segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


No Natal vai nascer uma menina, por Lélia Almeida.

Numa tardinha quente de fevereiro, minha mãe, grávida de sete meses, subiu os três andares do edifício onde morava, carregando uma melancia. O trabalho de parto começou naquela noite. E ninguém sabia que era um casal de gêmeos. Meu irmão nasceu um menino muito pequeno e quando minha mãe fez força para expulsar a placenta o médico anunciou que era uma menina, menor que ele ainda. Durante muito tempo o meu apelido familiar foi o resto. Meu irmão ganhou peso e pôde ir para casa e eu fiquei ainda um tempo na incubadora do hospital. Fiquei para ganhar peso através de uma sonda de soro e gotas de leite materno pingadas num chumaço de algodão pelas mãos de freiras fervorosas que me batizaram como Lélia Maria, em homenagem à Virgem, para que eu sobrevivesse. Sinto que todas as decisões da minha vida não foram, inteiramente, tomadas por mim. Mas pelo espírito valente daquela menina que se mantinha a sopros e determinação, dia a pós dia, decidindo ficar.
Sempre que vivi provas que me pareceram impossíveis de suportar agradeci a travessia. Mas hoje eu sei que a decisão de suportar ou desistir não me cabia. Aquela menina diminuta já tinha decidido por mim, lá, no início de tudo. E hoje, quando me desespero entro em sintonia com o espírito dela, o corpo enrolado em fios e panos, numa incubadora que talvez lembrasse a precariedade da manjedoura como a daquela história de tanto amor. Ela respira e não desiste. Eu reverencio aquela menina a cada noite escura que meu coração pede trégua. Então eu fico, eu digo, depois de orar, e agradeço a sua força.
Eu fico. E quero a minha jornada por inteiro.
Com tudo o que me cabe.

Amém!

domingo, 23 de novembro de 2014




Mas o que tinha, afinal, naquela casa,
Que não coubesse em outras?
Um homem com mãos quentes e paredes sólidas,
Árvores de raízes antigas e água limpa
Frestas por onde suspiravam ainda, debilmente, dores já vencidas.
A respiração dele e duas cadelas
Uma vida de verdade
E o olho do meu amor que conhece desde sempre
A minha fome.

Sexta feira voltei pra casa de lotação depois do trabalho, um fim de tarde quente e abafado, as pessoas cansadas da semana de rotinas. Sentei ao lado do motorista, ele me disse: "- Esta é a melhor hora do dia, quando eu chego em casa a minha menina de dois anos traz as minhas sandálias pra eu descansar." Para segurar o pranto perguntei o nome da menina e ele disse "Celeste, ela se chama Celeste." O céu de Brasília era esplendoroso e as minhas lágrimas balsâmicas e curativas. Lembrei de como o meu pai deitava a cabeça no meu colo depois do almoço quando eu era uma menina para um cochilo antes de trabalhar. E quis agradecer ao motorista e dizer pra ele que é assim que as meninas se preparam para o amor. Desci em prantos da lotação e fui ao mercado comprar abóboras verdes e ração para os gatos. Queria contar pra todo mundo na rua: estou voltando pra casa, estou finalmente voltando pra casa. E caminhei certa e firme carregando as compras rumo ao meu destino que é te encontrar e partir para a nossa vida nova.

(Lélia Almeida)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014







Para as mulheres que querem escrever, por Lélia Almeida.

"Quando você está escrevendo, você está invocando alguma coisa. É um ritual. Você precisa ser bravo e respeitoso e ás vezes sair da frente do que quer que você convidou para entrar no quarto.”
"Escrever é caçar pássaros sem matá-los."
Tom Waits.

