quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os amantes que vinham do Sul:


Lélia Almeida.


Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma menina louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.


Brasília, 18 de junho de 2008.

2 comentários:

Pirata Z disse...

Lélia, salve, salve, paz e bem.
hecho. já linquei teu blogue lá na minha caxanga virtual.
depois, com calma, voltarei pra ler tudo.
beso

angelica duarte disse...

é sempre bom quando não há sucesso nesse tipo de domesticação.

nunca gostei muito de arroz doce.
não há despertar, não há fome. o sentir-se viva já não há.

mas, no fundo, sei.
ainda espero que esse luto de mim mesma tenha fim.