sexta-feira, 23 de outubro de 2015



Mandei uma mensagem de amor amarrada na garra de um falcão para um moço que está longe. O falcão não encontrou o endereço. Bendito seja o destino!


(Lélia Almeida)
Assim estão as pessoas, por Lélia Almeida.


Subimos várias mulheres e três homens jovens no elevador do Edifício Coliseu. A conversa dos homens variou entre o jogo do Inter e o Sartori. Uma delas olhava atenta para os braços peludos e morenos de um dos homens, e disse lá pelo 17º andar, posso dar uma tocadinha? O cara muito surpreso disse que ela ficasse à vontade e ela explicou, não leve a mal, mas o meu marido tá muito deprimido por causa do Inter e do Sartori e nem comparece mais! Todas demos uma tocadinha e saímos gargalhando do elevador, que em tempos de crise, só o humor na causa!

Tem dois programas do GNT que me dão sinceras ânsias de vômito, um é “Socorro, meu filho come mal”, onde a Gabriela Kapim ensina crianças mimadas e mal educadas, filhas de pais retardados a se alimentar de maneira mais saudável e o outro que é o “Fazendo a festa” onde a Fernanda Rodrigues organiza festas infantis debilóides, temáticas, junto com outras mulheres especialistas no assunto. Estas são as crianças da classe média, tirânicas, o centro do mundo das famílias, muitas vezes famílias classe c que criam filhos classe a e que os impedem de saber que existe frustração e limites num mundo onde eles cada vez menos saberão viver e sobreviver, enfim, muitos já falaram com maior propriedade sobre o assunto, como a Eliane Brum num texto exemplar que se chama “Meu filho você não merece nada” , entre outros. Programas como estes são um desfavor a uma reflexão séria sobre a infância e sobre como estamos educando os nossos filhos e sobre o que queremos realmente para as nossas crianças num mundo em convulsão onde muito menos de 1/3 delas come decentemente e bebe água potável todos os dias. Tá muito vagabundo este GNT. Porque a história da maioria das crianças do mundo, neste momento, é de desamparo, negligência, abandono e vulnerabilidade. É o que nos revela Werner Herzog “Ballad Of The Little Soldier”, de 1984, num documentário sobre as crianças nicaraguenses e seu olhar absolutamente lúcido, delicado e poético sobre realidades tão dramáticas.

(Lélia Almeida)


Assim estão as pessoas, por Lélia Almeida.

Sentou do meu lado no ônibus uma mulher descabelada e pálida, encolhida de frio. Me olhou e disse, "estou tão fodida da minha vida que hoje esqueci de escovar o cabelo. Uma tristeza que me fez fumar que nem puta triste toda a noite. Saco, viu." Caí na risada e fiz o resto do trajeto até o centro da cidade de mãos dadas com a minha nova amiga. E repeti baixinho o meu mantra do dia: "Benditas as mulheres tristes, benditas as mulheres escabeladas, benditas as mulheres furiosas, benditas as mulheres vivas, benditas as mulheres de verdade. Benditas as mulheres que sempre têm outras mulheres por perto e sabem que só isto já vale a dureza das manhãs frias!

Amém!


Tá, vou explicar de novo. Desde que me conheço por gente que cada vez que digo que sou do signo de Peixes que me olham com uma cara de decepção ou compaixão. Por esta simples razão homenageio as peixas todas as noites, para lembrar que além de doidaças, descompensadas, loucas e outros adjetivos tão injustos, elas são criativas, artistas, poetas, o colo do mundo, divertidas, originais, compassivas, belas, magas e grandes amigas.
Tá bom assim?

Boa-noite, Peixas.









Durante muitos anos frequentei a mágica casa dos Verissimo quando fazia a minha tese de mestrado sobre as personagens femininas de O tempo e o Vento do Erico Verissimo, a Dona Mafalda me chamava de Maria Valéria, o acervo estava na casa, com as fichas catalogadas e guardadas em caixas de sapatos. A minha amizade com a querida Marica Ivana de Lima e Silva data de longo tempo. Aqui um momento-tiete total! 

Ladra sem vergonha, por Lélia Almeida.