Para as mulheres que querem escrever e ser escritoras, só posso dizer isto: vocês não vão ter uma vida simples e comum. Não se iludam, meninas. Quem quer escrever de verdade tem que viver como uma escritora. E viver como escritora inclui uma entrega absoluta a experiências inusitadas, uma atenção obsessiva às pessoas e uma observação permanente a tudo o que nos rodeia. A escrita requer abandono, improviso, imaginação, capacidade infinita de fabulação e uma técnica que não se aprende fora do exercício diário com as palavras.
Alguns homens vão se apaixonar por você, minha amiga, porque acham o máximo uma mulher escritora.
 Acham excêntrico, por vezes, exótico. E vão se desapaixonar pelos mesmos motivos. Um dia que você não fizer a omelete que ele tanto ama porque está atrás de um conector adequado para o conto em andamento, o amor acaba. O único imenso amor que você poderá experimentar será o de uns poucos leitores e este amor será verdadeiro e para sempre. O único amor possível para uma mulher que escreve é o amor que ela sente por este expediente que nos leva em intervalos curtos do céu ao inferno ao longo de uma vida.
Doris Lessing, Virginia Woolf, Sylvia Plath, Clarice Lispector e tantas outras amaram mais as palavras que os próprios filhos ou outras pessoas, elas amavam os personagens, e foram, eventualmente, trucidadas por tamanha ousadia. Elas amavam o pensamento, a criação e o ofício, o duro ofício de criar vidas de uma outra maneira e fazer esta vida reverberar pelos tempos.
Hoje subi no ônibus para ir trabalhar e me ofereci para carregar uma bolsa de livros pesada de uma moça que estava em pé ao meu lado. Ela aceitou a gentileza. Imediatamente imaginei que havia uma criança dentro da bolsa e que a moça descia rápida do ônibus me deixando com o bebê. Assim são os escritores, dementes, imaginativos, doidos. Uma vez, no aeroporto do Rio, cai num pranto daqueles de soluço e ranho enquanto um rapaz muito gentil se aproximou com um lenço e perguntou, querendo ajudar, o que havia acontecido para que eu chorasse daquela maneira. Eu disse a ele que era melhor ele não saber, que ele ia ficar muito assustado. Tinha acabado de entender o final do romance que estou escrevendo, uma cena de desencontro de dois amantes num aeroporto e chorei como uma bezerra desmamada sob o olhar atônito do rapaz. Não tinha como explicar a ele que por muito menos pessoas são internadas como descompensadas e disfuncionais.
Escritores podem passar dias imaginando como vão matar alguém, planejando vinganças sórdidas, assaltos, tramoias, traições. Mentem quase sempre sem o menor pudor. E podem passar dias e noites mergulhados em dicionários analógicos, de sinônimos e antônimos num sofrimento sem fim em busca daquela única palavra capaz de dizer o que eles precisam. Não são pessoas normais. São intensas e sem graça, não sabem lidar com as coisas práticas da vida, oscilam entre a histeria e a fobia, e são afeitos aos subterrâneos onde poucos se atrevem a ir, como arqueólogos perdidos que quase sempre não sabem o que procuram e menos ainda o que vão encontrar.
Precisam viajar e conhecer cidades, paisagens, cenários, pessoas e, principalmente, ouvir o ouro em pó que elas nos brindam quase sempre sem querer. 
No belo filme do Fred Zinnemann, “Julia” de 1977, que conta a vida da Lillian Hellman, baseado no primoroso texto “Pentimento”, Jane Fonda que interpreta a Hellman, bêbada e envolta em peles num teatro de Moscou, liga para o Dashiell Hammett contando da sua felicidade por estar com um belo casaco de peles e sendo ovacionada como dramaturga. Ele diz a ela que nunca esqueça que nada disto tem nada a ver com escrever. Ele sabia de coisas simples que são frequentemente esquecidas. Escritores não combinam com celebridades. Escritores vivem de outra matéria, de uma matéria suja, feia, escondida, precisam de solidão, disciplina, isolamento e silêncio, um silêncio que nos faz obrar por dentro, escavar no obscuro e no desconhecido.
Assim, minhas queridas amigas que querem escrever, desistam da vida sonhada se quiserem amar as palavras como elas precisam, entreguem-se a uma vida que o ofício é quem cria, e não o contrário. E escrevam pelo único motivo nobre que nos move para este destino estranho, porque não sabemos fazer outra coisa, ou pelo simples fato de que não queremos fazer outra coisa, e porque foi ele que nos escolheu. É simples. E bem complicado de fazer acontecer. Desista do êxito, do dinheiro farto, dos editores generosos e compreensivos, do sucesso e da vida fácil. Escrever é para os doidos, os abençoados doidos, que tocam ali, com suavidade e violência, numa pulsão que não se encontra em nenhum outro lugar.
Boa sorte e uma infinita paciência para todas nós.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014


Novo livro da Coleção Os Contemporâneos, da Editora Confraria do Vento.

