segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nós, as vadias:

Lélia Almeida.

Vou começar este texto avalizando integralmente o editorial do Sul21 que diz “Mais uma vez as aspirações populares, as contestações públicas e a política de modo amplo se renovam e mais uma vez os políticos, os partidos e muitos dos que se apregoam “de esquerda” (mesmo que se digam atualizados) demoram a perceber as mudanças em curso, seu significado e sua importância. É preciso que eles se esforcem para estar sintonizados com seu tempo e para que não sejam atropelados pelos acontecimentos.”
Estive na Marcha das Vadias aqui em Brasília no sábado, 18 de junho. Cheguei cedo no Conjunto Nacional e fiquei vendo as tribos chegarem para a marcha, tribos, gentes de todas as idades, crenças, credos, roupas, homens, mulheres, e sentamos todos na calçada para escrever as palavras de ordem da marcha, todas elas contra o machismo: “Vem pra luta vem, contra o machismo, vem”; “A nossa luta é todo o dia, mulher não é mercadoria”; “Mexeu com uma, mexeu com todas!”; “Machismo mata!”; “Estupro não é piada!”; “Somos todas camareiras”; “Não é não!”; “O corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser”; “Decote não é crime, estupro é”.
Inscrições e símbolos pintados no corpo, no rosto, homens e mulheres vestidas de vadias, de freiras, com burcas, maçãs na boca, todos envoltos em símbolos e dizeres que tinham um mesmo significado, o protesto contra a violência sexual contra as mulheres.
Mais de 800 pessoas numa manhã esplendorosa em Brasília, numa marcha pacífica e cheia de vigor saindo do Conjunto Nacional, passando pela rodoviária e indo para a Torre da TV. Fui para ver as gentes, fui para ouvir, sentir, fazer parte da cidade, da muvuca das marchas, da farra. E fiz uma verdadeira volta ao túnel do tempo, lembrando da alegria e da fé daqueles tempos que ocupávamos as ruas para brigar pela democracia e por tantas liberdades imprescindíveis.
Durante a marcha a mistura das pessoas da cidade, que andavam pelas ruas e perguntavam do que se tratava. Um gari me disse, mas doutora, a senhora não acha estranho defender mulé vadia? Expliquei pra ele que o propósito da marcha era denunciar a violência contra as mulheres e contra a máxima de que são as proprias mulheres que provocam situações de violência ao se vestirem desta ou daquela maneira, sendo assim, duplamente vitimizadas. Inútil aprofundar muito a discussão ali no calor dos gritos e das músicas, ele disse, é, pode ser e ficou coçando a orelha. Uma senhora que carregava uma menina pela mão me perguntou se mulher decente podia participar, eu perguntei a ela se ela estava vendo alguma mulher ali que não era decente, ela sorriu cúmplice e disse, meu marido me mata se me encontra aqui, mas eu não vou perder isso por nada deste mundo e nem ela, disse apontando pra filha, e dei o meu apito pras duas.
Sempre que as mulheres dão as mãos e saem às ruas, o mundo muda, não duvidem disso jamais, revisitem a história do mundo, mesmo que pareça que caminhamos em círculos sem fim, já que as repetições são insanas, e os retrocessos absurdos. Sempre que as mulheres saem às ruas para brigar contra as injustiças alguma coisa acontece, ainda que as mudanças tardem e a gente sempre tenha que relembrar, refazer, retornar aos motivos essenciais, primeiros, e ajudar as mais jovens a lembrar o quanto é importante não esquecer. Êita movimento de mulheres este, idas e vindas, avanços e tantos atrasos. Nunca foram criadas tantas políticas para as mulheres como nestes tempos e nunca se viu tanto retrocesso, números alarmantes de toda sorte de violência, a discussão sobre o aborto negligenciada, rifada, como tantas outras que ainda nos concernem sim, e que fazem parte das nossas vidas e das vidas das nossas filhas.
Não vi nenhuma senadora, nenhuma deputada, nenhuma ministra na marcha em Brasília, vi as gentes comuns, as mulheres das ruas, donas-de-casa, estudantes, prostitutas, as que vivem a dureza da cidade e da vida real. E entendi que quando as políticas se institucionalizam elas perdem o fogo do espírito. Este mesmo fogo que a gente só recupera na ciranda das marchas, no calor das mãos dadas, ao som das palavras de ordem que traduzem atos de fé e que reverberam para além dos votos e das alianças vãs.
Gostei de voltar pra casa repetindo “A-vio-lên-cia-con-tra-a-mu-lher-não-é-o-mun-do-que-a-gen-te-quer!”, suada, a cara pintada, as mãos sujas de tinta, os pés cansados, o cartaz amassado embaixo do braço, certa de que sempre termino por encontrar a minha turma. Estas gentes esquisitas que sabem e sentem que o mundo está pulsando, que os vulcões adormecidos estão despertando, que as placas subterrâneas estão se deslocando, que impérios antiquíssimos estão ruindo, e que acreditam que não só um outro mundo é possível, mas que há um mundo que, definitivamente, está deixando de existir.

2 comentários:

Jean Scharlau disse...

Nada como levar nossos ideais a fazer uma passeata, incentivar nossos protestos a manifestarem-se em um ato múltiplo e conjunto, estalar o big-bang de um universo de motivações e depois em casa observar a evolução da criação e resgatar algumas virtudes originais, em meio à erupção-avalanche-tsunami mundial de pecados sociais pirateados em escala industrial e vendidos ao estratosférico preço do destino das almas.

Nicole Rodrigues disse...

"Não vi nenhuma senadora, nenhuma deputada, nenhuma ministra na marcha em Brasília, vi as gentes comuns, as mulheres das ruas, donas-de-casa, estudantes, prostitutas, as que vivem a dureza da cidade e da vida real. E entendi que quando as políticas se institucionalizam elas perdem o fogo do espírito. Este mesmo fogo que a gente só recupera na ciranda das marchas, no calor das mãos dadas, ao som das palavras de ordem que traduzem atos de fé e que reverberam para além dos votos e das alianças vãs."

Eu quero ser como você, quando eu crescer. E não é brincadeira, Dona baleia, é verdade. Um abraço apertado e cheio de saudade.