sábado, 30 de janeiro de 2010

D’O Livro dos Sonhos:


Lélia Almeida.


Outro sonho. Caminho atrás das minhas ex-amigas que vão muito contentes e conversando por um caminho que desconheço, não somos mais amigas, e mesmo assim não consigo deixar de amá-las. Elas me conduzem, não conversamos. Meu filho também está junto, como sempre esteve enquanto eu estava com elas. Chegamos a um topo, uma espécie de sopé, numa paisagem magnífica e verdejante. Há uma trilha exuberante que é uma espécie de uma fenda numa montanha, um grande deslizamento, me ocorre, agora que escrevo. Um lugar onde a terra se abriu e elas me olham e esperam que eu decida. Eu devo descer por este lugar até lá embaixo. O medo que eu sinto é inenarrável. É de noite. A terapeuta preside os trabalhos, me orienta. Eu sei que não tenho alternativas. Eu tenho de descer. Começo a descida deitada com os braços cruzados sobre o corpo, como uma morta. Mas tudo é suave neste caminho que parece assustador. A trilha é estreita e a terra está molhada. Há uma profusão de avencas misturada com gravetos e seixos. Sinto escorpiões e aranhas imensas que grudam no meu corpo que está envolto numa espécie de gaze branca, e quando chego ao final do caminho posso retirar com facilidade aqueles bichos que estavam sobre mim. Depois estamos numa casa de madeira, e o Uli, o gato preto que ficou na Casa da Colina, no Ouro Vermelho, me acompanha todo o tempo. Sei que é ele porque vejo a cicatriz na pata e porque ele ronrona do mesmo jeito que antes. É uma espécie de anfitrião, de companheiro de caminho, e eu sei que ele zela pela minha alma. Têm os olhos cansados, ele está velho, mas enérgico. A casa é de madeira e parece uma casa de banhos e de cura para alemães que estão doentes de amor. Quase todos estão velhos e sei que eles estão doentes de amor. Sei pela quantidade de cartas que levam e trazem. E que fazem circular entre eles. A Casa da Colina foi a minha casa de cura. A casa do meu luto e da minha cura, e por isso eu não conseguia sair de lá.



In: O Livro dos Sonhos, 2010 (Fragmentos inéditos).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Veio no biscoito da sorte do restaurante chinês a frase que dizia assim: Esteja a cavalo quando for procurar um cavalo melhor.
Descobri hoje a divindade egípcia que me protege. Tão reconfortante!
Melhor impossível.

Taueret: a sua representação é uma fêmea de um hipopótamo, considerada como a protetora das mulheres grávidas, dos nascimentos e dos que podiam renascer dos reinos dos mortos. A lenda dizia que quando ela afundava nas águas do Nilo, estas subiam e, assim, suas margens se tornavam cultiváveis, trazendo abundância nas colheitas. É simbolizada com seios de mulher, patas de leoa e cauda de crocodilo.
Características: seu protegido tende a ter muita intuição e geralmente gosta de assuntos relacionados à área de esoterismo, ocultismo, astrologia etc. Tem grande capacidade de entendimento e geralmente sua vida é destinada a ajudar a família e o próximo. Tudo em sua vida é muito bem planejado e aproveitado; além disso, garante o bem dos mais próximos.
ABRACADABRA

Abracadabra (Gnóstico)
Esta palabra simbólica aparece por primera vez en un tratado médico escrito en verso por Sammónico, que floreció en el reinado del emperador Séptimo Severo. Godfrey Higgins dice que deriva de Abra o Abar, "Dios", en celta, y cad, "santo". Se empleaba a guisa de talismán y estaba grabado sobre Kameas como amuleto. (W.W.W.) -Casi estaba en lo justo Godfrey Higgins, puesto que el término "Abracadabra" es una corrupción posterior de la voz sagrada gnóstica "Abrasax", siendo a su vez esta última una corrupción todavía anterior de una sagrada y antigua palabra copta o egipcia, una fórmula mágica que significaba en su simbolismo: "no me dañes" y estaba dirigida a la divinidad en sus jeroglíficos como "Padre". Estaba generalmente adherida a un amuleto o talismán y se llevaba como un Tat (véase esta palabra) sobre el pecho debajo de los vestidos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

As grandes horas e a antiga vigília


A multidão era imensa
e a voz começou a dizer
que não podia falar na primeira pessoa,
que os poetas eram inúmeros na Terra.
E todos se entreolharam e viram que eram poetas.
Todos tinham sido humilhados, todos tinham sido roubados,
todos tinham setas no lado esquerdo do corpo.
E já era de tarde e todos aqueles poetas cantaram
as Vésperas do Senhor.
E a noite chegou e todos aqueles poetas ficaram
acordados escutando as grandes horas
e esperando na antiga vigília.
E o galo cantou: e milhões e milhões de sirenas
de fábricas cantaram matinas. E o dia acordou.
E todos aqueles poetas viram o Dia subir.
E subiram com o Dia.
E cantaram Laudes ao Senhor.

