quinta-feira, 15 de maio de 2014

terça-feira, 13 de maio de 2014


Da fome das mulheres e da loucura da braba, por Lélia Almeida.




"Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada."

Naomi Wolf.


Fui à casa de uma amiga no fim de semana e a filha dela de oito anos me perguntou se eu podia abrir o Tarot para ela, eu expliquei que não se abre o Tarot paras as crianças e perguntei o que ela queria saber. Ela disse: "pergunta se eu vou conseguir emagrecer um dia". Vou na Secretaria de Direitos Humanos para uma reunião com a secretária e duas coordenadoras de área e durante meia hora o assunto é a dieta Dukan, quando fico sabendo a quantidade de proteína que cada uma delas ingere por dia e quantos quilos perderam nos últimos meses. Estão todas realizadas com a dieta, mas principalmente com a capacidade de auto controle.
            Minha vizinha diz, alternadamente, cada vez que vê a presidenta na televisão, "a Dilma está uma vaca de gorda", ou "ela emagreceu". Muitas mulheres que conheço se queixam de que os homens não as olham e que elas estão invisíveis. E quase todas, quando se encontram, antes de perguntar como estão, dizem frases do tipo, "nossa, como você emagreceu! Como você está bem!" O olhar das mulheres para o mundo e para si próprias, constantemente, é um olhar de quem está tomando medidas. 
            A mãe de uma amiga minha, uma senhora de 78 anos, me disse outro dia, "perdi 7 kgs nos últimos seis meses e sem fazer dieta!" E foi ali, pela primeira vez, que fiquei atenta para o fenômeno, tentando decifrar o que significava aquele sorriso feliz e realizado. O olhar dela era o de alguém que havia sido ungida por uma espécie de bênção divina, e era também o de uma menina bem comportada ou o de uma boa moça que havia feito bem o dever de casa. Foi então que vi o que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que só agora pude nomear e entender: o fenômeno de como as mulheres lidam com a comida e com suas medidas e que podemos chamar, simplesmente, de loucura da braba, como se diz na minha terra.
            A filha da minha amiga, a menina de oito anos, sempre foi muito fotografada pela mãe quando era pequena. A mãe é uma excelente fotógrafa e as fotos mostravam a cumplicidade das duas nos rituais das poses, das caras e bocas, ao longo da vida. Ela se sentia segura sob as lentes maternas. Neste verão ela e mãe foram de férias para Salvador e quando pedi para ver as fotos, vi uma menina tímida e retraída, e a cada foto que ela me mostrava dizia, "nesta eu não estou muito bem, estou muito gorda".  Aos oito anos ela já foi acometida pela loucura da braba e está doente. A espontaneidade que ela tinha fazendo poses, caras e bocas ao ser fotografada pela mãe foi completamente comprometida na medida em que ela foi crescendo e compreendendo o triste legado que ensinamos às nossas meninas e que afirma que os nossos corpos não valem nada.
Para as terapeutas americanas Rosalyn Meadow e Lillie Weiss, que escreveram "Las chicas buenas no toman postre", a associação da comida com a sexualidade é fundamental na vida das mulheres, não apenas na vida daquelas que são mães, mas na de todas as mulheres. 
