mesma mulher nos atende. A mesma que nos atendia nos domingos de noite. Quando voltávamos da piscina no verão, o corpo quente, a pele curtida, vermelha. Sorveteria Zun Zun. Sorveteria Martinez. ‘Nossa, ela passou a vida inteira aqui”, eu disse, ele disse, claro, a sorveteria era da família dela, agora é dela. Crema con frutilla, y chocolate caliente, el que endurece.
Um rio que se move ao contrário no tempo. E no espaço, um movimento sem volta. Comportas que se abriram. Desde que o homem do farol entrou na minha vida, dei para ouvir o rio outra vez, suas águas revoltas, imundas, de novo, a me chamarem. E desta vez, o único que sei, é que não sei para onde ir. Minhas lágrimas não param, uma dor represada foi embora de mim, voltei pra casa, voltei pra mim, voltei pra eles, meu pai, meu irmão, a cidade perdida, os escombros, a água suja, a enxurrada. O farol. Um rio que é um campo. A minha perdição. O meu lugar no mundo.
Um desassossego imenso se instalou desde que voltei, a sensação de que blocos imensos e sólidos se deslocaram, as tais placas subterrâneas que provocam de frêmitos a terremotos. Um desassossego todos os dias. Noites mal dormidas, cansaço e fadiga durante o dia, raiva travestida de toda a sorte de excitação, ódios repentinos, escudos, camadas de escudos para não sentir, para não lembrar, para não ver. Meu pai tão amado, velho, caminhando com dificuldade, me acena de fora do ônibus. Olho pela janela, não sei nunca se vou voltar a vê-lo outra vez. Faz as mesmas mímicas de sempre. Me diz que não esqueça de escovar os dentes, de pentear os cabelos, sou criança de novo e ele me faz rir, me cuida. O ônibus indo embora, ele abanando, até o ônibus sumir e o rio me inunda, a falta dele e esta saudade que não tem cabida nos meus anos e na história da minha vida.
Tenho medo que ele morra. E este medo me paralisa. Sou tomada por uma angústia que se transforma em sintomas. Resfriado. Dor no joelho. Olhos cansados. Taquicardia. Dor no peito. Ansiedades sem nome. Meu irmão e eu sabemos que ele está ficando velho. E nos desdobramos para devolver um pouquinho do ouro daquele tempo. Uma piscina para nadar nas tardes quentes de verão, sorvete no domingo. E a mão dele, que mesmo de longe, sempre esteve ali, perto, sempre. E porque algo maior que as minhas dores e mágoas me faz voltar pra casa e dizer que eu ia secar de frio e de saudade se não voltasse, se não chegasse a tempo.
In: Os príncipes da cidade sem alma, 2008. (Fragmentos, inédito).
Um aparte necessário:
Lélia Almeida.
Excelência, vou lhe contar um segredo. Nunca me convenceu a história daquela Sherezade. Permita-me tamanha traição com esta personagem arquetípica das nossas belas letras, você verá como ela se justifica. Sherezade é uma farsa. E só um homem poderia ter imaginado tal personagem, para tentar instruir leitoras desavisadas. As Penélopes e as Sherezades nunca me convenceram. Funcionaram como as personagens da literatura dirigida às donzelas no século XIX, cheia de heroínas que se perdiam de amores por ineficazes burgueses e que depois eram castigadas, num intento de convencer as leitoras de que a farra não compensa. Toda sorte de adúlteras e prostitutas, transgressoras mortas e punidas, este foi o motivo da açucarada literatura cor-de-rosa para as moçoilas. Em mim, surtiram sempre um efeito contrário. Lúcia, o anjo decaído, sempre me atraiu nos seus piores momentos de bacante, de devassa perdida e diabólica. E também não tive paciência com os suicídios de Emma ou da Karenina, mas sempre desfrutei do antes, da parte em que aquelas libertinas se esfalfavam e divertiam longe dos maridos. E a Sherezade, diga-me, Ministro, o senhor que estudou filosofia, história, e leu muito da literatura clássica, quem iria se convencer com o poder das histórias daquela falastrona? Ela não convenceria nem o Sultão Xariar, nem o caçula Xazaman e homem algum desta ou de outra civilização. E o sultão Xariar, quem poderia crer que um sádico, que gozava resfolegando no sangue daquelas virgens decapitadas, iria se redimir com aquelas histórias edificantes da filha do Vizir? As premissas não convencem. Porque nada neste mundo irrita e cansa mais um homem do que a tagarelice feminina. Os