Estive numa palestra onde as autoras se diziam decentes e éticas em relação ao seu trabalho (duas delas eram jornalistas), que respeitavam as fontes, os testemunhos e que não misturavam o ofício de escritora com o de jornalistas bla bla bla. Me senti péssima naquele universo tão ético e perfeito. Eu que roubo como uma mendiga avarenta e voraz as histórias de todo mundo, uso frases que ouço das pessoas, transformo-as nas falas dos personagens, faço dos meus amigos personagens, me senti o ó da coisa horrorosa. Eu que minto e nem sempre sou ética e que sou capaz de tudo em troca das boas histórias, me senti a última das criaturas na frente daquele panteão de gente legal e decente. Quem escreve mente, trapaceia, brinca, engana, estende armadilhas, vai num churrasco e ouve uma conversa banal e alguém fala Lia, e agradeço a interlocutora, porque a minha próxima personagem vai se chamar Lilia, mas só decido ali, naquele momento em que aparentemente escuto aquela desinteressante história de amor e separação, mas estou com o pé, um pedaço da alma, lá, no outro mundo, de onde nunca saio totalmente, no laboratório, desamparada, desolada, escrevendo, inventando. Sem pensar se sou suficientemente boa ou certa ou decente, pois a literatura é feita de uma matéria prima outra, e vem de um lugar onde a preocupação em agradar ou ser legal não tem muita cabida.


Rapunzel, por Lélia Almeida.

Rapunzel publicou um anúncio no Face procurando um namorado, um cara legal, boa gente, dedicado, companheiro e divertido. Choveram mensagens e ela foi fazendo o descarte pelas fotos, sobraram poucos e ela decidiu recebe-los na porta da torre, deixando as tranças douradas firmemente atadas nas grades da janela. Um deles, um príncipe vindo de terras distantes ajoelhou-se aos seus pés e com voz maviosa disse que lhe seria eternamente fiel e apaixonado, que casaria com ela, que a faria feliz e lhe daria muitos filhos e que ela seria o grande amor de sua vida. Que ela esperasse por ele, tinha ainda muito que resolver, que voltaria, que ela o esperasse, que não se arrependeria pela paciência e perseverança. O mancebo falava de olhos fechados e parecia hipnotizado pela própria voz sem parecer vê-la, nem mesmo ouvi-la ou perguntar o que ela queria. Entendeu que o narciso-em-flor era daqueles que ignoram as demandas das mulheres e que ela mesma nunca ia ter espaço para expressá-las. “Deus-me-livre”, ela pensou escalando silenciosamente de volta pra torre e enquanto ele seguia embalado por suas promessas em mantra sedutor. Quando abriu os olhos a moça já estava lá em cima, e pode ouvir a voz de Rapunzel pela primeira vez, definitiva e firme:

- PRÓXIMO!


Penúria e artimanha na casa amarela, por Lélia Almeida.


Depois que saí da casa em Londres e voltei pro Brasil levei muito tempo sonhando que voltava lá para reencontrar o meu amor, com o tempo o sonho foi se modificando, eu demorava a encontrar a rua da casa, depois a casa não era mais na mesma rua, a paisagem ficava enevoada até que não encontrava mais a casa e nem a rua. A vida tinha andado e nunca mais sonhei nem com a casa e nem com a rua. Agora vivi algo parecido, depois que saí da casa amarela, com a sua varanda ampla de janelas grandes e com o jardim selvagem. No meu sonho estavam as duas labradoras pretas e as caixas de papelão na porta da casa onde elas dormiam nas noites de inverno. Sonhava que voltava lá todas as noites e dormia enrodilhada nelas, tomada de uma tristeza sem fim esperando que ele abrisse a porta e me acolhesse nos seus braços e no seu amor. A porta nunca se abriu. Sempre levantava e partia quando ainda era noite e ia embora para a minha vida sozinha. No meu sonho as cadelas se chamavam Penúria e Artimanha. Acordava com o coração dilacerado e a alma quebrada e custava a levantar da cama e continuar vivendo. Esta semana sonhei que havia dormido além da conta e ao acordar já despontava o amanhecer com a neblina sobre o campo. Parti resoluta e firme, eu, Perséfone, eu, Psiquê. E sem olhar para trás e nem me despedir das cadelas fechei com leveza o portão e atravessei o campo me despedindo dos bois pretos e das garças rosas. Um dia a tristeza começa a ir embora e não voltamos mais para o cenário do abandono e do desamparo, já não precisamos mais de quem não precisa de nós. E estamos prontas para a vida nova.

quinta-feira, 7 de maio de 2015



“Assim na Terra como no Céu”, por Lélia Almeida.

