quarta-feira, 9 de maio de 2012











A terra é má:


Lélia Almeida.


O Lars von Trier não está, confesso, entre os meus diretores de cinema favoritos. Gosto muito de algumas coisas dele e detesto outras. Assim é. Resisti muito a ver Melancholia, de 2011 e devo dizer que gostei muito do filme. Não vou analisa-lo aqui, mas gosto, por exemplo, quando a irmã oficialmente deprimida, Justine (Kirsten Dunst), diz pra irmã oficialmente normal e pragmática, Claire (Charlotte Gainsbourg), que a terra é má. Para quem não viu o filme a Terra vai ser destruída pelo choque com um planeta chamado Melancholia e o filme se passa nos momentos antes deste choque.
O filme, dividido em duas partes que tem o nome de cada irmã vai mostrando a troca de papéis das duas e parece indicar que os deprimidos saberão enfrentar de maneira mais realista o fim do mundo, já que a depressão, ou a melancolia seriam, ao fim e ao cabo, uma verdadeira experiência de devastação e desamparo. Claire, a irmã bem sucedida está inconformada com o fim do mundo, com o fim do seu confortável mundo, na verdade, e demanda insistentemente do marido o cumprimento da promessa de que o mundo não vai acabar. Justine, que sobreviveu aos caminhos inóspitos da depressão sabe o que a irmã não quer aceitar: que a terra é má, ela diz. No mesmo tom que a mãe fala à filha-noiva na festa de casamento, acorde, saia daqui e vá viver a sua vida, ela diz, referindo-se aos casamentos sem vínculos reais, projetos falidos antes mesmo de sua consumação. E conseguindo assim que a filha rejeite um homem que lhe ofereceu um jardim com macieiras.
Lembro desta frase da personagem da Kirsten Dunst cada vez que leio sobre a balela da terra boa associada ao corpo da mulher, que também é bom, que também é mau e estou exausta de tanto retrocesso. Tô cansada da mãe-terra, da Pachamama impecável, da terra boa e me filio cada vez mais à premissa do polêmico dinamarquês pra dizer que sim, que a terra é má. É temperamental, cheia de humores, desacomodada e que a natureza é selvagem sim, indomável, assim, como nós mesmos, cheios de apetites, voracidades, estamos longe de sermos bons. Como a terra, também somos maus.
Em algum momento da história do movimento das mulheres foi absolutamente necessário que as mulheres aprendessem sobre os seus corpos, aprisionados por espartilhos mentais e físicos, proibidos de prazeres e orgasmos e em nome disto loucuras foram e continuam a ser feitas pelas mulheres do mundo todo. Participei de grupos de conscientização nos anos 70 e 80 e de toda sorte de promessa que compunha o elenco do liberou geral e quero dizer que a farra foi grande e não foi menor a angústia de vivermos muitas vezes experiências e situações para as quais estávamos completamente despreparadas. Não há preparação quando se fala de sexualidade, já que este é o lugar do susto, do sobressalto e do que não sabemos sobre nós mesmos no encontro com o outro.
Uma amiga minha foi iniciada por um ginecologista que era médico do exército e que media a duração os orgasmos dela com uma planilha na mão. Consta que ela não pode ver um jaleco branco até a presente data. Muitos filmes nos mostraram, já de forma caricatural, os grupos de mulheres que olhavam amorosamente suas partes com espelhinhos em posições pouco cômodas e conversavam com elas para estabelecer uma intimidade de comadres, perdidas na ilusão de num matriarcado que nunca existiu, enfim não gosto nem de lembrar das coisas pelas quais já passamos e pelas quais pagamos para a tal da liberação feminina. Falo dos grupos de conscientização de mais de 30 anos. E eis que tudo volta com uma força absoluta e me sinto perdida e tentando compreender.
Tenho dificuldade com as premissas feministas contemporâneas das jovens mulheres que querem voltar pra casa, ser sustentadas pelos maridos e ficar cuidando dos filhos, tenho dificuldades para entender que as mulheres não queiram mais namorar e trepar. Tô cansada das festinhas e rodinhas de mulheres que fazem um verdadeiro campeonato de quem tem o melhor marido ou o filho mais eficiente, sinto que estou nas festas de aniversário das minhas tias lá no interior quando eu era uma menina e fico desolada pensando que nada mudou e isto é desesperador. Porque muitas mulheres sofreram muito para simplesmente adquirir o direito de poder votar, dirigir um carro, fazer uma faculdade, escolher suas parcerias e tudo isto é jogado na lata do lixo e voltamos ao princípio num movimento de um passo pra frente, trocentos pra trás.
