sábado, 19 de novembro de 2011

Não tem aqueles livros que a gente gostaria de ter escrito? pois este é um deles pra mim: "Tristes, loucas e más: a história das mulheres e seus médicos desde 1800", de Lisa Appignanesi. Recomendo, é maravilhoso, da Record.






quarta-feira, 16 de novembro de 2011


Almodóvar não é uma unanimidade, ainda bem. Outro dia um cidadão daqui do face me perguntou, você é "daquelas" que gosta do Almodóvar? Sou, incondicionalmente. A conversa não rendeu. Em "La piel que habito" ele faz uma pergunta simples: qual o maior castigo para um estuprador? E responde: ser uma mulher. Mas nada no universo almodovariano é maniqueísta ou simples. Nem o estuprador era exatamente um estuprador e nem o castigo foi tão castigo. Em "Hable con ella" ele já tinha prescrutado estes abismos, o que foi, tecnicamente, um estupro da bailarina em coma, foi o que a salvou pelo amor sem medidas do enfermeiro apaixonado. Almodóvar sabe perguntar e sabe da impossíbilidade das respostas fáceis já que o que existe sob la piel que habitamos é complexo, imenso e que, no encontro com o outro, tudo reverbera de maneiras insólitas, inusitadas, impossíveis de prever. O que há sob la piel que habitamos é como os filmes do Almodóvar: exagerado, colorido, dramático, selvagem, cruel, delicado, desconhecido. Sem falar na Marisa Paredes tal qual uma figura lorquiana, meio Yerma, dizendo la locura está en mi utero, e aquele tigre!!!! A criatura que mata o criador, Galatéia se vinga de Pigmaleão, a homenagem às escritoras mulheres, a crudelíssima Alice Munro. Aplaudo. E recomendo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Minha avó tinha uma moça que a ajudava na limpeza, a moça tinha vindo da campanha e morria de saudades de casa. Muito pragmática, minha avó dizia pra moça, isso, minha filha, vai chorando e vai limpando. Ando assim, ultimamente, chorando e limpando.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quando é de verdade, não acaba, apenas muda.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011







Eu, a mulher-macaca, por Lélia Almeida.


