sábado, 19 de junho de 2010

Pergunta feita para Anaïs Nin no livro Em busca de um homem sensível, de 1966:
P: Qual é, para você, a diferença entre avida afetiva do homem e da mulher?
R: Elas são convergentes. Entre os homens e as mulheres há semelhanças e não contrastes. Quando um homem passa a admitir sua sensibilidade ele se aproxima da mulher. Quando os homens "aceitam" esse lado sensível eles ganha mais vida. Foi na análise, sempre considerada como um terreno masculino, que eu tive condições de falar com os homens. Mas todas essas diferenças tendem a desaparecer. Masculino, feminino, são falsas etiquetas. Na verdade, trata-se muito mais de uma luta entre a poesia e a intelectualização.

In: NIN, Anaïs. Em busca de um homem sensível. São Paulo: Brasiliense, 1987.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Segundo o Kama Sutra, os 30 tipos de beijos são:

1. Beijo de lado
Quando as cabeças das duas pessoas se inclinam em direções opostas e o beijo é produzido nessa postura.
Essa é uma das formas mais comuns de se beijar e a preferida dos filmes. As cabeças inclinadas permitem um melhor contato dos lábios e uma penetração profunda da língua. É um modo excelente de começar um encontro amoroso apaixonado e também um modo de estimular a paixão entre o casal.

2. Beijo inclinado
Quando um dos dois coloca a cabeça para trás e a outra pessoa, que a segura pelo queixo, a beija. A doçura e o afeto são as emoções principais que são transmitidas com esse beijo. Um beijo desse tipo é apropriado para as preliminares, quando se prefere fazer sexo com lentidão e de frente.

3. Beijo direto
Quando os lábios dos dois se unem diretamente e se chupam como se fossem uma fruta madura. É um tipo de beijo em que o importante é que além de serem chupados, os lábios sejam mordiscados e levemente acariciados com a língua. É um beijo tranqüilo e demorado, que pode expressar uma forte paixão e que excita muitas pessoas mais do que o beijo de língua.

4. Beijo pressão
Os lábios se pressionam fortemente com a boca fechada. É um beijo para iniciar a relação ou para terminá-la, não convém mantê-lo por muito tempo. Os dentes se cravam na parte interior dos lábios e pode sair sangue.

5. Beijo superior
Quando um dos dois pega o lábio superior com seus dentes e o outro devolve o "carinho" beijando-lhe o lábio inferior. Na descrição deste beijo fala-se que uma pessoa do casal deve tomar a iniciativa e o outro se limita a correspondê-la. Uma possível razão para isso é que o Kama Sutra foi escrito para homens ativos e mulheres passivas. Mas, nos casais atuais, cada um deve ser o mais criativo possível e deixar que a imaginação se expresse como ela é, e não se limite a responder a iniciativa do outro.

6. Beijo broche
Quando um dos dois se prende aos lábios de seu amante, isso é chamado de beijo broche. E se o que realiza o beijo toca seus dentes, a gengiva ou o céu da boca com a língua, esse beijo chama-se "luta de língua".

7. Beijo palpitante
Quando um dos dois deposita sobre os lábios milhares de beijos bem pequenos percorrendo toda a boca e as comissuras (junção dos lábios).

8. Beijo contato
Quando se toca ligeiramente com a língua a boca do outro e faz apenas contato com os lábios.

9. Beijo para acender a chama
É o beijo na comissura (junção) dos lábios que costuma ser dado no meio da noite para incendiar a paixão.

10. Beijo para distrair
O beijo ideal para quando vocês estiverem assistindo a algo na televisão e a pessoa quer chamar a atenção do parceiro com seus beijos. Para começar, lembre-se de que nem todos os beijos precisam ser na boca. Segundo o Kama Sutra, outros lugares recomendados para iniciar a "batalha" são: a testa, os olhos, as bochechas, o peito, os seios, a zona abaixo da boca, a cabeça, a nuca e o pescoço junto com a clavícula.

11. Beijo nominal
Quando um dos dois se limita a tocar a boca do outro, depois de beijá-la, com os dedos.

12. Beijo com os cílios
Quando se percorre os lábios ou o rosto do outro e se acariciam os cílios com beijos.

13. Beijo com um dedo
Quando o amante percorre a boca da amada por dentro e por fora com um dedo.

14. Beijo com dois dedos
Quando o amante fecha dois dedos, molha-os ligeiramente nos lábios da amada e faz uma pressão sobre sua boca.

15. Beijo que desperta
O beijo que se dá nas têmporas, próximo da raiz do cabelo, quando o outro está dormindo, para despertá-lo com suavidade.

16. Beijo que demonstra
Costumam ser dados à noite e em lugares públicos. Um dos dois se aproxima do outro e o beija suavemente na mão ou no pescoço.

17. Beijo da lembrança
É dado quando os amantes estão descansando após a satisfação sexual e um dos dois coloca a cabeça sobre a coxa do outro e deixa-a cair, como se estivesse com sono, beijando-lhe na coxa ou nos dedos do pé.

18. Beijo transferido
Esse beijo ocorre quando o amante, na presença da amada, beija alguém que esteja próximo dele no rosto, ou mesmo alguma foto ou qualquer outra coisa, olhando para ela como se o beijo fosse para a parceira.

19. Beijo choroso
É produzido quando um dos dois sente tanta falta do outro, que na ausência do outro beija seu retrato.

20. Beijo viajante
Ainda que pareça que os beijos sempre costumam se centralizar na boca, colocar os lábios em outras partes do corpo é uma forma de excitação garantida.