Encontrei com o Louco do Tarot na rodoviária de Osório num final de tarde chuvoso e outonal. Dou aulas em Osório toda quarta-feira, de manhã e de tarde, e no final da tarde a gente deixa o nome com o rapaz do guichê das passagens e se tem lugar para Porto Alegre ele chama o nome das pessoas interessadas. Nunca sabemos se vamos de fato embarcar, mas sempre dá certo.
O que se sentimos diante de uma imagem arquetípica é sempre avassalador. Muitas vezes não sabemos exatamente do que se trata, mas sabemos da potência simbólica da experiência. Ela fala com a nossa alma. Uma vez num carnaval no Rio de Janeiro encontrei com uma adolescente grávida que tinha uma coroa de estrelas na cabeça, uma tiara de plástico, muito simples, era uma moça muito pobre. Mas o esplendor e a força que emanava daquela mulher que alisava serenamente a barriga me fizeram entender que eu estava na frente da Imperatriz. E que a sua beleza tinha a ver com uma vitalidade e prosperidade muito singular.
Sentei no banco da rodoviária esperando que chamassem o meu nome. Um homem jovem, moreno, com a roupa esfarrapada passou por trás do banco onde eu estava sentada. Ele levava uma trouxa vermelha amarrada num cano, tinha a barra das calças dobradas, uma boina basca preta e vestia umas alpargatas destruídas. Do lado dele um cão branco e atrás do cão, vários outros vira-latas. O homem deu um assovio que ecoou pela rodoviária e os outros cães fugiram. Ele desfilou solene pelo espaço e me olhou firmemente. “É o Louco do Tarot”, eu quis gritar pra todo mundo ouvir. E tentei imaginar o que ele estava tentando me dizer naquele entardecer sombrio.
Esta noite acordei de madrugada e pensei que o lema do louco poderia ser este: “Assim na terra como no céu”. E que corresponde um pouco ao significado da carta, o Louco olha as estrelas, com a fé inabalável dos doidos, ele crê no mapa errático e caótico do universo. Ele está à beira de um precipício e não tem nada além da roupa do corpo, uma flor e uma parca mochila. Um cão branco ao seu lado, no entanto, o alerta e guia. O louco anda só e perdido. O louco precisa ousar, sabe que não há como se encontrar sem se perder. Ele é a força motriz, ígnea, selvagem, instintiva, primitiva.
Esta noite tive sonhos com animais selvagens que não sei o nome, animais furiosos, e acordei serena e imensamente alegre. Porque depois de alguns meses de mudanças de vida profundas, que me assustaram muito, hoje, nesta madrugada fria, a minha alma perdeu o medo. O medo de que as escolhas não tenham sido certas, o medo do que virá, o medo que me impedia de ver as linhas do mapa. Perdi o medo e acordei sorrindo ouvindo o canto dos pássaros na casa amarela. O mantra do Louco embalava o amanhecer: “Assim na Terra como no Céu”, e que invoca impressões definitivas, que algumas coisas que nos acontecem talvez já estivessem, misteriosamente, desenhadas e que nem sempre elas correspondem ao que pensávamos desejar. Que elas ainda podem ser outras, diferentes das que supúnhamos possíveis e que ainda assim podem ser maravilhosas e surpreendentes. E que não temos nenhuma espécie de controle sobre nada.
Cheguei a Porto Alegre e fui pegar o Catamarã para ir para casa. As ondas do Guaíba estavam agitadas. Olhei a minha imagem na janela do barco, misturada com a das águas e sigo sem saber quem é esta mulher que passa o batom, arruma o cabelo molhado da chuva e que leva pão preto para casa para jantar no fim do dia.
            Talvez o Louco tenha vindo me anunciar o fim do medo e a certeza da imprevisibilidade das rotas. Talvez aquele olhar e aquele assovio poderoso anunciem o que eu sempre soube: que quem se aventura às grandes mudanças pode, depois de tudo, voar.
            Chego a Guaíba e já é noite e a chuva amainou. E vou para Eldorado do Sul, o lugar onde moro agora. Numa casa que está se transformando num lar. E onde pintamos a velha despensa com tinta cor de laranja. E onde ele me levou para o pátio, numa tarde de verão, para tirar a tinta dos meus cabelos, com um pente destes de catar piolho, tirou os pedaços de tinta, encostei a cabeça no corpo molhado dele e o sol ofuscou os nossos olhos, a cor laranja ficou dourada, os nossos olhos iluminados. Com ele lembrei-me do significado real de palavras esquecidas: alecrim selvagem, flor de hibisco, boi, garça, cágado, lagartixa, erva doce, eucalipto, tempestade. E que determinadas experiências são da ordem da fé e nada mais. Em Eldorado do Sul aprendi que nem tudo que reluz é ouro. E que para além do ouro encontrei apenas o que mais procurava: a vida vívida, a vida viva.


