terça-feira, 2 de outubro de 2012


Dilema de anatomia: Sofia e a avó tem um programa predileto, descer de carro uma ladeira que tem no condomínio. Sofia diz: -Ai, Dodó, me deu um frio na pepeca. A Dodó responde: - é frio na barriga que se diz, Fi. Ela responde: - Não é não, Dodó, em mim é na pepeca.

(Lélia Almeida)

Histórias de peixas:
Tive um pesadelo. O meu gato caía pela janela e eu conseguia salvá-lo, no voo. Acordei desaprumada. Fui ao supermercado com a Sofia que me conduziu firme entre as gôndolas. Encontrei a louca no corredor, a de cabelos brancos, e que anda pelas quadras com cadernos escritos guardados em sacos plásticos. Olho pra ela cúmplice, e digo pra Sofia com o olhar perdido, ela é escritora como eu. Dizem que o cabelo branqueou da noite pro dia, depois de um abandono amoroso. Sofia me olha séria, as jabuticabas imensas: Tia Lélia, você não é como ela, não.
Ufa. Estou salva.

(Lélia Almeida)


Da Sofia:
- Tia lélia, você sabe o que é misericórdia?
-Diz.
-É cruz-credo em outra língua.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012





Lagarta, por Lélia Almeida.

A astróloga disse que estou no momento da metamorfose, me deu de presente a metáfora da transformação da lagarta em borboleta. Fui perguntar a quem mais conhece do assunto, minha mãe, a bióloga, a que sempre tem as respostas. Ela disse que este é um dos grandes mistérios da vida, de como a larva constrói o casulo, as células se organizam de outra maneira, disse a minha mãe-mestra, e de como a borboleta, pronta, com cores e padrões únicos, rompe o casulo. Respirei tranquila entendendo a fome que me mata nestes tempos em que a morte se mistura com a vida e a lagarta sorve restos e migalhas por onde passa. Roubo, voraz, pedaços de queijo daqueles que se servem para degustação no supermercado, este queijo que é como um leite, um leite imprescindível, as asas sendo bordadas, a morte pronta, a morte que nunca esteve tão viva. Da borboleta que não vai reproduzir. Que vai transmutar.















Hoje fui lá visitar a minha a dor
aquela que me habita desde tanto tempo
encontrei-a anêmica, fraquinha,
quase sumida.
Então entendi que tem dores
que cansam da gente
e um dia são isto e nada mais,
uma dor vencida.

(Lélia Almeida)

domingo, 12 de agosto de 2012

O tempo da fervura
o tempo do cozimento
aguardo sem ansiedade
confiando na pertinácia da fome.

 (Lélia Almeida)

quarta-feira, 25 de julho de 2012







Descobri este livro em 1998 e só hoje ele chegou nas minhas mãos. Esgotado no México, foi reeditado pela editora feminista" Horas y Horas", da Espanha, na Coleção que se chama "La cosecha de nuestras madres", recebi hoje o volume "Los cautiverios de las mujeres. Madresposas, monjas, putas, presas y locas", da Marcela Lagarde de los Ríos, como quem espera uma amiga, um amor, juro que continua valendo muito a pena, é um estudo completo, maravilhoso e sempre atual, recomendo e, sinto muito, não empresto!!!!

quinta-feira, 21 de junho de 2012







Os murmúrios do mundo, por Lélia Almeida.

Ouço os murmúrios do mundo. A voz da minha vizinha de apartamento que diz pra outra, deixa a menina aqui, estou fazendo nêga maluca, deixa ela aqui, estão tão entretidas. A moça do salão que conta que vai penhorar as joias da mãe para pagar os remédios, não tem jeito, ela diz, mulher pobre não pode ser vaidosa e ri baixinho e envergonhada. Minha mãe bordando ao meu lado, que me ensina com paciência o que aprendeu com a mãe e com a avó, a que se chamava Lélia também. Enquanto borda conta histórias da família, namoros, traições, partos, abortos, as biografias anônimas das mulheres comuns. E diz frases como estas: a unha comprida é quase um instrumento, olha só como funciona, me mostra alinhando e dobrando a bainha do pano de prato, ou: o ferro de passar é o melhor amigo de uma costureira, conserta qualquer ruga, qualquer erro também. São os murmúrios das mulheres comuns que tecem as rotinas e que embalam o mundo. Que ficam em casa com as crianças, que tecem e bordam, que não decidem os rumos da humanidade, que quase nunca são ouvidas, que não são consultadas. Ouço seus murmúrios, parece um rio subterrâneo, todas falam mais baixo enquanto obram, e enquanto bordo sei que uma outra ordem nos protege, nos irmana. O ruído apaziguador da máquina de costura, o cheiro das linhas, dos retalhos, a caixa de costura redonda e a tesoura preta. Silêncios, segredos, sussurros, cantigas, ponto cruz, cordoné, pé da galinha, sombra, bastidor, caseadinho, cambraia, cetim, percal, etamine, organdi, uma linguagem universal, a dos murmúrios do mundo. A linguagem das mulheres comuns. Da vida simples, da vida pequena.