"ESTE OUTRO MUNDO QUE ESQUECEMOS TODOS OS DIAS",
de Lélia Almeida.


Neste seu mais novo livro, Lélia Almeida reúne crônicas, anteriormente publicadas em seu blog Mujer de Palabras, nas quais reflete a vida a partir da perspectiva feminina, com a qual converte o comum em grandioso, e o ordinário em extraordinário.

quarta-feira, 28 de maio de 2014


O rodo do D. Juan, por Lélia Almeida.

A macheza me cansa, nossa, como me cansa! Outro dia vi uma entrevista do Contardo Calligaris onde ele afirma que os homens só se apaixonam na hora de partir, no caso da matriz americana desta narrativa masculina, só se apaixonam na hora de partir para a guerra, quando separam-se heroicamente de suas donzelas e jogam-se nos braços da morte, iludidos assim que vão finalmente se safar de resolver seus problemas com suas adoradas Jocastas. Ontem numa mesa de bar com amigos e amigas tive de ouvir de um belo homem de seus quarenta e poucos anos, as estratégias que ele usa para “passar o rodo” e seduzir a mulherada. Ô cansaço, cansaço da macheza, dos aventureiros e sedutores! Lembrei-me do Don Juan, é claro. Escrito em três atos por Tirso de Molina, em 1630, “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” é a matriz da qual se originaram vários textos posteriores, todos variantes do texto primeiro e que traduz um dos arquétipos mais populares do comportamento masculino entre nós, o do Don Juan, o inescrupuloso conquistador. Vale também lembrar dos textos de Zorrilla, Molière, Gonzalo Torrente Ballester e Juan Claudio Lechín, entre outros. É, portanto, de longa data que os tipos sedutores, manhosos e enganadores são populares e fazem relativo sucesso. O catálogo apresentado por Don Juan na sua insaciável busca entre seduções e tropeços é, tanto na peça como na ópera, objeto cômico e que funciona como fetiche da mais afoita fantasia masculina:
"Minha jovem senhora, eis comigo o
Catálogo
Das belas que amou meu mestre;
Um catálogo que u mesmo fiz;
Olhe, leiam junto comigo.
Na Itália, seiscentas e quarenta;
Na Alemanha, duzentas e trinta;
Cem na França e na Turquia noventa
E uma;
Mas na Espanha, já são mil e três.
Entre elas há camponesas,
Camareiras e burguesas,
Há também condessas e princesas,
E mulheres de todo nível,
Aparência e idade (...)
Não importa que seja rica,
Que seja feia ou charmosa,
Uma vez que use saia,
Sabe-se bem o que ele fez com elas."
 Don Juan não sabe quem são as mulheres que seduz, o que importa é seduzir, é a conquista, é a contabilidade do catálogo e a forma despersonalizada de contar que importa.  Já no início do primeiro ato, Don Juan Tenório, ao fazer-se passar pelo Duque Otávio seduz a duquesa Isabela. Ao descobrir a farsa, a duquesa queixa-se ao rei de Nápoles que ordena o tio de Don Juan, Pedro Tenório, prender o culpado pela desonra à duquesa. Pedro Tenório acaba por acobertar a fuga de Don Juan que, desde esse momento até o final da história embrenha-se pelos caminhos mais inusitados de mentiras, confusões as mais perigosas e engraçadas em nome do seu objetivo na vida que é seduzir, enganar, burlar e fugir. E é assim que ele se apresenta no clássico diálogo com a duquesa Isabela, que  pensa estar se encontrando com D. Otávio, seu namorado:
"Isabela – Sai por além, D. Otávio, que é mais seguro.
D. Juan – Volto a jurar-vos, duquesa, que cumprirei as minhas promessas.
Isabela- Serão então verdadeiras as vossas promessas e ofertas, vossas dádivas e cumprimentos, afeições e amizades?
D. Juan: - Sim, meu bem.
Isabela: - Vou buscar uma luz.
Don Juan: - Para quê?
Isabela: - Para que a minha alma veja a felicidade que acabo de sentir.
Don Juan: - Eu apagarei a luz.
Isabela: - Oh! Céus! Quem és, homem?
Don Juan: - Quem sou? Um homem sem nome.
Isabela: - Não és o duque?
Don Juan: - Não."
            Don Juan é um homem sem nome, as mulheres seduzidas por Don Juan não precisam ter nome, o que equivale a dizer que não tem identidade, individualidade, que não são ninguém. Don Juan é um misógino, tem desprezo ou aversão às mulheres. Don Juan não as reconhece, não as identifica, na verdade as mulheres não existem, são meros objetos de sua guerra própria e particular onde seduzir é apenas afirmar-se. É figura voraz e fugaz que se apresenta sempre de forma superficial e mascarada, um homem sem nome, um homem que é ninguém. Para Betty Milan, em seu ensaio “O que é o amor”, D. Juan, em relação às suas conquistas, de inúmeras mulheres, (...) "Não se fixa em nenhuma e, sem se satisfazer se satisfaz através de qualquer uma, exercitando-se numa estranha contabilidade, a de que a cada vez contar menos uma, uma a menos para ter enfim seduzido todas. A misoginia de D. Juan é incontestável. Além de recusar a igualdade só tem olhos para todas porquê não vê nenhuma, ele desconhece a especificidade, cada uma das mulheres é por si idêntica a qualquer outra. Para ele o amor é uma esparrela se não uma forma de caçada. Interessa-lhe fazer-se amar, suscitar a paixão, amar nunca. O outro único que me fez tanto esperar – desesperar aqui inexiste e o nosso personagem só fala de amor para negá-lo. De longa data Don Juan é um arquétipo da virilidade, que entre nós se caracteriza pela recusa de sentimento (...) Don Juan é de pedra, é o único dos humanos que desafia o amor, não arde – na peça de Molière ele termina pegando fogo"  (p.1991)
            Mas é no segundo ato que Don Juan será mais uma vez desmascarado, depois de tentar seduzir Dona Ana e enfrentar-se com o pai desta, Don Gonçalo de Ulloa, com a morte dele. O terceiro e último ato nos mostra a sedução de Aminta, assim como o convite do morto para que Don Juan vá jantar com ele no sepulcro no dia seguinte. Aceito o convite, Don Juan sente-se queimar durante a ceia e, sem absolvição, cai morto. Don Juan tem assim o seu castigo, elementar, que deveria ser conselho para os sedutores contumazes: todo Don Juan um dia encontra com o seu convidado de pedra. É o que reza o texto-matriz de Tirso de Molina e também o de Molière.
            Fiquei olhando aquele belo rapaz, cheio da manha donjuanesca detalhando suas estratégias do beija-mão e da fidalguia e me perguntando por que as mulheres ainda se encantam tanto com esta figura ilusória e precária que parece permanecer soberana no imaginário feminino e que as projeta, sem escapatória para histórias amorosas sempre infelizes e perversas.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