21. Beijo no peito
Os beijos mais efetivos nos seios são os que se aplicam primeiro com os lábios, suavemente e com um pouco de saliva. Depois, intensifica-se a pressão e, se a parceira o deseja e gosta desse tipo de beijo, pode-se pegar os seios com os dentes e pressionar ligeiramente. Algumas pessoas preferem sentir um pouco de dor nos seios quando estão prestes a ter um orgasmo.

22. Beijo sem pressa
A chave é prestar total atenção no corpo do outro. Quanto mais controle você tiver e mais se concentrar em acariciar e beijar cada canto do corpo, mais intensa será a sensação de prazer para ambos.

Onde há amor, há dor
Segundo a tradição erótica da Índia, a mordida é um elemento muito importante e o Kama Sutra dá uma boa lista de mordidas com toda riqueza de detalhes.

As mordidas costumam ser dadas em quase todas as partes do corpo e vão desde a mordida brincalhona, mais provocadora que erótica, até o forte apertão com os dentes que costuma ser dado no calor da paixão e faz com que os orgasmos sejam mais duradouros. No entanto, muitos costumam evitar este último tipo de mordida, porque é difícil de controlar e costuma deixar marcas muito evidentes. Também porque durante o orgasmo as mandíbulas podem sofrer um espasmo e fechar com força, o que pode ocasionar feridas.

As mordidas recomendadas pelo Kama Sutra são:

23. Mordida de Javali
O rastro que deixa na pele são como filas indianas, muito próximas umas das outras e com intervalos vermelhos como as pegadas que costumam ser deixadas pelos javalis no barro. É uma mordida que costuma ser feita no ombro.

24. A nuvem quebrada
Consiste em levantamentos desiguais da pele em círculo, produzidos pelos espaços que há entre os dentes. O Kama Sutra especifica que este tipo de mordida deve ser feita no peito.

25. Mordida escondida
É a mordida que só deixa uma intensa marca vermelha e que deve ser dada no lábio inferior.

26. Mordida clássica
Quando se pega com os dentes uma grande quantidade de pele.

27. O ponto
Quando se pega com os dentes uma pequena quantidade de pele de tal maneira que só fique uma marca como um ponto vermelho.

28. A linha dos pontos
Quando essa pequena porção de pele é mordida com todos os dentes e todos eles deixam sua marca. Deve ser dada na testa ou na coxa.

29. O coral e a jóia
É a mordida que resulta da junção dos dentes e dos lábios. Os lábios são o coral e os dentes são a jóia.

30. A linha de jóias
Quando se dá uma mordida com todos os dentes.

http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1883778-EI4788,00.html

quinta-feira, 10 de junho de 2010

"O nosso ouro não é o ouro comum" (Máxima alquímica medieval).

terça-feira, 8 de junho de 2010

Oración para antes de partir:

Que nos amarre siempre
La intuición para reírnos en el próximo encuentro
Y las ganas de inventar la vida
Porque no nos la entregaron hecha
Que no nos fatiguemos nunca
De establecer la diferencia
Entre partir y abandonar;
Partir es un abrazo a la vida,
Abandonar es un abrazo a la muerte.
Que no olvidemos bajo ninguna circunstancia
Que el mandamiento pide amar al prójimo como a
Sí mismo, pero no más que a sí mismo.
Amén.

De Adelaida Nieto.
Há momentos – talvez este seja
Um deles
Em que precisamos nos
Levar mais a sério, ou morrer,
Quando temos que nos livrar das encantações,
Ritmos pelos quais nos temos
Movido, irrefletidamente,
E resgatar a nós mesmos,
Preservar-nos
Para o silêncio, ou a escuta
Atenta, desobstruída
De oratória, fórmulas,
Estribilhos
Lamentos;
Da estática
Que sobrecarrega os fios...