A ditadura pelo parto natural e pela obrigatoriedade do aleitamento tão me cansando a beleza também. Foram anos de luta para que as mulheres pudessem escolher viver como bem quisessem, saímos de uma cartilha de repressão e rezamos pela cartilha do politicamente correto que é careta, sem graça, pouco criativa, chata e burra.
Eu gosto da Rose Marie Muraro, da Elke Maravilha, das mulheres anarquistas e de espírito rebelde. E gosto das mulheres comuns que entendem ali, na veia, que a sexualidade vai além da discussão sobre a vitimização e da violência ou do número de orgasmos que atingimos, que a sexualidade e o prazer do corpo têm unicamente a ver com um jeito de andar pelo mundo e que este jeito tem de ser leve, original, lúdico e pessoal, sem receitas e regras. E que passamos da superexposição para a inibição num movimento pendular viciado que nos impede a espontaneidade das nossas escolhas mais simples, sofro com isto, eu que gosto de cada coisa mais esquisita, mais bizarra, mais sem graça, por vezes, pelo simples prazer de gostar.
Outro dia fui expulsa de um grupo de danças circulares onde uma cidadã levou uma coisa chamada moon cup que vem a ser uma espécie de coador de café daqueles antigos com um gel onde é depositado o sangue menstrual que para muitas é considerado sagrado. O sangue depositado naquela coisa solidificou e a criatura o aspergiu sobre nós, filhas diletas da Pachamama para que fôssemos abençoadas pelo sangue bendito. Tive uma crise histérica de riso incontrolável e fui convidada a me retirar do círculo como uma filha traidora. Tudo ali, sob o plenilúnio e junto com muitas mulheres vestidas de bruxas invocando os poderes da Hécate. Ai que exaustão.
A terra é má. O corpo feminino, sobre o qual historicamente é projetada a loucura do mundo pede descanso, por favor. Nesta semana teremos o famigerado dia das mães. As mães são boas, assim reza a lenda. E esquecemo-nos das mães que não cuidam dos seus filhos, que sequer os amam, das que os abandonam, das mulheres que não quiseram parir, das que detestaram amamentar, e repetimos que a paz é feminina. Não, não é. Se assim fosse as mulheres não mandavam seus filhos para a guerra e nem apoiariam a volta do Pinochet ao Chile como fizeram muitas mulheres chilenas só para citar um dos exemplos mais dramáticos do âmbito da política. As mulheres são boas e são más, a maternidade é por demais complexa para simplificações, ser mãe e ser filha não é pra amadoras, e não vamos ganhar o céu das moças bem comportadas se seguirmos o ideário em voga sem pensar sobre quem somos.
 Feminismo tem a ver com autonomia, solidariedade e coisas há muito esquecidas, e, principalmente, com espirito crítico e autonomia de pensamento. Gosto das cenas dos cavalos do filme do von Trier, que lembram de uma potência esquecida, imprescindível, das cenas das irmãs cavalgando, indo a lugar nenhum, em busca de uma vitalidade, de um último suspiro no momento em que o mundo pode acabar, porque um mundo sem desejo é um mundo que vai, inevitavelmente, sucumbir.
A terra é má. E a terra é boa. Como no filme Melancholia, um lugar por demais belo com suas paisagens noturnas, perigosas, de uma natureza poderosa, mas que vai acabar, como os nossos pobres corpos, feitos para a alegria e para as dores. E a tal da mãe terra sabe ser cruel e devastadora independente de ligarmos ou não o ar-condicionado, a natureza é o que é, impiedosa, milagrosa, precária e exuberante.
Trata-se sempre do mesmo, penso eu aqui, meio cansada quando leio algumas grandes bobagens escritas pelas mulheres, de acabar com este maniqueísmo fácil e preguiçoso, de dizer que os homens são violentos e as mulheres vítimas, esquecendo-nos das grandes manipuladoras, doidas, assassinas e dos homens do bem. Tô ficando velha, a bem da verdade, e não me satisfazem mais as respostas fáceis e nem as perguntas óbvias. Tenho tido dificuldades imensas em conciliar as minhas esquisitices, pra aceitar sem questionar determinadas insanidades que ouço num movimento de repetição mecânica.
A terra é má, a Pachamama não é protetora como desejamos, os nossos corpos, que vieram dos corpos das nossas mães e que pariram os nossos filhos, ora acolhedores, ora não, vão fenecer um dia. E a terra onde pisamos todos os dias, representada nos belos cenários do Melancholia, ainda é um lugar absolutamente instigante para a travessia possível.