Para elas os distúrbios alimentares são sintomas de um fenômeno simples: a comida é para as mulheres hoje, o que foi a sexualidade em tempos passados. Ou, por outra, o dilema da comida para as mulheres hoje, é o que foi o dilema da sexualidade para as mulheres em tempos passados. Se antes o controle sobre o corpo feminino exercido pelas normas e regras da sociedade patriarcal, dava-se em relação à sexualidade da mulher, agora o mesmo controle sobre o corpo feminino se dá através da comida. Para elas, a antiga equação "dar ou não dar para o namorado", equivale à equação "comer ou não comer" dos dias atuais. As mesmas fobias relativas às dificuldades de gozar, às dores da penetração, à frigidez, aos medos de engravidar, à vergonha de deixar-se tocar por um parceiro ou de ficarem nuas na frente dos outros são as mesmas fobias que tomam conta da vida das mulheres de forma desesperadora nos dias de hoje. Só que agora a antiga ansiedade se revela através de um verdadeiro terror das mulheres em relação ao seu peso e suas medidas.
As autoras fazem um quadro comparativo entre as medidas e remédios para os pecados da masturbação de outros tempos e o das restrições atuais para o sobrepeso, listando as medidas contra o auto abuso do sexo (cauterização, clitoridectomia, infibulação, aspiração cirúrgica do líquido sexual, cintos de castidade, duchas quentes e frias, camisa de força, medicação, exercício extremo e dieta) em correspondência direta às medidas contra o auto abuso da comida da atualidade (grampeamento do estômago, cirurgia de by-pass, plástica abdominal, lipoaspiração, aprisionamento das mandíbulas, banhos de vapor e água fria, faixas para suar, medicação, exercício extremo e dieta).
A insatisfação das mulheres com suas medidas e com sua imagem é permanente, e um profundo sentimento de inadequação se estabelece em suas vidas fazendo com que se sintam sempre impossibilitadas de sentir-se bem com seus corpos e imaginando que jamais corresponderão a um ideal de beleza que não tem nada a ver com elas. Um tempo e uma energia sem fim são desperdiçados dedicados às dietas, medidas, roupas, dietética e cosmética.
E estas mulheres que não comem, comem o que? Comem a fome. A fome dos seus desejos mais secretos, das suas necessidades afetivas mais básicas, dos seus sonhos mais recônditos. Uma fome impossível de ser saciada e que cria mais fome. As que comem demais e as quem comem de menos negam a fome das suas emoções. As mulheres estão famintas, longe de seus corpos e suas vontades, exiladas de seus corpos, os únicos capazes de propiciar alegria e prazer. Porque as mulheres que nutrem o mundo de diversas maneiras, afetivas, reais ou simbólicas, com suas comidas e afetos, e sua capacidade para a dança, e riso e a farra com seus homens, seus filhos e suas amigas, estão tristes, não se reconhecem mais nos seus corpos e na espontaneidade de seus movimentos. As mulheres desses tempos têm uma imensa fome de si mesmas. Têm fome de tudo aquilo que elas querem poder ser, sentir e realizar.
            E mesmo podendo dominar sofisticadas tecnologias e ocupar cargos de poder nunca imaginados por suas mães ou avós, elas continuam presas às medidas de um espartilho mental que negligencia e desqualifica sua auto imagem criando sentimentos inadequação que as tornam inseguras e infelizes.
            Marcela Lagarde em muitos dos seus textos diz que as mulheres de hoje se comportam como criaturas medievais desejosas unicamente de um amor romântico impossível de ser realizado e sem nenhuma reflexão crítica sobre sua seu amor próprio. E que isto as debilita e enfraquece, já que ninguém com estes sentimentos desenvolve suas potencialidades.
            A pergunta permanece, se desdobra: com ensinamentos deste tipo, o que estamos ensinando às nossas meninas? Quem cuida, afinal, das nossas meninas?

