quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Encontrei com uma freira na farmácia, que foi atendida antes de mim. Fiquei observando aquela pequena mulher de gestos comedidos e voz suave enquanto ela pedia por um remédio. E invejei sua paixão absoluta, sua entrega total, uma intensidade que jamais experimentarei.

(Lélia Almeida)




Oh! Meu pai! Quantos sonhos me consumiram naqueles ensaios, todos impossíveis de serem realizados...
(Lélia Almeida)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Hoje atendi uma moça que está sofrendo porque está desmamando sua filha pequena. Depois saí e fui ao Conjunto Nacional. Fazia um frio atípico em Brasília. Vi uma mãe comprando uma meia-calça para a filha num camelô. E lembrei de quando fazia o enxoval de inverno quando morava no sul. Do início do frio quando comprava os edredons da Dona Eidt, na rua Machado de Assis, em Santa Cruz. Lembrei das estampas floreadinhas dos edredons e da minha vida cheia de rituais. De chegar em casa e aquecer o menino para o frio. Olhei para a mulher que escolhia moletons, agora, no camelódromo. E pensei que se eu dissesse a ela que um dia ela vai viver sem estes rituais – e que vai sobreviver - que talvez ela não acreditasse em mim.

(Lélia Almeida)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012




Eu e a Sofi levantamos muito cedo por conta do calor, ela vai brincar com os presentes de Natal, eu corto as frutas, faço suco e sento ao lado dela. A casa silenciosa, uma manhã iluminada. Ela monta um jardim com o Lego, fica muito tempo ali, montando o brinquedo. Não me atrevo a pedir para as estrelas nada além disto neste ano de 2013: uma imensa capacidade de concentração para as coisas lúdicas da vida, lembrar de como era sério poder inventar e criar: escrita, arcanos, encontros, amores, as boas risadas com as amigas. Acho que assim tá de bom tamanho pra mim.
Feliz 2013 para todos nós!

sábado, 24 de novembro de 2012





Maldição II. Por Lélia Almeida.

Quando eu nasci Cloto, Láquesis, Átropos, as parcas, debruçadas sobre o meu berço disseram: “Nossa, como ela é feinha! Pra compensar, vai ter uma vida virtuosa”, disse uma. Ao que a outra respondeu: “Nananinha, muito preguiçosa pra ser virtuosa, vai ter uma vida encantada”, arrematou.  Ao que a terceira discordou, “Também não, muito rebelde pra ser encantada.” E vaticinou: “Ela vai ter uma vida prodigiosa. Ela vai imaginar!”
E assim selou-se o meu destino. E a minha maldição.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


No pátio da minha irmã tem uma pitangueira, fui colher pitanga pra fazer uma geleia, as maiores e mais maduras estavam nos galhos mais altos e mais difíceis, entrei no meio das árvores e olhei pra cima, o céu azul e as frutas vermelhas vibrantes se iluminaram em cores e explosão de luz. Um besouro imenso guardava os frutos e a pequena Sofia catava o que caía no chão. Os milagres são sempre pequenos. O universo cristalizado no brilho da calda. Só a vida simples da conta do que é grande, do que é verdadeiro.

 

(Lélia Almeida)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Palavras de uma consulente: Para mim relacionamento tem que ser troca. E medida. Achei sábio, de difícil execução, quase sempre, mas sábio.
(Lélia Almeida)

A vizinha da minha mãe está fazendo um treinamento para maquiadora, perguntou se podíamos ser cobaias. Eu, minha mãe e minha irmã, de vestidos caseiros e chinelinhas fomos regiamente maquiadas e depois fomos tomar café às gargalhadas. Eu disse a elas, na nossa idade é importante ter a consciência de que daqui pra frente é tudo morro abaixo, vamos deslizar com um humor e leveza, meninas, que assim fica mais fácil.
(Lélia Almeida)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Escovo  os cabelos da Sofia depois do banho.
Os cachos, a minha cachopa de cachos, eu digo.
Frescor do banho. Frescor da vida.
Ela pergunta muito séria:
-Tia Lélia, quando eu "ter" filhos tu me ajuda a cortar as unhas deles?
- Ajudo sim, Fifi. Ajudo sim.

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Dilema de anatomia: Sofia e a avó tem um programa predileto, descer de carro uma ladeira que tem no condomínio. Sofia diz: -Ai, Dodó, me deu um frio na pepeca. A Dodó responde: - é frio na barriga que se diz, Fi. Ela responde: - Não é não, Dodó, em mim é na pepeca.

(Lélia Almeida)

Histórias de peixas:
Tive um pesadelo. O meu gato caía pela janela e eu conseguia salvá-lo, no voo. Acordei desaprumada. Fui ao supermercado com a Sofia que me conduziu firme entre as gôndolas. Encontrei a louca no corredor, a de cabelos brancos, e que anda pelas quadras com cadernos escritos guardados em sacos plásticos. Olho pra ela cúmplice, e digo pra Sofia com o olhar perdido, ela é escritora como eu. Dizem que o cabelo branqueou da noite pro dia, depois de um abandono amoroso. Sofia me olha séria, as jabuticabas imensas: Tia Lélia, você não é como ela, não.
Ufa. Estou salva.

(Lélia Almeida)


Da Sofia:
- Tia lélia, você sabe o que é misericórdia?
-Diz.
-É cruz-credo em outra língua.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012





Lagarta, por Lélia Almeida.

A astróloga disse que estou no momento da metamorfose, me deu de presente a metáfora da transformação da lagarta em borboleta. Fui perguntar a quem mais conhece do assunto, minha mãe, a bióloga, a que sempre tem as respostas. Ela disse que este é um dos grandes mistérios da vida, de como a larva constrói o casulo, as células se organizam de outra maneira, disse a minha mãe-mestra, e de como a borboleta, pronta, com cores e padrões únicos, rompe o casulo. Respirei tranquila entendendo a fome que me mata nestes tempos em que a morte se mistura com a vida e a lagarta sorve restos e migalhas por onde passa. Roubo, voraz, pedaços de queijo daqueles que se servem para degustação no supermercado, este queijo que é como um leite, um leite imprescindível, as asas sendo bordadas, a morte pronta, a morte que nunca esteve tão viva. Da borboleta que não vai reproduzir. Que vai transmutar.















Hoje fui lá visitar a minha a dor
aquela que me habita desde tanto tempo
encontrei-a anêmica, fraquinha,
quase sumida.
Então entendi que tem dores
que cansam da gente
e um dia são isto e nada mais,
uma dor vencida.

(Lélia Almeida)

domingo, 12 de agosto de 2012

O tempo da fervura
o tempo do cozimento
aguardo sem ansiedade
confiando na pertinácia da fome.

 (Lélia Almeida)