O tempo da fervura
o tempo do cozimento
aguardo sem ansiedade
confiando na pertinácia da fome.
(Lélia Almeida)
domingo, 12 de agosto de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Descobri este livro em 1998 e só hoje ele chegou nas minhas mãos. Esgotado no México, foi reeditado pela editora feminista" Horas y Horas", da Espanha, na Coleção que se chama "La cosecha de nuestras madres", recebi hoje o volume "Los cautiverios de las mujeres. Madresposas, monjas, putas, presas y locas", da Marcela Lagarde de los Ríos, como quem espera uma amiga, um amor, juro que continua valendo muito a pena, é um estudo completo, maravilhoso e sempre atual, recomendo e, sinto muito, não empresto!!!!
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Os
murmúrios do mundo, por Lélia Almeida.
Ouço
os murmúrios do mundo. A voz da minha vizinha de apartamento que diz pra outra,
deixa a menina aqui, estou fazendo nêga
maluca, deixa ela aqui, estão tão entretidas. A moça do salão que conta que
vai penhorar as joias da mãe para pagar os remédios, não tem jeito, ela diz, mulher
pobre não pode ser vaidosa e ri baixinho e envergonhada. Minha mãe bordando
ao meu lado, que me ensina com paciência o que aprendeu com a mãe e com a avó, a
que se chamava Lélia também. Enquanto borda conta histórias da família,
namoros, traições, partos, abortos, as biografias anônimas das mulheres comuns.
E diz frases como estas: a unha comprida
é quase um instrumento, olha só como funciona, me mostra alinhando e
dobrando a bainha do pano de prato, ou: o
ferro de passar é o melhor amigo de uma costureira, conserta qualquer ruga,
qualquer erro também. São os murmúrios das mulheres comuns que tecem as
rotinas e que embalam o mundo. Que ficam em casa com as crianças, que tecem e
bordam, que não decidem os rumos da humanidade, que quase nunca são ouvidas,
que não são consultadas. Ouço seus murmúrios, parece um rio subterrâneo, todas
falam mais baixo enquanto obram, e enquanto bordo sei que uma outra ordem nos
protege, nos irmana. O ruído apaziguador da máquina de costura, o cheiro das
linhas, dos retalhos, a caixa de costura redonda e a tesoura preta. Silêncios,
segredos, sussurros, cantigas, ponto cruz, cordoné, pé da galinha, sombra,
bastidor, caseadinho, cambraia, cetim, percal, etamine, organdi, uma linguagem
universal, a dos murmúrios do mundo. A linguagem das mulheres comuns. Da vida
simples, da vida pequena.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Prece para Santo Antonio, por Lélia Almeida.
Santo Antonio, não vou pedir nada ao senhor no dia
de hoje. Não vou pedir nada sem antes agradecer, que eu posso até ser pidona e
esfomeada, mas sou grata, céus, só eu sei como sou grata. Pois quem seria eu
sem os seus favores e a história dos meus amores? Por isso agora, do alto dos
meus cinquenta anos, nem penso em pedir nada, mas não posso deixar de agradecer
a vida cheia de graças que o senhor me propiciou. O uruguaio que me ensinou a
beijar de língua no portão da minha casa numa noite de inverno lá na fronteira,
as mãos dadas na matinê e o amor dublado em espanhol mexicano, os namorados dos
bailes de carnaval, piratas, ciganos, marinheiros, o namorado alemão, o inglês,
a camiseta do Inter do Ricardo, a estatueta que o Russel me deu no Portobello
Market, que era um coelho e uma coelha, o Marcelo chegando no aeroporto, o
italiano beijando a minha mão, dançando na chuva com o Pablo, o livro da
Virginia Wolf que o Nando trouxe de Montevideo e que lemos juntos, chorando,
fumando os dedos no banco da praça, mãos dadas na praia com o Johan depois de
20 anos, meu irmão que me consola porque a minha coelha morreu, meu outro irmão
que me rouba de um baile de Réveillon e me leva para um terreiro para uma festa
de verdade. Os meus primos, ai os meus primos! O que me deu a Mafalda, o
Cortázar, o Omar Khayyám, o que disse pra minha mãe que sim, que ia me levar
pra casa depois do baile, mães loucas estas que confiam uma prima a um primo!