Na minha quadra tem um salão de beleza que se chama Paraíso, é todo rosa-pink com poltronas forradas com uma imitação de couro de vaca, branco e preto. A dona do salão se chama Nete, mulherão de 1,80, corpo escultural, punk velha, mulata, toda vestida de couro preto, tatuada, cabeça raspada, calça justa, bundão e decote atrevido.
A primeira vez que entrei no salão era sábado de tardezinha e perguntei se alguém podia tirar a minha sobrancelha e fazer a minha mão. Ela me olhou e disse: “- A esta hora?” A minha expressão de desapontamento amoleceu o coração daquela mulher com cara de poucos amigos que resmungou: “- Tá bem, pode entrar.”
A conversa fluiu fácil, como sempre acontece nos salões, principalmente nos mais populares como este, e  se transformam numa grande terapia de grupo, onde os assuntos quase sempre são os mesmos, e que vão das dificuldades para emagrecer, aos infortúnios amorosos e as preocupações com os filhos. E todas se aconselham, se queixam, expurgando dores que parecem ser coletivas.
Eu estava particularmente arrasada quando entrei no salão, tomada de uma tristeza que me consumia, ansiando por uma pinça na sobrancelha para poder chorar sem pudor e aliviar um pouco a minha gastura. Mas não chorei.
Nete sentou numa escada pequena colocada atrás de mim, abriu as pernas e segurou a minha cabeça entre os seus peitos, pude sentir o seu cheiro doce, as mãos ágeis trabalhando nas minhas sobrancelhas, senti o hálito muito próximo e o que emanva dela era muito perfumado e suave. Contou que sempre sentia um nó na garganta aos sábados na tardinha, que foi  num entardecer como este que a mãe a deixou num orfanato, junto com a irmã, porque não tinha como dar conta das filhas, de tão pobres que eram. Contou baixinho, muito próxima de mim, quase sussurrando. E a minha agonia foi se diluindo em lágrimas que vertiam para dentro enquanto meus olhos mergulhavam na imensidão daquela mulher agora travestida de menina. Era um orfanato em algum lugar perto aqui da Brasília, ela sonhava todas as noites que voltava pra casa pra cuidar da mãe.
Somos duas mulheres-macacas ao entardecer no meio de uma selva esplêndida, íntimas, catamos piolhos uma da outra, nos fazemos carinhos, nos embalamos, nos contamos segredos, choramos, rimos, dividimos as nossas dores e as nossas ânsias. Pude ver sim, ao meu redor, muitas mulheres-macacas, em rituais ancestrais quando as mulheres cuidam das outras mulheres, na hora dos partos, das mortes, das tristezas e nas horas mais felizes também. Carrego esta selva e esta memória dentro de mim, este lugar aonde posso voltar a me embalar no colo desta confraria tão antiga.
Ela conta de quando pôde voltar pra casa, mocinha já e começar a trabalhar e a cuidar da mãe e da irmã, e que agora estão todas juntas, com os filhos criados e que deu tudo certo, graças a Deus, mas que sempre sente esta agonia aos sábados na tardinha.
O som estridente do celular de uma mulher jovem que corta os cabelos nos arrebata da selva. Ela responde monossilábica: “- hum-hum-sim-hum-hum-um beijo” e desliga. Diz pra moça que está cortando o cabelo, “- Rápido aí com este corte, que vou ter que realizar um atendimento ambulatorial, faz tempo que este santo pede missa, hoje vou fazer uma ação entre amigos, dar uma alegriazinha pro rapaz.”
As macacas começam a rir, os pássaros debandam com as gargalhadas e, subitamente, tudo vira festa no entardecer na selva.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Boa noite, meu filho!











Dorme bem, meu filho!


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lembrei de uma frase que ouvi do meu amigo e astrólogo Clóvis Pérez: a sedução é a forma mais primitiva de magia! Pra balada, meninas, que hoje é noite de feitiço!
Um bar, um táxi, uma cama, um fogão velho, pó de café, as azaléias do muro da casa ao lado: o mapa da vida pequena, geografia da intimidade, e as nossas mãos calejadas produzindo milagres.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)
Você me conduz enquanto dançamos lentamente, ando assim pela vida, naquele mesmo ritmo, seguindo seus passos, perdida de mim.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)

Ai! Este idioma que me pierde!
O tempo. Uma bênção, uma perdição, uma cura, uma travessia.
O tempo não existe quando penso em você.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escrito num barco ancorado no porto do Rio Guamá em Belém:
Ao entrar, que Deus te abençoe, ao sair que ele te acompanhe.
Sonhei que encontrava o Uli, o gato preto, morto no jardim da casa do Ouro Vermelho. O corpo dele num canto da varanda, entre as plantas, com moscas voejando ao redor. Eu dizia, no sonho, ele veio morrer em casa. Foi quando comecei a sentir que a minha alma secava novamente, longe da chama criativa. Fiquei toda a noite olhando o mar do pátio do hotel. As ondas eram enormes e aterrorizantes. Então vi o farol e a embarcação. E aquela visão foi me acalmando, como se as minhas emoções coubessem dentro de mim outra vez. E dentro de mim, o mar. E dentro de mim, a noite. Adormeci serena e sonhei com gatinhos de uma mesma ninhada, que andavam pela casa, os olhos fechados ainda. Os esotéricos dizem que quando a gente sonha com animais mortos, é porque que um pedaço da alma da gente tá secando, morrendo. Estou em movimento criativo novamente, voltando pra casa, indo em direção a ela, a nova ela.
(Lélia Almeida, in Anovaela, inédito)
Acordo com teu riso que enche o meu quarto, fantasmagorias da ausência.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)