De Adrienne Rich

domingo, 6 de junho de 2010

Trópico - 2 junho 2010
O escritor Wilson Bueno foi assassinado no último domingo, dia 30/5, em Curitiba. Autor de uma das obras mais sofisticadas e inventivas da literatura brasileira contemporânea, havia terminado há poucas semanas seu próximo romance, "As Armas do Coração". Durante mais de cinco anos, ele foi um assíduo colaborador de "Trópico"; leia a seguir um de seus artigos, uma carta à escritora Hilda Hilst:
Hilda Hilst caminha aos uivos
Por Wilson Bueno
Hilda, minha cara Hilda, agora que você não morre mais, entabulo contigo esta conversa no escuro. É uma carta também arrepiada de medo, esta em que me desvisto em ti todas as coisas trêmulas e fatigadas.
Três anos não são três meses nem três dias de teu silêncio sucinto, este em que a morte horrível nele continua a pôr ovos, você que sempre existiu, para mim, assim de um modo triunfante - do garrancho das cartas suntuosas, poucas e raras, ao obsessivo tilintar do telefone sem fio, aqui em Vila Pequena, pinheirais de Curitiba, arredores. Na Casa do Sol, em Campinas, sei que me recebias, pelo telefone negro e velho; pesado de tantas tramas das vozes pelas fibras...
Sem horário ou método - tanto o telefone podia tocar às dez da noite quanto às oito horas da manhã, no Brasil. Sim, às vezes justo nessa hora em que eu -e você- empreendíamos a sempre difícil travessia do equilibrista na direção dos escombros de um novo dia. Umas vezes, terra devastada; outras, a atravessarmos a surpreendente alegria dos dias-colibris, cheios de minutos e de relógios. Você, nem que aquelas damas que não se fazem mais, toda manhã morria.
Houve a vez em que, a falar dos veros exercícios espirituais que os santos primitivos se impunham, derivei a conversa ao budismo, então uma de minhas obsessões. Lembrei Bashô e Issa. Mais Issa que Bashô. E você, estupefata, depois do longo silêncio em que lhe cessaram as palavras-estrelas, pontuadas de palavrões, o que dava à sua fala, assim como que umas fúrias de cão, se impôs, curta, restritiva:
- Que horror essa coisa de haicai... O sapo, puft!, na lagoa... Não gosto, não gosto disso.
E a vida impaciente das coisas, senhora com quem refalo, agora em que não morres mais, falo e refalo, projetados, os dois, ao abismo de mil novecentos e noventa e três. As tuas mil e uma mortes, Hilda; você que, como Clarice, só sabia ser íntima, e nos morria nos braços a cada susto, a cada noite bêbada de sono.
Sim, agora eu sei, senhora bruxa, a tua história tecida no vento de cada dia; eu sei, de ti, os derruimentos da carne e o colapso final dos ossos; da pele da cara, encarquilhada, e o que, não sendo ruga, vincos, são olhos, pequeninos e anciãos, ainda que dotados de uma extravagância assim um pouco diabólica. Um demônio que chorasse, Hilda; você era um demônio bom e, se chorava via Embratel dentro da noite grande de Curitiba-Campinas-Curitiba, um feixe de luz zunia pelas fibras óticas, pelos fios distendidos das conexões sem Deus. Oito horas da noite no Brasil e já eras tudo o que no álcool engrola e dizima, dissolve e carcome.
Em uma das muitas agonias de Caio Fernando Abreu, você soluçava, a lágrima e o sentimento do mundo, em nova aposta, Hilda, em nova aposta contra a morte, desde sempre perdida, Hilda, Hilda Hilst, meu amor. E me falava, me falava umas coisas estranhas (que nunca pude confirmar) de que Caio ouvia, com a pressão arterial zerada, vizinho do fim, o lúgubre soar de tambores tangidos por índias velhas e chorosas, às margens ferventes do Letes.
Hilda, não consigo disfarçar -acho que estou, que estou sim, com muita saudade de você.
Três anos, pelo fevereiro de 2007, em que busco nas ondas do rádio, ali onde você costumava escutar os mortos com antenas improvisadas, de lata, na noite invadida de pirilampo, latifúndio adentro dos Almeida Prado, seus ancestrais, três anos já que lhe reivento a voz grave, esporrenta, a brandir por campos e descampados, senhora obscena do desejo: “Ama-me, Apolonio, ama-me!”. Apolonio de Almeida Prado Hilst, o poeta louco, seu pai, que se correspondia com Mário de Andrade, e que a desejava sempre, com ganas de amante sequioso, toda a vez em que a sua graça de menina buscava um encontro com ele, no pátio dos uivantes hospícios.
Os amantes, tantos, casuais, ou de compromisso, os amantes, Hilda, que lhe escalavam o corpo feliz de Rita Hayworth, ao tempo em que ainda se faziam, nos dourados anos 50, astros e estrelas -do rádio ao cinema; da revista “O Cruzeiro” às demoiselles acinturadas de “Chuvisco”. Em que ilha de dição da rádio Nacional pousas, quase longilínea no salto alto, a piteira longa com um cigarro insolente na ponta?
Em 1950 estreavas, já poeta de abismos, com “Presságio”. E dali a “Alcoólicas” e “Do Amor”, andaram as estrofes trancadas dentro de um quarto como quem vai morrer -Hilda, Hilda Hilst, meu amor...
Pelo telefone, em 1991, começou esta conversa no escuro e, acho, já falavas desde Marduk, posto que fomos, de planeta em planeta, a navegar a solidão noturna e agora, sim, chegamos à estação em que deveras falas, de Marduk falas, desde Marduk... E se vacilávamos frente ao que na Vida é o Amor Demais, lembravas Marduk, a morada a seguir, depois desta aqui movediça e obsedante... E se tramavas ainda outra vez a morte em vossos interstícios de dama sombria, lembrávamos Marduk, por mais chovesse em Curitiba e o sinistro esplendor das estrelas cadentes povoassem o teu céu de Campinas. O céu que nos protege, lembra, Hilda? Lembra, lembra de novo, o que de coisas nos ameaçavam! A nós, os ambos, mortos de medo.
Buscaste a glória, com avidez de atriz estreante, e já te querias, Hilda, que tolice!, a vender aos borbotões nas livrarias. Eu me lembro, Hilda, eu me lembro que invejavas Regine Laforgue e os seus milhões de livros de mão em mão e achavas impossível que não catassem, aos trilhões, tuas pérolas aos porcos... Ah, Hilda , não sabias o quanto eras secreta.
De “Qadós” à “Obscena Senhora D”, passando pela areia movediça do inquietante “Com Meus Olhos de Cão”, a tua prosa, a um tempo inventiva e libertária, nos desconstruiu o humano, bêbada de si, no rastro do Amor feito uma cadela no cio. Quem há de tocar, sem que lhe queimem -de vez- a pele das mãos uma folha que seja de vossa floresta de urtigas? Que pretensão a tua; que pretensão cheia de unhas dar-vos inteira à decifração mais vã e menos comedida!
Teu texto - te disse um dia, e hás de lembrar sempre, mesmo em Marduk, ou mesmo que Marduk não exista-, lê-lo, só se previamente de acordo, cúmplices das vilanias de tuas babas e humores, posto que dali não sairemos jamais impunes. Contigo, Hilda, paga-se, antes de tudo, o pecado de estar vivo. Uma prosa acossada, quase psicótica; o mais das vezes arrepiantes divertimentos paranóides. Onde só o que nos salva é a poesia... Quem se habilita?
E Bedecilda, Hilda, que nome, o de sua mãe, meu Deus! Também assistes dela a desagregação moral e, ainda assim, és dura na queda, Hilda, e por mais que a ame, lhe deseja, a rigor, a morte mesmo, a travessia para o Marduk estrelado, já que a morte-em-vida é um exercício que põe em choque regra e realidade, códigos e sonhos, e é dessa matéria a morte-em-vida de sua mãe que está sempre a morrer, como se morrer fosse mais de uma vez, Hilda, Hilda Hilst, meu amor.
Na Casa do Sol, os menininhos saltitavam, Hilda, as soltas batas até o chão, nus por baixo, os sucessivos cigarros de maconha, o licor de cacau, os poemas de Keats, as vespertinas de Lorca, o riso em flor de um bar aberto sobre a paisagem, os inomináveis de Beckett, os cantares de Rosa, Rosácea em flor e, acima de tudo, o múltiplo e rigoroso Pessoa; de Doris Lessing, Hilda, uma flor colhida em Newport; de Virginia Woolf, todos os passos –ainda- às margens do Ouse. E um livro que, pelo telefone, comentamos, várias vezes comentamos, à sombra de Tânatos -“Suicídio - Modo de Usar”. Ler e escrever -teu martírio e gozo; tuas quedas no abismo e tuas epifanias, Hilda, Hilda Hilst, meu amor.
O cavalo de olhos furados, Hilda, os gatos cambaleantes, os setenta e cinco cães que outra vez latem e ganem, uivam e grunhem -de dor ou júbilo-, a zôo orquestração do horror mais manso em que te cercavas, Hilda, rainha dos bichos postos de lado, chutados das lanchonetes, pela água fervente quase queimados vivos. De todos, um cão, ao menos, ainda se lembra de ti, os olhos súplices e as presas gastas.
Três anos. Nem precisava tanto! Novos amigos comuns debandaram a Marduk. Aí onde, decerto, já lhes oferece o café preto e o pão alemão com que costumavas brindar os hóspedes fortuitos de Campinas. Que morada escolheste, Hilda, a partir da leitura da “Carta a El Greco”, do enorme Nikos Kazantzakis? Bem sabes, não a escolheste; foste, isto sim, a escolhida para morar ali, pelo ato escabroso de ler. A Casa do Sol foi o teu refúgio e também a tua condenação. Acataste, com humildade de monja, o convento de si mesma. Um porão de achados.
Hilda, estou com saudade, estou com muita saudade de você.
......................................................................................................
Wilson Bueno - escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