terça-feira, 13 de maio de 2014


Da fome das mulheres e da loucura da braba, por Lélia Almeida.




"Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada."

Naomi Wolf.


Fui à casa de uma amiga no fim de semana e a filha dela de oito anos me perguntou se eu podia abrir o Tarot para ela, eu expliquei que não se abre o Tarot paras as crianças e perguntei o que ela queria saber. Ela disse: "pergunta se eu vou conseguir emagrecer um dia". Vou na Secretaria de Direitos Humanos para uma reunião com a secretária e duas coordenadoras de área e durante meia hora o assunto é a dieta Dukan, quando fico sabendo a quantidade de proteína que cada uma delas ingere por dia e quantos quilos perderam nos últimos meses. Estão todas realizadas com a dieta, mas principalmente com a capacidade de auto controle.
            Minha vizinha diz, alternadamente, cada vez que vê a presidenta na televisão, "a Dilma está uma vaca de gorda", ou "ela emagreceu". Muitas mulheres que conheço se queixam de que os homens não as olham e que elas estão invisíveis. E quase todas, quando se encontram, antes de perguntar como estão, dizem frases do tipo, "nossa, como você emagreceu! Como você está bem!" O olhar das mulheres para o mundo e para si próprias, constantemente, é um olhar de quem está tomando medidas. 
            A mãe de uma amiga minha, uma senhora de 78 anos, me disse outro dia, "perdi 7 kgs nos últimos seis meses e sem fazer dieta!" E foi ali, pela primeira vez, que fiquei atenta para o fenômeno, tentando decifrar o que significava aquele sorriso feliz e realizado. O olhar dela era o de alguém que havia sido ungida por uma espécie de bênção divina, e era também o de uma menina bem comportada ou o de uma boa moça que havia feito bem o dever de casa. Foi então que vi o que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que só agora pude nomear e entender: o fenômeno de como as mulheres lidam com a comida e com suas medidas e que podemos chamar, simplesmente, de loucura da braba, como se diz na minha terra.
            A filha da minha amiga, a menina de oito anos, sempre foi muito fotografada pela mãe quando era pequena. A mãe é uma excelente fotógrafa e as fotos mostravam a cumplicidade das duas nos rituais das poses, das caras e bocas, ao longo da vida. Ela se sentia segura sob as lentes maternas. Neste verão ela e mãe foram de férias para Salvador e quando pedi para ver as fotos, vi uma menina tímida e retraída, e a cada foto que ela me mostrava dizia, "nesta eu não estou muito bem, estou muito gorda".  Aos oito anos ela já foi acometida pela loucura da braba e está doente. A espontaneidade que ela tinha fazendo poses, caras e bocas ao ser fotografada pela mãe foi completamente comprometida na medida em que ela foi crescendo e compreendendo o triste legado que ensinamos às nossas meninas e que afirma que os nossos corpos não valem nada.
Para as terapeutas americanas Rosalyn Meadow e Lillie Weiss, que escreveram "Las chicas buenas no toman postre", a associação da comida com a sexualidade é fundamental na vida das mulheres, não apenas na vida daquelas que são mães, mas na de todas as mulheres. 