domingo, 11 de maio de 2014

Começar um livro novo é como começar um namoro. Ânsias, esperanças, alegria e pavor.
(Lélia Almeida)

sexta-feira, 9 de maio de 2014



Na 5ª. Edição da Semana de la en Rosario (SLR), na Argentina, que aconteceu no período de 21 a 27 de abril de 2014, em centros culturais, bibliotecas e espaços públicos com a temática As mulheres e a leitura. A minha palestra que se chamou Las chicas malas de la literatura de autoría femenina. Panorama de producción literaria hecha por mujeres en América Latina, aconteceu no Centro Cultural Fontanarrosa quando fui apresentada pelo professor Rubén Chababo. 


Quem cuida das nossas meninas? por Lélia Almeida.

Até a presente data, cumprindo com uma triste tradição, o anúncio do nascimento de uma menina, para muitas famílias em muitos lugares do mundo, é motivo de infelicidade e rejeição. Os artigos desta publicação, O Livro Negro da Condição das Mulheres (OCKERENT, Christine & TREINER, Sandrine. O Livro Negro da Condição das Mulheres. Rio de Janeiro; Difel, 2011) elenca os tipos de violências sofridos pelas mulheres e meninas no mundo inteiro perpetuando assim, tristes práticas em diferentes países. A realidade de grande parte das mulheres do mundo inteiro é a de mulheres pobres, mal alimentadas, doentes e iletradas e que servem para serem submetidas, exploradas, espancadas, violadas, compradas, repudiadas. Destinadas ao silêncio, ao esquecimento. Em suma, desprezíveis e indignas (p.18)
A publicação se organizou ao redor de cinco palavras-chave: segurança, integridade, liberdade, dignidade, igualdade, apresenta detalhadamente os diferentes tipos de crimes a que são submetidas as mulheres e meninas no mundo inteiro.
A referência às “mulheres faltantes” sobre os lugares do mundo onde há mais homens do que mulheres (principalmente em imensas partes da Ásia, na Índia, no Paquistão, em Blangadesh, na China) sobre a imensa quantidade de mulheres mortas mostra a dimensão da hostilidade e rejeição de muitas culturas e sociedades ao nascimento das meninas.
Fala-se na prática do aborto seletivo dos fetos femininos, na Índia principalmente, realizada a partir do resultado das amniocenteses, feitas para detectar anomalias, mas usadas de fato para saber o sexo dos bebês e poder assim proceder á rejeição, via aborto e interrupção das gestações de meninas (p.26)
As que sobrevivem poderão ser vítimas de infanticídio ou de sobremortalidade: as meninas serão menos alimentadas que os meninos e receberão menos cuidados se ficarem doentes, serão levadas ao médico em estágios terminais das doenças e serão menos vacinadas (p.27)
Outra questão que vai contra a sobrevivência das meninas de muitos países é que o pagamento do dote empobrece as famílias e, portanto, esta é mais uma razão para que o seu nascimento não seja desejado.
Na China, por exemplo, a prática do filho único, a partir de 1978 decuplicou os esforços de eliminação de meninas.
A detecção do sexo do feto disfarçada em pesquisa de anomalias, o aborto seletivo, o infanticídio e o abandono de meninas recém-nascidas em orfanatos-asilos terminais tomaram tal proporção que as autoridades chinesas precisaram abrandar, na zona rural, a proibição de ter um segundo filho. Os camponeses receberam autorização de ter um segundo bebê se, por infelicidade, o primeiro tiver sido uma menina. (p. 29)
Na África, sobre uma imensa parte do continente, a quase totalidade das meninas é mutilada (p.30), mais de 85 milhões de meninas não são escolarizadas (p.31) pois tem de trabalhar. Da mesma maneira, em muitos lugares do mundo, as meninas são vítimas da indústria do sexo e vítimas das guerras e são, comumente, transformadas em escravas sexuais durante os conflitos armados. Elas também são vítimas dos tráficos de esposas, estupradas como estratégias de limpeza étnicas durante as guerras ou mortas em nome da honra.
Mas esta realidade é pouco conhecida e, portanto, pouco denunciada. As políticas públicas de prevenção à violência priorizam as mulheres adultas ou os jovens e adolescentes do sexo masculino. Para Negrão e Prá (Ver in: Dossiê – Violência de Gênero Contra Meninas) embora as meninas sejam elemento de análise das áreas sociais ou da saúde, sua presença ainda é pouco explorada e isto se deve ao fato de que o enfoque centrado na realidade da mulher adulta dificulta a percepção das especificidades que demarcam o universo das mais jovens; de outro lado, em razão da juventude ser examinada como se fosse assexuada (p.14) Além do problema de delimitar as fronteiras entre adolescência e juventude e as dificuldades para situar as meninas como sujeito e objeto de estudo (p.15)

