quinta-feira, 24 de março de 2011



Amor em tempo real:


Lélia Almeida.

(Os feeds que compõe Amor em tempo real foram postados no Facebook de 19 de janeiro a 22 de março de 2011 e acompanhados por um público leitor que dava sugestões no formato e no conteúdo da história. A história literária terminou quando a história real começou.)

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Hoje ele contou do tempo em que viveu na casa que tinha sido um estábulo. Uma casa pequena e aconchegante. Quando chegava em casa não tinha ninguém eperando por ele. Lembra desse vazio. E do alemão que cuidava do lugar e que tinha um cão, um husky que tinha um olho azul e outro verde. Durante muitos meses aquele cão era isso e nada mais. Alguém que o esperava.

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Quando eu abraçar você no aeroporto vão ter de chamar a polícia para nos separar. Adoro, eu digo, adoro os seus excessos, o seu exagero. Ele disse, não é exagero, é fome.

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Hoje tomamos vinho. Usei o colar de pérolas, o de duas voltas, com o vestido preto. Belíssima, ele disse, belíssima, você! Ouvimos música e nos balançamos muito distraídos. Ele disse, parece que você está num barco, à deriva. Eu disse, eu estou, meu amor, estou à deriva, estou perdida.

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Hoje ele trouxe as fotos. Tem uma em preto e branco, numa praia do sul do país. Na foto ele é um menino franzino de sobrancelhas grossas e segura uma bóia que é um pato. As mesmas sobrancelhas, eu penso, e amo o menino que ele foi também.

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A conexão está péssima hoje. Ele diz que é por conta da neve, da umidade. Sinto a sua falta, ele diz, nem sei como isso é possível, mas sinto a sua falta. A luz é pouca, vejo apenas o contorno do rosto dele e ouço a voz definitiva: eu gostaria de ter tido um filho com você. Eu também, digo soluçando.

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Como uma pêra na frente da cam. Seguro a pêra com as mãos enfiadas nas luvas de renda preta. Depois tiro as luvas e lambo os dedos. Ele olha. Chega muito perto da câmera e sussurra. Um dia eu vou comer você assim, tão suave e vorazmente como você come esta pêra.

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Ele perguntou se eu acreditava que o mundo ia acabar em 2012. Chorei como uma menina perdida e disse a ele que vamos ter pouco tempo, muito pouco tempo para viver este amor sem fim. E que não é justo perdê-lo agora que sei que ele existe.

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A conexão caiu e só voltou duas horas depois. Ficamos irritados, desesperados. Expliquei que tinha visto no noticiário sobre uma explosão do sol e sobre as partículas de plasma que estavam sendo jogadas na atmosfera, e que a repórter tinha explicado que por conta do fenômeno a conexão ia ser afetada. “Foi-me dado amar você num mundo estranho e difícil”, ele disse.

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Você gosta de ser olhada, então. Eu não sabia que gostava, expliquei, descobri isto agora, com você. Pode se exibir à vontade, ele disse, eu não canso de olhar pra você. Somos insaciáveis um do outro, curiosos, crianças outra vez.

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Tela-a -tela. Quando ele me olha ele não me vê. Quando eu olho pra ele, baixo os olhos. Vejo a mim mesma olhando pra ele. Estou enamorada de nós. Faço poses, a que ele vê não sou a que eu vejo. Desencontro dos olhares. A voz num sussurro. Promessas, quantas promessas. Como na vida real. Projeções, tela-a-tela.

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Hoje desligamos a cam. E falamos no telefone. A voz dele é mais doce ainda e os sussurros mais profundos. Fecho os olhos. Ele é outro, outro homem, e é o mesmo. Uma voz sem idade, ele me diz, você tem uma voz fora do tempo. Assim é a voz dos amantes, uma voz fora do tempo.

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Este tempo é só isto. Uma promessa. E eu que tinha tanta saudade de uma promessa, e eu que vivia de uma maneira tão previsível. Eu não preciso de mais nada neste momento, além desta suspensão do tempo. Eu prometo, ele diz. Eu espero, eu digo.

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Palavras novas, idioma novo. Palavras novas das coisas da vida pequena, a que importa. Olhos, nariz, sobrancelha, queixo, orelha, bochecha, testa, lábios, língua, cabelo, brincos, óculos, echarpe, camisola, anel, cobertor, travesseiro, boa-noite, meu amor.

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Você está distante, eu digo. Ele explica que deve ser por causa do tempo, faz frio e venta muito, acho que vai nevar, ele diz. Os olhos tão tristes. Não posso ver você assim, tenho o coração apertado. Boca de cereja, ele diz, você tem uma boca de cereja. A tristeza é irremediavelmente vermelha. Noite de frio e saudade.

