terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Escritora putinha:

Lélia Almeida.

Escrevi um artigo sem a menor importância sobre sexo virtual depois de ter passado o ano inteiro escrevendo coisas muito mais sérias e relevantes sobre as mulheres e o momento político do país. O momento histórico em que tivemos duas mulheres disputando a presidência da república, por um lado, e milhões de mulheres brasileiras, decidindo o seu voto, por outro. Nenhum dos textos que escrevi sobre este assunto fez tanto sucesso quanto o que teci meia dúzia de bobagens sobre sexo virtual.
Recebi num curto espaço de tempo mais de 350 e-mails e quatro convites de editoras para a publicação do meu livro que ainda não está pronto, o que fala da personagem que navega pelos submundos da rede.
Adelaide Carraro publicou em 1978 um livro chamado “Escritora Maldita?” onde publica as cartas que ela recebia dos seus leitores. Padres, marinheiros, donas-de-casa, homossexuais, secretárias, prostitutas, lésbicas e todo tipo de leitor escreveram cartas que quase sempre diziam que a escritora salvou-lhes a vida ao trazer a público determinados temas tabus.
Fiquei tentada a fazer uma publicação parecida, pois todos os candidatos a escritores de literatura erótica do país me enviaram seus originais, todos os tarados se manifestaram e outros que não se inserem em nenhuma destas categorias, mais homens do que mulheres, também enviaram sugestões e comentários quase sempre muito interessantes. Gostei, particularmente, da carta de um pastor que quis me converter, argumentando que uma mulher que escreve sobre sexo está tomada pelo demônio; e de outro senhor que depois de muito considerar a qualidade do meu texto, parabenizar a minha ousadia e atrevimento ao tratar do tema, termina, de maneira muito sincera por dizer que ele é, na verdade, igual a todos os que vagueiam sem rumo pelos confins da rede e o que ele queria, em suma, era também, comer o meu rabinho (cito).
Mulheres que gostam de sexo ou de falar e escrever sobre o tema são seres mal vistos na nossa cultura. Ainda são vistas como pessoas pouco sérias não importando se escrevem bem ou se pensam de maneira inteligente ou original sobre o tema. Sexo, definitivamente, não é um tema adequado para as mulheres. Alguns blogs que reproduziram o texto colocaram fotos sugestivas de um sutiã ou calcinhas daquelas de sex-shop em cima de um teclado e coisas do tipo.
Telefonei para os editores que escreveram pedindo que eu enviasse imediatamente os originais de Anêmona Bristol para que fosse emitido um parecer e uma proposta editorial explicando que o texto encontra-se em momento de finalização, mas que tenho outros quatro textos prontos e encalhados e de todos recebi a mesma resposta, não estamos interessados, queremos este que trata sobre sexo virtual.
Talvez esta tenha sido a minha grande e última oportunidade desperdiçada de me tornar uma escritora famosa, publicada, de me tornar uma celebridade, de fazer um calendário posando nua com trechos do romance e, finalmente, fazer deslanchar uma carreira de escritora até agora anônima, difícil, trabalhosa, como a da maioria das pessoas que quer escrever neste país.
Gosto de falar sobre sexo porque acho divertido, acho divertido o vocabulário e as narrativas. E porque acho que a experiência sexual ainda se constitui num território onde podemos exercer a nossa liberdade e a nossa humanidade. Voltamos um pouco a ser crianças quando estamos desnudados na frente do outro, fuçando no corpo do outro, quando abraçamos as nossas imperfeições, quando nos enroscamos, quando podemos ser ridículos e podemos dar ao corpo o que é do corpo. Quase sempre é engraçado desnudar-se diante do outro. E ainda que a cama como outros lugares que não garantem a mesma experiência lúdica possa ser o lugar de grandes enganos, é também o lugar de encontros maravilhosos.
Tive de explicar aos editores que não sou uma escritora de literatura erótica, que acho esta arte por demais sofisticada de trabalhar e que o sexo, na minha vida e na minha escrita, ocupa o mesmo lugar de outras experiências afetivas e que posso escrever sobre todas elas, como de fato faço, sem a supervalorização de nenhuma delas em detrimento de outras.
Ontem assisti Roberto DaMatta no programa Roda Viva sendo entrevistado por várias pessoas. Uma entrevista brilhante que finalizou com o antropólogo falando sobre a experiência dramática de, aos 70 anos, deparar-se com a perda de um filho de 42 anos vítima de um infarto fulminante e da doença de sua companheira amada, que tem Alzheimer. Num tom muito comovido disse que estas experiências ensinaram-lhe duas coisas. Que não temos garantia de nada nesta vida, que nem Deus, nem o dinheiro, nada nos protege dos infortúnios e da morte. E que diante desta evidência ele passou a se perguntar sobre o que é suficiente para uma vida.
Talvez eu tenha perdido a chance de ser uma escritora famosa num percurso meteórico. Talvez eu não queira ser uma escritora putinha porque antevi de maneira muito clara como é fácil e rápida a construção de um estigma, que funciona como um carimbo, uma tatoo: esta aqui vende sexo!
Roberto DaMatta lembrou que diante da inevitabilidade da morte e das experiências dramáticas que nos tocam a cada um, a única coisa que vale a pena é viver uma vida com valores claros, autênticos e que nos expressem verdadeiramente. E que o seu grande refúgio, naqueles momentos, foram os livros. Esta foi a sua medida ao se perguntar sobre o que era suficiente.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Escritora putinha não é aquela que escreve sobre sexo, mas pode ser aquela que vende a alma para um público fácil e para editoras preguiçosas que precisam lucrar rapidamente com os temas de sempre, sejam os relativos à violência, sexo, vampiros, anjos e outros bem cotados no mercado.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Aliás, tenho achado cada vez mais difícil inclusive tentar ser uma escritora. Que viver cada dia até o fim e não enlouquecer, para mim, já está de bom tamanho.
Este é o meu suficiente.