quarta-feira, 13 de junho de 2012







Prece para Santo Antonio, por Lélia Almeida.

Santo Antonio, não vou pedir nada ao senhor no dia de hoje. Não vou pedir nada sem antes agradecer, que eu posso até ser pidona e esfomeada, mas sou grata, céus, só eu sei como sou grata. Pois quem seria eu sem os seus favores e a história dos meus amores? Por isso agora, do alto dos meus cinquenta anos, nem penso em pedir nada, mas não posso deixar de agradecer a vida cheia de graças que o senhor me propiciou. O uruguaio que me ensinou a beijar de língua no portão da minha casa numa noite de inverno lá na fronteira, as mãos dadas na matinê e o amor dublado em espanhol mexicano, os namorados dos bailes de carnaval, piratas, ciganos, marinheiros, o namorado alemão, o inglês, a camiseta do Inter do Ricardo, a estatueta que o Russel me deu no Portobello Market, que era um coelho e uma coelha, o Marcelo chegando no aeroporto, o italiano beijando a minha mão, dançando na chuva com o Pablo, o livro da Virginia Wolf que o Nando trouxe de Montevideo e que lemos juntos, chorando, fumando os dedos no banco da praça, mãos dadas na praia com o Johan depois de 20 anos, meu irmão que me consola porque a minha coelha morreu, meu outro irmão que me rouba de um baile de Réveillon e me leva para um terreiro para uma festa de verdade. Os meus primos, ai os meus primos! O que me deu a Mafalda, o Cortázar, o Omar Khayyám, o que disse pra minha mãe que sim, que ia me levar pra casa depois do baile, mães loucas estas que confiam uma prima a um primo! Ele que olhava comigo a vitrine da casa de decoração de madrugada e com quem eu sonhava ter uma casa e com quem tive um filho. As mãos daquele outro safado despertando a minha pele mais profunda e acabando com as minhas vergonhas. O Zé que me dava de beber nas mãos em concha. O olhar perdido do Carlo indo embora no trem que partiu e nunca mais voltou. O abraço de urso do Roberto, o Gian que me chama de meu amor até hoje, ai que vida farta, com estes homens que me ensinaram o melhor de mim e que eu amo com amor infinito e além como aprendi com a Sofia. Os que se misturam com as cidades, ai minha Santa Fé de Bogotá! Os inconfessáveis. Lembro só das coisas boas, Santo Antonio, fiquei boba hoje, com a fartura das boas lembranças. Nem lembro mais dos rios de lágrimas derramados a cada despedida, cada traição, só lembro disso e nada mais. Do primeiro olhar, das promessas e das esperanças imensas que só cabem neste primeiro olhar, os beijos sem fim, os amores cristalizados. E como eles se acomodaram no meu coração e me transformaram numa senhora de olhar saudoso e sorriso maroto. Grata, sobretudo grata, Santo Antonio, pela vida farta que só as namoradeiras têm. Hoje lembro de todos eles. Abençoo cada um, os galinhas e os cretinos também, que a vida sem eles não teria a menor graça, e aos do bem, mais ainda. Obrigada, Santo Antonio, pelo milagre renovado a cada encontro e a certeza que a vida sem os amores é uma vida que não vale a pena ser vivida. A todos eles, meu santo de devoção, a minha homenagem no dia de hoje, e ao senhor, que me provê, a minha eterna gratidão! Amém!

sábado, 2 de junho de 2012




Leite de rosas, por Lélia Almeida.