domingo, 23 de maio de 2010

Falas finais do filme Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman, de 1982.

(em homenagem a Clarisse Blauth, que gosta do filme tanto como eu)

(...) Meus caríssimos amigos! Estou muito emocionado. Sei que muitos condenam a minha simples filosofia. Que se dane! Desculpa, mãe, serei breve. Os Ekdahl não nasceram para decifrar segredos. Não estamos habilitados para isto. Esqueçam isto. Vivemos no pequeno mundo e façamos o melhor dele. Tiremos o melhor partido. De repente, vem a morte, o abismo sobre nossos pés, somos vítimas de tempestades e catástrofes. Sabemos disto, mas evitamos pensar nisso. Nós, Ekdahl, amamos a nossa ilusão. Tire a ilusão de um homem e ele é um tolo, morto de tédio. Precisamos compreender as pessoas ou não as poderemos amar, e as criticaremos. É preciso compreende a realidade, o mundo. E, em plena consciência, poderemos criticar e deplorar a sua absurda monotonia. Nada de tristeza, caros artistas e atrizes! Precisamos de vocês! Uma necessidade sagrada! São vocês que acordam nossa imaginação! Vocês nos dão nossos arrepios e distrações! O mundo é um covil e, logo, a noite nos engolirá. As hordas do mal nos cercam. O veneno penetra em nós, os Ekdahl, e em todos, não poupa ninguém. Nem Helena Victoria, nem a pequena Aurora. Mas tudo passará. Portanto aproveitemos quando estamos felizes. Sejamos bons, gentis, generosos! Devemos nos alegrar sem remorso. Não é vergonha alegrar-se pelo pequeno mundo. A boa comida, um sorriso, árvores, frutas, valsas. Agora, terminei. Entendam como quiserem. Divagações ou caduqices, pouco me importa! Tenho aqui uma pequena imperatriz. É concebível e também incomensurável. Um dia provará que estou errado e reinará, não só sobre o pequeno mundo, mas sobre tudo.

(...) Mentira e realidade são uma. Tudo pode acontecer. Tudo é sonho e verdade. Tempo e espaço não existem. Sobre a frágil base da realidade a imaginação tece sua teia e desenha novas formas, novos destinos.” In: O Sonho, de August Strindberg.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O que pode uma mulher?

Maria Rita Kelh.