6 comentários:

Anônimo disse...

sem comentários...

Anônimo disse...

Essa turma não sabe, linda maravilha, apreciar o inefável tesão que dá, muito mais que o teu rabinho, a tua belíssima cabecinha.

Mas pode aprender.

Com todo o mínimo respeito imprescindível
E muito ousado carinho,

O amigo italiano.

VERA disse...

Querida e amiga Lélia, como fã irrecuperável do teu blog e parceira fiel do chat e do msn, te digo que as críticas tão pequenas não querem dizer nada para uma escritora com o teu perfil e competência. Seria melhor dizer é que a inveja mata. E mais, vamos lançar este livro doa a quem doer!!!!!!!!!!!!!!Vera

MJFortuna disse...

Lélia, textos "apelativos" e melosos, fazem realmente sucesso. Lembro-me de Cassandra Rios, aquela escritora que sacudiu as jóvens da década de 60, com seus romances explorando o tema do lesbismo. Foi um sucesso! O preconceito continua... mulher escrevendo sobre sexo lembra a "sufistinha", que agora vai para as telas na figura de Debora Secco.
Corajosa foi a Clevane Pessoa, que lançou um livro de poesias chamado Erotíssima, sem apelações.
E vai por ai a fora... Já tive tentação de escrever sobre o tema e me vi temerosa quanto a minha figura de escritora de livros infanto-juvenis. São os que consigo publicar.
Adoro seus texto e tornei-me sua seguidora.
Um grande abraço

Maria J Fortuna

Menê disse...

O escritor Paulo Coelho, vendedor incontestável de livros Não deixa de ser um "putinho", dando aos leitores aquilo que eles querem,não importando ser útil,intrutivo ou necessário!

giovanna disse...

Oi Lélia. Fiquei sabendo do seu texto sobre sexo virtual pelo twitter da Márcia Tiburi. Fiquei muito contente de isso ter acontecido, pois o seu blog é maravilhoso! Parabéns!