sexta-feira, 21 de maio de 2010

O que pode uma mulher?

Maria Rita Kelh.


Depois de te perder, te encontro com certeza / Talvez num tempo da delicadeza
(Chico Buarque)

Os argentinos, quem diria! Os últimos representantes daquela escola para homens que aqui no Brasil já fechou, elegeram uma presidente mulher. Ponto pra eles – não tanto pelo aspecto político da escolha, mas pelo antimachismo. Temos também Michele Bachelet no Chile e Angela Merkel na Alemanha. Benazir Bhuto sacudiu a ditadura no Paquistão. A Somali Ayaan Ali, refugiada na Holanda para escapar da lei islâmica, foi deputada pelo partido conservador de lá. As mulheres estão tomando o poder? O mundo vai virar de cabeça pra baixo?
Não nos precipitemos. Mulheres no poder não constituem uma novidade assim tão espantosa. Pensem na rainha Vitória, em Catarina de Médicis e Isabel de Castela. No século XX tivemos Margareth Tatcher, Indira Ghandi, Golda Meir. O poder é um lugar que tolera excentricidades, desde que não alterem seu funcionamento e os compromissos que o sustentam. Mulheres no poder não garantem, como sonhamos nos anos 1960, políticas mais justas, mais humanitárias. Podem ser tão truculentas e injustas quanto os homens. Condolezza Rice não pratica as políticas dos sonhos dos movimentos feministas. Nem dos movimentos negros. Se o feminismo lutou pelo reconhecimento de que a diferença entre os sexos não implica em diferenças de talento e competência, temos que admitir que também não garante diferenças éticas.
As poucas mulheres que se destacam em altos cargos políticos interessam menos do que a trajetória de milhões de anônimas para as quais o verbo poder importa mais do que o substantivo. Hoje se diz que as mulheres “estão podendo”. O início deste deslocamento empreendido pelas mulheres em direção ao território ocupado pelos homens foi registrado por Virginia Woolf em seu diário: ela escreveu que na Inglaterra da década de 1920 a humanidade estava se transformando, ou pelo menos 50% dela, ou seja, as mulheres.
Ocorre que os 50% de mulheres não se moveram de seus lugares tradicionais sem abalar a suposta identidade da outra metade. Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um ao outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo.
Até pelo menos a segunda metade do século XIX, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de que? De visibilidade, diria Hanna Arendt. De visibilidade pública.
O termo é impreciso, pois nunca faltou visibilidade ao corpo feminino. Nem sob os véus islâmicos. Nem sob o jugo torturante de anquinhas e espartilhos. Do que as mulheres estiveram privadas até o século XX foi de presença pública manifesta não em imagem mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social. Ouvi do filósofo Bento Prado, em 1988, uma brilhante interpretação para a provocação lacaniana que diz “não existe A mulher”. Bento sugeriu que a inexistência de um significante que represente, no inconsciente, o conjunto das mulheres, deve-se ao fato de as mulheres, durante séculos, não terem inscrito sua experiência no campo da cultura. Foram objetos do discurso dos homens, não sujeitos de um discurso próprio.
No último século, o avanço das mulheres sobre todos os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita “natural”, entre os sexos. Isto produziu nos homens o efeito de uma perda. Ou de uma feminização. A masculinidade, construção discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente abalada. A pergunta freudiana, “o que quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: o que é um homem? O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?
Se na vida pública os campos já se embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece banal: um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher. Isto torna o poder sexual das mulheres quase intolerável, com efeitos terríveis de aumento da violência doméstica. Se a satisfação da mulher é a prova dos nove da masculinidade do homem, pode-se dizer que esta é hoje uma fortaleza sitiada. Ou uma “identidade” (aspas necessárias) acuada. Os acuados, como se sabe, costumam ficar violentos – mas a brutalidade não pode ser o último avatar da masculinidade.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz – supondo, como é provável que ela pense, que o problema seja apenas dele. Supondo que, no sexo, alguém possa satisfazer o outro por completo. Outro aforismo provocativo de Lacan, “não existe a relação sexual”, refere-se à impossibilidade de complementeriedade perfeita entre os sexos. Até mesmo o casamento, que na modernidade inspirou-se na idéia de que homem e mulher poderiam formar dois-em-um, já não é o que prometia ser.
Resta a histeria, esta forma de sofrimento neurótico que muitos psicanalistas (homens) consideram como o paradigma da feminilidade. A histérica acredita n’O Homem como detentor do falo – o que a torna irresistível para os que ainda esperam manter os territórios masculino e feminino rigorosamente diferenciados. Só que a demanda histérica é impossível de satisfazer, o que acaba por desmoralizar o poder masculino. A histeria seria uma espécie de “feminismo espontâneo”, na expressão de Emilce-Dio-Bleichmar: uma recusa do lugar estereotipado de castradas aliada à ignorância sobre o caráter simbólico do falo e da castração.
A alternativa seria a invenção de uma nova arte erótica, mais de acordo com as possibilidades de troca que já estão abertas, embora mal aproveitadas, a partir das novas configurações do masculino e do feminino. A relativa feminização dos homens e a recém conquistada “masculinidade” nas mulheres podem contribuir para romper os automatismos sexuais que sempre empobreceram a experiência erótica de uns e de outras. Se a delicadeza não precisa estar toda do lado das mulheres, os homens já não precisam se garantir pela força. Nem pela brutalidade.
Alguns meninos e meninas das novas gerações pós-feminismo sabem disso. Mas é preciso coragem e um pouco de imaginação para ultrapassar a miragem fálica que estereotipa a diferença sexual. As mulheres, que já nasceram “sem nada a perder”, poderiam ensaiar a mestria nas artes eróticas que a imaginação literária há muito lhes havia reservado.