Para elas os distúrbios alimentares são sintomas de um fenômeno simples: a comida é para as mulheres hoje, o que foi a sexualidade em tempos passados. Ou, por outra, o dilema da comida para as mulheres hoje, é o que foi o dilema da sexualidade para as mulheres em tempos passados. Se antes o controle sobre o corpo feminino exercido pelas normas e regras da sociedade patriarcal, dava-se em relação à sexualidade da mulher, agora o mesmo controle sobre o corpo feminino se dá através da comida. Para elas, a antiga equação "dar ou não dar para o namorado", equivale à equação "comer ou não comer" dos dias atuais. As mesmas fobias relativas às dificuldades de gozar, às dores da penetração, à frigidez, aos medos de engravidar, à vergonha de deixar-se tocar por um parceiro ou de ficarem nuas na frente dos outros são as mesmas fobias que tomam conta da vida das mulheres de forma desesperadora nos dias de hoje. Só que agora a antiga ansiedade se revela através de um verdadeiro terror das mulheres em relação ao seu peso e suas medidas.
As autoras fazem um quadro comparativo entre as medidas e remédios para os pecados da masturbação de outros tempos e o das restrições atuais para o sobrepeso, listando as medidas contra o auto abuso do sexo (cauterização, clitoridectomia, infibulação, aspiração cirúrgica do líquido sexual, cintos de castidade, duchas quentes e frias, camisa de força, medicação, exercício extremo e dieta) em correspondência direta às medidas contra o auto abuso da comida da atualidade (grampeamento do estômago, cirurgia de by-pass, plástica abdominal, lipoaspiração, aprisionamento das mandíbulas, banhos de vapor e água fria, faixas para suar, medicação, exercício extremo e dieta).
A insatisfação das mulheres com suas medidas e com sua imagem é permanente, e um profundo sentimento de inadequação se estabelece em suas vidas fazendo com que se sintam sempre impossibilitadas de sentir-se bem com seus corpos e imaginando que jamais corresponderão a um ideal de beleza que não tem nada a ver com elas. Um tempo e uma energia sem fim são desperdiçados dedicados às dietas, medidas, roupas, dietética e cosmética.
E estas mulheres que não comem, comem o que? Comem a fome. A fome dos seus desejos mais secretos, das suas necessidades afetivas mais básicas, dos seus sonhos mais recônditos. Uma fome impossível de ser saciada e que cria mais fome. As que comem demais e as quem comem de menos negam a fome das suas emoções. As mulheres estão famintas, longe de seus corpos e suas vontades, exiladas de seus corpos, os únicos capazes de propiciar alegria e prazer. Porque as mulheres que nutrem o mundo de diversas maneiras, afetivas, reais ou simbólicas, com suas comidas e afetos, e sua capacidade para a dança, e riso e a farra com seus homens, seus filhos e suas amigas, estão tristes, não se reconhecem mais nos seus corpos e na espontaneidade de seus movimentos. As mulheres desses tempos têm uma imensa fome de si mesmas. Têm fome de tudo aquilo que elas querem poder ser, sentir e realizar.
            E mesmo podendo dominar sofisticadas tecnologias e ocupar cargos de poder nunca imaginados por suas mães ou avós, elas continuam presas às medidas de um espartilho mental que negligencia e desqualifica sua auto imagem criando sentimentos inadequação que as tornam inseguras e infelizes.
            Marcela Lagarde em muitos dos seus textos diz que as mulheres de hoje se comportam como criaturas medievais desejosas unicamente de um amor romântico impossível de ser realizado e sem nenhuma reflexão crítica sobre sua seu amor próprio. E que isto as debilita e enfraquece, já que ninguém com estes sentimentos desenvolve suas potencialidades.
            A pergunta permanece, se desdobra: com ensinamentos deste tipo, o que estamos ensinando às nossas meninas? Quem cuida, afinal, das nossas meninas?

