quinta-feira, 8 de maio de 2014

Estive numa palestra onde as autoras se diziam decentes e éticas em relação ao seu trabalho (duas delas eram jornalistas), que respeitavam as fontes, os testemunhos e que não misturavam o ofício de escritora com o de jornalistas bla bla bla. Me senti péssima naquele universo tão ético e perfeito. Eu que roubo como uma mendiga avarenta e voraz as histórias de todo mundo, uso frases que ouço das pessoas, transformo-as nas falas dos personagens, faço dos meus amigos personagens, me senti o ó da coisa horrorosa. Eu que minto e nem sempre sou ética e que sou capaz de tudo em troca das boas histórias, me senti a última das criaturas na frente daquele panteão de gente legal e decente. Quem escreve mente, trapaceia, brinca, engana, estende armadilhas, vai num churrasco e ouve uma conversa banal e alguém fala Lia, e agradeço a interlocutora, porque a minha próxima personagem vai se chamar Lilia, mas só decido ali, naquele momento em que aparentemente escuto aquela desinteressante história de amor e separação, mas estou com o pé, um pedaço da alma, lá, no outro mundo, de onde nunca saio totalmente, no laboratório, desamparada, desolada, escrevendo, inventando. Sem pensar se sou suficientemente boa ou certa ou decente, pois a literatura é feita de uma matéria prima outra, e vem de um lugar onde a preocupação em agradar ou ser legal não tem muita cabida.


(Lélia Almeida)

sábado, 12 de abril de 2014



Turbilhão, por Lélia Almeida.


Se eu fosse um ET e entrasse hoje no Facebook, ao ler as postagens da timeline, ia chegar a uma conclusão muito simples: no mundo em que vivemos hoje sexo é sinônimo de violência e estupro, só os homens e mulheres gays namoram e que esta prática, longe de ser saudável e lúdica, é unicamente arriscada, necessariamente perigosa, que leva à morte, e que, por conta disto, pode estar em vias de extinção.
A onda do denuncismo, do testemunho, do chororô e do mimimi quando se fala da sexualidade associada à violência e ao estupro é, para mim, sintoma de coisas muito simples: 1- de que as pessoas não estão trepando, 2- de que as pessoas estão trepando muito mal, e 3- de que as pessoas estão com preguiça de trepar.
Tempos nefastos estes.
Eu, ET e leitora do Facebook e de outras redes sociais, desconheceria, desta maneira, a história dos tempos em que o sexo ou o discurso sobre ele demonstraria que esta é uma prática lúdica, afetuosa, prazerosa, que promove encontros profundos e transformadores, que aproxima as pessoas, que é relaxante, que a sacanagem é sempre transgressora, que os corpos são divertidos e que a sexualidade é uma maneira de estar no mundo.
Já falei mais de uma vez neste espaço de que esta associação entre violência e sexualidade termina por continuar a vitimizar as mulheres, que muitas só conseguem fazer este tipo de associação e que isto serve a alguém de muitas maneiras, mantendo-as mergulhadas num caldo de cultura cheio de auto piedade, culpas, vergonhas e que isto possa ser, para muitas delas, passivamente, sua única maneira de gozar, repetindo estratégias masoquistas muito familiares à cultura feminina com as quais sempre tiveram ganhos reais que as valoriza através da cultura do sacrifício e do sofrimento. As denúncias sobre abusos, moléstias e violações são as únicas que aparecem nestas páginas, numa lógica simples de que todos os homens são violadores potenciais e de que todas as mulheres são, incondicionalmente, vítimas passivas. Soa qualquer coisa medieval, muito antiga, como se não tivéssemos passado pela revolução sexual e tudo o que ela significou de avanço e libertação na vida de todos nós.
            Eu, a macaca-velha, vou repetir ao meu avatar-ET-leitora curiosa, o que já afirmei em alguns momentos: que não gosto da cultura da vitimização das mulheres, que ela serve a interesses que não são exatamente os de muitas mulheres, porque vitimizadas elas permanecem como cidadãs de segunda classe, passivas, defeituosas, erradas. Não gosto do tanto que algumas mulheres se lambuzam de prazer nesta condição de tristeza sem saída, fazendo coro junto às que santificam e supervalorizam a sexualidade sempre relacionada à maternidade e às que decretaram que todos os homens do mundo ou são ou uns agressores natos ou uns frouxos sem saída.
Esta assepsia politicamente correta que não nos deixa falar sobre a sexualidade sem hipocrisia, que nos proíbe veladamente falar do sexo de uma forma divertida e engraçada, e obrigatoriamente de maneira politizada e institucionalizada está me dando nos nervos. Pergunto-me se a Dilmona ia apoiar uma campanha que propusesse motes do tipo, que eu mereço ser bem amada, que eu mereço ser bem comida, ou a criação de um vagão de metrô onde um grande surubão fosse permitido no horário que voltamos pra casa cansadas, e que pudéssemos dar, assim, uma grande relaxada antes de fazer a janta e encarar o terceiro turno de tarefas exaustivas. É claro que estou debochando, debochar e exagerar é também uma antiga prática erótica, já que o erotismo e o riso sempre andaram lépidos e faceiros de mãos dadas ao longo da história do mundo. E sobre isto eu-ET, não teria condições de compreender: que nem sempre os tempos foram tão broxas, caretas e sem graça.
Faço fisioterapia todos os dias numa clínica perto da minha casa. Estou na fase de mergulhar o tornozelo que operei por conta de uma torção, num tanque pequeno onde fluxos de água quente trabalham a circulação para diminuir o edema. A técnica se chama turbilhão. Fico ali uma meia hora com as pernocas brancas e gordas imersas e pensando bobagens. Porque numa maca que fica a alguns passos do tanque um japonês grande e forte fica deitado exposto aos raios infravermelhos por conta de uma inflamação no joelho, coisas de velhos com as juntas comprometidas. Desde que comecei a frequentar o turbilhão espio febril as coxas do japonês, que tem uma cara de cachorro triste e cabelos longos e grisalhos. Imagino que ele é um samurai cansado e poderoso e que acaricia a coxa da perna avariada enquanto relaxa na maca. E que sou uma gueixa com os pezinhos minúsculos fazendo curas muito antigas nas águas revoltas de um ofurô de carvalho ou cedro-rosa. Assim são os escritores, seres dementes e por demais fantasiosos.
Numa sexta-feira chuvosa, num fim de tarde ele me convidou com singeleza e olhos incandescentes: - Ô, moça bonita, hoje é sexta-feira, bora tomar um chops e comer um pastel!
Ai, o turbilhão outra vez! E mais não conto, que a imaginação é irmã gêmea do bom sexo, e disto também estamos, tristemente esquecidos.