homens só fingem infinita paciência com a falação das mulheres porque pretendem dobrá-las. Sherezade é um embuste, Excelência e, permita-me que lhe diga, o que fez com que este texto não sucumbisse ao esquecimento dos cânones é seu vigor evocativo. Evocativo de um original que talvez tenha se perdido na noite dos tempos, de uma matriz que nunca mais recuperaremos. E que fala de cavernas úmidas, tesouros perdidos, gênios bem servidos, pescadores apolíneos, de sultanas e escravas obscenas e, através do qual adivinhamos as farras da insaciável Sherezade. Ela nunca perderia tantas noites com sua débil lábia feminil, o que dobrou o Sultão foi o poder da barbiana, a eficiência da bífida, a avidez do berbigão, suas incontestes habilidades em farpear com o badalo do sarraceno. Por isso, nem adianta, meu caro Ministro, suplicar com estes olhos pidões de príncipe mouro. Porque eu não contarei nenhuma história, nada de tagarelices e nada de redenção, portanto. As nossas noites e dias de trabalho serão intercaladas, com aquilo que é o único que interessa aos homens e mulheres através dos tempos, que é o tranco, Excelência. O velho e bom tranco. Porque o resto, como alguém já disse, é literatura.
Vamos ao manual de instruções então.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, inédito)
Lélia Almeida.
Excelência, vou lhe contar um segredo. Nunca me convenceu a história daquela Sherezade. Permita-me tamanha traição com esta personagem arquetípica das nossas belas letras, você verá como ela se justifica. Sherezade é uma farsa. E só um homem poderia ter imaginado tal personagem, para tentar instruir leitoras desavisadas. As Penélopes e as Sherezades nunca me convenceram. Funcionaram como as personagens da literatura dirigida às donzelas no século XIX, cheia de heroínas que se perdiam de amores por ineficazes burgueses e que depois eram castigadas, num intento de convencer as leitoras de que a farra não compensa. Toda sorte de adúlteras e prostitutas, transgressoras mortas e punidas, este foi o motivo da açucarada literatura cor-de-rosa para as moçoilas. Em mim, surtiram sempre um efeito contrário. Lúcia, o anjo decaído, sempre me atraiu nos seus piores momentos de bacante, de devassa perdida e diabólica. E também não tive paciência com os suicídios de Emma ou da Karenina, mas sempre desfrutei do antes, da parte em que aquelas libertinas se esfalfavam e divertiam longe dos maridos. E a Sherezade, diga-me, Ministro, o senhor que estudou filosofia, história, e leu muito da literatura clássica, quem iria se convencer com o poder das histórias daquela falastrona? Ela não convenceria nem o Sultão Xariar, nem o caçula Xazaman e homem algum desta ou de outra civilização. E o sultão Xariar, quem poderia crer que um sádico, que gozava resfolegando no sangue daquelas virgens decapitadas, iria se redimir com aquelas histórias edificantes da filha do Vizir? As premissas não convencem. Porque nada neste mundo irrita e cansa mais um homem do que a tagarelice feminina. Os homens só fingem infinita paciência com a falação das mulheres porque pretendem dobrá-las. Sherezade é um embuste, Excelência e, permita-me que lhe diga, o que fez com que este texto não sucumbisse ao esquecimento dos cânones é seu vigor evocativo. Evocativo de um original que talvez tenha se perdido na noite dos tempos, de uma matriz que nunca mais recuperaremos. E que fala de cavernas úmidas, tesouros perdidos, gênios bem servidos, pescadores apolíneos, de sultanas e escravas obscenas e, através do qual adivinhamos as farras da insaciável Sherezade. Ela nunca perderia tantas noites com sua débil lábia feminil, o que dobrou o Sultão foi o poder da barbiana, a eficiência da bífida, a avidez do berbigão, suas incontestes habilidades em farpear com o badalo do sarraceno. Por isso, nem adianta, meu caro Ministro, suplicar com estes olhos pidões de príncipe mouro. Porque eu não contarei nenhuma história, nada de tagarelices e nada de redenção, portanto. As nossas noites e dias de trabalho serão intercaladas, com aquilo que é o único que interessa aos homens e mulheres através dos tempos, que é o tranco, Excelência. O velho e bom tranco. Porque o resto, como alguém já disse, é literatura.