Depois de te perder, te encontro com certeza / Talvez num tempo da delicadeza
(Chico Buarque)

Os argentinos, quem diria! Os últimos representantes daquela escola para homens que aqui no Brasil já fechou, elegeram uma presidente mulher. Ponto pra eles – não tanto pelo aspecto político da escolha, mas pelo antimachismo. Temos também Michele Bachelet no Chile e Angela Merkel na Alemanha. Benazir Bhuto sacudiu a ditadura no Paquistão. A Somali Ayaan Ali, refugiada na Holanda para escapar da lei islâmica, foi deputada pelo partido conservador de lá. As mulheres estão tomando o poder? O mundo vai virar de cabeça pra baixo?
Não nos precipitemos. Mulheres no poder não constituem uma novidade assim tão espantosa. Pensem na rainha Vitória, em Catarina de Médicis e Isabel de Castela. No século XX tivemos Margareth Tatcher, Indira Ghandi, Golda Meir. O poder é um lugar que tolera excentricidades, desde que não alterem seu funcionamento e os compromissos que o sustentam. Mulheres no poder não garantem, como sonhamos nos anos 1960, políticas mais justas, mais humanitárias. Podem ser tão truculentas e injustas quanto os homens. Condolezza Rice não pratica as políticas dos sonhos dos movimentos feministas. Nem dos movimentos negros. Se o feminismo lutou pelo reconhecimento de que a diferença entre os sexos não implica em diferenças de talento e competência, temos que admitir que também não garante diferenças éticas.
As poucas mulheres que se destacam em altos cargos políticos interessam menos do que a trajetória de milhões de anônimas para as quais o verbo poder importa mais do que o substantivo. Hoje se diz que as mulheres “estão podendo”. O início deste deslocamento empreendido pelas mulheres em direção ao território ocupado pelos homens foi registrado por Virginia Woolf em seu diário: ela escreveu que na Inglaterra da década de 1920 a humanidade estava se transformando, ou pelo menos 50% dela, ou seja, as mulheres.
Ocorre que os 50% de mulheres não se moveram de seus lugares tradicionais sem abalar a suposta identidade da outra metade. Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um ao outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo.
Até pelo menos a segunda metade do século XIX, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de que? De visibilidade, diria Hanna Arendt. De visibilidade pública.
O termo é impreciso, pois nunca faltou visibilidade ao corpo feminino. Nem sob os véus islâmicos. Nem sob o jugo torturante de anquinhas e espartilhos. Do que as mulheres estiveram privadas até o século XX foi de presença pública manifesta não em imagem mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social. Ouvi do filósofo Bento Prado, em 1988, uma brilhante interpretação para a provocação lacaniana que diz “não existe A mulher”. Bento sugeriu que a inexistência de um significante que represente, no inconsciente, o conjunto das mulheres, deve-se ao fato de as mulheres, durante séculos, não terem inscrito sua experiência no campo da cultura. Foram objetos do discurso dos homens, não sujeitos de um discurso próprio.
No último século, o avanço das mulheres sobre todos os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita “natural”, entre os sexos. Isto produziu nos homens o efeito de uma perda. Ou de uma feminização. A masculinidade, construção discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente abalada. A pergunta freudiana, “o que quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: o que é um homem? O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?
Se na vida pública os campos já se embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece banal: um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher. Isto torna o poder sexual das mulheres quase intolerável, com efeitos terríveis de aumento da violência doméstica. Se a satisfação da mulher é a prova dos nove da masculinidade do homem, pode-se dizer que esta é hoje uma fortaleza sitiada. Ou uma “identidade” (aspas necessárias) acuada. Os acuados, como se sabe, costumam ficar violentos – mas a brutalidade não pode ser o último avatar da masculinidade.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz – supondo, como é provável que ela pense, que o problema seja apenas dele. Supondo que, no sexo, alguém possa satisfazer o outro por completo. Outro aforismo provocativo de Lacan, “não existe a relação sexual”, refere-se à impossibilidade de complementeriedade perfeita entre os sexos. Até mesmo o casamento, que na modernidade inspirou-se na idéia de que homem e mulher poderiam formar dois-em-um, já não é o que prometia ser.
Resta a histeria, esta forma de sofrimento neurótico que muitos psicanalistas (homens) consideram como o paradigma da feminilidade. A histérica acredita n’O Homem como detentor do falo – o que a torna irresistível para os que ainda esperam manter os territórios masculino e feminino rigorosamente diferenciados. Só que a demanda histérica é impossível de satisfazer, o que acaba por desmoralizar o poder masculino. A histeria seria uma espécie de “feminismo espontâneo”, na expressão de Emilce-Dio-Bleichmar: uma recusa do lugar estereotipado de castradas aliada à ignorância sobre o caráter simbólico do falo e da castração.
A alternativa seria a invenção de uma nova arte erótica, mais de acordo com as possibilidades de troca que já estão abertas, embora mal aproveitadas, a partir das novas configurações do masculino e do feminino. A relativa feminização dos homens e a recém conquistada “masculinidade” nas mulheres podem contribuir para romper os automatismos sexuais que sempre empobreceram a experiência erótica de uns e de outras. Se a delicadeza não precisa estar toda do lado das mulheres, os homens já não precisam se garantir pela força. Nem pela brutalidade.
Alguns meninos e meninas das novas gerações pós-feminismo sabem disso. Mas é preciso coragem e um pouco de imaginação para ultrapassar a miragem fálica que estereotipa a diferença sexual. As mulheres, que já nasceram “sem nada a perder”, poderiam ensaiar a mestria nas artes eróticas que a imaginação literária há muito lhes havia reservado.