Brasília, 09/05/2012.

quarta-feira, 14 de março de 2012





Amora:
Lélia Almeida.

Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela está atravessando um portal. Uma louca e uma sacerdotisa pelejam dentro dela, ambas serão incorporadas. A mulher na menopausa devora o coração das duas com os dentes gastos e a fúria de uma sobrevivente faminta. Falta-lhe, a cada dia, a visão, a cada estação ela aumenta o grau das lentes que enxergam o mundo de fora. Medida providencial para quem tem de ajustar a visão de dentro. Olhar pra fora distrai, ela vê agora, o essencial. As rugas se acumulam ao redor dos olhos, há uma estranha suavidade no semblante e olhos incandescentes. Nascem pelos no queixo e podemos vê-la, ocasionalmente, roçando os pelos, olhar perdido, despudorada. Um gesto comum este entre as valquírias que se preparam para o grande embate. Porque esta é a última oportunidade de deixar as ilusões pelo caminho. Os pelos caem ondem deveriam permanecer, nascem em lugares insólitos. Tudo se traduz numa grande inconveniência. Ela está se transformando num animal definitivo. Os olhos congestionados ao redor da pele empapuçada veem o que ninguém mais vê. O corpo exibe as marcas do tempo, não é mais belo, não é mais jovem e esta é uma grande libertação. A cabeleira perde a força, os fios de prata são ásperos. Não há reposição hormonal que dê conta da convulsão da sua alma. Ela está se transformando num bicho, num animal cujo nome desconhece. Deixa pelo caminho o manual das boas maneiras, fica de péssimo humor, se irrita com os filhos, com os homens, com as amigas. Ela está furiosa, ela chora, a alma em alvoroço. Todas as noites ela chora, não sabe para onde ir, nem quando, nem como. Ela duvida de tudo e se vê num grande deserto que tem de atravessar sozinha agora. Ela chora em momentos improváveis, ri desavisadamente, não tem mais paciência  com bobagens e sua capacidade de alegria se expande. Os outros a veem frágil, vacilante, mas ela tem agora uma força e uma perseverança jamais experimentadas. O fogo a toma por segundos, ela está em combustão, depois drena os excessos de água. Ela está conectada com a fonte e com o fogo. Fica exausta, dorme mal, acorda cedo. Há dias que comeria um animal sacrificado no meio da savana e outros de parco jejum. O mesmo acontece com o sexo. Um sexo agora sem culpa e nem performance, um sexo sem pressa, fome da carne, fome urgente, fome boa. Ela toma chá de amora. Seu sangue é como a tintura da amora, de uma cor diferente e que lhe confere outras propriedades para que ela possa, enfim, criar a si mesma. A mulher caminha concentrada, lembra de si quando era uma menina, uma adolescente, caminha cada vez mais em direção à casa materna, ela sabe agora o que só as mulheres velhas conhecem. Ela não perde tempo, ela avança. Deixa pelo caminho tudo o que não serve mais. É uma marcha constante, infernal, movida pela força do fogo e da água. Deixem-na ir, ela não pode parar, atravessa as noites insone, atravessa o medo, pensa obsessivamente na morte, transborda de vida e não perde tempo. Prossegue. Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela é uma tartaruga velha, uma gazela, uma mulher-macaca. Ela caminha cada vez mais rápida, desgrenhada e incandescente. Ela vai atravessar o portal. Ela vai encontrar, definitivamente, consigo mesma.

Brasília, 14 de março de 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Três gatos comem em três cumbucas. Uma do lado da outra. Alinhados. Os rabos descansados na mesma direção. A minha paz no mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


Eu, aos cinquenta:
por Lélia Almeida.