domingo, 11 de maio de 2014

Começar um livro novo é como começar um namoro. Ânsias, esperanças, alegria e pavor.
(Lélia Almeida)

sexta-feira, 9 de maio de 2014



Na 5ª. Edição da Semana de la en Rosario (SLR), na Argentina, que aconteceu no período de 21 a 27 de abril de 2014, em centros culturais, bibliotecas e espaços públicos com a temática As mulheres e a leitura. A minha palestra que se chamou Las chicas malas de la literatura de autoría femenina. Panorama de producción literaria hecha por mujeres en América Latina, aconteceu no Centro Cultural Fontanarrosa quando fui apresentada pelo professor Rubén Chababo. 


Quem cuida das nossas meninas? por Lélia Almeida.

Até a presente data, cumprindo com uma triste tradição, o anúncio do nascimento de uma menina, para muitas famílias em muitos lugares do mundo, é motivo de infelicidade e rejeição. Os artigos desta publicação, O Livro Negro da Condição das Mulheres (OCKERENT, Christine & TREINER, Sandrine. O Livro Negro da Condição das Mulheres. Rio de Janeiro; Difel, 2011) elenca os tipos de violências sofridos pelas mulheres e meninas no mundo inteiro perpetuando assim, tristes práticas em diferentes países. A realidade de grande parte das mulheres do mundo inteiro é a de mulheres pobres, mal alimentadas, doentes e iletradas e que servem para serem submetidas, exploradas, espancadas, violadas, compradas, repudiadas. Destinadas ao silêncio, ao esquecimento. Em suma, desprezíveis e indignas (p.18)
A publicação se organizou ao redor de cinco palavras-chave: segurança, integridade, liberdade, dignidade, igualdade, apresenta detalhadamente os diferentes tipos de crimes a que são submetidas as mulheres e meninas no mundo inteiro.
A referência às “mulheres faltantes” sobre os lugares do mundo onde há mais homens do que mulheres (principalmente em imensas partes da Ásia, na Índia, no Paquistão, em Blangadesh, na China) sobre a imensa quantidade de mulheres mortas mostra a dimensão da hostilidade e rejeição de muitas culturas e sociedades ao nascimento das meninas.
Fala-se na prática do aborto seletivo dos fetos femininos, na Índia principalmente, realizada a partir do resultado das amniocenteses, feitas para detectar anomalias, mas usadas de fato para saber o sexo dos bebês e poder assim proceder á rejeição, via aborto e interrupção das gestações de meninas (p.26)
As que sobrevivem poderão ser vítimas de infanticídio ou de sobremortalidade: as meninas serão menos alimentadas que os meninos e receberão menos cuidados se ficarem doentes, serão levadas ao médico em estágios terminais das doenças e serão menos vacinadas (p.27)
Outra questão que vai contra a sobrevivência das meninas de muitos países é que o pagamento do dote empobrece as famílias e, portanto, esta é mais uma razão para que o seu nascimento não seja desejado.
Na China, por exemplo, a prática do filho único, a partir de 1978 decuplicou os esforços de eliminação de meninas.
A detecção do sexo do feto disfarçada em pesquisa de anomalias, o aborto seletivo, o infanticídio e o abandono de meninas recém-nascidas em orfanatos-asilos terminais tomaram tal proporção que as autoridades chinesas precisaram abrandar, na zona rural, a proibição de ter um segundo filho. Os camponeses receberam autorização de ter um segundo bebê se, por infelicidade, o primeiro tiver sido uma menina. (p. 29)
Na África, sobre uma imensa parte do continente, a quase totalidade das meninas é mutilada (p.30), mais de 85 milhões de meninas não são escolarizadas (p.31) pois tem de trabalhar. Da mesma maneira, em muitos lugares do mundo, as meninas são vítimas da indústria do sexo e vítimas das guerras e são, comumente, transformadas em escravas sexuais durante os conflitos armados. Elas também são vítimas dos tráficos de esposas, estupradas como estratégias de limpeza étnicas durante as guerras ou mortas em nome da honra.
Mas esta realidade é pouco conhecida e, portanto, pouco denunciada. As políticas públicas de prevenção à violência priorizam as mulheres adultas ou os jovens e adolescentes do sexo masculino. Para Negrão e Prá (Ver in: Dossiê – Violência de Gênero Contra Meninas) embora as meninas sejam elemento de análise das áreas sociais ou da saúde, sua presença ainda é pouco explorada e isto se deve ao fato de que o enfoque centrado na realidade da mulher adulta dificulta a percepção das especificidades que demarcam o universo das mais jovens; de outro lado, em razão da juventude ser examinada como se fosse assexuada (p.14) Além do problema de delimitar as fronteiras entre adolescência e juventude e as dificuldades para situar as meninas como sujeito e objeto de estudo (p.15)