http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=166

quinta-feira, 20 de maio de 2010

(...) O Ministro é um homem belo. Na verdade, um dos mais belos da corte. Por onde ele passa, com seu porte principesco, ressoam suspiros mortais. É um homem de estatura alta e formas perfeitas, dentes exatos e mãos grandes. Beleza, muitas vezes, é simplesmente proporção. Quando ele passa todos nos sentimos assim, com vontade de ser belos. Mas a mim ele nunca enganou. Tem olhos tristes e mão frouxa na hora do cumprimento. E homens assim, com a licença da informalidade, não dão no tranco.
O Ministro jamais olharia com interesse para uma mulher como eu. De carnes fartas e olhar curioso. Mas sua ascendência árabe falou mais alto. Os seus absconsos genes de lúbricos sultões orientais, que se esfregaram em odaliscas de pele alva, olhos delineados e bugigangas douradas, o traíram.
Mas isso ele só descobriu naquele fim de semana em que tivemos que nos encerrar juntos em lugar quedo e não sabido, para terminar a apresentação do Plano Nacional na minha casa, longe de tudo e de todos.
Ali ele se desvelou. E se revelou. Tal qual um príncipe que gostava de brincar de ser um escravo ou um grão-vizir transformado em criado. E eu, a mais leal e subalterna das assessoras, transformada agora numa princesa oriental.
Ele me pediu, então, que para este fim de semana de trabalhos, e para que o tempo rendesse ao máximo, que eu elaborasse um manual de instruções.


Instrução no. 1

Meu caro Ministro, vamos nos encontrar e cumprir com as regras da civilidade, não se preocupe. Iremos até a minha casa e arranjaremos algo para comer, vou me permitir um tratamento menos formal para estes dias de trabalho, o que facilitará também o resto. Você abrirá o vinho e eu providenciarei o jantar. Neste momento, ainda no início dos preparativos, você deverá deixar a cozinha para arranjar-se, eu irei até o meu quarto passando pelo corredor interno, você estará se aprontando no seu aposento e não nos encontraremos. Deixe tudo como está, o vinho aberto e a comida por fazer. As portas do meu quarto estarão fechadas, também as janelas, a escuridão será intensa. Haverá, na maçaneta da porta, uma máscara, destas que se usam nos aviões para dormir. Vista-a, nós não poderemos nos ver até que eu ordene. Trate de estar devidamente pronto, ou seja, com uma ereção completa. Você vai adivinhar o local da cama, onde estarei a sua espera. Não tire a roupa, eu também estarei vestida, será muito rápido, pois teremos o jantar a meio andar. Dispa-se o mínimo possível, o suficiente para o que deve realizar. Vou estar de costas, não nos veremos, vou estar, na verdade, de quatro, as carnes muito brancas reluzindo na escuridão da peça, apenas descobertas. Não haverá beijos, nem olhares, nem carícias, nem promessas, importantíssimo, nada de preliminares, nada de preparação. Você entrará no quarto, adivinhará meu corpo sobre a cama e simplesmente me penetrará, por trás, com força. Me penetrará com firmeza, até gozar. Não se preocupe com nada, vou conduzi-lo com rigor, estarei pronta, a espera, e você, simplesmente, cumpra com as instruções. Só isso, me penetre com força até gozar. Só você deverá gozar, este é o acordo, que você goze, e sem tardança. E que depois se retire então, de volta para a cozinha onde nos encontraremos para continuar a preparação do jantar. A brancura da minha pele imersa na meia luz o guiará. Estarei pronta também, encharcada na espera, o anel expectante, as pregas úmidas, este é o chamado inexorável, o cheiro de nozes almiscaradas que sai das minhas entradas, você será atraído pelo cheiro, e tocará levemente com a ponta do fuste os meus lábios humectantes, muito leve, só este contato que lhe arrancará um rugido do peito ofegante, calma, logo você poderá me enfiar, pense nas nossas línguas que porventura se tocariam, a ponta de uma procurando a outra numa simbiose perfeita, e antes disso, a respiração apenas, o hálito das nossas bocas procurando na escuridão um alento, minha serpe aflita enredada na sua, pense nas nossas línguas duras e espere, eu me alojarei agora, o rabo branco a movimentar-se em movimentos orbiculares indo ao encontro de si, assim, este é o nosso único ponto de contato, você pode sentir como as partes de buscam e se conhecem, e também que não é preciso ver para poder sentir, como cães e gatos e porcos seremos, o fuste indo para a casa, uma choupana pobre e aconchegante no meio de uma floresta, e a casa em chamas, a idéia é essa, encontrar o mapa da caverna e entrar. Os movimentos em círculo, os meus lábios escancarados babando à espera da vara, assim, entre, agora, a dança redonda essa que facilita a entrada, um anel a ajustar-se, através do movimento, ao volume e ao cumprimento, parabéns, Excelência, o tamanho é perfeito e a ereção severa, movimentos ascendentes, coordenação, cuide da respiração, e fique imóvel, eu conduzo os movimentos, o rabão nacarado em movimentos circulares a penetrar-lhe o cacete, um círculo e para dentro, outro círculo e avante, assim, assim, isso, Excelência, esse é o ritmo, agora você está inteiro dentro de mim, em harmonioso encaixe, e sinto a sua surpresa, seus gemidos a denunciam, uma mulher de rabo tão largo e carnes tão fartas com a quirica apertadinha e justa como a de uma infanta. E você desfruta desta surpresa, geme óhs e ais significativos e vou ajustando a melada cada vez mais profundamente na sua haste aflita. Assim, agora você está seguro, e agarra os gomos com força e entra frenético, o cheiro adocicado é quase insuportável, está perfeito assim, esse é o ritmo, os movimentos circulares permitem que, ora sim ora também, a castanha roce a base da vara e intensifique a velocidade da dança, e o saco tal qual um pêndulo premendo as minhas coxas, socando, eu sei que você vai gozar, Excelência, posso sentir a sua urgência. Contenho as contrações, essas que pressionam como uma boca de criança o fuste cego e o chamam, mais e mais, para dentro, assim, meu Soberano, assim, o jorro quente derramado, um leite ácido que sabe a nozes agora e que me inunda. Relaxo os joelhos e você desaba sobre o meu corpo, cobre-o com sua superfície grande e deixa-se ficar assim, ofegante, sentindo o cheiro dos meus cabelos suados. Não tire a máscara, descanse, seus braços fortes agarrados aos meus, enquanto você volta, Excelência, náufrago.