O episódio do sequestro de 276 meninas na Nigéria pelo grupo islâmico radical Boko Haram e a adesão internacional pela campanha que pede pela liberação das meninas, "Devolva nossas meninas", atualiza uma pergunta que fica sempre sem resposta, no Brasil e no mundo: afinal, quem cuida das nossas meninas?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Estive numa palestra onde as autoras se diziam decentes e éticas em relação ao seu trabalho (duas delas eram jornalistas), que respeitavam as fontes, os testemunhos e que não misturavam o ofício de escritora com o de jornalistas bla bla bla. Me senti péssima naquele universo tão ético e perfeito. Eu que roubo como uma mendiga avarenta e voraz as histórias de todo mundo, uso frases que ouço das pessoas, transformo-as nas falas dos personagens, faço dos meus amigos personagens, me senti o ó da coisa horrorosa. Eu que minto e nem sempre sou ética e que sou capaz de tudo em troca das boas histórias, me senti a última das criaturas na frente daquele panteão de gente legal e decente. Quem escreve mente, trapaceia, brinca, engana, estende armadilhas, vai num churrasco e ouve uma conversa banal e alguém fala Lia, e agradeço a interlocutora, porque a minha próxima personagem vai se chamar Lilia, mas só decido ali, naquele momento em que aparentemente escuto aquela desinteressante história de amor e separação, mas estou com o pé, um pedaço da alma, lá, no outro mundo, de onde nunca saio totalmente, no laboratório, desamparada, desolada, escrevendo, inventando. Sem pensar se sou suficientemente boa ou certa ou decente, pois a literatura é feita de uma matéria prima outra, e vem de um lugar onde a preocupação em agradar ou ser legal não tem muita cabida.


(Lélia Almeida)

sábado, 12 de abril de 2014



Turbilhão, por Lélia Almeida.


