sábado, 23 de julho de 2011



Os meninos da Candelária:

Para Regina e Iracilda,
para Téia e Vera Lúcia, in memoriam.

Lélia Almeida.

Há exatos 18 anos uma igreja, no coração da cidade do Rio de Janeiro, amanheceu banhada em sangue. Na a madrugada do dia 23 de julho de 1993, perto da meia-noite policiais saídos de vários carros pararam na frente da igreja e abriram fogo contra crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades da Igreja.
O motivo da chacina teria sido a vingança de um dos policiais cuja viatura teria sido apedrejada por alguns dos meninos, ou de outro policial cuja mãe teria sido assaltada por um deles. O que podemos dizer, no entanto, é que o perfil destes policiais é o mesmo do dos grupos de extermínio que proliferam neste país e que tem como missão fazer a limpeza nas ruas da cidade. O que acontece em várias cidades do país, diariamente.
A chacina da Candelária, junto com as de Vigário Geral, do Maracanã, de Acari, entre outras, deu visibilidade a uma ferida nacional que ao invés de fechar, só faz aumentar.
Aprendi com as Mulheres da Paz, e antes delas com as Mães do Rio e com outras do país inteiro, que cada vez que um menino morre elas dizem: Mais uma! E que quer dizer, mais uma mãe que perdeu o seu filho. Perdeu seu filho morto, morto por bala, por bala perdida, pela polícia, pelo tráfico, pelo trânsito, nas mãos da polícia, da milícia, dos grupos de extermínio.
O antropólogo Luiz Eduardo Soares já explicou em inúmeros artigos e palestras e entrevistas que este fenômeno trata-se de um verdadeiro genocídio, de uma guerra legítima, onde as baixas, aqui, no nosso país tão democrático, são as de jovens negros e pobres, como eram os meninos que costumavam dormir nos bueiros da Candelária naquela noite fatídica de julho de 1993.
Segundo os dados calculados pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da organização não governamental Observatório de Favelas, através do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), a projeção é de que 33 mil adolescentes sejam mortos até 2013.
Que país é este que não cuida dos seus meninos? Que país é este que não discute a letalidade juvenil e infantil? Que país é este que faz de conta que não vê que os nossos jovens têm sido abatidos como bichos, todos os dias, 15 jovens por dia, como numa guerra perversa e sem fim?
Fui à festa de aniversário do Vitor, o filho da Inês, que fez 15 anos e mora em São Sebastião. São Sebastião é uma região administrativa de Brasília, ao lado do condomínio rural de classe média onde moro, perto do Jardim Botânico. E quem mora em São Sebastião trabalha no condomínio Ouro Vermelho. As cidades partidas existem em todo o território nacional. Inês é do Maranhão, é negra, não sabe a data do seu aniversário, tem dois meninos, um de 15 e outro de 12 anos. E todo o dia que vem para a faxina passa o tempo todo pendurada no celular monitorando os filhos.
Já choramos juntas muitas vezes, sentadas na mesa da cozinha, tomando café com leite e passando a manteiga no pão, choramos de agonia e preocupação com os nossos meninos.
A festa foi uma farra. Quando cheguei em casa meu filho disse, sabe qual é a única diferença entre mim e o Vitor? Um golpe de sorte. Foi um golpe de sorte que fez com que ele nascesse em São Sebastião e eu em Porto Alegre. No mais, a gente é igual. Descansei o coração, ele tinha compreendido, que é diferente de saber ou de ouvir falar. Compreendido o que todos temos de compreender profundamente.
Que compreender é a única maneira que temos para deixar de ser hipócritas, por exemplo. E para parar de fingir que não temos nada que ver com estas mortes, e que também não temos nada que ver nem com as mortes e nem com as vidas destes jovens negros e pobres. Porque só passamos a ter a ver com alguma coisa quando o menino baleado e morto é o nosso filho, aquele superprotegido que dorme no quarto ao lado do nosso neste momento.
Vi a Ministra Maria do Rosário ontem na missa da Candelária no Rio de Janeiro, junto com as mães que constituem o histórico movimento de familiares de vítimas de violência neste país e com as quais o Estado Brasileiro tem uma dívida impagável.À Ministra Maria do Rosário, ao Ministro José Eduardo Cardozo e à Presidente Dilma Rousseff eu, como uma humilde cidadã brasileira, gostaria de lembrar que estas mulheres têm sido, ao longo da história do país, as grandes articuladoras da campanha do desarmamento, as grandes militantes que enfrentam a polícia, o judiciário, a imprensa e que fazem de sua vida um libelo para berrar a plenos pulmões que não é possível que estes meninos continuem a morrer desta maneira.
Senhores e senhoras ministras, Presidente Dilma, ouçam o que estas mulheres tem a dizer, elas tem reivindicações específicas, elas já ajudaram a desenhar políticas públicas importantes para o governo deste país e terminam sempre por ser esquecidas e suas reivindicações negligenciadas. Elas são as familiares das vítimas de violência deste país. São as mães, as avós, as tias, as mulheres dos jovens mortos.
Comprei velas brancas ontem e vou me reunir com algumas mulheres aqui em Brasília hoje à tarde, mulheres que também perderam os seus filhos da mesma maneira que morreram os meninos da Candelária. Vamos nos juntar para rezar. Terminamos sempre chorando. Uma ferida que não fecha. E depois o choro vai se transformando em outra coisa, uma espécie de fúria, eu diria. Uma fúria quieta, branda. Uma ferida que só aumenta. Então depois lanchamos, cada uma sempre traz algo de casa, feito ontem à noite, para o nosso encontro de hoje, aí quase sempre rimos e contamos as histórias dos filhos vivos.
Porque inscrita na morte e no corpo de cada menino, está inscrita a nossa tristeza, o nosso desalento, a nossa indignação e a nossa incompreensão sem fim.
Vai ser na hora das Vésperas. Vamos repetir juntas o nome dos meninos, que este é o único jeito deles permanecerem vivos:
Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos, presente!
Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos, presente!
Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos, presente!
Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos, presente!
"Gambazinho", 17 anos, presente!
Leandro Santos da Conceição, 17 anos, presente!
Paulo José da Silva, 18 anos, presente!
Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos,presente!

E hoje vamos colocar mais um nome na lista hoje:

O do menino morto por policiais em 20 de junho de 2011, na comunidade de Danon, em Nova Iguaçu:

Juan Moraes, 11 anos, presente!

3 comentários:

bebelrosa disse...

Excelente o que vc escreveu,me emociono sempre,pois sou um ser Humano,antes de ser Mãe,sua solidariedade com essas é grandiosa,faço sua as minhas palavras,Inês é feliz por ter alguém q faz a diferença,Vitor é um rapaz de conciência e não de sorte,pois ele só tá seguindo aquilo q foi apresentado a ele desde o nascimento.
Que possamos estar presente nesse momentos de dor...Eu tô presente!

Nicole Rodrigues disse...

Nicole, presente! E, por sorte,com vida. Que a vida dos outros meninos deixe de ser um lance de ser sorte e passe a ser um direito protegido por lei e na prática.

Vou postar esse texto no Acefalanod tá? Quem sabe os acéfalos acordam...

xxx

Nicole

Victor S. Gomez disse...

Emocionante. Triste período da história do Rio de Janeiro. Abraços