Lélia Almeida.
In: A escrivã da corte, 2007. (Fragmento, Texto inédito).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida se espande ou se encolhe de acordo com a nossa coragem.

Anaïs Nin.
...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ...
(Sá de Miranda)

terça-feira, 18 de maio de 2010


Volver

Lélia Almeida.

Voltei para a casa materna depois de muitos anos de ausência. A última vez que estive lá, minha mãe me segurava firme entre as suas pernas jovens e penteava, enérgica, os meus cabelos. Trançava os meus cabelos. E enquanto trançava, desenhava o meu destino. Minha mãe nunca soube muito bem o que fazer comigo, a casa das mulheres também estava vazia quando ela chegou, depois da partida prematura da minha avó, a pintora. Vou contar sempre esta história, repeti-la, para que ninguém esqueça de lembrar o preço que se paga quando as coisas ficam fora do lugar. A casa se encheu do desamparo das meninas sós e dos espelhos escondidos sob a gaze branca da névoa do tempo. Voltei para a casa materna, depois de errar, por muito tempo, perdida. Os espectros da minha avó, o da minha mãe, rondam a casa, agora. Tudo sabe a desolação, um travo de amargura, objetos e sentimentos que não servem mais, se misturam. Antes de abrir a janela retiro os lençóis que vedam a superfície dos espelhos. Acendo uma vela e os objetos podem, finalmente, relaxar, na sua imperfeição. A jarra de porcelana para o leite, o açucareiro trincado. As achas de lenha que pareciam esperar por mim, ao lado da lareira. Acendo o fogo. E invoco Héstia, a mais caseira das deusas virgens. Deponho as armas de Artemisa sob a soleira da porta e deixo-a ir. É preciso esgotar os arquétipos para que eles nos liberem também. Invoco Héstia. O fogo é firme e suave. Vou orar antes de dormir. Só abrirei as janelas ao amanhecer. Ave Maria, cheia de graça. Depois da noite fria e escura abrirei a janela. Bendita sois vós, entre as mulheres. As brasas adormecidas sob as cinzas. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Muitas cinzas, o lume durou até tarde. E sempre me perguntei sobre como teria sido a história do mundo se no colo da Virgem tivesse uma menina. Santa Maria, mãe de Deus. Sonhei com Ana, a mãe da Virgem, esta noite. Ela me dava de beber em suas mãos. Rogai por nós, pecadores. Ela me dava de beber em suas mãos um leite morno e alvo. Agora e na hora da nossa morte. Abro as janelas, reavivo as brasas, o fogo reacende. Amém. Amém para todas as transformações. Para uma casa velha que pode voltar a ser um lar. Para as almas das mulheres sábias. Começo a limpeza, é uma faxina, na verdade. Meu corpo velho adquire a agilidade de movimentos de uma menina. Sacudo os lençóis brancos e empoeirados. Limpo os espelhos com a manga do suéter velho. Lá estou eu, no fundo do espelho. Cabelos brancos, olheiras. Há muito que fazer. Espantar os medos, aquecer a casa e cuidar das meninas da família. E assim, acolher as meninas do mundo. Vinde a mim as meninas. Eu voltei, depois de muito vagar por territórios inóspitos, ao calor da casa materna. Estou pronta para ocupar o meu lugar e, como os objetos que apenas esperavam ser descobertos, poder, finalmente, ser eu mesma. A mãe de mim.

In: Anovaela, texto inédito, 2008-2010.

domingo, 11 de abril de 2010

Encontraram os corpos dos meninos desaparecidos em Luziânia. As Mães de Luziânia vão dormir esta noite. Pois agora elas sabem o que aconteceu com seus filhos desaparecidos há três, quatro meses. Uma atrocidade. Um horror. Mas agora elas sabem. Valdirene, uma das mães me disse na audiência no Senado em março: Dra. Lélia, a gente só quer saber o que houve com os meninos, se a gente não achar eles, a gente quer os ossos pra enterrar. Agora elas sabem. Passei o fim de semana pensando no que vai ser de cada uma delas. De tudo o que tenho aprendido com elas. De como me ensinaram que são os meninos pobres das periferias deste país as grandes vítimas das piores violências. E da inconformidade delas com o descaso governamental com os familiares das vítimas.
Quem ouve a grita destas mulheres?