Se eu fosse um ET e entrasse hoje no Facebook, ao ler as postagens da timeline, ia chegar a uma conclusão muito simples: no mundo em que vivemos hoje sexo é sinônimo de violência e estupro, só os homens e mulheres gays namoram e que esta prática, longe de ser saudável e lúdica, é unicamente arriscada, necessariamente perigosa, que leva à morte, e que, por conta disto, pode estar em vias de extinção.
A onda do denuncismo, do testemunho, do chororô e do mimimi quando se fala da sexualidade associada à violência e ao estupro é, para mim, sintoma de coisas muito simples: 1- de que as pessoas não estão trepando, 2- de que as pessoas estão trepando muito mal, e 3- de que as pessoas estão com preguiça de trepar.
Tempos nefastos estes.
Eu, ET e leitora do Facebook e de outras redes sociais, desconheceria, desta maneira, a história dos tempos em que o sexo ou o discurso sobre ele demonstraria que esta é uma prática lúdica, afetuosa, prazerosa, que promove encontros profundos e transformadores, que aproxima as pessoas, que é relaxante, que a sacanagem é sempre transgressora, que os corpos são divertidos e que a sexualidade é uma maneira de estar no mundo.
Já falei mais de uma vez neste espaço de que esta associação entre violência e sexualidade termina por continuar a vitimizar as mulheres, que muitas só conseguem fazer este tipo de associação e que isto serve a alguém de muitas maneiras, mantendo-as mergulhadas num caldo de cultura cheio de auto piedade, culpas, vergonhas e que isto possa ser, para muitas delas, passivamente, sua única maneira de gozar, repetindo estratégias masoquistas muito familiares à cultura feminina com as quais sempre tiveram ganhos reais que as valoriza através da cultura do sacrifício e do sofrimento. As denúncias sobre abusos, moléstias e violações são as únicas que aparecem nestas páginas, numa lógica simples de que todos os homens são violadores potenciais e de que todas as mulheres são, incondicionalmente, vítimas passivas. Soa qualquer coisa medieval, muito antiga, como se não tivéssemos passado pela revolução sexual e tudo o que ela significou de avanço e libertação na vida de todos nós.
            Eu, a macaca-velha, vou repetir ao meu avatar-ET-leitora curiosa, o que já afirmei em alguns momentos: que não gosto da cultura da vitimização das mulheres, que ela serve a interesses que não são exatamente os de muitas mulheres, porque vitimizadas elas permanecem como cidadãs de segunda classe, passivas, defeituosas, erradas. Não gosto do tanto que algumas mulheres se lambuzam de prazer nesta condição de tristeza sem saída, fazendo coro junto às que santificam e supervalorizam a sexualidade sempre relacionada à maternidade e às que decretaram que todos os homens do mundo ou são ou uns agressores natos ou uns frouxos sem saída.
Esta assepsia politicamente correta que não nos deixa falar sobre a sexualidade sem hipocrisia, que nos proíbe veladamente falar do sexo de uma forma divertida e engraçada, e obrigatoriamente de maneira politizada e institucionalizada está me dando nos nervos. Pergunto-me se a Dilmona ia apoiar uma campanha que propusesse motes do tipo, que eu mereço ser bem amada, que eu mereço ser bem comida, ou a criação de um vagão de metrô onde um grande surubão fosse permitido no horário que voltamos pra casa cansadas, e que pudéssemos dar, assim, uma grande relaxada antes de fazer a janta e encarar o terceiro turno de tarefas exaustivas. É claro que estou debochando, debochar e exagerar é também uma antiga prática erótica, já que o erotismo e o riso sempre andaram lépidos e faceiros de mãos dadas ao longo da história do mundo. E sobre isto eu-ET, não teria condições de compreender: que nem sempre os tempos foram tão broxas, caretas e sem graça.
Faço fisioterapia todos os dias numa clínica perto da minha casa. Estou na fase de mergulhar o tornozelo que operei por conta de uma torção, num tanque pequeno onde fluxos de água quente trabalham a circulação para diminuir o edema. A técnica se chama turbilhão. Fico ali uma meia hora com as pernocas brancas e gordas imersas e pensando bobagens. Porque numa maca que fica a alguns passos do tanque um japonês grande e forte fica deitado exposto aos raios infravermelhos por conta de uma inflamação no joelho, coisas de velhos com as juntas comprometidas. Desde que comecei a frequentar o turbilhão espio febril as coxas do japonês, que tem uma cara de cachorro triste e cabelos longos e grisalhos. Imagino que ele é um samurai cansado e poderoso e que acaricia a coxa da perna avariada enquanto relaxa na maca. E que sou uma gueixa com os pezinhos minúsculos fazendo curas muito antigas nas águas revoltas de um ofurô de carvalho ou cedro-rosa. Assim são os escritores, seres dementes e por demais fantasiosos.
Numa sexta-feira chuvosa, num fim de tarde ele me convidou com singeleza e olhos incandescentes: - Ô, moça bonita, hoje é sexta-feira, bora tomar um chops e comer um pastel!
Ai, o turbilhão outra vez! E mais não conto, que a imaginação é irmã gêmea do bom sexo, e disto também estamos, tristemente esquecidos.

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quinta-feira, 3 de abril de 2014



"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.

"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.


"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A consulente leva a metade da consulta me contando que o marido é maravilhoso, que a casa é linda, que os filhos são ótimos, que o trabalho é bárbaro e o tanto que ela é feliz e realizada. Enquanto embaralho as cartas me pergunto porque uma pessoa tão perfeita precisa de uma consulta do Tarot. Continuo ouvindo o ventríloquo. Acontece com muitas. Até que acontece um gap, um tropeço. E posso ouvir uma voz quase inaudível: Meu marido tem outra. Ou, meu filho tá se drogando, ou, estou falida, ou, me sinto tão perdida. É a voz da alma quebrada. Aí começa a consulta.