Dia 20 de fevereiro faço 50 anos. Meu aniversário coincide com uma mudança de casa, vou para um apartamento menor, eu, três gatos e muitos livros. Hoje comecei a empacotar os livros e fui tomada por um turbilhão de estados emocionais e alterações de humor que só quem passa por isso sabe do que se trata. Porque na hora de encaixotar os livros, muitos, inevitavelmente, vão ficar pelo caminho.
Já fiz mais de 20 mudanças para lugares, cidades, endereços e países diferentes e já deixei muitos livros pra trás. E como choro na hora da escolha do que levar e do que deixar. Uma escolha é também uma renúncia. Uma escolha reafirma quem ainda somos e os livros que não vão conosco parecem gestar um cadáver daquilo que não somos mais e que vai embora agora, um pedaço de nós, embalado numa mortalha feita de caixas de supermercado, jazer na Biblioteca Demonstrativa de Brasília.
Chorei de ranho ao pé da Antologia General de la Literatura Española (verso, prosa, teatro), de Angel Del Rio de Columbia University y Amelia Del Rio de Barnard College, da Revista de Occidente de Madrid, de 1954, três portentosos volumes em couro legítimo que somam juntos mais de 3.000 páginas. E da Historia General de las Literaturas Hispánicas de Guillermo Díaz-Plaja da Editorial Barna, de Barcelona comprada na maravilhosa livraria García Santos libros em Mendoza na Argentina, dois volumes de mais de mil páginas cada um, capa de couro clarinho. E dos quatro volumes da Historia Comparada de las literaturas americanas de Lui Alberto Sánchez, editado pela Losada e comprada na Librería Y... do Jorge, em Mendoza.
A Líbrería Y... era do Jorge, o último riponga autêntico da cidade e ficava no centro de Mendoza, na Argentina. Era, na verdade, um galpão imenso, cheio de livros maravilhosos, pé direito altíssimo e muitos gatos que ele criava ali, misturado com os livros. Apaixonado por Cortázar, Jorge teve várias livrarias na cidade e cada uma tinha uma parte do nome do livro Historias de cronopios y de famas. Todas faliram, só tinha sobrado a Y... onde permanecia o acervo fabuloso de todas as outras. Nas tardes de domingo eu e o meu filho, que tinha sete anos então, passávamos a tarde garimpando livros, brincando com os gatos e tomando mate com o Jorge e a Marta que nos apresentavam editoras e autores imprescindíveis. Nosso primeiro gato veio dali, o Preto, o nosso gato mendocino. Trouxe verdadeiras relíquias daquele lugar que não existe mais. Voltamos a Mendoza dez anos depois para visitar os amigos e o lugar vendia geladeiras, fogões e eletrodomésticos.
Tudo isto lembro agora secando as lágrimas com os dedos cheios de pó, espirrando na hora da escolha. Não consegui me desfazer das feministas clássicas, que domaram o meu espírito rebelde, prossigo então com a Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e outras que não interessam a mais ninguém, e as brasileiras, Carmen da Silva, Heliete Saffioti, Heloneida Studart, Danda Prado, e outras tão caras a minha geração. Minha vida de menina, da Helena Morley também vai. Tudo o que veio da fronteira comigo, permanece, os latino-americanos da Editora Losada comprados na Casa América, Lorca e Miguel Hernández que me iluminam sempre.
Olho para os que permanecem e vejo que alguma coisa em mim não muda e se perpetua a cada vez que os mesmos livros são embalados outra vez. Não só as feministas clássicas, as contemporâneas, que me ensinaram a pensar e a olhar o mundo sob outro ponto de vista, o das mulheres. Não posso prosseguir sem elas, as espanholas, as italianas, as mexicanas, as francesas, as americanas, as inglesas, Marcela Lagarde, Michelle Perrot, Elaine Showalter, Luisa Pousada, Helene Cisoux, Adrienne Rich Sandra Gubar, e tantas outras. Ironicamente encontro Medo aos cinquenta da irreverente e maravilhosa Erica Jong que antes me salvou das minhas ilusões aos 20 anos com Medo de voar. Não, não vou sem elas a lugar algum. E nem sem a Lísia Pessin e a Virginia Wolf, Adélia Prado, Alfonsina Storni, Rosario Castellanos, Clarice Lispector, Lila Ripoll ou a Cecilia Meireles.
Se um cavalheiro me pedisse, gentilmente em casamento hoje, e fossemos tratar do dote eu não teria como enganá-lo e lhe mostraria os meus tesouros: a obra completa da karen Blixen, a obra completa da Peri-Rossi, a obra completa da Carmen Martín Gaite, os diários da Anaïs Nin que sempre modulam com delicadeza a minha alma assombrada. Cassandra Rios, Adelaide Carraro, Alicia Steimberg e Elfriede Jelinek.
É o que temos, senhor, eu diria, a obra completa destas damas, três gatos. E era isto. Ele desistiria, estou certa, diante de um dote tão miserável, e ficaríamos amigos, quem sabe.