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quinta-feira, 3 de abril de 2014



"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.

"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.


"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A consulente leva a metade da consulta me contando que o marido é maravilhoso, que a casa é linda, que os filhos são ótimos, que o trabalho é bárbaro e o tanto que ela é feliz e realizada. Enquanto embaralho as cartas me pergunto porque uma pessoa tão perfeita precisa de uma consulta do Tarot. Continuo ouvindo o ventríloquo. Acontece com muitas. Até que acontece um gap, um tropeço. E posso ouvir uma voz quase inaudível: Meu marido tem outra. Ou, meu filho tá se drogando, ou, estou falida, ou, me sinto tão perdida. É a voz da alma quebrada. Aí começa a consulta.

(Lélia Almeida)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sofia, a pequena peixa, vê o anúncio na tv de uma promoção de passagens de Brasília para Porto Alegre pela Submarino por apenas 150,00 e diz:

- Mãe, uma passagem bem baratinha e de submarino!!!!
O parzinho, por Lélia Almeida:


Pedi para ver os guardanapos de fazenda que estavam expostos numa cesta na loja de decoração, a moça que me atendeu procurava o par de cada um que eu gostasse e dizia: este temos o parzinho! Fez isto com umas cinco peças, até que eu disse num tom furioso: eu não quero o parzinho!!! Quero peças únicas, só pra mim! Coitada da moça, sobrou pra ela a minha indignação por não entender porque a gente precisa de 50 anos pra se libertar da obrigação do parzinho de guardanapos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013






O Amante Alemão, de Lélia Almeida:

O romance “O Amante Alemão” foi escrito em Brasília durante todo o mês de dezembro de 2006 e a sua montagem durou até junho de 2007. Durante muitos anos esteve em algumas editoras com uma promessa de publicação que nunca se realizou.
No ano de 2011 o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, o IEL, lançou um edital para vários gêneros literários e o romance foi classificado na categoria de narrativa longa, sendo agora publicado na Coleção Originais que cumpre uma das mais importantes missões do Instituto Estadual do Livro: incentivar qualidade de nossos autores, revelando talentos, trazendo à luz a primeira obra de escritores, além de publicar nomes já reconhecidos e com uma carreira consolidada.
As obras foram escolhidas pelo conselho editorial do instituto após abertura de edital para seleção. O projeto é em coedição com a Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas (Corag) e tem o apoio da editora Modelo de Nuvem.
O trabalho de pesquisa sobre um dado histórico da cidade de Santaluz (que é Santa Cruz do Sul) – o da existência de uma epidemia de suicídios por enforcamento por trabalhadores rurais, causada pelo efeito dos agrotóxicos nas plantações do tabaco – serviram de pano de fundo social para a criação da intriga. Num outro plano simultâneo temos uma história de amor muito improvável que se desenvolve através de um triângulo nada convencional.
A articulação destas histórias é uma espécie de tributo a muitas histórias das narradoras latino-americanas a quem me filio, já que muitas delas optam por uma visão de mundo em que os nossos afetos mais profundos reverberam em escolhas, condutas e atitudes que são sempre políticas.
Além do pano de fundo social, local, a reflexão sobre as mulheres é soberana – já que esta é a minha escolha como escritora: a que questiona sobre a maneira como a nossa sociedade cria uma cultura de amor romântico para a vida das mulheres, um amor que supõe sempre o cuidado com outro, para o outro, em nome da negação negligente do cuidado mais importante para a vida de todos e das mulheres, em especial, que é o autocuidado e, portanto, o amor próprio. O tom folhetinesco se justifica pela própria necessidade da desconstrução destes mandatos que assumimos como nossos por toda uma vida, e para lembrar que sem o desmonte destas ilusões, que pode se dar através do humor, não seremos capazes de nos expressar profundamente em nossa autenticidade e nossas dúvidas mais verdadeiras.
Estão garantidos nesta história rocambolesca, como na própria vida, os temperos que valem a existência: riso, choro, humor, melodrama, farsas, algumas mentiras e muita sinceridade.
Trecho do romance O Amante Alemão: (…) Duzília Flores viveu na cidade o tempo suficiente para poder testemunhar a morte destas velhas senhoras, que para ela eram mulheres sólidas, e tempo suficiente para ver suas casas serem destruídas e crescerem vorazes, no lugar delas, em vastos terrenos, edifícios imensos, de gosto e construção duvidosa. E assistir à morte de cada uma delas, que mais pareciam ter desistido de viver num mundo tão diferente daquele que elas haviam criado.
Morreram muito velhas, e Duzília Flores quando lembrava delas, quando via suas casas serem arrancadas daqueles terrenos, pensava em velhos e nobres carvalhos sendo extraídos de seu habitat natural para serem consumidos impiedosamente em fogos de pouca utilidade e nobreza. Este foi um dos signos de que a transformação era inevitável – para o bem e para o mal – a cidade mudava de donos, passava para a mão de outros donos e perdia valores importantes.
Tudo isto Duzília Flores pôde assistir, viveu ali tempo suficiente para ver como era a arquitetura daquela pequena cidade, que mais parecia uma cidade europeia cravada no meio de dois grandes vales, transformar-se numa cidade cheia de edifícios de mau gosto e com todos os problemas de uma cidade pequena com muito dinheiro estrangeiro, que são problemas com violência, corrupção e drogas. A cidade era uma das economias mais importantes do país na exportação do fumo, enormes complexos industriais se estendiam na entrada da cidade dando a dimensão poderosa daquela indústria que dava o sustento aos seus habitantes há muitos anos.
Assim, de um lado da praça, estava o pequeno entreposto de produtos naturais da ONG em que Duzília Flores iria trabalhar como assessora de imprensa. Do outro lado da praça, estava o ateliê da elegante Herta Lotti, a estilista que dividia com a Dona Moissi, há trinta anos, a fama de bom gosto e eficiência nas lides da costura para grandes festas, formalizando o sonho daquelas belas mulheres. E longe, longe dos olhos dessas mulheres estava a máquina que movia as vidas, os sonhos e as dores dos trabalhadores da cidade, a Companhia Tabacalera.
A mesma Companhia Tabacalera, para quem, do outro lado do mundo, Johan Hermann, entregava o sangue e a alma todos os dias da sua vida, com um orgulho quase militar, na verdade, devocionário, desde que era um menino de apenas dezoito anos de idade.