O episódio do sequestro de 276 meninas na Nigéria pelo grupo islâmico radical Boko Haram e a adesão internacional pela campanha que pede pela liberação das meninas, "Devolva nossas meninas", atualiza uma pergunta que fica sempre sem resposta, no Brasil e no mundo: afinal, quem cuida das nossas meninas?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Estive numa palestra onde as autoras se diziam decentes e éticas em relação ao seu trabalho (duas delas eram jornalistas), que respeitavam as fontes, os testemunhos e que não misturavam o ofício de escritora com o de jornalistas bla bla bla. Me senti péssima naquele universo tão ético e perfeito. Eu que roubo como uma mendiga avarenta e voraz as histórias de todo mundo, uso frases que ouço das pessoas, transformo-as nas falas dos personagens, faço dos meus amigos personagens, me senti o ó da coisa horrorosa. Eu que minto e nem sempre sou ética e que sou capaz de tudo em troca das boas histórias, me senti a última das criaturas na frente daquele panteão de gente legal e decente. Quem escreve mente, trapaceia, brinca, engana, estende armadilhas, vai num churrasco e ouve uma conversa banal e alguém fala Lia, e agradeço a interlocutora, porque a minha próxima personagem vai se chamar Lilia, mas só decido ali, naquele momento em que aparentemente escuto aquela desinteressante história de amor e separação, mas estou com o pé, um pedaço da alma, lá, no outro mundo, de onde nunca saio totalmente, no laboratório, desamparada, desolada, escrevendo, inventando. Sem pensar se sou suficientemente boa ou certa ou decente, pois a literatura é feita de uma matéria prima outra, e vem de um lugar onde a preocupação em agradar ou ser legal não tem muita cabida.


(Lélia Almeida)

sábado, 12 de abril de 2014



Turbilhão, por Lélia Almeida.