sábado, 27 de março de 2010

(...) Que ancestral fala por mim? Não posso viver ao mesmo tem na minha cabeça e no meu corpo. Por isso não posso ser uma única pessoa. Posso sentir várias coisas ao mesmo tempo. O mal do nosso tempo é que não há mais grandes mestres. O caminho do nosso coração é coberto de sombra. Precisamos ouvir as vozes que nos parecem inúteis. Precisamos que os cérebros se ocupem do muro da escola, d asfalto, da assistência social, do zumbir dos insetos. Precisamos encher as orelhas e os olhos de todos nós com coisas que sejam o começo de um grande sonho. Alguém deve gritar que construiremos as pirâmides. Não importa se não construirmos. Precisamos alimentar o desejo e esticar os cantos da alma como um lençol sem fim. Se querem que o mundo vá adiante devemos nos dar as mãos. Precisamos mesclar os ditos saudáveis com os ditos doentes. Vocês, sãos! O que significa a sua saúde? Os olhos da humanidade miram o abismo no qual todos estamos mergulhando. A liberdade é inútil se você não tem coragem de olhar em nossos olhos, de comer e beber e dormir conosco! São os ditos sãos que levaram o mundo ä beira da catástrofe. Homens, escutem! Em vocês, água, fogo e depois cinzas. E os ossos nas cinzas! Os ossos e as cinzas! Aonde estou quando não estou na realidade ou na minha imaginação? Eis um novo pacto que o mundo: deve haver sol à noite e nevar em agosto. Grandes coisas acabam, só as pequenas permanecem. A sociedade deve ser unida e não fragmentada. Basta observar a natureza para ver que a vida é simples. Precisamos voltar ao ponto de partida, ao ponto onde tomamos o caminho errado. Precisamos voltar ao fundamento da vida sem sujar a água. Que tipo de mundo é este se um louco que lhes diz que devem envergonhar-se? Música agora. (...) Ó mãe! Ó mãe! O ar é aquela coisa leve que se move em torno da cabeça e se torna mais claro quando você ri.

In: Nostalghia de Andrei Tarkovsky.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O voto das mulheres: luvas de pelica e nenhuma cosmética.

Lélia Almeida.

Fato inegável é que as mulheres foram figuras de protagonismo na imprensa do país desta semana. Las Damas de Blanco, ou las locas de La Habana, Reyna Luisa Tamayo e Laura Pollán, de Cuba, chamaram o Presidente Lula e o Comandante Fidel às falas, clamando por justiça pela morte dos seus filhos. As Mães de Luziânia estarão, amanhã, em audiência pública no Senado, trazidas pelos pelo Senador Cristóvão Buarque, para indagar sobre o desaparecimento dos seus meninos. E as pesquisas apontam que o maior índice de reprovação do governo Lula vem das mulheres e que o maior índice de rejeição à candidata Dilma, é feminino também.
Algumas explicações seriam apontadas pelo observatório de Gênero do governo para explicar o fenômeno: a associação, cultural e histórica, da figura feminina ao âmbito privado e doméstico e, portanto, a interpretação óbvia de que as mulheres não podem ocupar cargos públicos e de poder. Nada mais classe média do que esta explicação. Há, historicamente, uma multidão de mulheres, cujas linhagens e gerações, sempre trabalharam fora de casa e jamais souberam o que era ficar em casa cuidando dos filhos e dependendo de um marido provedor.
A questão é que os marqueteiros de plantão se perguntam pela fórmula mágica, pela composição da beberagem que deverão ministrar à candidata Dilma, que qual uma passiva Galatéia de Pigmalião, deverá se travestir em personagem infalível para conquistar esta exigente fatia de votos, enquanto repetem sem respostas o bordão freudiano: afinal, o que querem as mulheres? E o que querem as mulheres brasileiras? O vão querer as mulheres brasileiras na hora de votar?
A maioria das mulheres brasileiras é pobre, vive em condições desumanas e não lhes são permitidos grandes sonhos nem delírios. Elas querem poder trabalhar, cuidar dos seus filhos e sobreviver com dignidade. Não é muito o que elas querem e, portanto, não há como enganá-las. Não há cosmética que as convença.
Gosto do de lembrar o filme do espanhol Pedro Almodóvar, Tudo sobre minha mãe, dos anos 90, quando a personagem Amparo, que é um travesti, fala sobre ser autêntica, mostrando tudo o que nela é postiço e dizendo que a medida da nossa autenticidade é o quanto realizamos daquilo que sonhamos ser.
Penso que o mistério do voto das mulheres, um assunto tratado por alguns, com luvas de pelica, talvez possa ser desvendado de maneira fácil. Eu, que sou uma cidadã comum e que ouço as mulheres brasileiras há muitos anos, diria aos magos de plantão, que não há receitas miraculosas. E diria à Ministra Dilma que a fórmula para conquistar o voto das mulheres brasileiras, é simples: Seja você mesma, Ministra Dilma. Não sucumba aos aventais xadrezinhos, aos ares de vovozinha e nem às falsas pérolas. Nada disso combina com a senhora. As mulheres deste país não são burras, sabem o que querem e sabem que a medida da autenticidade é a única que vale, lá, no frigir dos ovos.
Represente apenas a si mesma, Ministra Dilma.
E represente, assim, as mulheres brasileiras, que são bravas e não desistem nunca.
E tenha a certeza de que, então, elas saberão escolher em quem votar.