(Lélia Almeida)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sofia, a pequena peixa, vê o anúncio na tv de uma promoção de passagens de Brasília para Porto Alegre pela Submarino por apenas 150,00 e diz:

- Mãe, uma passagem bem baratinha e de submarino!!!!
O parzinho, por Lélia Almeida:


Pedi para ver os guardanapos de fazenda que estavam expostos numa cesta na loja de decoração, a moça que me atendeu procurava o par de cada um que eu gostasse e dizia: este temos o parzinho! Fez isto com umas cinco peças, até que eu disse num tom furioso: eu não quero o parzinho!!! Quero peças únicas, só pra mim! Coitada da moça, sobrou pra ela a minha indignação por não entender porque a gente precisa de 50 anos pra se libertar da obrigação do parzinho de guardanapos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013






O Amante Alemão, de Lélia Almeida:

O romance “O Amante Alemão” foi escrito em Brasília durante todo o mês de dezembro de 2006 e a sua montagem durou até junho de 2007. Durante muitos anos esteve em algumas editoras com uma promessa de publicação que nunca se realizou.
No ano de 2011 o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, o IEL, lançou um edital para vários gêneros literários e o romance foi classificado na categoria de narrativa longa, sendo agora publicado na Coleção Originais que cumpre uma das mais importantes missões do Instituto Estadual do Livro: incentivar qualidade de nossos autores, revelando talentos, trazendo à luz a primeira obra de escritores, além de publicar nomes já reconhecidos e com uma carreira consolidada.
As obras foram escolhidas pelo conselho editorial do instituto após abertura de edital para seleção. O projeto é em coedição com a Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas (Corag) e tem o apoio da editora Modelo de Nuvem.
O trabalho de pesquisa sobre um dado histórico da cidade de Santaluz (que é Santa Cruz do Sul) – o da existência de uma epidemia de suicídios por enforcamento por trabalhadores rurais, causada pelo efeito dos agrotóxicos nas plantações do tabaco – serviram de pano de fundo social para a criação da intriga. Num outro plano simultâneo temos uma história de amor muito improvável que se desenvolve através de um triângulo nada convencional.
A articulação destas histórias é uma espécie de tributo a muitas histórias das narradoras latino-americanas a quem me filio, já que muitas delas optam por uma visão de mundo em que os nossos afetos mais profundos reverberam em escolhas, condutas e atitudes que são sempre políticas.
Além do pano de fundo social, local, a reflexão sobre as mulheres é soberana – já que esta é a minha escolha como escritora: a que questiona sobre a maneira como a nossa sociedade cria uma cultura de amor romântico para a vida das mulheres, um amor que supõe sempre o cuidado com outro, para o outro, em nome da negação negligente do cuidado mais importante para a vida de todos e das mulheres, em especial, que é o autocuidado e, portanto, o amor próprio. O tom folhetinesco se justifica pela própria necessidade da desconstrução destes mandatos que assumimos como nossos por toda uma vida, e para lembrar que sem o desmonte destas ilusões, que pode se dar através do humor, não seremos capazes de nos expressar profundamente em nossa autenticidade e nossas dúvidas mais verdadeiras.
Estão garantidos nesta história rocambolesca, como na própria vida, os temperos que valem a existência: riso, choro, humor, melodrama, farsas, algumas mentiras e muita sinceridade.
Trecho do romance O Amante Alemão: (…) Duzília Flores viveu na cidade o tempo suficiente para poder testemunhar a morte destas velhas senhoras, que para ela eram mulheres sólidas, e tempo suficiente para ver suas casas serem destruídas e crescerem vorazes, no lugar delas, em vastos terrenos, edifícios imensos, de gosto e construção duvidosa. E assistir à morte de cada uma delas, que mais pareciam ter desistido de viver num mundo tão diferente daquele que elas haviam criado.
Morreram muito velhas, e Duzília Flores quando lembrava delas, quando via suas casas serem arrancadas daqueles terrenos, pensava em velhos e nobres carvalhos sendo extraídos de seu habitat natural para serem consumidos impiedosamente em fogos de pouca utilidade e nobreza. Este foi um dos signos de que a transformação era inevitável – para o bem e para o mal – a cidade mudava de donos, passava para a mão de outros donos e perdia valores importantes.
Tudo isto Duzília Flores pôde assistir, viveu ali tempo suficiente para ver como era a arquitetura daquela pequena cidade, que mais parecia uma cidade europeia cravada no meio de dois grandes vales, transformar-se numa cidade cheia de edifícios de mau gosto e com todos os problemas de uma cidade pequena com muito dinheiro estrangeiro, que são problemas com violência, corrupção e drogas. A cidade era uma das economias mais importantes do país na exportação do fumo, enormes complexos industriais se estendiam na entrada da cidade dando a dimensão poderosa daquela indústria que dava o sustento aos seus habitantes há muitos anos.
Assim, de um lado da praça, estava o pequeno entreposto de produtos naturais da ONG em que Duzília Flores iria trabalhar como assessora de imprensa. Do outro lado da praça, estava o ateliê da elegante Herta Lotti, a estilista que dividia com a Dona Moissi, há trinta anos, a fama de bom gosto e eficiência nas lides da costura para grandes festas, formalizando o sonho daquelas belas mulheres. E longe, longe dos olhos dessas mulheres estava a máquina que movia as vidas, os sonhos e as dores dos trabalhadores da cidade, a Companhia Tabacalera.
A mesma Companhia Tabacalera, para quem, do outro lado do mundo, Johan Hermann, entregava o sangue e a alma todos os dias da sua vida, com um orgulho quase militar, na verdade, devocionário, desde que era um menino de apenas dezoito anos de idade.