Dos editores: (…) Romance de fôlego, O amante alemão, de Lélia Almeida, consegue a proeza de ser uma narrativa costurada rigorosamente com intimidades, portanto constituída da psicologia mais profunda de seus protagonistas, e, ao mesmo tempo, um romance de costumes, isto é, uma ficção panorâmica na qual a vida de uma cidade vem à tona. Como em raros romances. (…) Lélia acerta a mão, as duas, uma vez que a obra é arquitetada numa composição de natureza simultânea. Numa cidade de colonização alemã e de economia fumageira, o cenário emocional que se apresenta é tenso e costurado com paixões mais caladas que gritadas. No entanto, elas gritam, como a tal economia, envenenadora, levando trabalhadores dessa atividade a suicídios nunca devidamente esclarecidos em suas razões. (…) Ambicioso e engenhoso, O amante alemão prova que Lélia Almeida, atingida a maturidade estética, revela-se capaz de escrever um romance que vai além do romance propriamente dito. Temos mais de um livro neste livro, numa só camada (e é mais de uma) seduzindo quem lê por nos provocar a febre do afeto que não se encerra (antes se expande, mesmo encerrado) e a compreensão da realidade e de seu funcionamento.

Por Romar Beling, na apresentação do romance: Das tantas leituras que se possa realizar de obras da literatura brasileira contemporânea, muito poucas certamente souberam empreender tamanho mergulho num universo social e cultural, com estranhamento e com inquietude, como o protagoniza este romance de Lélia Almeida. Desde as primeiras páginas, fica nítido o olhar despido de qualquer inocência espraiado sobre a cidade imaginária do Sul do Brasil na qual a história está ambientada. O narrador é impiedoso na caracterização individual e coletiva, e o choque cultural imediatamente remete ao sentimento de cisão em relação a valores. Há uma considerável carga de emoções em jogo, emoções que, a exemplo do paradoxo do sentimento intenso, transitam do amor ao ódio, da atração à repulsa, da esperança à desesperança. (…) Este romance que o leitor agora tem em mãos, é bom que se avise, veio para inquietar, para instigar, para causar estranhamento. Poderia ser, nunca devemos ignorá-lo, uma das funções da arte (se a ela se devesse atribuir alguma outra função que não apenas a de nos proporcionar enlevo). Afinal, o que seria da humanidade se, de tempos em tempos, um artista (…) não soubesse dizer algo que ultrapasse uma certa mesmice morna, que, de tal sorte, não aquece nem mentes, nem corações. Eis um livro para ser lido e prontamente relido. Relido, já nos revelará novos prismas de seus personagens, do mundo a que alude, numa inquietude salutar. Logo adiante, terá reservado seu espaço, com simplicidade e com autoridade, como uma obra de ruptura, em todo e qualquer manual que aponte para leituras indispensáveis.

sexta-feira, 14 de junho de 2013


Casamento arranjado, por Lélia Almeida.