Ele que olhava comigo a vitrine da casa de decoração de madrugada e com quem eu
sonhava ter uma casa e com quem tive um filho. As mãos daquele outro safado
despertando a minha pele mais profunda e acabando com as minhas vergonhas. O Zé
que me dava de beber nas mãos em concha. O olhar perdido do Carlo indo embora
no trem que partiu e nunca mais voltou. O abraço de urso do Roberto, o Gian que
me chama de meu amor até hoje, ai que vida farta, com estes homens que me
ensinaram o melhor de mim e que eu amo com amor infinito e além como aprendi com
a Sofia. Os que se misturam com as cidades, ai minha Santa Fé de Bogotá! Os
inconfessáveis. Lembro só das coisas boas, Santo Antonio, fiquei boba hoje, com
a fartura das boas lembranças. Nem lembro mais dos rios de lágrimas derramados
a cada despedida, cada traição, só lembro disso e nada mais. Do primeiro olhar,
das promessas e das esperanças imensas que só cabem neste primeiro olhar, os
beijos sem fim, os amores cristalizados. E como eles se acomodaram no meu
coração e me transformaram numa senhora de olhar saudoso e sorriso maroto.
Grata, sobretudo grata, Santo Antonio, pela vida farta que só as namoradeiras
têm. Hoje lembro de todos eles. Abençoo cada um, os galinhas e os cretinos
também, que a vida sem eles não teria a menor graça, e aos do bem, mais ainda.
Obrigada, Santo Antonio, pelo milagre renovado a cada encontro e a certeza que
a vida sem os amores é uma vida que não vale a pena ser vivida. A todos eles,
meu santo de devoção, a minha homenagem no dia de hoje, e ao senhor, que me
provê, a minha eterna gratidão! Amém!
sábado, 2 de junho de 2012
Leite
de rosas, por Lélia Almeida.
Eu tinha onze anos quando minha mãe me
deu um frasco de leite de rosas e me disse, use
sempre antes de dormir para limpar a pele, agora você é uma mocinha. Uso
até hoje e o cheiro do leite de rosas me lembra de verdades essenciais todas as
noites, depois de tê-las esquecido durante o dia.
Gosto de um livro da Victoria Sau, uma
feminista espanhola da velha guarda, maravilhosa, que se chama El vacío de la maternidade. Ela afirma
que a maternidade não existe, no sentido de que não existe enquanto valor
social, já que somos mães para os filhos dos homens, na história do
patriarcado. Tudo o que enaltece as mulheres, um pretenso amor ou instinto
materno, o acolhimento, a capacidade de cuidar, é o mesmo que nos perde já que
somos descartadas nas horas das tomada das decisões legítimas. As mães sírias
que o digam.
Para Victoria Sau, que retoma o
pensamento de Riane Eisler de quem gosto muito, em algum momento da história do
mundo as mulheres, que viviam numa relação de valorização, não de poder, ao
lado de suas mães, numa linhagem matrilinear, foram sequestradas pelos homens
que desta maneira, através do sequestro e do rapto enfraqueceram sua referência
mais importante, a mãe, a avó, a filha, as amigas, as outras mulheres.
Enfraquecer este vínculo é colocar a perder a irmandade, a cumplicidade e a
comunidade de mulheres. E elas passam, então, a ter filhos para os homens.
Portanto, diz Sau, a maternidade não existe, se as mulheres, como mães, servem
aos homens, vivem para eles e não sabem quem são e o que querem, a maternidade
não existe. E as mulheres se contentariam em parir os filhos numa espécie de
inconsciência calando a boca com um pênis ou com um filho, ela radicaliza. Na
verdade a autora faz alusão ao grande mal que o mito do amor romântico – que direciona
a existência feminina para o casamento ou para o amor - e o mito do amor
materno – que faz dos filhos a centralidade de suas existências - podem fazer à
vida das mulheres, imbecilizando-as a elas e sua prole, num miasma de amor cujo
objetivo da vida se situa na rede dos afetos pura e simplesmente e propõe que
as mulheres usem esta potencia em outras frentes, que cuidem do mundo, oras, ou
que não cuidem, e que cresçam e se desenvolvam de outras maneiras também, para
além do que se espera delas.
Adoro estas velhas feministas, radicais,
furiosas, que preconizam o que há de mais importante no feminismo, um
sentimento de pertinência. De pertencer. À casa da minha mãe, da minha avó, das
minhas amigas, das minhas filhas, da minha irmã, a filha da minha mãe. Da mesma
maneira que as linhagens e associações masculinas são inquebrantáveis,
deveríamos voltar a casa materna, para lembrar do essencial.
Mas o vínculo entre as mães e as filha
foi rompido, diz Victoria Sau, e pagamos um preço absurdo por este rompimento.
Na história do mundo, só resta a história de Deméter e Perséfone para lembrar
que as mães e as filhas estiveram juntas em algum momento. Deméter sabe que
perdeu sua Core, mesmo que ela volte ao seu encontro em alguns momentos do ano,
Deméter chora em Elêusis a perda da sua menina e os mistérios eleusinos são a
celebração da nossa dor, da nossa perda deste vínculo que nos constitui de uma
maneira definitiva.