Dos editores: (…) Romance de fôlego, O amante alemão, de Lélia Almeida, consegue a proeza de ser uma narrativa costurada rigorosamente com intimidades, portanto constituída da psicologia mais profunda de seus protagonistas, e, ao mesmo tempo, um romance de costumes, isto é, uma ficção panorâmica na qual a vida de uma cidade vem à tona. Como em raros romances. (…) Lélia acerta a mão, as duas, uma vez que a obra é arquitetada numa composição de natureza simultânea. Numa cidade de colonização alemã e de economia fumageira, o cenário emocional que se apresenta é tenso e costurado com paixões mais caladas que gritadas. No entanto, elas gritam, como a tal economia, envenenadora, levando trabalhadores dessa atividade a suicídios nunca devidamente esclarecidos em suas razões. (…) Ambicioso e engenhoso, O amante alemão prova que Lélia Almeida, atingida a maturidade estética, revela-se capaz de escrever um romance que vai além do romance propriamente dito. Temos mais de um livro neste livro, numa só camada (e é mais de uma) seduzindo quem lê por nos provocar a febre do afeto que não se encerra (antes se expande, mesmo encerrado) e a compreensão da realidade e de seu funcionamento.

Por Romar Beling, na apresentação do romance: Das tantas leituras que se possa realizar de obras da literatura brasileira contemporânea, muito poucas certamente souberam empreender tamanho mergulho num universo social e cultural, com estranhamento e com inquietude, como o protagoniza este romance de Lélia Almeida. Desde as primeiras páginas, fica nítido o olhar despido de qualquer inocência espraiado sobre a cidade imaginária do Sul do Brasil na qual a história está ambientada. O narrador é impiedoso na caracterização individual e coletiva, e o choque cultural imediatamente remete ao sentimento de cisão em relação a valores. Há uma considerável carga de emoções em jogo, emoções que, a exemplo do paradoxo do sentimento intenso, transitam do amor ao ódio, da atração à repulsa, da esperança à desesperança. (…) Este romance que o leitor agora tem em mãos, é bom que se avise, veio para inquietar, para instigar, para causar estranhamento. Poderia ser, nunca devemos ignorá-lo, uma das funções da arte (se a ela se devesse atribuir alguma outra função que não apenas a de nos proporcionar enlevo). Afinal, o que seria da humanidade se, de tempos em tempos, um artista (…) não soubesse dizer algo que ultrapasse uma certa mesmice morna, que, de tal sorte, não aquece nem mentes, nem corações. Eis um livro para ser lido e prontamente relido. Relido, já nos revelará novos prismas de seus personagens, do mundo a que alude, numa inquietude salutar. Logo adiante, terá reservado seu espaço, com simplicidade e com autoridade, como uma obra de ruptura, em todo e qualquer manual que aponte para leituras indispensáveis.