Deixei as gramáticas de língua espanhola para trás, as de língua portuguesa também, e muitos dicionários, há muito que não sou mais professora de línguas e literaturas e esta parte foi triste, confesso.
Outros temas se incorporaram nos últimos anos, temas sobre direitos humanos e mulheres, mulheres que lutam pela paz no mundo, sobre conflitos e sobre feminismo pacifista. Os livros da infância e da adolescência do meu filho também vão ficar, e os de um doutorado em literatura comparada nunca concluído também não me acompanham mais.
Mas nem morta eu me desfaço do Sergio Faraco, do Simões Lopes Neto, do Erico Verissimo, do Julián Murguía, do Acevedo Díaz, do Mario Arregui, do Felisberto Hernández, Borges, da Juana de Ibarbourou, da Delmira Agustini que desenharam a alma da paisagem da fronteira que é o meu lugar no mundo.
Chorei toda a tarde embalando os livros, as latino-americanas que eu amo, minhas mestras, Elena Poniatowska, Griselda Gambaro, Diamela Eltit, Alejandra Pizarnik. Os das cartas de amor, os gregos, as cartas de amigos, os mitos, os livros dos arcanos e os tarôs, os dos planetas, os de receitas, os atlas, a Dona Benta ainda vai comigo, mas desta vez consegui liberar o Dr. De Lamare.
Cinquenta anos e não sou uma mulher só. Aos cinquenta anos sou uma mulher simples, que vai morar num loft pequeno cheio de livros e três gatos. Levo, La enciclopedia de las cosas que nunca existieron do Michael Page y Robert e do Ingpen Lee, que amo tanto.
Aos cinquenta anos sou, pois, uma mulher de palavras, das que leio e das que escrevo. E continuo perseguindo as palavras com a mesma obsessão e curiosidade de quando era uma menina e perguntava o significado delas à minha mãe. E ela sempre sabia responder. Treliça. Salamandra. Aleluia. Monjolo. Cometa. Benjoim. Minuano. Castiçal. Manjedoura. Entranhas.
Aos cinquenta anos acordo no meio da noite em ânsias, tomada de uma angústia inexplicável, suando, acendo a luz e abro um livro ao acaso, os Cuentos de amor, de locura y de muerte do Horacio Quiroga com a dedicatória: Jamás te olvidaré, te amaré siempre, em beso, Germán, Rivera, 1975. Não sei quem é, mas não estou mais só e então volto a respirar com calma, amparada agora pelo Quiroga e louca de saudades deste Germán que, graças aos céus, em algum lugar do mundo, ainda me ama.
Aos cinquenta anos sou exatamente o que sonhei ser quando era uma menina: uma mulher de palavras.
Seco as lágrimas, tomo um banho, prendo o cabelo molhado, a cara limpa, sem maquiagem e antes de dormir olho a pilha dos livros que ficam e dos que vão embora. Mudei muito pouco em tanto tempo. E passou muito rápido.
Na pilha dos livros que ficam o que sempre me inspirou: as mulheres, as mulheres escritoras, as furiosas, as loucas e as irreverentes, algumas delicadas, as romancistas, as que brigam contra as injustiças, as poetas, as senhoras das palavras.
E na mesma pilha o esboço daquilo que tenho sido, lapidado: uma leitora, uma aprendiz de escritora, uma senhora cheia de rugas, del sur, do Prata, perdida no mundo, andarilha, com algumas convicções por demais arraigadas, forjadas a fogo lento, uma senhora de cabelos brancos e com o coração ancorado no pampa.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os grandes navegadores devem sua reputação às tempestades (Epicuro)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Não sorria, fique triste, relaxe, você não está sendo filmado.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"El testimonio de las mujeres es ver lo de fuera desde dentro. Si hay una característica que pueda diferenciar el discurso de la mujer, es ese encuadre."
Carmen Martín Gaite.




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

 
‎"Com muita freqüência, as expressões-limite da doença de uma cultura, seus sintomas e transtornos refletem a época - preocupações, limites, problemas extremos, medos. Anorexia é, em geral, uma doença da fartura, não da fome, assim como a depressão é de tempos de paz e prosperidade, não de guerra."
In: "Tristes, loucas e más. A histórias das mulheres e seus médicos desde 1800",
de Lisa Appignanesi.
A saudade é um sumidouro.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)
A tempestade apagou a luz, acendemos uma vela pequena. Você me acolhe nos seus braços. Só vemos contornos. Isto somos. Contornos. E carícias bruxuleantes.
(Lélia Almeida, Sublime, 2011)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sonhei que arrumava as roupinhas de um bebê numa cômoda de madeira muito antiga, e que tinha muito trabalho a fazer e organizar...