(Jorge de Lima - "Tempo e Eternidade" - 1935)

sábado, 21 de novembro de 2009

A MISÉRIA ELEGANTE DE NINA BERBEROVA

Lélia Almeida.

Nina Berberova foi lançada no Brasil em 1988 com "A Acompanhadora", em 1989 com "O Lacaio e a Meretriz" e, recentemente, em 1991, o que ela mesma considera o seu melhor texto, "O Mal Negro".
O universo onde Nina Berberova transita é um universo feminino, do olhar sobre a vida das mulheres, seus objetos, trajetórias e principalmente seu cotidiano de miséria. Mesmo em "O Mal Negro" onde o protagonista é Evgueni, o texto abre contando a história de um par de brincos e a trajetória de pobreza e penúria muito típica do habitual bem-sucedido mundo dos homens. Evgueni é como Sonetchka ("A Acompanhadora") e como Tania ("O Lacaio e a Meretriz"), pobres e sós. Encontram-se naquele mundo onde as perdas dos tostões e dos afetos se misturam de tal e irreversível maneira que a única realidade a ser vivida é a miséria, a miséria da carne, do estômago, da alma ou como queira se chamar este compartimento que como um samovar nos aquece ou gela de forma irreversível. O clima é sempre este, uma pobreza e uma solidão sem saída.
A história do dinheiro e das mulheres, ou melhor dito, a história do dinheiro das mulheres é das mais trágicas e desconexas. O dinheiro das mulheres não é moeda corrente, não se dá por trocas legítimas, a moeda é outra, a troca é sempre feita por caminhos tortuosos e por trás destes descaminhos parece mesmo tilintar uma pergunta simples e determinante: Quanto vale uma mulher? As personagens de Berberova não casam, no sentido literal do termo, o que já dificulta de saída o meio historicamente mais tradicional de subsistência feminina: os sagrados laços do matrimônio através dos quais as mulheres sobrevivem também com uma moeda que não lhes pertence. A relação das mulheres com o dinheiro é nova e complicada. Traz consigo a história do trabalho feminino, sua posição secundária, desvalorizada e, de uma maneira absolutamente cruel, ou este trabalho é mal pago ou quando é remunerado, mesmo pouco, não lhe pertence. Há as necessidades da casa: um marido deve ser bem tratado, principalmente bem alimentado, e mesmo sendo ele o provedor-mor do lar e da família, há sempre os filhos, famintos, vorazes, crescendo. Por último, as sobras, quando sobram, são das mulheres. Mas raramente sobram. A história da miséria das mulheres ainda não foi contada, não é assunto fácil de ser tocado. Passa pela pergunta do quanto vale uma mulher? e a resposta é tão pobre, tão miserável quanto a sua condição: vale através de um dote paterno para a administração marital, vale pela prostituição, vale por um trabalho que não tem fim nem limite físico e que jamais teve ou garantias ou justiça quanto a sua remuneração. As mulheres não valem nada e a moeda que circula entre elas é escassa, fugidia. É neste universo de onde escreve Berberova. Sabemos, no entanto, que algo valem as mulheres sim, estas que sempre administraram um labor e uma economia que não consta do livro-caixa da história, que sempre trocaram, trabalharam e souberam prover, sustentar, num valor não mensurável e através de peripécias domésticas e trocas inusitadas que fazem parte da margem da história da economia. Isto nós sabemos, nós que tivemos mães, avós, tias, de onde sempre aconteceram verdadeiros passes de mágica na hora em que o dinheiro, o vestido, a comida não existiam. Nós sabemos, as que hoje trabalhamos dentro e fora dos lares, que ganhamos sempre abaixo e que fazemos das tripas coração para fazer o dinheiro valer dinheiro, sabemos o quanto vale uma mulher. Berberova situa suas figuras no limite onde esta pergunta não tem saída. Pobreza e solidão. Cada tostão a menos conta a história do desafeto, da perda, da impossibilidade absoluta do gesto, da aproximação. Miséria e solidão. A elegância desta senhora russa para tratar de temas tão pouco elegantes é magistral: mulheres, desamor, miséria, inveja, solidão. A crueldade entre as mulheres, a inveja, o não possuir e não ser, a absoluta falta de saída. Os textos de Berberova são como a pedra doente de um dos brincos do par de brincos penhorado, os brincos da mulher amada e morta. Falam de muitas outras coisas também: emigrantes russos, exilados, perdidos, miseráveis, sem ter onde morar, o que comer. Uma revolução lançou-os ao mundo, lançou-os no interior de um país perdido no mapa dos seus nomes, passaportes, trânsitos permanentes. Há histórias que se repetem, sem dúvidas. A literatura nunca foi novidade, Berberova conta velharias, velhas histórias que não cansam de se repetir. O mundo dos que vivem à margem, e na margem está a miséria, na margem se está só.