Nos perdemos da casa materna quando não
ouvimos a nossa própria voz, quando nos portamos como ventríloquos das vontades
alheias, quando não sabemos o que queremos, quando nos submetemos, quando
negligenciamos quem somos nas nossas relações, quando deixamos de ser
importantes, e quando a voz dos nossos pais, maridos, irmãos, maridos,
namorados ou chefes soam mais altas do que as nossas. Então submergimos no
silêncio, um silêncio que só pode ser resgatado, agora e sempre, através da
reflexão sobre como nos portamos no mundo em relação às outras mulheres.
Quando escrevo sobre as mulheres estou
tentando voltar pra casa, quando leio sobre elas, estou procurando o caminho de
volta, quando procuro imagens de mulheres e investigo como foram pintadas,
desenhadas, fotografadas, estou voltando pra casa. Sem pressa, que agora sei
que o caminho é longo. O caminho de volta, de quando a gente se perdeu é como o
caminho de uma peregrinação, na travessia vamos lembrando do que esquecemos,
vamos ao encontro da nossa alma. No final talvez encontremos um refúgio, um
lugar para se estar em paz, com um espelho, uma bacia com leite de rosas, uma
toalha de linho cru, e onde possamos enfim lembrar deste outro mundo que
esquecemos todos os dias.
Brasília, 02 de junho de 2012.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Sobre
o episódio Xuxa, por Lélia Almeida.
Sou fã de carteirinha do trabalho da
Ministra Maria do Rosário. Já era sua admiradora antes mesmo dela ser ministra.
Acompanho com admiração e entusiasmo o seu trabalho como parlamentar que trata,
historicamente, de temas espinhosos na área de direitos humanos, a exemplo,
dentre outros, do enfrentamento à homofobia, à exploração sexual de crianças e
adolescentes e da sua luta pela apuração de abusos e violações dos direitos
humanos ocorridos na época da ditadura. E sou fã de carteirinha também do
trabalho desenvolvido na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da
República, em especial o da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da
Criança e do Adolescente – SNPDCA, capitaneada bravamente pela Carmen Silveira
de Oliveira e sua equipe e cujas ações de Enfrentamento à Violência Sexual de
Crianças e Adolescentes e do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes
Ameaçados de Morte, conheço mais de perto. O trabalho desenvolvido através
destas ações tem mérito reconhecido em âmbito internacional pelo seu ineditismo
e coragem e, no caso específico do PPCAAM, por exemplo, o governo brasileiro
traz a público a dificílima discussão sobre a letalidade entre crianças e
adolescentes, assunto este que nenhuma sociedade tem coragem de abordar, já que
abordá-lo significar assumir a nossa negligência principalmente com as crianças
e adolescentes pobres deste país e que são abatidos como bichos diariamente nas
periferias das nossas grandes cidades.
Glória Perez deu visibilidade através do
seu trabalho a temas cuja complexidade a sociedade brasileira só teria
condições de compreender através das novelas, atingindo massivamente um grande
público e propondo uma discussão inteligente a partir do entretenimento. Sua
próxima novela, por exemplo, entre outros temas, vai abordar a questão do
tráfico de pessoas. Glória Perez é uma ativista incansável junto às mães e
familiares de vítimas de violência, e seu trabalho como ficcionista é
compatível com uma prática que a legitima como figura fundamental na prevenção
à violência no nosso país.
Há centenas de projetos e ações da maior
importância na Esplanada dos Ministérios que a maioria das pessoas desconhece e
isto é lamentável, ações maravilhosas, de impacto decisivo e que as pessoas que
não estão diretamente envolvidas sequer suspeitam existir e isto também é
lamentável. É da maior relevância, portanto, quando celebridades, artistas ou
intelectuais assumem publicamente determinadas causas, principalmente as mais
difíceis de tratar como as relativas ao abuso de crianças e adolescentes, outro
tema que, como sociedade, gostaríamos de esquecer e silenciar, dada a magnitude
do horror e do tamanho das providências que devemos, socialmente, todos, tomar.
Este envolvimento, portanto, do maior número de atores sociais, na iniciativa que
leve ao debate e á reflexão é bem vinda e aplaudida.
Xuxa
Meneghel desde 2007 está firmemente engajada no apoio a campanhas
governamentais, como “Não bata, eduque” ou como madrinha nacional da campanha
contra exploração sexual de jovens, entre outros. Seu depoimento no Fantástico
do domingo passado dividiu a opinião pública num grupo que a chama, nas redes
sociais, de vadia, pedófila e oportunista, de um lado e do outro, por pessoas
que a apoiam e são solidárias, tendo em vista a sua situação, sabemos agora, de
adolescente e criança que foi molestada.
