terça-feira, 10 de junho de 2008

Deus é mãe:

Lélia Almeida.


Outro dia acordei com um humor do cão. Rosnava pela casa e nada me fazia melhorar. Há algumas pessoas que convivem comigo há muito tempo e que ainda não sabem desta evidência tão simples: sempre que fico furiosa deste jeito é porque não estou conseguindo ficar triste. Então a fúria fica maior do que eu, caio num pranto sem fim, vou até o fundo daquele horror e choro como uma bezerra desmamada até ficar triste e me acalmar.
Sonhei que dizia para uma terapeuta, meu filho fez dezoito anos e quer ir embora de casa e eu vou morrer se ele fizer isso comigo! Simples o sonho, mais simples ainda o sentimento. O deste segundo parto de quando temos de expulsá-los das nossas vidas, regidas por rotinas em que eles e seus horários são soberanos, e que parece que vão deixar de ter sentido quando eles não estiverem mais. Meu filho quer viajar, morar longe, morar sozinho, fazer exatamente tudo o que fiz na idade dele. E maldigo todas as vezes que eu quis estar sozinha, quando estava cansada e ele me demandava o impossível, todas as vezes que ele atrapalhou os meus namoros e os meus planos que não cabiam mais na nossa vida de mãe e filho. E penso que os melhores anos da minha vida foram estes, vendo este menino crescer, e quando penso que ele não vai estar na hora do jantar, nos domingos na tardinha, choro mais ainda.
Choro tanto que o caseiro que cuida do sítio onde moro, um cabloco que é um pedaço de mau caminho, fala mansa, olho verde, chapéu preto e louco de exibido, chega na janela e diz, mas isso é jeito de chorar dona Lélia, que eu não posso ver uma mulher chorando esse tanto assim, sô!! eu disse pra ele que ia morrer se o meu filho fosse embora de casa, ele riu e me olhou como se eu fosse uma menina velha, ah é isso, morre não, além do mais, sozinha é que a senhora não vai ficar, que a madama ainda rende um bom caldo, viu?!
Dei uma fungada, arrumei o cabelo desgrenhado e botei a água prum café.
- O senhor acha mesmo? eu perguntei.
Que Deus nunca abandona a gente, viu, que sempre tem um anjo da guarda por perto, olhos verdes, fala mansa, mãos firmes e cheiro forte de tabaco. Um anjo da guarda lembrando que não tem chuva que pra sempre dure e nem tristeza que não acabe.
Deus é mãe. Parece com o meu caseiro de olho verde vezenquando.
Mas é mãe.

2 comentários:

Florbela disse...

Lélia, querida. Posso chamá-la assim, porque há mais de dezoito anos, quando foi minha professora e eu estava com um barrigão enorme da minha filha mais nova, tu fizeste o seguinte comentário: "Não entendo, essa guria é turista, quase não vem à aula, e sempre está por dentro de tudo". Nós estávamos assistindo o filme "A mulher do tenente francês", e eu perguntei qual era a abordagem que íamos fazer a respeito do filme. Não lembras, lógico, e se lembrasse seria algo metafísico. Dali pra cá, muita coisa mudou em minha vida, como na tua também, pelo que vi. Tive três filhos e um marido, e foram todos embora. Muitas vezes chorei, muitas vezes acordo de madrugada com o som da minha própria voz. É a tal da solidão. Mas descobri, também, que eles vão e voltam sempre. Nós,(eu e tu e todas as mães do mundo)somos o porto seguro dos filhos. O marido não voltou, mas estava mesmo na hora dele ir. Enfim, amiga....foi uma agradável surpresa te encontrar no blog do Fausto Wolff, nosso conterrâneo querido.
Um grande abraço e meu carinho.

Florbela disse...

Desculpa...meu nome é Lylian e meu blog: www.eununcatevisempreteamei.blogspot