In: ALMEIDA, Lélia. 50ml de Cabochard. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1996.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não.

Samba da Benção - Vinícius de Moraes

terça-feira, 10 de novembro de 2009

TERREMOTOS

Dizem que passado o terremoto de Lisboa (1755),
o Rei perguntou ao General o que
se havia de fazer. Ele respondeu ao Rei:


'Sepultar os mortos,
cuidar dos vivos e fechar os portos'.

domingo, 1 de novembro de 2009




Tereza

Lélia Almeida.

Os campos da campanha. É assim mesmo que eu sinto: não pode haver suavidade maior, não pode haver grandeza maior naquela vastidão verde e irregular, um sentimento sagrado, aquela paisagem é sacra sim, grandiosa, majestosa, como se estivesse no início dos tempos e sobrasse aquele lugar e um homem e uma mulher muito antigos e onde não coubesse mais nada. Mas é o que eu vejo quando fecho os olhos e vejo o amanhecer naqueles campos perdidos, remotos, antigos. Céu de manhãzinha, o frio sem igual daqueles campos abertos, o vento que zune impiedoso, muito longe no desenho perdido desta tela. Uma carreta de rodas gigantes se aproxima lentamente, no vagar dos bois, de um casebre miserável, perdido na vastidão do campo, entre um açude e uma figueira, perto do Morro do Chapéu. Faz muito frio, dois peões enrolados em palas velhos e surrados conduzem a carreta que leva uma carga frágil e singular. Um dos homens masca um palheiro meio apagado, tem um chapéu enterrado até os olhos semicerrados e se protege do frio encolhendo a cabeça entre os ombros. O outro homem, o que dirige a carreta, é o que volta e meia olha para trás, talvez preocupado com a menina. Procuram o seu Aluízio, tudo cria de Santa Eulália, as terras da família de Gerônimo. A noite ainda é pesada e fria, muito longe o amanhecer se faz notar, como se viesse, lento também, alumiar a carreta de bois, o céu róseo e o minuano impiedoso a moldar o perfil irreparável, exato, poderoso do Morro do Chapéu. A carreta avança e uma menina embrulhada em mantas de lã de ovelha, encolhida no fundo da carreta, tem os olhos abertos, assustados, muito pretos, e aperta com suavidade nos braços uma outra menina, muito pequena, recém-nascida mesmo, que agora dorme e fica muito parecida com a boneca de panos, esta também como que adormecida entre as duas. O sol começa a despontar quando a carreta se aproxima da casa onde moram Dona Luna e seu Aluízio. O homem sai de dentro de casa ao sentir o barulho da carreta se aproximando. Dona Luna toda de preto, enrolada numa manta de lã, sai também para saber quem chega. O encontro é breve muito breve, pois afinal trata-se de cumprir ordens, de entregar uma encomenda incômoda, desfazer-se de um incômodo. "Foi Don Gerônimo quem mandou, é pra se desfazer da criatura, esta aqui, a vadiazinha vai pra Montevidéu pra não envergonhar o patrão", disse o homem que mascava o palheiro. Eva levantou-se da carreta a mando dos homens, com a pequena e a boneca nos braços. Os olhos pretos muito assustados, meio sonolentos e as tranças muito compridas, amassadas, o rostinho vermelho de vergonha e frio, o olhar suplicante para Dona Luna. A voz saiu frágil, sumida: "Por que eu não posso ficar com o bichinho? Ela é tão pequena..." Dona Luna que não entendia bem o que acontecia ficou surpresa de ver um bebê tão pequeno nos braços da menina. "A menina pode entrar" disse a velha, mas os homens seguraram Eva, tiraram a bebê dos seus braços e disseram que tinham pressa, tinham que embarcar a cunhada de Don Gerônimo ainda de manhã, tinha gente em Rivera esperando por ela. O bebê começou a chorar nos braços de Dona Luna que recebera ordens de livrar-se da criatura. Os homens puseram Eva de volta na carreta e se prepararam para partir. A menina sentou na carreta e deixou as pernas pra fora, pendentes, enrolada na manta, o vestido comprido e amassado, as tranças compridas, o olhar perdido, abraçada na boneca de pano. A carreta retoma seu caminho com seus ruídos pesados, metálicos, os animais em movimento e o sol que desponta mais e mais tingindo aquela paisagem infinita de róseos e vermelhos. O vulto de uma menina sentada na carreta é o desenho triste de muita incompreensão, medo, solidão. Dona Luna olhava a cena de Eva partindo, e ela com o bebê nos braços, um bebê que ela ainda nem sabia se era menina ou menino. Era um bebê muito pequeno que chorava de fome, um chorinho de pássaro pequeno, muito agudo e rouco. Dona Luna recebeu do peão de Don Gerônimo uma trouxa pequena onde tinha uns trapos, panos, cueiros muito velhos e que faziam às vezes de roupas para o bebê.