Eu tinha onze anos quando minha mãe me deu um frasco de leite de rosas e me disse, use sempre antes de dormir para limpar a pele, agora você é uma mocinha. Uso até hoje e o cheiro do leite de rosas me lembra de verdades essenciais todas as noites, depois de tê-las esquecido durante o dia.
Gosto de um livro da Victoria Sau, uma feminista espanhola da velha guarda, maravilhosa, que se chama El vacío de la maternidade. Ela afirma que a maternidade não existe, no sentido de que não existe enquanto valor social, já que somos mães para os filhos dos homens, na história do patriarcado. Tudo o que enaltece as mulheres, um pretenso amor ou instinto materno, o acolhimento, a capacidade de cuidar, é o mesmo que nos perde já que somos descartadas nas horas das tomada das decisões legítimas. As mães sírias que o digam.
Para Victoria Sau, que retoma o pensamento de Riane Eisler de quem gosto muito, em algum momento da história do mundo as mulheres, que viviam numa relação de valorização, não de poder, ao lado de suas mães, numa linhagem matrilinear, foram sequestradas pelos homens que desta maneira, através do sequestro e do rapto enfraqueceram sua referência mais importante, a mãe, a avó, a filha, as amigas, as outras mulheres. Enfraquecer este vínculo é colocar a perder a irmandade, a cumplicidade e a comunidade de mulheres. E elas passam, então, a ter filhos para os homens. Portanto, diz Sau, a maternidade não existe, se as mulheres, como mães, servem aos homens, vivem para eles e não sabem quem são e o que querem, a maternidade não existe. E as mulheres se contentariam em parir os filhos numa espécie de inconsciência calando a boca com um pênis ou com um filho, ela radicaliza. Na verdade a autora faz alusão ao grande mal que o mito do amor romântico – que direciona a existência feminina para o casamento ou para o amor - e o mito do amor materno – que faz dos filhos a centralidade de suas existências - podem fazer à vida das mulheres, imbecilizando-as a elas e sua prole, num miasma de amor cujo objetivo da vida se situa na rede dos afetos pura e simplesmente e propõe que as mulheres usem esta potencia em outras frentes, que cuidem do mundo, oras, ou que não cuidem, e que cresçam e se desenvolvam de outras maneiras também, para além do que se espera delas.
Adoro estas velhas feministas, radicais, furiosas, que preconizam o que há de mais importante no feminismo, um sentimento de pertinência. De pertencer. À casa da minha mãe, da minha avó, das minhas amigas, das minhas filhas, da minha irmã, a filha da minha mãe. Da mesma maneira que as linhagens e associações masculinas são inquebrantáveis, deveríamos voltar a casa materna, para lembrar do essencial.
Mas o vínculo entre as mães e as filha foi rompido, diz Victoria Sau, e pagamos um preço absurdo por este rompimento. Na história do mundo, só resta a história de Deméter e Perséfone para lembrar que as mães e as filhas estiveram juntas em algum momento. Deméter sabe que perdeu sua Core, mesmo que ela volte ao seu encontro em alguns momentos do ano, Deméter chora em Elêusis a perda da sua menina e os mistérios eleusinos são a celebração da nossa dor, da nossa perda deste vínculo que nos constitui de uma maneira definitiva.
Nos perdemos da casa materna quando não ouvimos a nossa própria voz, quando nos portamos como ventríloquos das vontades alheias, quando não sabemos o que queremos, quando nos submetemos, quando negligenciamos quem somos nas nossas relações, quando deixamos de ser importantes, e quando a voz dos nossos pais, maridos, irmãos, maridos, namorados ou chefes soam mais altas do que as nossas. Então submergimos no silêncio, um silêncio que só pode ser resgatado, agora e sempre, através da reflexão sobre como nos portamos no mundo em relação às outras mulheres.

Quando escrevo sobre as mulheres estou tentando voltar pra casa, quando leio sobre elas, estou procurando o caminho de volta, quando procuro imagens de mulheres e investigo como foram pintadas, desenhadas, fotografadas, estou voltando pra casa. Sem pressa, que agora sei que o caminho é longo. O caminho de volta, de quando a gente se perdeu é como o caminho de uma peregrinação, na travessia vamos lembrando do que esquecemos, vamos ao encontro da nossa alma. No final talvez encontremos um refúgio, um lugar para se estar em paz, com um espelho, uma bacia com leite de rosas, uma toalha de linho cru, e onde possamos enfim lembrar deste outro mundo que esquecemos todos os dias.





Brasília, 02 de junho de 2012.

quarta-feira, 23 de maio de 2012


Sobre o episódio Xuxa, por Lélia Almeida.