            

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014


Corro pelas ruas da cidade, estão todos ansiosos, dezembro é um mês nervoso, há uma urgência no ar. Não estou mais na cidade e também ainda não estou lá na cidade do sul. Vivo num tempo e num espaço suspensos. Um limbo, um intervalo, um gap. Uma amiga me disse, se eu fosse você eu não ia, eu expliquei a ela que se eu fosse eu, que eu também não ia. Mas que não sei quem é esta pessoa que decidiu partir, e que agora vou ter de conhecê-la também. No tempo do intervalo, uma estranha urdidura do que jamais voltarei a ser e do que eu nem sonhava que poderia ser. Caminho rápido como todos pelas ruas de uma Brasília outonal e chuvosa, cheia de tarefas e finalizações, despedidas, sem tempo a perder. Eu vou, não sei bem como, mas vou.


(Lélia Almeida)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014


Não quero escrever nada desta vez.
Não quero explicar.
Desta vez vou ficar bem quietinha.
E te ler.
Desta vez vou apenas lavar as alfaces e te espiar pela janela,
concentrado,
cortando a grama.
Lava e chuva, liquefeita por dentro.


(Lélia Almeida)

No cerrado flori inteira.
De securas e duras florações
Para o voo exuberante.
Obrigada, minha Brasília.


(Lélia Almeida)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


No Natal vai nascer uma menina, por Lélia Almeida.

Numa tardinha quente de fevereiro, minha mãe, grávida de sete meses, subiu os três andares do edifício onde morava, carregando uma melancia. O trabalho de parto começou naquela noite. E ninguém sabia que era um casal de gêmeos. Meu irmão nasceu um menino muito pequeno e quando minha mãe fez força para expulsar a placenta o médico anunciou que era uma menina, menor que ele ainda. Durante muito tempo o meu apelido familiar foi o resto. Meu irmão ganhou peso e pôde ir para casa e eu fiquei ainda um tempo na incubadora do hospital. Fiquei para ganhar peso através de uma sonda de soro e gotas de leite materno pingadas num chumaço de algodão pelas mãos de freiras fervorosas que me batizaram como Lélia Maria, em homenagem à Virgem, para que eu sobrevivesse. Sinto que todas as decisões da minha vida não foram, inteiramente, tomadas por mim. Mas pelo espírito valente daquela menina que se mantinha a sopros e determinação, dia a pós dia, decidindo ficar.
Sempre que vivi provas que me pareceram impossíveis de suportar agradeci a travessia. Mas hoje eu sei que a decisão de suportar ou desistir não me cabia. Aquela menina diminuta já tinha decidido por mim, lá, no início de tudo. E hoje, quando me desespero entro em sintonia com o espírito dela, o corpo enrolado em fios e panos, numa incubadora que talvez lembrasse a precariedade da manjedoura como a daquela história de tanto amor. Ela respira e não desiste. Eu reverencio aquela menina a cada noite escura que meu coração pede trégua. Então eu fico, eu digo, depois de orar, e agradeço a sua força.
Eu fico. E quero a minha jornada por inteiro.
Com tudo o que me cabe.

Amém!