In: ALMEIDA, Lélia. Senhora Sant’Ana. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1995.

sábado, 31 de outubro de 2009

A única forma de escrever a verdade é supor que o que você colocar no papel jamais será lido. Nem por outra pessoa nem por você mais tarde. Senão você começa a se desculpar. Você tem de ver as palavras emergindo como um longo arabesco de tinta do dedo indicador da sua mão direita; e ver a sua mão esquerda apagando-o. Impossível, é claro. Eu ajusto as contas com o destino, eu ajusto as contas com o destino, este fio negro que vou tecendo ao longo da página.

Margaret Atwood, In: O assassino cego.
(...) Tenho uma sensação constante de que estou vivendo à beira de algo que vai acontecer, e que nunca consigo alcançar. Meus nervos estão preparados para uma espécie de clímax. Sinto-me tensa, em expectativa. É tão aflitivo que começo a desejar uma catástrofe para aliviar a expectativa. Desejo que todas as calamidades, todas as tragédias, aconteçam logo. Quero cenas, brigas, lágrimas, quero ser devorada, quero bater nas pessoas. Sinto-me inquieta. Não consigo ficar muito tempo em lugar nenhum. Não consigo me sentar e não consigo dormir. Tenho sempre essa sensação de que preciso encontrar um alívio para essa espera, um momento estilhaçador, para poder repousar e dormir. O mundo inteiro me excita, sinto amor pelas pessoas nas ruas, a música mexe comigo a toda hora como uma carícia; sinto um desejo violento, e espero.
Sinto a tempestade chegando, sinto a angústia, mas tudo continua igual, lerdo, sem interrupção, sem relâmpago. Alguma coisa em mim quer romper, explodir. Em vez disso, tenho que tirar prazer rompendo a vida dos outros. Estou constantemente seduzindo os outros, encantando-os, capturando-os, ao mesmo tempo em que desejo que fossem capazes de fazê-lo comigo. Quero tanto ser capturada... Todo mundo me obedece, mas eles não encontram a chave de mim. Gosto de sentir seus corações batendo mais depressa, gosto de ver seus olhos flutuando, seus lábios tremendo, gosto de sentir a emoção neles. É como alimento. Fico fascinada com seus sentimentos. Sou como uma caçadora que não quer matar, mas quero sentir o ferimento. O que espero? Ser tomada pelo desejo do outro e nele me banhar. Arder. Quero ser despedaçada. Ao mesmo tempo que quero calor e simplicidade.