Diferentemente do trabalho de Gloria
Perez e de outros artistas que apoiam campanhas e causas desta natureza, o que
causa certo desconforto é que o trabalho de Xuxa Meneghel sempre propôs uma
espécie de imbecilização da infância e da adolescência no nosso país, criando
um equivocado e desastroso caldo de cultura desdobrado ad infinitum numa
esteira de discípulos que ainda não termina de acabar. Incentivou através do
seu trabalho tudo aquilo que as políticas governamentais combatem duramente,
como o consumismo infantil, a sexualidade precoce das crianças, a
superexposição midiática das mulheres e das meninas, para não ir muito além.
Talvez seja este descompasso entre a
prática e o discurso que traduza, na verdade, a desconfiança de muitos sobre o
seu depoimento. O de um trabalho que nega, ali, no frigir dos fatos, todo o
ideário de autonomia e legitimidade que estas políticas governamentais
trouxeram para a vida das crianças e adolescentes de forma definitiva.
As ações governamentais para a infância
e a adolescência que temos hoje no Brasil são soberanas, falam por si e estão
implementadas em todo o país, algumas delas se constituem em referência
internacional pelo seu ineditismo, consistência e ousadia. É ingênuo e
equivocado pensar que o depoimento da Xuxa vai fazer com que as pessoas vão se
tornar mais conscientes sobre a discussão sobre o abuso infantil, no mínimo
porque a escolha do testemunho, dada a sua total falta de senso crítico e
reflexão sobre o que realmente seja ser criança e adolescente neste país podem
nos fazer pensar, antes de tudo, que a escolha da tal da rainha dos baixinhos
para atender a esta demanda hercúlea, foi um colossal e desastroso engano.
terça-feira, 15 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A terra é má:
Lélia Almeida.
O Lars von Trier não está, confesso,
entre os meus diretores de cinema favoritos. Gosto muito de algumas coisas dele
e detesto outras. Assim é. Resisti muito a ver Melancholia, de 2011 e devo dizer que gostei muito do filme. Não
vou analisa-lo aqui, mas gosto, por exemplo, quando a irmã oficialmente
deprimida, Justine (Kirsten Dunst), diz pra irmã oficialmente normal e pragmática,
Claire (Charlotte Gainsbourg), que a terra é má. Para quem não viu o filme a
Terra vai ser destruída pelo choque com um planeta chamado Melancholia e o filme se passa nos momentos antes deste choque.
O filme, dividido em duas partes que tem
o nome de cada irmã vai mostrando a troca de papéis das duas e parece indicar
que os deprimidos saberão enfrentar de maneira mais realista o fim do mundo, já
que a depressão, ou a melancolia seriam, ao fim e ao cabo, uma verdadeira experiência de devastação e desamparo. Claire, a irmã bem sucedida está inconformada com o
fim do mundo, com o fim do seu confortável mundo, na verdade, e demanda
insistentemente do marido o cumprimento da promessa de que o mundo não vai
acabar. Justine, que sobreviveu aos caminhos inóspitos da depressão
sabe o que a irmã não quer aceitar: que a terra é má, ela diz. No mesmo tom que a
mãe fala à filha-noiva na festa de casamento, acorde, saia daqui e vá viver a
sua vida, ela diz, referindo-se aos casamentos sem vínculos reais, projetos
falidos antes mesmo de sua consumação. E conseguindo assim que a filha rejeite um homem que lhe ofereceu um jardim com macieiras.
Lembro desta frase da personagem da
Kirsten Dunst cada vez que leio sobre a balela da terra boa associada ao corpo
da mulher, que também é bom, que também é mau e estou exausta de tanto
retrocesso. Tô cansada da mãe-terra, da Pachamama impecável, da terra boa e me
filio cada vez mais à premissa do polêmico dinamarquês pra dizer que sim, que a
terra é má. É temperamental, cheia de humores, desacomodada e que a natureza é
selvagem sim, indomável, assim, como nós mesmos, cheios de apetites,
voracidades, estamos longe de sermos bons. Como a terra, também somos maus.
Em algum momento da história do
movimento das mulheres foi absolutamente necessário que as mulheres aprendessem
sobre os seus corpos, aprisionados por espartilhos mentais e físicos, proibidos
de prazeres e orgasmos e em nome disto loucuras foram e continuam a ser feitas
pelas mulheres do mundo todo. Participei de grupos de conscientização nos anos
70 e 80 e de toda sorte de promessa que compunha o elenco do liberou geral e quero dizer que a farra
foi grande e não foi menor a angústia de vivermos muitas vezes experiências e
situações para as quais estávamos completamente despreparadas. Não há
preparação quando se fala de sexualidade, já que este é o lugar do susto, do
sobressalto e do que não sabemos sobre nós mesmos no encontro com o outro.