Sou fã de carteirinha do trabalho da Ministra Maria do Rosário. Já era sua admiradora antes mesmo dela ser ministra. Acompanho com admiração e entusiasmo o seu trabalho como parlamentar que trata, historicamente, de temas espinhosos na área de direitos humanos, a exemplo, dentre outros, do enfrentamento à homofobia, à exploração sexual de crianças e adolescentes e da sua luta pela apuração de abusos e violações dos direitos humanos ocorridos na época da ditadura. E sou fã de carteirinha também do trabalho desenvolvido na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em especial o da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SNPDCA, capitaneada bravamente pela Carmen Silveira de Oliveira e sua equipe e cujas ações de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes e do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, conheço mais de perto. O trabalho desenvolvido através destas ações tem mérito reconhecido em âmbito internacional pelo seu ineditismo e coragem e, no caso específico do PPCAAM, por exemplo, o governo brasileiro traz a público a dificílima discussão sobre a letalidade entre crianças e adolescentes, assunto este que nenhuma sociedade tem coragem de abordar, já que abordá-lo significar assumir a nossa negligência principalmente com as crianças e adolescentes pobres deste país e que são abatidos como bichos diariamente nas periferias das nossas grandes cidades.
Glória Perez deu visibilidade através do seu trabalho a temas cuja complexidade a sociedade brasileira só teria condições de compreender através das novelas, atingindo massivamente um grande público e propondo uma discussão inteligente a partir do entretenimento. Sua próxima novela, por exemplo, entre outros temas, vai abordar a questão do tráfico de pessoas. Glória Perez é uma ativista incansável junto às mães e familiares de vítimas de violência, e seu trabalho como ficcionista é compatível com uma prática que a legitima como figura fundamental na prevenção à violência no nosso país.
Há centenas de projetos e ações da maior importância na Esplanada dos Ministérios que a maioria das pessoas desconhece e isto é lamentável, ações maravilhosas, de impacto decisivo e que as pessoas que não estão diretamente envolvidas sequer suspeitam existir e isto também é lamentável. É da maior relevância, portanto, quando celebridades, artistas ou intelectuais assumem publicamente determinadas causas, principalmente as mais difíceis de tratar como as relativas ao abuso de crianças e adolescentes, outro tema que, como sociedade, gostaríamos de esquecer e silenciar, dada a magnitude do horror e do tamanho das providências que devemos, socialmente, todos, tomar. Este envolvimento, portanto, do maior número de atores sociais, na iniciativa que leve ao debate e á reflexão é bem vinda e aplaudida.
Xuxa Meneghel desde 2007 está firmemente engajada no apoio a campanhas governamentais, como “Não bata, eduque” ou como madrinha nacional da campanha contra exploração sexual de jovens, entre outros. Seu depoimento no Fantástico do domingo passado dividiu a opinião pública num grupo que a chama, nas redes sociais, de vadia, pedófila e oportunista, de um lado e do outro, por pessoas que a apoiam e são solidárias, tendo em vista a sua situação, sabemos agora, de adolescente e criança que foi molestada.
Diferentemente do trabalho de Gloria Perez e de outros artistas que apoiam campanhas e causas desta natureza, o que causa certo desconforto é que o trabalho de Xuxa Meneghel sempre propôs uma espécie de imbecilização da infância e da adolescência no nosso país, criando um equivocado e desastroso caldo de cultura desdobrado ad infinitum numa esteira de discípulos que ainda não termina de acabar. Incentivou através do seu trabalho tudo aquilo que as políticas governamentais combatem duramente, como o consumismo infantil, a sexualidade precoce das crianças, a superexposição midiática das mulheres e das meninas, para não ir muito além.
Talvez seja este descompasso entre a prática e o discurso que traduza, na verdade, a desconfiança de muitos sobre o seu depoimento. O de um trabalho que nega, ali, no frigir dos fatos, todo o ideário de autonomia e legitimidade que estas políticas governamentais trouxeram para a vida das crianças e adolescentes de forma definitiva.
As ações governamentais para a infância e a adolescência que temos hoje no Brasil são soberanas, falam por si e estão implementadas em todo o país, algumas delas se constituem em referência internacional pelo seu ineditismo, consistência e ousadia. É ingênuo e equivocado pensar que o depoimento da Xuxa vai fazer com que as pessoas vão se tornar mais conscientes sobre a discussão sobre o abuso infantil, no mínimo porque a escolha do testemunho, dada a sua total falta de senso crítico e reflexão sobre o que realmente seja ser criança e adolescente neste país podem nos fazer pensar, antes de tudo, que a escolha da tal da rainha dos baixinhos para atender a esta demanda hercúlea, foi um colossal e desastroso engano.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Dentro de mim são tempos de romãs.


quarta-feira, 9 de maio de 2012











A terra é má:


Lélia Almeida.