Anaïs Nin, In: A Casa do Incesto e Outras Histórias.
(...) Ela sai de casa apressada, vestida com um casaco pesado demais para a época do ano. Estamos em 1941. Há uma outra guerra em andamento. (...) Caminha decidida em direção ao rio, certa daquilo que fará, mas mesmo assim um tanto distraída, observando as colinas, a igreja e um grupo de carneiros, incandescentes, matizados por um vago tom cor de enxofre, que pastam sob o céu enfarruscado. Pára, vendo os carneiros e o céu, depois retoma o caminho. As vozes murmuram atrás dela; bombardeios zumbem no alto, ainda que procure os aviões e não os veja. (...) Ela (...) fracassou. Não é escritora coisa nenhuma, não de verdade; é apenas uma excêntrica bem-dotada. Pedaços de céu brilham nas poças deixadas pela chuva da noite anterior. Seus sapatos afundam ligeiramente na terra fofa. Ela fracassou, e agora as vozes voltaram, resmungando de modo indistinto bem atrás de seu campo de visão, atrás dela, aqui, não, basta virar que elas somem e vão para um outro canto. As vozes estão de volta e a dor de cabeça se aproxima, tão certa quanto a chuva, a dor de cabeça que vai esmagá-la seja lá o que ela for e tomar o seu lugar. A dor de cabeça aproxima-se e parece que os bombardeiros (está ou não invocando todos eles, ela mesma?) surgiram de novo no céu. Chega à ribanceira, sobe e desce de novo até o rio. Há um pescador mais acima., lá longe, mas ele não vai notá-la, vai? Começa a procurar uma pedra. Trabalha depressa mas com método, como se estivesse seguindo uma receita que tem de ser obedecida escrupulosamente para que dê certo. Escolhe uma, mais ou menos do tamanho e da forma de uma cabeça de porco. No momento em que vai erguê-la do chão e enfiá-la num dos bolsos do casaco (a gola de pêlo faz cócegas em seu pescoço), nota, não pode evitá-lo, a frieza de giz da pedra e sua cor, de um marrom leitoso, com manchas esverdeadas. Pára perto da beira do rio, que lambe a margem, preenchendo as pequenas reentrâncias de lama com uma água muito limpa, que poderia muito bem ser uma outra substância, inteiramente diversa daquela coisa amarelada, parda, sarapintada, de aspecto tão sólido quanto uma rua, que se estende uniforme de uma margem à outra. Ela se adianta. Não tira os sapatos. A água está fria, insuportavelmente fria. Pára, a água fria até os joelhos. (...) Continua desajeitadamente (o fundo é lamacento) até ficar com água pela cintura. Olha de relance para o pescador, que usa um paletó vermelho pescando e um céu nublado refletido em água opaca. Quase involuntariamente (parece involuntário, para ela), avança ou tropeça alguns passos à frente e a pedra a puxa para baixo. Por instantes, ainda, não parece nada; parece um outro fracasso; apenas a água gelada da qual pode sair facilmente, nadando; mas nisso a correnteza a envolve e a leva com uma força tão repentina e vigorosa que a impressão é a de que um homem muito forte surgiu do fundo, agarrou suas pernas e segurou-as de encontro ao peito. Parece algo pessoal. (...) Rápida a corrente a leva. Ela parece estar voando, uma figura fantástica, os cabelos soltos, a aba do casaco enfunada atrás. Flutua, pesada, por entre hastes de luz marrom, granular. Não vai muito longe. Seus pés (os sapatos se foram) batem de vez em quando no fundo e, quando o fazem, convocam uma nuvem indolente de sujeira, povoada por silhuetas negras de esqueletos de folhas que param quase imóveis na água, depois que ela some de vista. Fiapos de mato de um verde quase negro enroscam em seu cabelo e no pêlo do casaco e, por instantes, um chumaço grosso de capim lhe tampa os olhos, depois acaba se soltando e sai flutuando, torcendo-se, destorcendo-se e retorcendo-se. (...) Por fim, acaba parando num dos pilares da ponte de Southease. A correnteza a empurra, ataca, mas ela está presa bem firme na base da coluna quadrada, atarracada, de costas para o rio e de cara para a pedra. Enrodilha-se em volta, um braço dobrado sobre o peito e o outro boiando acima da curva do quadril. Um pouco acima dela está a superfície ondeada, brilhante. O céu se reflete incerto ali, branco e pesado de nuvens, cruzado pelo recorte negro da silhueta das gralhas. Carros e caminhões trovejam sobre a ponte. Um menino pequeno, não mais que três anos de idade, cruza a ponte com a mãe, pára na grade, agacha-se e enfia entre as frestas o pauzinho que vinha carregando, para que caia na água. A mãe o chama, mas ele insiste em ficar um pouco mais, vendo o pauzinho ser levado pela correnteza. (...) Ei-los então, num dia no começo da Segunda Guerra Mundial: o menino e sua mãe sobre a ponte, o pauzinho flutuando pela superfície da água e o corpo no fundo do rio, como se Virgina estivesse sonhando com a superfície, o pauzinho, o menino, a mãe, o céu e as gralhas. Um caminhão verde-oliva cruza a ponte, carregado de soldados fardados, que acenam para o menino que acabou de derrubar o pauzinho. Ele acena de volta. E exige que a mãe o pegue no colo, para que possa ver melhor os soldados; para ficar mais visível. Tudo isso entra na ponte, ressoa através de suas madeiras e entra no corpo de Virginia. Seu rosto, comprimido de lado contra o pilar, absorve tudo: o caminhão e os soldados, a mãe e o filho.

In: As horas, de Michael Cunningham.
(...) O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a ... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo o meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer , que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

In: Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, (1944)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

D’O Livro dos Sonhos:

Lélia Almeida.

I
Tive um sonho naquela noite. Dormimos lado a lado. Cada um enrolado num edredon o que não deixava que os corpos se tocassem, tomei da sua mão e toquei seus pés para aquecer os meus, mas ele já não estava mais ali, já tinha partido para uma espécie de profundeza, sua respiração denunciava que ele já não estava ali. Meu corpo ansiava pelo calor do corpo dele, adormeci profundamente também e sonhei. Sonhei que estávamos nus e tentávamos nos amar, mas era muito difícil, ele tinha uma expressão facial de muita tristeza e dor, os corpos se desencontravam, o pau dele, que na ponta tinha uma espécie de cone oriental todo adornado e desenhado, me procurava e tentava entrar em muitas partes do meu corpo, com dificuldades, até que as partes se encaixaram e tudo fluiu com muita desenvoltura e prazer. E havia um animal aquático muito grande na beira de uma praia, que podia ser uma baleia, o animal gozava e de dentro dele saía um líquido espesso, meio gelatinoso que formava uma espécie de membrana viscosa e espessa, branca também, sobre a superfície da areia brilhante da beira do mar, uma membrana que podia ser a vela de um barco, uma tela de linho branco, frágil, transparente e muito resistente, e nela dormíamos da mesma maneira que estávamos na cama, juntos, mas separados, lado a lado, e o mar começava a levar a membrana-barco-vela-tela sobre as suas ondas, e nós sobre ela, adormecidos e entregues.