http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=166

quinta-feira, 20 de maio de 2010

(...) O Ministro é um homem belo. Na verdade, um dos mais belos da corte. Por onde ele passa, com seu porte principesco, ressoam suspiros mortais. É um homem de estatura alta e formas perfeitas, dentes exatos e mãos grandes. Beleza, muitas vezes, é simplesmente proporção. Quando ele passa todos nos sentimos assim, com vontade de ser belos. Mas a mim ele nunca enganou. Tem olhos tristes e mão frouxa na hora do cumprimento. E homens assim, com a licença da informalidade, não dão no tranco.
O Ministro jamais olharia com interesse para uma mulher como eu. De carnes fartas e olhar curioso. Mas sua ascendência árabe falou mais alto. Os seus absconsos genes de lúbricos sultões orientais, que se esfregaram em odaliscas de pele alva, olhos delineados e bugigangas douradas, o traíram.
Mas isso ele só descobriu naquele fim de semana em que tivemos que nos encerrar juntos em lugar quedo e não sabido, para terminar a apresentação do Plano Nacional na minha casa, longe de tudo e de todos.
Ali ele se desvelou. E se revelou. Tal qual um príncipe que gostava de brincar de ser um escravo ou um grão-vizir transformado em criado. E eu, a mais leal e subalterna das assessoras, transformada agora numa princesa oriental.
Ele me pediu, então, que para este fim de semana de trabalhos, e para que o tempo rendesse ao máximo, que eu elaborasse um manual de instruções.