O Lars von Trier não está, confesso, entre os meus diretores de cinema favoritos. Gosto muito de algumas coisas dele e detesto outras. Assim é. Resisti muito a ver Melancholia, de 2011 e devo dizer que gostei muito do filme. Não vou analisa-lo aqui, mas gosto, por exemplo, quando a irmã oficialmente deprimida, Justine (Kirsten Dunst), diz pra irmã oficialmente normal e pragmática, Claire (Charlotte Gainsbourg), que a terra é má. Para quem não viu o filme a Terra vai ser destruída pelo choque com um planeta chamado Melancholia e o filme se passa nos momentos antes deste choque.
O filme, dividido em duas partes que tem o nome de cada irmã vai mostrando a troca de papéis das duas e parece indicar que os deprimidos saberão enfrentar de maneira mais realista o fim do mundo, já que a depressão, ou a melancolia seriam, ao fim e ao cabo, uma verdadeira experiência de devastação e desamparo. Claire, a irmã bem sucedida está inconformada com o fim do mundo, com o fim do seu confortável mundo, na verdade, e demanda insistentemente do marido o cumprimento da promessa de que o mundo não vai acabar. Justine, que sobreviveu aos caminhos inóspitos da depressão sabe o que a irmã não quer aceitar: que a terra é má, ela diz. No mesmo tom que a mãe fala à filha-noiva na festa de casamento, acorde, saia daqui e vá viver a sua vida, ela diz, referindo-se aos casamentos sem vínculos reais, projetos falidos antes mesmo de sua consumação. E conseguindo assim que a filha rejeite um homem que lhe ofereceu um jardim com macieiras.
Lembro desta frase da personagem da Kirsten Dunst cada vez que leio sobre a balela da terra boa associada ao corpo da mulher, que também é bom, que também é mau e estou exausta de tanto retrocesso. Tô cansada da mãe-terra, da Pachamama impecável, da terra boa e me filio cada vez mais à premissa do polêmico dinamarquês pra dizer que sim, que a terra é má. É temperamental, cheia de humores, desacomodada e que a natureza é selvagem sim, indomável, assim, como nós mesmos, cheios de apetites, voracidades, estamos longe de sermos bons. Como a terra, também somos maus.
Em algum momento da história do movimento das mulheres foi absolutamente necessário que as mulheres aprendessem sobre os seus corpos, aprisionados por espartilhos mentais e físicos, proibidos de prazeres e orgasmos e em nome disto loucuras foram e continuam a ser feitas pelas mulheres do mundo todo. Participei de grupos de conscientização nos anos 70 e 80 e de toda sorte de promessa que compunha o elenco do liberou geral e quero dizer que a farra foi grande e não foi menor a angústia de vivermos muitas vezes experiências e situações para as quais estávamos completamente despreparadas. Não há preparação quando se fala de sexualidade, já que este é o lugar do susto, do sobressalto e do que não sabemos sobre nós mesmos no encontro com o outro.
Uma amiga minha foi iniciada por um ginecologista que era médico do exército e que media a duração os orgasmos dela com uma planilha na mão. Consta que ela não pode ver um jaleco branco até a presente data. Muitos filmes nos mostraram, já de forma caricatural, os grupos de mulheres que olhavam amorosamente suas partes com espelhinhos em posições pouco cômodas e conversavam com elas para estabelecer uma intimidade de comadres, perdidas na ilusão de num matriarcado que nunca existiu, enfim não gosto nem de lembrar das coisas pelas quais já passamos e pelas quais pagamos para a tal da liberação feminina. Falo dos grupos de conscientização de mais de 30 anos. E eis que tudo volta com uma força absoluta e me sinto perdida e tentando compreender.
Tenho dificuldade com as premissas feministas contemporâneas das jovens mulheres que querem voltar pra casa, ser sustentadas pelos maridos e ficar cuidando dos filhos, tenho dificuldades para entender que as mulheres não queiram mais namorar e trepar. Tô cansada das festinhas e rodinhas de mulheres que fazem um verdadeiro campeonato de quem tem o melhor marido ou o filho mais eficiente, sinto que estou nas festas de aniversário das minhas tias lá no interior quando eu era uma menina e fico desolada pensando que nada mudou e isto é desesperador. Porque muitas mulheres sofreram muito para simplesmente adquirir o direito de poder votar, dirigir um carro, fazer uma faculdade, escolher suas parcerias e tudo isto é jogado na lata do lixo e voltamos ao princípio num movimento de um passo pra frente, trocentos pra trás.