II
No sonho estávamos sentados numa mesa de bar. Muito próximos. E eu dizia que estava vivendo um momento muito rico, que muitas coisas incríveis estavam acontecendo como se houvesse uma conexão entre os acontecimentos. Ele pegava as minhas duas mãos, muito carinhoso, lembrei da cena do encantamento dos primeiros gestos. E fiquei encantada de estarmos nos tocando, como se isso fosse impossível de acontecer, eu beijava com muita timidez a mão dele e então nos beijávamos na boca e eu dizia. O Mago! E ele fazia uma espécie de bênção sobre as nossas mãos, abençoando, selando o nosso encontro, a nossa aliança. Depois ele me contava dos pais, das férias, que ele talvez visse os pais logo, já que estava perto do aniversário dele, em setembro, e eu pensava que ele tinha uma vida normal. Depois ele saía do bar e eu não sabia se ele voltaria porque tinha deixado todas as coisas dele no bar. E quando ele voltava estava fumando, o que era muito atípico. E eu olhava para o rosto dele que tinha aquela sombra de quem tem uma barba muito cerrada, e estávamos em pé indo para um jardim e eu olhava para o rosto dele, transformado agora, a boca estava pintada de alactaka, um corante, do kama sutra, com contornos pretos e ele era um djin, um gênio, um árabe.

III
Sonhei contigo. Tinhas vindo me visitar e eu estava muito feliz, parecíamos duas meninas brincando, muito íntimas, e estávamos as duas felizes. Eu abria as gavetas do meu quarto e te mostrava os meus cadernos de escrever, de capas de cetim, forrados com tecidos coloridos e sofisticados, os cadernos onde vou anotando o que depois escrevo. Mostrava um a um e adorávamos o ritual. Noutras gavetas havia jóias, anéis com pedras grandes, exageradas, outras mais delicadas, lenços, perfumes. E tu me dizias como era bom poder ver as minhas coisas femininas. Então pedias para que eu posasse para ti. Já tinhas pedido para a tua colega que era muito loira, e ela não tinha querido. Eu fiquei muito envergonhada e muito envaidecida, relutei em aceitar porque havia familiares meus por perto, mas eu queria sim. Então eu disse que, mesmo não sendo bela e nem proporcional, já tinha posado para um escultor uma vez. E me explicaste: não vou te desenhar, vou desenhar as tuas partes. Vais sentar nua numa superfície de vidro e eu vou estar embaixo vendo o desenho que forma as tuas partes repousadas no vidro. Isto é a lagarta. Prensada no meio das páginas.