Instrução no. 1

Meu caro Ministro, vamos nos encontrar e cumprir com as regras da civilidade, não se preocupe. Iremos até a minha casa e arranjaremos algo para comer, vou me permitir um tratamento menos formal para estes dias de trabalho, o que facilitará também o resto. Você abrirá o vinho e eu providenciarei o jantar. Neste momento, ainda no início dos preparativos, você deverá deixar a cozinha para arranjar-se, eu irei até o meu quarto passando pelo corredor interno, você estará se aprontando no seu aposento e não nos encontraremos. Deixe tudo como está, o vinho aberto e a comida por fazer. As portas do meu quarto estarão fechadas, também as janelas, a escuridão será intensa. Haverá, na maçaneta da porta, uma máscara, destas que se usam nos aviões para dormir. Vista-a, nós não poderemos nos ver até que eu ordene. Trate de estar devidamente pronto, ou seja, com uma ereção completa. Você vai adivinhar o local da cama, onde estarei a sua espera. Não tire a roupa, eu também estarei vestida, será muito rápido, pois teremos o jantar a meio andar. Dispa-se o mínimo possível, o suficiente para o que deve realizar. Vou estar de costas, não nos veremos, vou estar, na verdade, de quatro, as carnes muito brancas reluzindo na escuridão da peça, apenas descobertas. Não haverá beijos, nem olhares, nem carícias, nem promessas, importantíssimo, nada de preliminares, nada de preparação. Você entrará no quarto, adivinhará meu corpo sobre a cama e simplesmente me penetrará, por trás, com força. Me penetrará com firmeza, até gozar. Não se preocupe com nada, vou conduzi-lo com rigor, estarei pronta, a espera, e você, simplesmente, cumpra com as instruções. Só isso, me penetre com força até gozar. Só você deverá gozar, este é o acordo, que você goze, e sem tardança. E que depois se retire então, de volta para a cozinha onde nos encontraremos para continuar a preparação do jantar. A brancura da minha pele imersa na meia luz o guiará. Estarei pronta também, encharcada na espera, o anel expectante, as pregas úmidas, este é o chamado inexorável, o cheiro de nozes almiscaradas que sai das minhas entradas, você será atraído pelo cheiro, e tocará levemente com a ponta do fuste os meus lábios humectantes, muito leve, só este contato que lhe arrancará um rugido do peito ofegante, calma, logo você poderá me enfiar, pense nas nossas línguas que porventura se tocariam, a ponta de uma procurando a outra numa simbiose perfeita, e antes disso, a respiração apenas, o hálito das nossas bocas procurando na escuridão um alento, minha serpe aflita enredada na sua, pense nas nossas línguas duras e espere, eu me alojarei agora, o rabo branco a movimentar-se em movimentos orbiculares indo ao encontro de si, assim, este é o nosso único ponto de contato, você pode sentir como as partes de buscam e se conhecem, e também que não é preciso ver para poder sentir, como cães e gatos e porcos seremos, o fuste indo para a casa, uma choupana pobre e aconchegante no meio de uma floresta, e a casa em chamas, a idéia é essa, encontrar o mapa da caverna e entrar. Os movimentos em círculo, os meus lábios escancarados babando à espera da vara, assim, entre, agora, a dança redonda essa que facilita a entrada, um anel a ajustar-se, através do movimento, ao volume e ao cumprimento, parabéns, Excelência, o tamanho é perfeito e a ereção severa, movimentos ascendentes, coordenação, cuide da respiração, e fique imóvel, eu conduzo os movimentos, o rabão nacarado em movimentos circulares a penetrar-lhe o cacete, um círculo e para dentro, outro círculo e avante, assim, assim, isso, Excelência, esse é o ritmo, agora você está inteiro dentro de mim, em harmonioso encaixe, e sinto a sua surpresa, seus gemidos a denunciam, uma mulher de rabo tão largo e carnes tão fartas com a quirica apertadinha e justa como a de uma infanta. E você desfruta desta surpresa, geme óhs e ais significativos e vou ajustando a melada cada vez mais profundamente na sua haste aflita. Assim, agora você está seguro, e agarra os gomos com força e entra frenético, o cheiro adocicado é quase insuportável, está perfeito assim, esse é o ritmo, os movimentos circulares permitem que, ora sim ora também, a castanha roce a base da vara e intensifique a velocidade da dança, e o saco tal qual um pêndulo premendo as minhas coxas, socando, eu sei que você vai gozar, Excelência, posso sentir a sua urgência. Contenho as contrações, essas que pressionam como uma boca de criança o fuste cego e o chamam, mais e mais, para dentro, assim, meu Soberano, assim, o jorro quente derramado, um leite ácido que sabe a nozes agora e que me inunda. Relaxo os joelhos e você desaba sobre o meu corpo, cobre-o com sua superfície grande e deixa-se ficar assim, ofegante, sentindo o cheiro dos meus cabelos suados. Não tire a máscara, descanse, seus braços fortes agarrados aos meus, enquanto você volta, Excelência, náufrago.


Lélia Almeida.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, Texto inédito).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida se espande ou se encolhe de acordo com a nossa coragem.

Anaïs Nin.
...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ...
(Sá de Miranda)

terça-feira, 18 de maio de 2010


Volver

Lélia Almeida.

Voltei para a casa materna depois de muitos anos de ausência. A última vez que estive lá, minha mãe me segurava firme entre as suas pernas jovens e penteava, enérgica, os meus cabelos. Trançava os meus cabelos. E enquanto trançava, desenhava o meu destino. Minha mãe nunca soube muito bem o que fazer comigo, a casa das mulheres também estava vazia quando ela chegou, depois da partida prematura da minha avó, a pintora. Vou contar sempre esta história, repeti-la, para que ninguém esqueça de lembrar o preço que se paga quando as coisas ficam fora do lugar. A casa se encheu do desamparo das meninas sós e dos espelhos escondidos sob a gaze branca da névoa do tempo. Voltei para a casa materna, depois de errar, por muito tempo, perdida. Os espectros da minha avó, o da minha mãe, rondam a casa, agora. Tudo sabe a desolação, um travo de amargura, objetos e sentimentos que não servem mais, se misturam. Antes de abrir a janela retiro os lençóis que vedam a superfície dos espelhos. Acendo uma vela e os objetos podem, finalmente, relaxar, na sua imperfeição. A jarra de porcelana para o leite, o açucareiro trincado. As achas de lenha que pareciam esperar por mim, ao lado da lareira. Acendo o fogo. E invoco Héstia, a mais caseira das deusas virgens. Deponho as armas de Artemisa sob a soleira da porta e deixo-a ir. É preciso esgotar os arquétipos para que eles nos liberem também. Invoco Héstia. O fogo é firme e suave. Vou orar antes de dormir. Só abrirei as janelas ao amanhecer. Ave Maria, cheia de graça. Depois da noite fria e escura abrirei a janela. Bendita sois vós, entre as mulheres. As brasas adormecidas sob as cinzas. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Muitas cinzas, o lume durou até tarde. E sempre me perguntei sobre como teria sido a história do mundo se no colo da Virgem tivesse uma menina. Santa Maria, mãe de Deus. Sonhei com Ana, a mãe da Virgem, esta noite. Ela me dava de beber em suas mãos. Rogai por nós, pecadores. Ela me dava de beber em suas mãos um leite morno e alvo. Agora e na hora da nossa morte. Abro as janelas, reavivo as brasas, o fogo reacende. Amém. Amém para todas as transformações. Para uma casa velha que pode voltar a ser um lar. Para as almas das mulheres sábias. Começo a limpeza, é uma faxina, na verdade. Meu corpo velho adquire a agilidade de movimentos de uma menina. Sacudo os lençóis brancos e empoeirados. Limpo os espelhos com a manga do suéter velho. Lá estou eu, no fundo do espelho. Cabelos brancos, olheiras. Há muito que fazer. Espantar os medos, aquecer a casa e cuidar das meninas da família. E assim, acolher as meninas do mundo. Vinde a mim as meninas. Eu voltei, depois de muito vagar por territórios inóspitos, ao calor da casa materna. Estou pronta para ocupar o meu lugar e, como os objetos que apenas esperavam ser descobertos, poder, finalmente, ser eu mesma. A mãe de mim.