A ditadura pelo parto natural e pela obrigatoriedade do aleitamento tão me cansando a beleza também. Foram anos de luta para que as mulheres pudessem escolher viver como bem quisessem, saímos de uma cartilha de repressão e rezamos pela cartilha do politicamente correto que é careta, sem graça, pouco criativa, chata e burra.
Eu gosto da Rose Marie Muraro, da Elke Maravilha, das mulheres anarquistas e de espírito rebelde. E gosto das mulheres comuns que entendem ali, na veia, que a sexualidade vai além da discussão sobre a vitimização e da violência ou do número de orgasmos que atingimos, que a sexualidade e o prazer do corpo têm unicamente a ver com um jeito de andar pelo mundo e que este jeito tem de ser leve, original, lúdico e pessoal, sem receitas e regras. E que passamos da superexposição para a inibição num movimento pendular viciado que nos impede a espontaneidade das nossas escolhas mais simples, sofro com isto, eu que gosto de cada coisa mais esquisita, mais bizarra, mais sem graça, por vezes, pelo simples prazer de gostar.
Outro dia fui expulsa de um grupo de danças circulares onde uma cidadã levou uma coisa chamada moon cup que vem a ser uma espécie de coador de café daqueles antigos com um gel onde é depositado o sangue menstrual que para muitas é considerado sagrado. O sangue depositado naquela coisa solidificou e a criatura o aspergiu sobre nós, filhas diletas da Pachamama para que fôssemos abençoadas pelo sangue bendito. Tive uma crise histérica de riso incontrolável e fui convidada a me retirar do círculo como uma filha traidora. Tudo ali, sob o plenilúnio e junto com muitas mulheres vestidas de bruxas invocando os poderes da Hécate. Ai que exaustão.
A terra é má. O corpo feminino, sobre o qual historicamente é projetada a loucura do mundo pede descanso, por favor. Nesta semana teremos o famigerado dia das mães. As mães são boas, assim reza a lenda. E esquecemo-nos das mães que não cuidam dos seus filhos, que sequer os amam, das que os abandonam, das mulheres que não quiseram parir, das que detestaram amamentar, e repetimos que a paz é feminina. Não, não é. Se assim fosse as mulheres não mandavam seus filhos para a guerra e nem apoiariam a volta do Pinochet ao Chile como fizeram muitas mulheres chilenas só para citar um dos exemplos mais dramáticos do âmbito da política. As mulheres são boas e são más, a maternidade é por demais complexa para simplificações, ser mãe e ser filha não é pra amadoras, e não vamos ganhar o céu das moças bem comportadas se seguirmos o ideário em voga sem pensar sobre quem somos.
 Feminismo tem a ver com autonomia, solidariedade e coisas há muito esquecidas, e, principalmente, com espirito crítico e autonomia de pensamento. Gosto das cenas dos cavalos do filme do von Trier, que lembram de uma potência esquecida, imprescindível, das cenas das irmãs cavalgando, indo a lugar nenhum, em busca de uma vitalidade, de um último suspiro no momento em que o mundo pode acabar, porque um mundo sem desejo é um mundo que vai, inevitavelmente, sucumbir.
A terra é má. E a terra é boa. Como no filme Melancholia, um lugar por demais belo com suas paisagens noturnas, perigosas, de uma natureza poderosa, mas que vai acabar, como os nossos pobres corpos, feitos para a alegria e para as dores. E a tal da mãe terra sabe ser cruel e devastadora independente de ligarmos ou não o ar-condicionado, a natureza é o que é, impiedosa, milagrosa, precária e exuberante.
Trata-se sempre do mesmo, penso eu aqui, meio cansada quando leio algumas grandes bobagens escritas pelas mulheres, de acabar com este maniqueísmo fácil e preguiçoso, de dizer que os homens são violentos e as mulheres vítimas, esquecendo-nos das grandes manipuladoras, doidas, assassinas e dos homens do bem. Tô ficando velha, a bem da verdade, e não me satisfazem mais as respostas fáceis e nem as perguntas óbvias. Tenho tido dificuldades imensas em conciliar as minhas esquisitices, pra aceitar sem questionar determinadas insanidades que ouço num movimento de repetição mecânica.
A terra é má, a Pachamama não é protetora como desejamos, os nossos corpos, que vieram dos corpos das nossas mães e que pariram os nossos filhos, ora acolhedores, ora não, vão fenecer um dia. E a terra onde pisamos todos os dias, representada nos belos cenários do Melancholia, ainda é um lugar absolutamente instigante para a travessia possível.