IV
Cordélia, me ocorreu, a caçadora. Uma amiga do tempo da faculdade, a quem eu não via a muito tempo me apresentou a menina e disse, seu nome é Cordélia, como a da floresta. Um sonho iniciático, depois eu estava no meio de mulheres árabes, todas muito ricas trajadas com peças e brocados de ouro e muitas jóias e eu adorava o toque daqueles tecidos e as cores, adorava ser rica, e um homem alemão muito belo, com um carro potente e grande, me cortejava, ele tinha as pernas muito feridas. Depois todos tinham crescido, os filhos tinham se multiplicado, e eu e as mulheres tínhamos envelhecido. E éramos mulheres mais velhas com espírito de meninas. Eu ia de carro com a minha mãe ou com alguém como ela para um lugar no interior e passávamos por uma construção de pedras amarelas muito antigas no meio da floresta com esculturas de bronze e basalto, pombos, alguém disse, o colar dos pombos, o calor dos pombos, das pombas, eu disse, eu adorava vir a este lugar quando eu era pequena. E eu era conduzida a um lugar onde estavam outras mulheres que eram mães, como mães que iam me iniciar, como a mulher árabe aquela, a ricamente vestida. Atravesso uma passarela submersa em águas verdes e aparentemente pouco limpas. Há homens de muitas tribos ouvindo músicas estridentes, são homens rudes, fortes, viris. Há um homem deitado numa banheira, com calção de banho, ele geme, ele se confunde com o alemão doente, mas ele geme de dor no peito, no braço esquerdo, no coração, é um gemido de prazer, sexual quase, embora ele pareça velho e doente. Quando passamos pelo prédio de pedras amarelas eu lembrei do antigo hospital de tuberculosos, um edifício belo e imenso, de terracota, perdido no meio da paisagem da Catalunha, com os ferros dos portões que pareciam rendas. Tinha uma aura ao redor do prédio, quase uma bruma e depois eu ouvia vozes, choros muito fracos de meninos abandonados de peitos presos e corpos febris em pijamas listrados, desbotados, de cores neutras. E há um o caminho de folhas secas, avançamos num carro pequeno e não entendo porque visto roupas que ora me fazem sentir ridícula, ora muito confortável. E os véus transparentes, uma mulher diz, você precisa da licença da sacerdotisa para escrever. Avançamos, o hospital parece estar suspenso na planície, lá longe, mas perto o suficiente para que eu ouça os gemidos, os suspiros. E há, no fim de um caminho de terra vermelha, que não está pavimentado, um portal. Um umbral, um semicírculo de flores, jasmim, lágrimas-de-Cristo, brincos-de-princesa, sapatinho-de-judia, tudo misturado, lírios em algum lugar. Um cavalo branco passa, faz frio neste lugar e folhas secas em abundância, douradas, revoam, una hojarasca. Há uma inscrição muito antiga no frontispício do portal, ao lado do antiqüíssimo relógio de sol. Diz: as Belas Artes. E eu sou uma sacerdotisa. Mas no sonho não há só ruínas. Tudo reluz agora. O corpo, as roupas, a textura da seda. Sento no banco de pedra na frente do portal, dispo as roupas desconfortáveis e visto o véu branco e transparente. Meu corpo é velho e forte, solto os cabelos, acomodo as pernas na pedra fria, baixo a cabeça, o queixo quase encosta no peito, olho meus seios caídos, há muito deixei de ser uma menina, sou uma mulher muito antiga e carrego nas minhas carnes brancas os mistérios do tempo. Respiro fundo. Opalinas. Volto ao leite, a um leite impossível, improvável como o portal das Belas Artes e suas flores. E descanso finalmente numa espécie de paz há muito desejada. Fecho os olhos e oro. Oro em paz. O silêncio é o meu elemento agora, sob o véu. O silêncio infinito. O silêncio sem fim. O silêncio onde são gestadas as palavras.


In: O Livro dos Sonhos, 2008. (Fragmentos inéditos).

sábado, 24 de outubro de 2009



Os príncipes da cidade sem alma:

Lélia Almeida.

O cemitério municipal. Vamos visitá-lo. Há uma capela nova. Lá estão os meus avós paternos. Estão as fotos. A foto da Zizi é a do dia do aniversário de 80 anos dela, quando o Pedro tinha um ano e era o neto mais novo. E a foto do Dagoberto, o filho mais velho da Zizi. Olho para a foto e lembro dele jovem, quando eu era menina. No olhar dele, o jeito, a expressão de vários homens da minha família. Sobrinhos do meu pai, meus irmãos, meus primos. E lembro do olhar amoroso deles sobre mim. E a falta deste olhar é um vazio sem fim.

Somos de Rivera, escolhemos, eu e meu irmão. É uma questão de afinidade. Amor à língua, à comida, às ruas, às músicas, às pessoas. Há um jeito de ser, de outra consistência, de outro fundamento, diz o meu irmão. Comemos mozarela na City, milhojas pequenas, com pomelo. Chove, olhamos a fachada das casas antigas, e lembramos de um tempo em que éramos como morcegos jovens e varávamos as noites naquelas ruas silenciosas, vagabundos, fantasmas e éramos, mais que irmãos, parceiros, num tempo de muita dor e incompreensão. Ele paga a conta, eu protesto, ele diz que quando ele sai com uma mulher é ele que paga a conta. Digo que não sou uma mulher, que sou uma irmã. E rimos juntos, como nos bons tempos. Quando líamos juntos, quando ouvíamos as mesmas músicas e tínhamos certeza de que nada nos separaria.

As avenidas de Rivera, nos arredores, ampliaram, foram asfaltadas, a cidade floresceu com o free shop, com o dólar. Meu pai sempre disse que Rivera florescia quando Sant’Ana estava na merda. E vice-versa. A cidade, neste momento, floresceu, dizem que o atual prefeito poderá ser o próximo presidente do país. As lojas do free shop parecem de primeiro mundo, as uruguaias falam português fluentemente. O cheiro de perfume caro impregna o ambiente. Tudo sabe a luxo, coisa fina, chique. Na rua principal estão ao hotéis caros, os restaurantes, pizzarias, confeitarias, parrilladas, sorveterias. Nas ruas paralelas estão os botecos, os bolichos, com os produtos locais, sem o charme dos importados. Quesos, raviólis, pan con chorizo, Ripan, postre Riveli, caramelos, chimichurri, yerba mate, carambones, medialunas rellenas, salsa golf, crema hinds, cucarachas para o cabelo, cheiros e lugares, indissociáveis. E as casas antigas, pé direito alto, portas de madeira, janelas com sacadas, pátios internos com clarabóias e vitrôs, casas com almas. E pelas ruas, os ônibus com os nomes dos bairros. Rivera Chico. Pueblito. Enda. Ônibus velhos. Nomes antigos. Almas velhas. Cidades dos meus amores. Caminhamos, eu e meu irmão, sob os escombros. Escombros da nossa infância. Vamos do mesmo jeito, cúmplices, juntos. O que nos une é também de outro tempo. E de outra matéria também. Ele me diz sempre, que sangue não é água. E sei que quando ele está por perto, eu não estou só. De muitas maneiras eu não estou só.