In: Anovaela, texto inédito, 2008-2010.

domingo, 11 de abril de 2010

Encontraram os corpos dos meninos desaparecidos em Luziânia. As Mães de Luziânia vão dormir esta noite. Pois agora elas sabem o que aconteceu com seus filhos desaparecidos há três, quatro meses. Uma atrocidade. Um horror. Mas agora elas sabem. Valdirene, uma das mães me disse na audiência no Senado em março: Dra. Lélia, a gente só quer saber o que houve com os meninos, se a gente não achar eles, a gente quer os ossos pra enterrar. Agora elas sabem. Passei o fim de semana pensando no que vai ser de cada uma delas. De tudo o que tenho aprendido com elas. De como me ensinaram que são os meninos pobres das periferias deste país as grandes vítimas das piores violências. E da inconformidade delas com o descaso governamental com os familiares das vítimas.
Quem ouve a grita destas mulheres?

sábado, 27 de março de 2010

(...) Que ancestral fala por mim? Não posso viver ao mesmo tem na minha cabeça e no meu corpo. Por isso não posso ser uma única pessoa. Posso sentir várias coisas ao mesmo tempo. O mal do nosso tempo é que não há mais grandes mestres. O caminho do nosso coração é coberto de sombra. Precisamos ouvir as vozes que nos parecem inúteis. Precisamos que os cérebros se ocupem do muro da escola, d asfalto, da assistência social, do zumbir dos insetos. Precisamos encher as orelhas e os olhos de todos nós com coisas que sejam o começo de um grande sonho. Alguém deve gritar que construiremos as pirâmides. Não importa se não construirmos. Precisamos alimentar o desejo e esticar os cantos da alma como um lençol sem fim. Se querem que o mundo vá adiante devemos nos dar as mãos. Precisamos mesclar os ditos saudáveis com os ditos doentes. Vocês, sãos! O que significa a sua saúde? Os olhos da humanidade miram o abismo no qual todos estamos mergulhando. A liberdade é inútil se você não tem coragem de olhar em nossos olhos, de comer e beber e dormir conosco! São os ditos sãos que levaram o mundo ä beira da catástrofe. Homens, escutem! Em vocês, água, fogo e depois cinzas. E os ossos nas cinzas! Os ossos e as cinzas! Aonde estou quando não estou na realidade ou na minha imaginação? Eis um novo pacto que o mundo: deve haver sol à noite e nevar em agosto. Grandes coisas acabam, só as pequenas permanecem. A sociedade deve ser unida e não fragmentada. Basta observar a natureza para ver que a vida é simples. Precisamos voltar ao ponto de partida, ao ponto onde tomamos o caminho errado. Precisamos voltar ao fundamento da vida sem sujar a água. Que tipo de mundo é este se um louco que lhes diz que devem envergonhar-se? Música agora. (...) Ó mãe! Ó mãe! O ar é aquela coisa leve que se move em torno da cabeça e se torna mais claro quando você ri.

In: Nostalghia de Andrei Tarkovsky.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O voto das mulheres: luvas de pelica e nenhuma cosmética.

Lélia Almeida.