Brasília, 09/05/2012.

quarta-feira, 14 de março de 2012





Amora:
Lélia Almeida.

Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela está atravessando um portal. Uma louca e uma sacerdotisa pelejam dentro dela, ambas serão incorporadas. A mulher na menopausa devora o coração das duas com os dentes gastos e a fúria de uma sobrevivente faminta. Falta-lhe, a cada dia, a visão, a cada estação ela aumenta o grau das lentes que enxergam o mundo de fora. Medida providencial para quem tem de ajustar a visão de dentro. Olhar pra fora distrai, ela vê agora, o essencial. As rugas se acumulam ao redor dos olhos, há uma estranha suavidade no semblante e olhos incandescentes. Nascem pelos no queixo e podemos vê-la, ocasionalmente, roçando os pelos, olhar perdido, despudorada. Um gesto comum este entre as valquírias que se preparam para o grande embate. Porque esta é a última oportunidade de deixar as ilusões pelo caminho. Os pelos caem ondem deveriam permanecer, nascem em lugares insólitos. Tudo se traduz numa grande inconveniência. Ela está se transformando num animal definitivo. Os olhos congestionados ao redor da pele empapuçada veem o que ninguém mais vê. O corpo exibe as marcas do tempo, não é mais belo, não é mais jovem e esta é uma grande libertação. A cabeleira perde a força, os fios de prata são ásperos. Não há reposição hormonal que dê conta da convulsão da sua alma. Ela está se transformando num bicho, num animal cujo nome desconhece. Deixa pelo caminho o manual das boas maneiras, fica de péssimo humor, se irrita com os filhos, com os homens, com as amigas. Ela está furiosa, ela chora, a alma em alvoroço. Todas as noites ela chora, não sabe para onde ir, nem quando, nem como. Ela duvida de tudo e se vê num grande deserto que tem de atravessar sozinha agora. Ela chora em momentos improváveis, ri desavisadamente, não tem mais paciência  com bobagens e sua capacidade de alegria se expande. Os outros a veem frágil, vacilante, mas ela tem agora uma força e uma perseverança jamais experimentadas. O fogo a toma por segundos, ela está em combustão, depois drena os excessos de água. Ela está conectada com a fonte e com o fogo. Fica exausta, dorme mal, acorda cedo. Há dias que comeria um animal sacrificado no meio da savana e outros de parco jejum. O mesmo acontece com o sexo. Um sexo agora sem culpa e nem performance, um sexo sem pressa, fome da carne, fome urgente, fome boa. Ela toma chá de amora. Seu sangue é como a tintura da amora, de uma cor diferente e que lhe confere outras propriedades para que ela possa, enfim, criar a si mesma. A mulher caminha concentrada, lembra de si quando era uma menina, uma adolescente, caminha cada vez mais em direção à casa materna, ela sabe agora o que só as mulheres velhas conhecem. Ela não perde tempo, ela avança. Deixa pelo caminho tudo o que não serve mais. É uma marcha constante, infernal, movida pela força do fogo e da água. Deixem-na ir, ela não pode parar, atravessa as noites insone, atravessa o medo, pensa obsessivamente na morte, transborda de vida e não perde tempo. Prossegue. Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela é uma tartaruga velha, uma gazela, uma mulher-macaca. Ela caminha cada vez mais rápida, desgrenhada e incandescente. Ela vai atravessar o portal. Ela vai encontrar, definitivamente, consigo mesma.

Brasília, 14 de março de 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Três gatos comem em três cumbucas. Uma do lado da outra. Alinhados. Os rabos descansados na mesma direção. A minha paz no mundo.