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Não posso estar em outro lugar, tenho que estar aqui, ele diz. Eu entendo, digo, também me sinto assim. É aqui que me sinto em casa, como as pessoas que chegam em casa depois do trabalho e se contam o que fizeram durante o dia. Você é a minha casa, ele diz. E você a minha, eu digo.

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Vamos dançar? ele perguntou. De rosto colado. Eu seguro você, eu acarinho os seus cabelos enquanto dançamos. Fechos os olhos, ele escolhe a música, a nossa música, ele diz. Já temos uma música agora.

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Hoje eu resolvi fumar. Eu não sabia que você fumava, ele disse. Eu não fumo, só fumo quando bebo, expliquei. Queria acender o seu cigarro e depois beijar você com cheiro de cigarro e gosto vinho. Você é amável, eu disse. Sou mais do que um homem amável agora, ele disse. Agora eu sou um homem apaixonado por você.

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Eu sei quando você está pronta, ele diz, já aprendi. Conte-me, eu peço. É quando você começa a tocar a ponta da orelha e a girar o brinco, como se o brinco fosse um mamilo, eu gosto de pensar. E você, quando começa a enroscar o cabelo, eu digo, eu também já sei quando você está pronto. Venha então, minha adorada. Eu vou sim, sussurro, confiante.

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Mostrei uma foto minha hoje, onde estou com o meu filho, no dia da festa de aniversário de sete anos dele. Ele disse que o meu olhar era o de uma mãe amorosa e que o menino tinha os olhos expressivos como os meus. Na foto, o menino tem merengue no queixo e sorri envergonhado. Ele chega muito perto da cam e diz: Eu queria ser seu filho também, e seu pai, e o seu amor.

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Choro na frente da cam. Ele se sobressalta e pergunta o que houve de tão grave para que eu chore assim. Eu digo entre soluços que estou emocionada. Que procurei por ele a vida inteira e que ele estava ali, do outro lado do mundo, naquele país tão lindo, que está sob a neve agora. Ele diz que sou boba, que sou boba e linda e que queria beijar as minhas lágrimas e me abraçar.

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Há um vento muito estranho lá fora, acho que vai chover, ele conta. Estou arrasada com o terremoto, eu digo, não consigo parar de chorar quando vejo as cenas, um mundo devastado este, eu digo. Me sinto muito só hoje também, ele diz. São saudades, meu querido, saudades sem fim, eu explico para nós dois.

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Eu poderia desejar muitas coisas, das tantas que imaginei durante todo este tempo de espera, mas a que mais quero é esta, andar de mãos dadas com você, ele diz. Eu entendo, eu digo, não desejo outra coisa também, andar de mãos dadas com você. Somos simples.

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Você é o meu porto seguro, ele disse, e agora este espaço virtual é a nossa casa branca, a que vou construir para viver com você um dia. Porto seguro e casa branca. Já temos metáforas. Até parece um namoro de verdade.

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Hoje tiramos fotos com o celular. Fotos daquilo que podemos ver com a cam. Uma nova e estranha maneira de se encontrar, ele diz. Estamos conectados, eu disse, é o que importa. Vamos passar da distância absoluta para a intimidade absoluta. Como num salto, eu digo, como num salto vertiginoso.

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Amanhã não estarei aqui para o nosso encontro, ele diz, rindo baixinho. Estarei a caminho. Digo que terei olheiras horríveis depois de uma noite sem dormir. Ele diz que vamos ter tempo para dormir e descansar, finalmente. E que ainda precisa terminar de arrumar a mala.

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Fecho a porta do apartamento. Já estive muito nervosa, agora estou inexplicavelmente calma. Carrego uma pêra que parece pulsar na minha mão esquerda. È noite ainda. Subo no táxi e digo ao motorista: para o aeroporto, por favor.

5 comentários:

Luis disse...

Sugiro que você agora passe o mesmo número de dias no aeroporto.
Pode ser em mais de um, se você preferir viajar.
Escreve uma história de amor nas asas do avião, com a aeromoça, no banheiro do avião, no guichê da companhia aérea, na livraria Laselva, com o comandante, com o carregador de malas, enfim, tantas coisas...

Sinhã (açorda não) disse...

se as palavras pudessem, amavam. :-)

Nicole Rodrigues disse...

Ai, ai... meu coração não aguenta... rsrsrs

Nicole Rodrigues disse...

Onde estão os seus textos querida? Abril foi embora e você não voltou... :( Espero que as palavras voltem a brotar logo logo.

Maria Cláudia Cabral disse...

Excelente texto, prazer em conhecer teus escritos, Lelia...