Fato inegável é que as mulheres foram figuras de protagonismo na imprensa do país desta semana. Las Damas de Blanco, ou las locas de La Habana, Reyna Luisa Tamayo e Laura Pollán, de Cuba, chamaram o Presidente Lula e o Comandante Fidel às falas, clamando por justiça pela morte dos seus filhos. As Mães de Luziânia estarão, amanhã, em audiência pública no Senado, trazidas pelos pelo Senador Cristóvão Buarque, para indagar sobre o desaparecimento dos seus meninos. E as pesquisas apontam que o maior índice de reprovação do governo Lula vem das mulheres e que o maior índice de rejeição à candidata Dilma, é feminino também.
Algumas explicações seriam apontadas pelo observatório de Gênero do governo para explicar o fenômeno: a associação, cultural e histórica, da figura feminina ao âmbito privado e doméstico e, portanto, a interpretação óbvia de que as mulheres não podem ocupar cargos públicos e de poder. Nada mais classe média do que esta explicação. Há, historicamente, uma multidão de mulheres, cujas linhagens e gerações, sempre trabalharam fora de casa e jamais souberam o que era ficar em casa cuidando dos filhos e dependendo de um marido provedor.
A questão é que os marqueteiros de plantão se perguntam pela fórmula mágica, pela composição da beberagem que deverão ministrar à candidata Dilma, que qual uma passiva Galatéia de Pigmalião, deverá se travestir em personagem infalível para conquistar esta exigente fatia de votos, enquanto repetem sem respostas o bordão freudiano: afinal, o que querem as mulheres? E o que querem as mulheres brasileiras? O vão querer as mulheres brasileiras na hora de votar?
A maioria das mulheres brasileiras é pobre, vive em condições desumanas e não lhes são permitidos grandes sonhos nem delírios. Elas querem poder trabalhar, cuidar dos seus filhos e sobreviver com dignidade. Não é muito o que elas querem e, portanto, não há como enganá-las. Não há cosmética que as convença.
Gosto do de lembrar o filme do espanhol Pedro Almodóvar, Tudo sobre minha mãe, dos anos 90, quando a personagem Amparo, que é um travesti, fala sobre ser autêntica, mostrando tudo o que nela é postiço e dizendo que a medida da nossa autenticidade é o quanto realizamos daquilo que sonhamos ser.
Penso que o mistério do voto das mulheres, um assunto tratado por alguns, com luvas de pelica, talvez possa ser desvendado de maneira fácil. Eu, que sou uma cidadã comum e que ouço as mulheres brasileiras há muitos anos, diria aos magos de plantão, que não há receitas miraculosas. E diria à Ministra Dilma que a fórmula para conquistar o voto das mulheres brasileiras, é simples: Seja você mesma, Ministra Dilma. Não sucumba aos aventais xadrezinhos, aos ares de vovozinha e nem às falsas pérolas. Nada disso combina com a senhora. As mulheres deste país não são burras, sabem o que querem e sabem que a medida da autenticidade é a única que vale, lá, no frigir dos ovos.
Represente apenas a si mesma, Ministra Dilma.
E represente, assim, as mulheres brasileiras, que são bravas e não desistem nunca.
E tenha a certeza de que, então, elas saberão escolher em quem votar.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mulheres vestidas de branco:

(Para las Damas de Blanco, de Cuba)

Lélia Almeida.

Outro dia vi a Marília Gabriela entrevistando o Jô Soares. No meio da entrevista ele comentou sobre uma medalhinha que ela usava num cordão, no pescoço. Era de uma santa, não lembro qual. Falaram da santa, dos milagres e o Jô falou que a história da aparição das santas, das santas, que são todas uma espécie de desdobramento da Virgem Maria, e de tudo o que o mito mariano encerra, sempre se dá, na história do mundo, em momentos limites. De abuso. Ele explicou, que quando a racionalidade atinge as raias da loucura ou quando o caos é muito grande há uma aparição da santa, em algum lugar, como se um princípio feminino viesse ordenar o caos novamente.
Há muitos anos atrás, só para lembrar aos mais jovens, um grupo de mães argentinas, desesperadas, começou a desfilar com lenços brancos na cabeça, na Praça de Mayo, em Buenos Aires. Bordados nos lenços brancos, o nome dos filhos desaparecidos, mortos, assassinados pela ditadura argentina. Foi o movimento iniciado por elas, entre outros fatores, que deu visibilidade ao mundo sobre o que acontecia na América Latina naquele momento.
O filme do Juan José Campanella, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, El secreto de tus ojos, tem como pano de fundo uma história que os argentinos, assim como os alemães e outros, têm que, a cada geração, têm que revisitar, num movimento de lavar a roupa suja, e que parece ter um significado muito simples: com os mortos não se brinca. Eles voltam. Eles precisam ser enterrados com dignidade. Eles clamam por justiça, a que for.
As Mães da Praça de Mayo me lembram Antígona, que desafiou as leis dos homens para enterrar os seus mortos. E elas me lembram as mães de Angola, as Mulheres da Paz do Nepal, as de La Ruta, as de Guernica, as mexicanas de Tlatelolco, as Mães do Rio, as do Espírito Santo, as mães de Acari, as de Vigário Geral, e as Mulheres da Paz.
Quando vemos mulheres de branco lutando por paz e denunciando que os seus filhos foram mortos gritando por justiça, temos um entendimento imediato do fenômeno, estamos no registro de um arquétipo, de uma forma de conhecer e de saber que ultrapassa qualquer racionalidade. Estamos no território do mito, do símbolo, e uma verdade então nos é revelada. Uma convicção: isto não pode ser. Isto não.
Nesta noite, me persigno junto com todas as mães do mundo, e oro. Mas ninguém nos ouve. Somente nós, as mães do mundo, ouvimos um poderoso murmúrio subterrâneo que nos desperta e nos irmana nesta noite triste.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

D'As gregas do mangue:

Lélia Almeida.