Uma amiga minha foi iniciada por um
ginecologista que era médico do exército e que media a duração os orgasmos dela
com uma planilha na mão. Consta que ela não pode ver um jaleco branco até a
presente data. Muitos filmes nos mostraram, já de forma caricatural, os grupos
de mulheres que olhavam amorosamente suas partes com espelhinhos em posições
pouco cômodas e conversavam com elas para estabelecer uma intimidade de
comadres, perdidas na ilusão de num matriarcado que nunca existiu, enfim não
gosto nem de lembrar das coisas pelas quais já passamos e pelas quais pagamos
para a tal da liberação feminina. Falo dos grupos de conscientização de mais de
30 anos. E eis que tudo volta com uma força absoluta e me sinto perdida e
tentando compreender.
Tenho dificuldade com as premissas
feministas contemporâneas das jovens mulheres que querem voltar pra casa, ser
sustentadas pelos maridos e ficar cuidando dos filhos, tenho dificuldades para
entender que as mulheres não queiram mais namorar e trepar. Tô cansada das
festinhas e rodinhas de mulheres que fazem um verdadeiro campeonato de quem tem
o melhor marido ou o filho mais eficiente, sinto que estou nas festas de
aniversário das minhas tias lá no interior quando eu era uma menina e fico
desolada pensando que nada mudou e isto é desesperador. Porque muitas mulheres
sofreram muito para simplesmente adquirir o direito de poder votar, dirigir um
carro, fazer uma faculdade, escolher suas parcerias e tudo isto é jogado na
lata do lixo e voltamos ao princípio num movimento de um passo pra frente,
trocentos pra trás.
A ditadura pelo parto natural e pela
obrigatoriedade do aleitamento tão me cansando a beleza também. Foram anos de
luta para que as mulheres pudessem escolher viver como bem quisessem, saímos de
uma cartilha de repressão e rezamos pela cartilha do politicamente correto que
é careta, sem graça, pouco criativa, chata e burra.
Eu gosto da Rose Marie Muraro, da Elke Maravilha,
das mulheres anarquistas e de espírito rebelde. E gosto das mulheres comuns que
entendem ali, na veia, que a sexualidade vai além da discussão sobre a
vitimização e da violência ou do número de orgasmos que atingimos, que a
sexualidade e o prazer do corpo têm unicamente a ver com um jeito de andar pelo
mundo e que este jeito tem de ser leve, original, lúdico e pessoal, sem
receitas e regras. E que passamos da superexposição para a inibição num
movimento pendular viciado que nos impede a espontaneidade das nossas escolhas
mais simples, sofro com isto, eu que gosto de cada coisa mais esquisita, mais
bizarra, mais sem graça, por vezes, pelo simples prazer de gostar.
Outro dia fui expulsa de um grupo de
danças circulares onde uma cidadã levou uma coisa chamada moon cup que vem a ser uma espécie de coador de café daqueles antigos
com um gel onde é depositado o sangue menstrual que para muitas é considerado
sagrado. O sangue depositado naquela coisa solidificou e a criatura o aspergiu
sobre nós, filhas diletas da Pachamama para que fôssemos abençoadas pelo sangue
bendito. Tive uma crise histérica de riso incontrolável e fui convidada a me
retirar do círculo como uma filha traidora. Tudo ali, sob o plenilúnio e junto
com muitas mulheres vestidas de bruxas invocando os poderes da Hécate. Ai que
exaustão.
A terra é má. O corpo feminino, sobre o
qual historicamente é projetada a loucura do mundo pede descanso, por favor.
Nesta semana teremos o famigerado dia das mães. As mães são boas, assim reza a
lenda. E esquecemo-nos das mães que não cuidam dos seus filhos, que sequer os
amam, das que os abandonam, das mulheres que não quiseram parir, das que
detestaram amamentar, e repetimos que a paz é feminina. Não, não é. Se assim
fosse as mulheres não mandavam seus filhos para a guerra e nem apoiariam a
volta do Pinochet ao Chile como fizeram muitas mulheres chilenas só para citar
um dos exemplos mais dramáticos do âmbito da política. As mulheres são boas e
são más, a maternidade é por demais complexa para simplificações, ser mãe e ser
filha não é pra amadoras, e não vamos ganhar o céu das moças bem comportadas se
seguirmos o ideário em voga sem pensar sobre quem somos.
Feminismo tem a ver com autonomia,
solidariedade e coisas há muito esquecidas, e, principalmente, com espirito
crítico e autonomia de pensamento. Gosto das cenas dos cavalos do filme do von
Trier, que lembram de uma potência esquecida, imprescindível, das cenas das
irmãs cavalgando, indo a lugar nenhum, em busca de uma vitalidade, de um último
suspiro no momento em que o mundo pode acabar, porque um mundo sem desejo é um
mundo que vai, inevitavelmente, sucumbir.