Vamos ao manual de instruções então.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, inédito)
Sus dedos recorren los carnosos pétalos laterales y el botoncito rosa, resbalando en la tibia humedad. Si son solo palabras, si es sólo la palabra “palabra”. El erotismo es frágil como un lirio, es una jugada magistral en un tablero complicado. El don del cielo desciende sobre los cuerpos, las miradas, las palabras, mientras todas las piezas defienden celosamente su lugar. Después los pequeños peones crecen, se convierten en torres y caballos, la dama se aja, el rey envejece, el alfil pierde la fe. ¡Y adiós dulces humedades y olor a pan recién horneado! Sólo queda un lirio marchito a la orilla de un arroyo seco.
Alicia Steimberg,
in Amatista.
Alicia Steimberg,
in Amatista.
(…) La perdida de um amor y el dolor de uma relación rota es uma sobrecarga de proyección. Es todo lo que és. En la juventud, nuestra vida entera es este sueño maravilloso de que “Esto es”: esta relación es la consumación de mi fantasía y no puedo imaginarme la vida de otro modo. Ningún argumento puede embotar este sentimiento de proyección total, de todo en el otro. Supongo que todos podemos recordar un episodio de una relación adolescente que parecía serlo todo-en-todo y después se destruyó por algún motivo. Cuando una relación se corta, a una persona le lleva un tiempo calmarse y volver a enfocar. Es después de la ruptura, cuando no hay nada nuevo todavía y la vida ha sido despojada de todo su potencial, que tiene lugar esta reacción dolorosa. Para alguna gente es un período peligroso. La psique sabe cómo curar, pero duele. A veces la cura duele más que la herida inicial pero si uno puede sobrevivir, será más fuerte, porque ha encontrado una base de sustentación más amplia. Cada compromiso es un estrechamiento, y cuando ese compromiso falla, es preciso volver a una base más amplia y tener la fuerza de sostenerse en ella. El que me enseñó fue Nietzsche. En cierto momento de su vida, se le ocurrió la idea de lo que llamó “el amor a tu destino”. Sea cual fuere tu destino, sea lo que fuere lo que pase, dices: “Eso es lo que necesito”. Puede parecer un desastre, pero debes hacerle frente como si fuera una oportunidad, un desafío. Sí pones amos en ese momento, y no desaliento, encontrarás que ahí está la fuerza. Cualquier catástrofe a la que puedas sobrevivir es una mejora en tu carácter, tu estatura y tu vida. ¡Qué privilegio! Es ahí donde la espontaneidad de tu propia naturaleza tendrá una oportunidad de fluir. Después, cuando mires atrás, verás que los momentos que parecieron ser grandes fracasos seguidos por naufragios fueron los incidentes que dieron forma a la vida que tienes ahora. Verás que es realmente es así. No puede pasarte nada que no sea positivo. Aun si en el momento parece y se siente como una crisis negativa, no lo es. La crisis te expulsa de ella, y cuando llega el momento de mostrar tu vigor descubres que lo tienes.
La noche negra del alma
Sucede justo antes de la revelación.
Cuando todo está perdido
Y todo parece tiniebla,
Entonces viene la vida nueva
Y todo lo que necesitabas.
In: CAMPBELL, Joseph. Reflexiones sobre la vida. Buenos Aires: Emecé, 1995.
La noche negra del alma
Sucede justo antes de la revelación.
Cuando todo está perdido
Y todo parece tiniebla,
Entonces viene la vida nueva
Y todo lo que necesitabas.
In: CAMPBELL, Joseph. Reflexiones sobre la vida. Buenos Aires: Emecé, 1995.
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