Javalina

Cenário: Pavilhão Feminino da Penitenciária Francisco D’Oliveira Conde, de Rio Branco, no Acre. Um galpão fechado, com muitas mulheres trabalhando em máquinas de costura, confeccionando camisetas. Algumas têm berços com crianças pequenas ao lado delas, outras amamentam, as demais trabalham. Este cenário pode ser uma fotografia também. Esta foto é um grande pano de fundo. Em cena, no palco, apenas uma mesa, separada por um vidro, onde Javalina conta, em monólogo, para alguém a quem ela chama de Dotôra, a sua história. É um monólogo e, portanto, só há uma atriz em cena. Ela conta a sua história para o público. Cada fragmento pode ser falado por uma atriz diferente, cada uma delas representando uma mesma personagem, mas com jeitos diferentes, para dar um pouco a idéia de dissociação, desintegração da personalidade, do psiquismo. Ela deverá estar mais velha a cada nova aparição.


Parte I

- Pra senhora me compreender, a Dotôra tem que saber de uma coisa que não é todo mundo que sabe: a minha cabeça não é boa. Nunca foi boa. Agora já me explicaram que tenho uma doença, uma moléstia, sabe, uma doença mental, como se diz. Pois é o que eu tenho. Porque ninguém que tenha uma cabeça boa fazia o que eu fiz. Mas eu fiz e sei que metade do motivo é esse, que a minha cabeça não é boa, que ela falha, Dotôra, não sei se a senhora acredita nisso, em cabeça doente e essas coisas, mas se a senhora acreditar, vai ficar mais fácil de me entender. Outra coisa a senhora tem que saber, antes que eu comece a lê contar essa história, que o meu nome não é Javalina, o meu nome de verdade, a minha graça, que é o meu nome de pia também, como se diz, é Jovelina. Agora a senhora já sabe quem sou. Sou JO-VE-LI-NA e não tenho uma cabeça boa.
- Foi a minha avó materna que escolheu o nome, ela é de Porto Velho e escolheu o nome porque lá tinha uma história de cordel que contava A Triste História da Princesa Jovelina. Que era a história de uma princesa que ia se encontrar com o amado dela, que era pobre, era um encontro proibido, num sabe, e no meio do caminho ela era comida por uma onça. E o amado nunca mais ficava sabendo por que ela não tinha aparecido no encontro. E louco de tristeza ele se atirava dum penhasco. Minha avó adorava essa história, achava triste e achava o nome Jovelina muito fino. Minha avó queria ser fina, era mulata ela, e jurava que era branca, contava essas histórias e muitas outras que ouvia na casa dos ricos onde trabalhava de lavadeira. E contava essas histórias pras outras lavadeiras, que achavam ela esquisita também. Pensando bem, hoje, acho que ela devia ser meio ruim da cabeça que nem eu. Mas lembro dela penteando meus cabelos, puxando meus cabelos pra que eu ficasse um pouco branca também, alisava meus cabelos com óleo de mocotó, eu ficava reluzente e fedida, mas não importava porque ela dizia, minha princesa Jovelina e tudo ficava bem quando eu tava perto dela. O meu tormento começava quando eu ia pra escola e começavam a me chamar de javalina. Não sei se a senhora sabe o que é uma javalina. Javalina é a fêmea do javali, aquele porco do mato que tem umas presas enormes e é furioso. Eu odiava que me chamassem assim e o que eu mais queria mesmo era me transformar numa javalina e dar cabo daquela gente que, no fundo, não gostava de mim porque eu era pobre e negona. Mas quando eu pensava na javalina eu pensava era na onça que tinha comido a princesa. Ela tinha comido o coração da princesa e então ela tinha ficado forte e nobre como a princesa. Tinha outra história também, mas nem vou mais lembrar agora, de um prato de louça inglesa que a minha avó guardava, e que contava a história de uma princesa e de um rouxinol. Não sei se a senhora conhece, mas agora eu nem sei mais porque comecei a contar esta história, enfim, já me esqueci. Alguma razão deve ter porque tudo o que a gente pensa tem um motivo, mesmo que a gente não saiba que motivo é esse. Assim como tudo o que acontece com a gente obedece a um plano divino, que Deus sempre sabe o que é bom pra gente. Que Deus é pai, e em alguns casos, Dotôra, Deus é mãe mesmo. O pensamento é coisa difícil de manejá viu, a gente sabe tudo o que está ali na cabeça da gente, entende tudo, de onde veio e pra onde vai e quando vai falar, puf, se desmancha, como nuvem, como bolha de sabão, fica