A terra é má. E a terra é boa. Como no
filme Melancholia, um lugar por
demais belo com suas paisagens noturnas, perigosas, de uma natureza poderosa,
mas que vai acabar, como os nossos pobres corpos, feitos para a alegria e para
as dores. E a tal da mãe terra sabe ser cruel e devastadora independente de
ligarmos ou não o ar-condicionado, a natureza é o que é, impiedosa, milagrosa,
precária e exuberante.
Trata-se sempre do mesmo, penso eu aqui,
meio cansada quando leio algumas grandes bobagens escritas pelas mulheres, de
acabar com este maniqueísmo fácil e preguiçoso, de dizer que os homens são
violentos e as mulheres vítimas, esquecendo-nos das grandes manipuladoras,
doidas, assassinas e dos homens do bem. Tô ficando velha, a bem da verdade, e
não me satisfazem mais as respostas fáceis e nem as perguntas óbvias. Tenho
tido dificuldades imensas em conciliar as minhas esquisitices, pra aceitar sem
questionar determinadas insanidades que ouço num movimento de repetição
mecânica.
A terra é má, a Pachamama não é
protetora como desejamos, os nossos corpos, que vieram dos corpos das nossas
mães e que pariram os nossos filhos, ora acolhedores, ora não, vão fenecer um
dia. E a terra onde pisamos todos os dias, representada nos belos cenários do Melancholia, ainda é um lugar
absolutamente instigante para a travessia possível.
Brasília,
09/05/2012.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Amora:
Lélia Almeida.
Não subestimem
uma mulher que está na menopausa. Ela está atravessando um portal. Uma louca e
uma sacerdotisa pelejam dentro dela, ambas serão incorporadas. A mulher na
menopausa devora o coração das duas com os dentes gastos e a fúria de uma
sobrevivente faminta. Falta-lhe, a cada dia, a visão, a cada estação ela
aumenta o grau das lentes que enxergam o mundo de fora. Medida providencial
para quem tem de ajustar a visão de dentro. Olhar pra fora distrai, ela vê
agora, o essencial. As rugas se acumulam ao redor dos olhos, há uma estranha
suavidade no semblante e olhos incandescentes. Nascem pelos no queixo e podemos
vê-la, ocasionalmente, roçando os pelos, olhar perdido, despudorada. Um gesto
comum este entre as valquírias que se preparam para o grande embate. Porque esta
é a última oportunidade de deixar as ilusões pelo caminho. Os pelos
caem ondem deveriam permanecer, nascem em lugares insólitos. Tudo se traduz
numa grande inconveniência. Ela está se transformando num animal definitivo. Os
olhos congestionados ao redor da pele empapuçada veem o que ninguém mais vê. O
corpo exibe as marcas do tempo, não é mais belo, não é mais jovem e esta é uma
grande libertação. A cabeleira perde a força, os fios de prata são ásperos. Não há reposição hormonal que dê conta da convulsão da
sua alma. Ela está se transformando num bicho, num animal cujo nome desconhece.
Deixa pelo caminho o manual das boas maneiras, fica de péssimo humor, se irrita
com os filhos, com os homens, com as amigas. Ela está furiosa, ela chora, a
alma em alvoroço. Todas as noites ela chora, não sabe para onde ir, nem quando,
nem como. Ela duvida de tudo e se vê num grande deserto que tem
de atravessar sozinha agora. Ela chora em momentos improváveis, ri
desavisadamente, não tem mais paciência com bobagens e sua capacidade de
alegria se expande. Os outros a veem frágil, vacilante, mas ela tem agora uma
força e uma perseverança jamais experimentadas. O fogo a toma por segundos, ela
está em combustão, depois drena os excessos de água. Ela está conectada com
a fonte e com o fogo. Fica exausta, dorme mal, acorda cedo. Há dias que comeria
um animal sacrificado no meio da savana e outros de parco jejum. O mesmo
acontece com o sexo. Um sexo agora sem culpa e nem performance, um sexo sem
pressa, fome da carne, fome urgente, fome boa. Ela toma chá de amora. Seu sangue é como a tintura
da amora, de uma cor diferente e que lhe confere outras propriedades
para que ela possa, enfim, criar a si mesma. A mulher caminha concentrada,
lembra de si quando era uma menina, uma adolescente, caminha cada vez mais em
direção à casa materna, ela sabe agora o que só as mulheres velhas conhecem.
Ela não perde tempo, ela avança. Deixa pelo caminho tudo o que não serve mais.
É uma marcha constante, infernal, movida pela força do fogo e da água. Deixem-na
ir, ela não pode parar, atravessa as noites insone, atravessa o medo, pensa
obsessivamente na morte, transborda de vida e não perde tempo. Prossegue. Não subestimem uma mulher
que está na menopausa. Ela é uma tartaruga velha, uma gazela, uma
mulher-macaca. Ela caminha cada vez mais rápida, desgrenhada e incandescente.