Se eu fosse um ET e entrasse hoje no Facebook, ao ler as postagens da timeline, ia chegar a uma conclusão muito simples: no mundo em que vivemos hoje sexo é sinônimo de violência e estupro, só os homens e mulheres gays namoram e que esta prática, longe de ser saudável e lúdica, é unicamente arriscada, necessariamente perigosa, que leva à morte, e que, por conta disto, pode estar em vias de extinção.
A onda do denuncismo, do testemunho, do chororô e do mimimi quando se fala da sexualidade associada à violência e ao estupro é, para mim, sintoma de coisas muito simples: 1- de que as pessoas não estão trepando, 2- de que as pessoas estão trepando muito mal, e 3- de que as pessoas estão com preguiça de trepar.
Tempos nefastos estes.
Eu, ET e leitora do Facebook e de outras redes sociais, desconheceria, desta maneira, a história dos tempos em que o sexo ou o discurso sobre ele demonstraria que esta é uma prática lúdica, afetuosa, prazerosa, que promove encontros profundos e transformadores, que aproxima as pessoas, que é relaxante, que a sacanagem é sempre transgressora, que os corpos são divertidos e que a sexualidade é uma maneira de estar no mundo.
Já falei mais de uma vez neste espaço de que esta associação entre violência e sexualidade termina por continuar a vitimizar as mulheres, que muitas só conseguem fazer este tipo de associação e que isto serve a alguém de muitas maneiras, mantendo-as mergulhadas num caldo de cultura cheio de auto piedade, culpas, vergonhas e que isto possa ser, para muitas delas, passivamente, sua única maneira de gozar, repetindo estratégias masoquistas muito familiares à cultura feminina com as quais sempre tiveram ganhos reais que as valoriza através da cultura do sacrifício e do sofrimento. As denúncias sobre abusos, moléstias e violações são as únicas que aparecem nestas páginas, numa lógica simples de que todos os homens são violadores potenciais e de que todas as mulheres são, incondicionalmente, vítimas passivas. Soa qualquer coisa medieval, muito antiga, como se não tivéssemos passado pela revolução sexual e tudo o que ela significou de avanço e libertação na vida de todos nós.
            Eu, a macaca-velha, vou repetir ao meu avatar-ET-leitora curiosa, o que já afirmei em alguns momentos: que não gosto da cultura da vitimização das mulheres, que ela serve a interesses que não são exatamente os de muitas mulheres, porque vitimizadas elas permanecem como cidadãs de segunda classe, passivas, defeituosas, erradas. Não gosto do tanto que algumas mulheres se lambuzam de prazer nesta condição de tristeza sem saída, fazendo coro junto às que santificam e supervalorizam a sexualidade sempre relacionada à maternidade e às que decretaram que todos os homens do mundo ou são ou uns agressores natos ou uns frouxos sem saída.
Esta assepsia politicamente correta que não nos deixa falar sobre a sexualidade sem hipocrisia, que nos proíbe veladamente falar do sexo de uma forma divertida e engraçada, e obrigatoriamente de maneira politizada e institucionalizada está me dando nos nervos. Pergunto-me se a Dilmona ia apoiar uma campanha que propusesse motes do tipo, que eu mereço ser bem amada, que eu mereço ser bem comida, ou a criação de um vagão de metrô onde um grande surubão fosse permitido no horário que voltamos pra casa cansadas, e que pudéssemos dar, assim, uma grande relaxada antes de fazer a janta e encarar o terceiro turno de tarefas exaustivas. É claro que estou debochando, debochar e exagerar é também uma antiga prática erótica, já que o erotismo e o riso sempre andaram lépidos e faceiros de mãos dadas ao longo da história do mundo. E sobre isto eu-ET, não teria condições de compreender: que nem sempre os tempos foram tão broxas, caretas e sem graça.
Faço fisioterapia todos os dias numa clínica perto da minha casa. Estou na fase de mergulhar o tornozelo que operei por conta de uma torção, num tanque pequeno onde fluxos de água quente trabalham a circulação para diminuir o edema. A técnica se chama turbilhão. Fico ali uma meia hora com as pernocas brancas e gordas imersas e pensando bobagens. Porque numa maca que fica a alguns passos do tanque um japonês grande e forte fica deitado exposto aos raios infravermelhos por conta de uma inflamação no joelho, coisas de velhos com as juntas comprometidas. Desde que comecei a frequentar o turbilhão espio febril as coxas do japonês, que tem uma cara de cachorro triste e cabelos longos e grisalhos. Imagino que ele é um samurai cansado e poderoso e que acaricia a coxa da perna avariada enquanto relaxa na maca. E que sou uma gueixa com os pezinhos minúsculos fazendo curas muito antigas nas águas revoltas de um ofurô de carvalho ou cedro-rosa. Assim são os escritores, seres dementes e por demais fantasiosos.
Numa sexta-feira chuvosa, num fim de tarde ele me convidou com singeleza e olhos incandescentes: - Ô, moça bonita, hoje é sexta-feira, bora tomar um chops e comer um pastel!
Ai, o turbilhão outra vez! E mais não conto, que a imaginação é irmã gêmea do bom sexo, e disto também estamos, tristemente esquecidos.

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quinta-feira, 3 de abril de 2014



"O amante alemão" de Lélia Almeida, romance vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura de 2013.