tudo desmanchado e ninguém entende o que a gente quer dizer. Eu sou melhor de pensamento do que de falação. O meu pensamento é límpido que nem água do córrego, aí quando eu falo tudo são pedras, pedregulhos, seixos, uma enxurrada de sujeira e foi-se. Nem sei mais o que queria contar, uma complicação colocar o pensamento nas palavras. Por isso que ninguém me entende, por isso que ninguém entende o que eu fiz, por isso que todos tentam me confundir. Mas eu sei que não é empresa fácil vestir as palavras com a roupa do pensamento, elas ali nuinhas e ele como uma roupa apertada, ou muito frouxa, a senhora não acha? E a medicação embaralha o meu pensamento, desde que comecei a tomar medicação para a loucura que o meu pensamento me falha, não me socorre na hora que mais preciso dele, e então também não consigo mais falar porque as palavras se desmancham. Só se a senhora já teve alguma doença da cabeça alguma vez é que a senhora vai me entender, senão a senhora vai pensar que eu sou só uma doida a mais, como todo mundo. Mas não sou não. Eu ficava tão furiosa quando me incomodava com aqueles meninos na escola que me urinava toda ou então entrava num transe que só depois de me atirarem um balde de água, então eu voltava a si. Minha mãe dizia que eu me finava. Que uma boa surra ia melhorar tanta fúria. Foi uma freira da escola que conversou comigo que nem gente grande e comecei a me acalmar mais e a encarar os meninos sem medo, ela disse, Jovelina, você já é uma moça e não pode ficar tão mobilizada com esses moleques, você tem de se concentrar e sair dessa fúria e mostrar a eles que você não se importa com essa bobagem, quanto mais você se importa, mais eles incomodam. Foram palavras amigas para o meu pensamento. Não foi fácil, não vou dizer que foi, porque não foi, mas comecei a me acalmar e com o tempo eles pararam de me chamar de Javalina e depois eu mudei de escola. E aquilo tudo que me fazia sofrer tanto ficou pra trás e na escola nova eu conheci o Silas, o meu marido, já falei pra senhora do Silas? Não? O Silas foi o meu primeiro marido, o pai da minha filha, que nasceu quando eu tinha quinze anos, a Cícera. O Silas me batia que nem bicho, era ciumento que só ele, mas me adorava, quando não estava me batendo, me adorava. Morreu de meningite o Silas, quando a minha menina tinha dois anos, fiquei sozinha no mundo com ela e fui pra casa da minha avó. Ali começou outra fase da minha vida, fiquei uma mulherona, adorava baile e muita festa, minha avó dizia pra eu sossegar o facho e cuidar da menina, mas eu descobri que eu gostava muito de foder, a senhora me desculpa a palavra, mas era disso mesmo que eu gostava e andava atrás de cada lixo, só pra me divertir um pouco, eu continuava ruim da cabeça e era ruim de embuchar também, porque só tive esta menina que lê contei, a Cícera. Tem dias que não lembro da menina, que só lembro do Silas, outros dias esqueço do Silas e só lembro da minha avó, desde que fiquei doida e tomo medicação me dou conta de que todo o meu pensamento não cabe da minha cabeça e que para eu lembrar de alguma coisa, outra coisa tem que desaparecer, ir embora. A senhora não sente isso também, parece que o pensamento fica embaçado e que a gente não pode ler ele, não pode lembrar? Às vezes eu sinto até que a coisa tá ali, mas não sei o que é, não sei do que se trata, só sei que tá ali. Então eu penso que isso é um mistério. E já me dei conta que é assim com muita gente porque o pensamento, que é tão grande não pode caber todo na cabeça da gente, que é tão pequena. E o que dizer das lembranças então, se não tem lugar pro pensamento, vai ter paras as lembranças? É por isso que às vezes eu troco, quando penso no Silas não lembro da minha avó, quando penso na menina esqueço do Silas, mas eu sei que eles moram todos dentro da minha cabeça e que é tudo uma questão da gente se organizar, não é mesmo?
O quê, a nossa hora já acabou?
Uma pena viu, a gente se vê na semana que vem então, é sempre bom conversar com a senhora, depois que a Cícera foi embora pra Manaus, nunca mais ninguém veio aqui me visitar. Mas qualquer dia ela vai aparecer, eu tenho certeza disso e peço muito pra Santa Edviges também, de quem sou devota.


In: As gregas do mangue, 2009. (Inédito)

sábado, 30 de janeiro de 2010

D’O Livro dos Sonhos:


Lélia Almeida.