A brincadeira era a de buscar nomes interessantes para os personagens do próximo livro. Mas sempre acontece algo mais interessante nos cemitérios. Os nomes no cemitério de Rivera. Ele entendeu, ele que sempre me entende. O poder das lápides, das palavras escritas e escolhidas no calor da emoção. Uma lápide branca, uma camélia em tom amarelo, Tereza Ponz, te ama tu sobrina. Nomes italianos, espanhóis, muitos vascos, alguns catalães, mas há poloneses e alemães, ingleses também. Árabes, muitos. A mistura é infernal na fronteira, um lugar que se pretende passível de controles, limites, contenções, alfândegas, permisos. A fronteira é o lugar do limite geográfico e da mescla, da mistura. Os nomes nas lápides contam desta história. Meu irmão entendeu. Paramos na frente de um casal. Horacio e Inês Centi. No quiero vivir sin ti. Ela foi primeiro. Ele foi um mês depois. Viveram 30 anos juntos. Nos olhamos e ele diz, Deus me livre um amor assim, eu digo que é o sonho de muita gente. Ele diz que homem e mulher pode ser muito bom, mas que quase sempre é muito complicado. Bom mesmo é irmão e irmã, ele diz, e saímos abraçados do cemitério.

Sorveteria Martinez. Helado de chocolate con granizado. A mesma mulher nos atende. A mesma que nos atendia nos domingos de noite. Quando voltávamos da piscina no verão, o corpo quente, a pele curtida, vermelha. Sorveteria Zun Zun. Sorveteria Martinez. ‘Nossa, ela passou a vida inteira aqui”, eu disse, ele disse, claro, a sorveteria era da família dela, agora é dela. Crema con frutilla, y chocolate caliente, el que endurece.

Um rio que se move ao contrário no tempo. E no espaço, um movimento sem volta. Comportas que se abriram. Desde que o homem do farol entrou na minha vida, dei para ouvir o rio outra vez, suas águas revoltas, imundas, de novo, a me chamarem. E desta vez, o único que sei, é que não sei para onde ir. Minhas lágrimas não param, uma dor represada foi embora de mim, voltei pra casa, voltei pra mim, voltei pra eles, meu pai, meu irmão, a cidade perdida, os escombros, a água suja, a enxurrada. O farol. Um rio que é um campo. A minha perdição. O meu lugar no mundo.

Um desassossego imenso se instalou desde que voltei, a sensação de que blocos imensos e sólidos se deslocaram, as tais placas subterrâneas que provocam de frêmitos a terremotos. Um desassossego todos os dias. Noites mal dormidas, cansaço e fadiga durante o dia, raiva travestida de toda a sorte de excitação, ódios repentinos, escudos, camadas de escudos para não sentir, para não lembrar, para não ver. Meu pai tão amado, velho, caminhando com dificuldade, me acena de fora do ônibus. Olho pela janela, não sei nunca se vou voltar a vê-lo outra vez. Faz as mesmas mímicas de sempre. Me diz que não esqueça de escovar os dentes, de pentear os cabelos, sou criança de novo e ele me faz rir, me cuida. O ônibus indo embora, ele abanando, até o ônibus sumir e o rio me inunda, a falta dele e esta saudade que não tem cabida nos meus anos e na história da minha vida.

Tenho medo que ele morra. E este medo me paralisa. Sou tomada por uma angústia que se transforma em sintomas. Resfriado. Dor no joelho. Olhos cansados. Taquicardia. Dor no peito. Ansiedades sem nome. Meu irmão e eu sabemos que ele está ficando velho. E nos desdobramos para devolver um pouquinho do ouro daquele tempo. Uma piscina para nadar nas tardes quentes de verão, sorvete no domingo. E a mão dele, que mesmo de longe, sempre esteve ali, perto, sempre. E porque algo maior que as minhas dores e mágoas me faz voltar pra casa e dizer que eu ia secar de frio e de saudade se não voltasse, se não chegasse a tempo.

In: Os príncipes da cidade sem alma, 2008. (Fragmentos, inédito).