Ela vai atravessar o portal. Ela vai encontrar, definitivamente, consigo mesma.
Brasília, 14 de março de 2012.
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Eu, aos cinquenta:
por Lélia Almeida.
Dia 20 de fevereiro
faço 50 anos. Meu aniversário coincide com uma mudança de casa, vou para um
apartamento menor, eu, três gatos e muitos livros. Hoje comecei a empacotar os
livros e fui tomada por um turbilhão de estados emocionais e alterações de
humor que só quem passa por isso sabe do que se trata. Porque na hora de
encaixotar os livros, muitos, inevitavelmente, vão ficar pelo caminho.
Já fiz mais de 20
mudanças para lugares, cidades, endereços e países diferentes e já deixei
muitos livros pra trás. E como choro na hora da escolha do que levar e do que
deixar. Uma escolha é também uma renúncia. Uma escolha reafirma quem ainda
somos e os livros que não vão conosco parecem gestar um cadáver daquilo que não
somos mais e que vai embora agora, um pedaço de nós, embalado numa mortalha
feita de caixas de supermercado, jazer na Biblioteca Demonstrativa de Brasília.
Chorei de ranho ao pé
da Antologia General de la Literatura
Española (verso, prosa, teatro), de Angel Del Rio de Columbia University y
Amelia Del Rio de Barnard College, da Revista de Occidente de Madrid, de 1954,
três portentosos volumes em couro legítimo que somam juntos mais de 3.000
páginas. E da Historia General de las
Literaturas Hispánicas de Guillermo Díaz-Plaja da Editorial Barna, de
Barcelona comprada na maravilhosa livraria García Santos libros em Mendoza na
Argentina, dois volumes de mais de mil páginas cada um, capa de couro clarinho.
E dos quatro volumes da Historia Comparada de las literaturas americanas de Lui
Alberto Sánchez, editado pela Losada e comprada na Librería Y... do Jorge, em Mendoza.
A Líbrería Y... era do Jorge, o último riponga autêntico da cidade e
ficava no centro de Mendoza, na Argentina. Era, na verdade, um galpão imenso,
cheio de livros maravilhosos, pé direito altíssimo e muitos gatos que ele
criava ali, misturado com os livros. Apaixonado por Cortázar, Jorge teve várias
livrarias na cidade e cada uma tinha uma parte do nome do livro Historias de cronopios y de famas. Todas
faliram, só tinha sobrado a Y... onde
permanecia o acervo fabuloso de todas as outras. Nas tardes de domingo eu e o
meu filho, que tinha sete anos então, passávamos a tarde garimpando livros,
brincando com os gatos e tomando mate com o Jorge e a Marta que nos
apresentavam editoras e autores imprescindíveis. Nosso primeiro gato veio dali,
o Preto, o nosso gato mendocino. Trouxe verdadeiras relíquias daquele lugar que
não existe mais. Voltamos a Mendoza dez anos depois para visitar os amigos e o
lugar vendia geladeiras, fogões e eletrodomésticos.
Tudo isto lembro agora
secando as lágrimas com os dedos cheios de pó, espirrando na hora da escolha.
Não consegui me desfazer das feministas clássicas, que domaram o meu espírito
rebelde, prossigo então com a Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir
e outras que não interessam a mais ninguém, e as brasileiras, Carmen da Silva,
Heliete
Saffioti, Heloneida Studart, Danda Prado, e outras tão caras a minha geração. Minha vida de menina, da Helena Morley também
vai. Tudo o que veio da fronteira comigo, permanece, os latino-americanos da
Editora Losada comprados na Casa América, Lorca e Miguel Hernández que me
iluminam sempre.
Olho para os que
permanecem e vejo que alguma coisa em mim não muda e se perpetua a cada vez que
os mesmos livros são embalados outra vez. Não só as feministas clássicas, as contemporâneas,
que me ensinaram a pensar e a olhar o mundo sob outro ponto de vista, o das
mulheres. Não posso prosseguir sem elas, as espanholas, as italianas, as
mexicanas, as francesas, as americanas, as inglesas, Marcela Lagarde, Michelle
Perrot, Elaine Showalter, Luisa Pousada, Helene Cisoux, Adrienne Rich Sandra
Gubar, e tantas outras. Ironicamente encontro Medo aos cinquenta da irreverente e maravilhosa Erica Jong que
antes me salvou das minhas ilusões aos 20 anos com Medo de voar. Não, não vou sem elas a lugar algum. E nem sem a
Lísia Pessin e a Virginia Wolf, Adélia Prado, Alfonsina Storni, Rosario Castellanos,
Clarice Lispector, Lila Ripoll ou a Cecilia Meireles.