O fisioterapeuta aplica a moxa, a Artemísia no meu tornozelo e pergunta como foi que aconteceu tamanho estrago, não tenho como contar tudo e digo a ele que foi um daqueles momentos difíceis da vida e ele me chama de gatinha e diz que tem coisas que são inexplicáveis e que a vida é muito misteriosa. Conta de uma paciente dele cujo namorado sumiu, na frente dela, no meio do Rio Negro, sumiu, do nada, sucuri, ele diz, tinha 24 anos o rapaz. Contou a história pra me consolar, pra dizer que coisas piores sempre podem acontecer. Gatinha. A palavra que me atira no buraco negro do rio. E estou lá, na casa da infância, num quarto escuro, meu pai, o médico, faz aplicações de raios ultravioletas por conta dos meus problemas respiratórios. Minha mãe está no mesmo quarto ao meu lado e segura a minha mão e eu choro. Não sei se por conta do desconforto da aplicação, se pela febre. Ele também me chama de gatinha, o meu pai. E ela, pra me acalmar vai imaginando o dia do meu aniversário de quinze anos. Que vou estar linda, num vestido amarelo, ela descreve o vestido que sonha pra mim, descreve o baile e que vou dançar com o meu irmão gêmeo, que vai estar de smoking, muito elegante, e que vamos dançar a valsa juntos. O buraco. Não sei se choro por conta do procedimento ou pelo pavor de ficar condenada a este casamento arranjado, um irmão que certamente também não quer dançar comigo, nem na festa nem jamais. E minha mãe vai descrevendo o baile, o vestido, a valsa. Naquele ano, quando fiz quinze anos, meus pais se separaram e a tal festa de aniversário nunca aconteceu. E por isso eu agradeço todos os dias. O buraco, a valsa interrompida, as fantasias da minha mãe que não se cumpriram e que desde cedo me ensinavam que a gente só tem validade neste mundo nos braços de outrem, todos os dias eu agradeço o meu pé torto, os meus tropeços, indo pra bem longe dos casamentos mal arranjados, rio afora, redemoinho.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Carne de segunda:
Quando minha mãe fez quinze anos, a tia dela disse, minha querida, você não é uma moça bonita, portanto, seja boa! Ontem vi uma mãe dizendo pra filha adolescente que ria às gargalhadas com uma amiga na rua: não ria deste jeito, seja mocinha, assim os rapazes não vão olhar pra você! Não deve haver perversidade maior do que esta na história da nossa cultura, a de que sejam as próprias mulheres que tenham de ensinar às suas filhas que elas não valem nada.

(Lélia Almeida)
O amante, por Lélia Almeida:
Quando meu filho nasceu eu estava no meio do mestrado, e tudo isto junto, na época - bebê e mestrado - significava uma enorme sobrecarga pra mim. Decidi que a quinta-feira ia ser o meu dia do amante. Mas eu não ia encontrar com nenhum amante. Ia sozinha ao cinema. E voltava caminhando pra casa, quase sempre de noite, enquanto alguém ficava com o menino. A volta pra casa, uma caminhada de 20 minutos era o meu único momento de solidão. Lembro sempre daquele ritual, que me ensinou do tanto que precisamos de tempo para ficarmos sós, longe dos filhos, do marido, do trabalho, para poder pensar.
E para poder duvidar.


domingo, 9 de junho de 2013

A bruxa, por Lélia Almeida:


O João Francisco está louco por mim. Pensar nisto me anima a vida. Vou dormir pensando nisto, acordo pensando nisto, que o João Francisco me ama, me quer, me adora. Convidou-me pra sair na sexta e eu disse que só posso no sábado, pra fazer um charminho, é claro, pra não dar muito mole. Ligo pra Marcela pra contar, ela diz que mereço, que é mérito meu ter conquistado aquele gato, lindo, rico, carrão, e ligo pra Fer e pra Helô. Todas felizes por mim, poderosa você, amiga! Uma sombra entra no quarto. Não, não é uma sombra. É ela, a Basília, que tem o dom de acabar com a minha alegria. Nunca gostei desta negra, penso. Minha mãe me proibiu de falar assim, mas eu sei o tanto que não a suporto e acabou. Não gosto do olhar dela, que parece que olha dentro de mim, nem da cara séria, ela que tem quase a minha idade e parece uma velha. Ela espana os livros e eu volto para o sol, para as risadas com as minhas amigas. Ele tá louco por mim, o João Francisco, eu repito. João Francisco me ama e a vida é boa. E vou ao salão no sábado, vou arrumar o cabelo, fazer a mão, o pé, e ficar linda para o João Francisco. Volto a elas, ele tá caidinho por mim, tá de quatro, tá louquinho por mim. E a sombra se projeta e se afasta como se o quarto estivesse sob as asas de uma borboleta de asas negra, uma bruxa. Uma irritação imensa vai tomando conta de mim. Viro-me pra ela, esta Basília que nunca vai saber o que é ter um homem do nível do João Francisco aos seus pés e não aguento: – Qual é o seu problema, nunca viu uma mulher feliz, sua idiota? O João Francisco tá louco por mim, eu encho a boca os pulmões, dona do mundo, dona do João Francisco e esta negra horrorosa, metida, que não pode ficar quieta e engolir a língua, desagradável, e que olha nos meus olhos, e faz a pergunta, a única que não precisava fazer, a infeliz, invejosa, a estraga prazeres: - E você? Você por acaso é louca por este João Francisco?