Outro sonho. Caminho atrás das minhas ex-amigas que vão muito contentes e conversando por um caminho que desconheço, não somos mais amigas, e mesmo assim não consigo deixar de amá-las. Elas me conduzem, não conversamos. Meu filho também está junto, como sempre esteve enquanto eu estava com elas. Chegamos a um topo, uma espécie de sopé, numa paisagem magnífica e verdejante. Há uma trilha exuberante que é uma espécie de uma fenda numa montanha, um grande deslizamento, me ocorre, agora que escrevo. Um lugar onde a terra se abriu e elas me olham e esperam que eu decida. Eu devo descer por este lugar até lá embaixo. O medo que eu sinto é inenarrável. É de noite. A terapeuta preside os trabalhos, me orienta. Eu sei que não tenho alternativas. Eu tenho de descer. Começo a descida deitada com os braços cruzados sobre o corpo, como uma morta. Mas tudo é suave neste caminho que parece assustador. A trilha é estreita e a terra está molhada. Há uma profusão de avencas misturada com gravetos e seixos. Sinto escorpiões e aranhas imensas que grudam no meu corpo que está envolto numa espécie de gaze branca, e quando chego ao final do caminho posso retirar com facilidade aqueles bichos que estavam sobre mim. Depois estamos numa casa de madeira, e o Uli, o gato preto que ficou na Casa da Colina, no Ouro Vermelho, me acompanha todo o tempo. Sei que é ele porque vejo a cicatriz na pata e porque ele ronrona do mesmo jeito que antes. É uma espécie de anfitrião, de companheiro de caminho, e eu sei que ele zela pela minha alma. Têm os olhos cansados, ele está velho, mas enérgico. A casa é de madeira e parece uma casa de banhos e de cura para alemães que estão doentes de amor. Quase todos estão velhos e sei que eles estão doentes de amor. Sei pela quantidade de cartas que levam e trazem. E que fazem circular entre eles. A Casa da Colina foi a minha casa de cura. A casa do meu luto e da minha cura, e por isso eu não conseguia sair de lá.



In: O Livro dos Sonhos, 2010 (Fragmentos inéditos).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Veio no biscoito da sorte do restaurante chinês a frase que dizia assim: Esteja a cavalo quando for procurar um cavalo melhor.
Descobri hoje a divindade egípcia que me protege. Tão reconfortante!
Melhor impossível.

Taueret: a sua representação é uma fêmea de um hipopótamo, considerada como a protetora das mulheres grávidas, dos nascimentos e dos que podiam renascer dos reinos dos mortos. A lenda dizia que quando ela afundava nas águas do Nilo, estas subiam e, assim, suas margens se tornavam cultiváveis, trazendo abundância nas colheitas. É simbolizada com seios de mulher, patas de leoa e cauda de crocodilo.
Características: seu protegido tende a ter muita intuição e geralmente gosta de assuntos relacionados à área de esoterismo, ocultismo, astrologia etc. Tem grande capacidade de entendimento e geralmente sua vida é destinada a ajudar a família e o próximo. Tudo em sua vida é muito bem planejado e aproveitado; além disso, garante o bem dos mais próximos.
ABRACADABRA

Abracadabra (Gnóstico)
Esta palabra simbólica aparece por primera vez en un tratado médico escrito en verso por Sammónico, que floreció en el reinado del emperador Séptimo Severo. Godfrey Higgins dice que deriva de Abra o Abar, "Dios", en celta, y cad, "santo". Se empleaba a guisa de talismán y estaba grabado sobre Kameas como amuleto. (W.W.W.) -Casi estaba en lo justo Godfrey Higgins, puesto que el término "Abracadabra" es una corrupción posterior de la voz sagrada gnóstica "Abrasax", siendo a su vez esta última una corrupción todavía anterior de una sagrada y antigua palabra copta o egipcia, una fórmula mágica que significaba en su simbolismo: "no me dañes" y estaba dirigida a la divinidad en sus jeroglíficos como "Padre". Estaba generalmente adherida a un amuleto o talismán y se llevaba como un Tat (véase esta palabra) sobre el pecho debajo de los vestidos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

As grandes horas e a antiga vigília


A multidão era imensa
e a voz começou a dizer
que não podia falar na primeira pessoa,
que os poetas eram inúmeros na Terra.
E todos se entreolharam e viram que eram poetas.
Todos tinham sido humilhados, todos tinham sido roubados,
todos tinham setas no lado esquerdo do corpo.
E já era de tarde e todos aqueles poetas cantaram
as Vésperas do Senhor.
E a noite chegou e todos aqueles poetas ficaram
acordados escutando as grandes horas
e esperando na antiga vigília.
E o galo cantou: e milhões e milhões de sirenas
de fábricas cantaram matinas. E o dia acordou.
E todos aqueles poetas viram o Dia subir.
E subiram com o Dia.
E cantaram Laudes ao Senhor.

(Jorge de Lima - "Tempo e Eternidade" - 1935)