Se um cavalheiro me
pedisse, gentilmente em casamento hoje, e fossemos tratar do dote eu não teria
como enganá-lo e lhe mostraria os meus tesouros: a obra completa da karen
Blixen, a obra completa da Peri-Rossi, a obra completa da Carmen Martín Gaite,
os diários da Anaïs Nin que sempre modulam com delicadeza a minha alma
assombrada. Cassandra Rios, Adelaide Carraro, Alicia Steimberg e Elfriede
Jelinek.
É o que temos, senhor,
eu diria, a obra completa destas damas, três gatos. E era isto. Ele desistiria,
estou certa, diante de um dote tão miserável, e ficaríamos amigos, quem sabe.
Deixei as gramáticas de
língua espanhola para trás, as de língua portuguesa também, e muitos
dicionários, há muito que não sou mais professora de línguas e literaturas e
esta parte foi triste, confesso.
Outros temas se
incorporaram nos últimos anos, temas sobre direitos humanos e mulheres,
mulheres que lutam pela paz no mundo, sobre conflitos e sobre feminismo
pacifista. Os livros da infância e da adolescência do meu filho também vão
ficar, e os de um doutorado em literatura comparada nunca concluído também não
me acompanham mais.
Mas nem morta eu me
desfaço do Sergio Faraco, do Simões Lopes Neto, do Erico Verissimo, do Julián Murguía,
do Acevedo Díaz, do Mario Arregui, do Felisberto Hernández, Borges, da Juana de
Ibarbourou, da Delmira Agustini que desenharam a alma da paisagem da fronteira
que é o meu lugar no mundo.
Chorei toda a tarde
embalando os livros, as latino-americanas que eu amo, minhas mestras, Elena Poniatowska,
Griselda Gambaro, Diamela Eltit, Alejandra Pizarnik. Os
das cartas de amor, os gregos, as cartas de amigos, os mitos, os livros dos
arcanos e os tarôs, os dos planetas, os de receitas, os atlas, a Dona Benta ainda
vai comigo, mas desta vez consegui liberar o Dr. De Lamare.
Cinquenta anos e não
sou uma mulher só. Aos cinquenta anos sou uma mulher simples, que vai morar num
loft pequeno cheio de livros e três
gatos. Levo, La enciclopedia de las cosas que nunca
existieron do Michael Page y Robert e do Ingpen Lee, que amo tanto.
Aos cinquenta anos sou,
pois, uma mulher de palavras, das que leio e das que escrevo. E continuo
perseguindo as palavras com a mesma obsessão e curiosidade de quando era uma
menina e perguntava o significado delas à minha mãe. E ela sempre sabia
responder. Treliça. Salamandra. Aleluia. Monjolo. Cometa. Benjoim. Minuano.
Castiçal. Manjedoura. Entranhas.
Aos cinquenta anos
acordo no meio da noite em ânsias, tomada de uma angústia inexplicável, suando,
acendo a luz e abro um livro ao acaso, os Cuentos
de amor, de locura y de muerte do Horacio Quiroga com a dedicatória: Jamás te olvidaré, te amaré siempre, em beso,
Germán, Rivera, 1975. Não sei quem é, mas não estou mais só e então volto a
respirar com calma, amparada agora pelo Quiroga e louca de saudades deste
Germán que, graças aos céus, em algum lugar do mundo, ainda me ama.
Aos cinquenta anos sou
exatamente o que sonhei ser quando era uma menina: uma mulher de palavras.
Seco as lágrimas, tomo
um banho, prendo o cabelo molhado, a cara limpa, sem maquiagem e antes de
dormir olho a pilha dos livros que ficam e dos que vão embora. Mudei muito pouco
em tanto tempo. E passou muito rápido.
Na pilha dos livros que
ficam o que sempre me inspirou: as mulheres, as mulheres escritoras, as
furiosas, as loucas e as irreverentes, algumas delicadas, as romancistas, as
que brigam contra as injustiças, as poetas, as senhoras das palavras.
E na mesma pilha o
esboço daquilo que tenho sido, lapidado: uma leitora, uma aprendiz de escritora,
uma senhora cheia de rugas, del sur,
do Prata, perdida no mundo, andarilha, com algumas convicções por demais
arraigadas, forjadas a fogo lento, uma senhora de cabelos brancos e com o
coração ancorado no pampa.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Este livro pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://clubedeautores.com.br/book/120038--As_meninas_mas_na_literatura_de_autoria_feminina
http://clubedeautores.com.br/book/120038--As_meninas_mas_na_literatura_de_autoria_feminina
Este livro pode ser encontrado no endereço abaixo:
http://clubedeautores.com.br/book/119576--Mujer_de_Palabras
http://clubedeautores.com.br/book/119576--Mujer_de_Palabras
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