Minha sobrinha me perguntou quem é, afinal, este cinegrafista amador que consegue estar smpre na hora certa em todos os lugares do mundo!
Criança é tudo de bom né.
sábado, 16 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Partir:
Lélia Almeida.
E chega um dia que aquela vida não serve mais, um gesto, um jeito de ser e de se portar, um jeito de gostar e de ser gostada, não serve mais. Não funciona mais a repetição automática de gestos e condutas, as mágoas nos deixam, cansadas de nós, as dores deixam de doer e os nossos sonhos também não são mais os mesmos. Tem um dia que é hora de partir, deixar os amigos que não perceberam as nossas transformações, os trabalhos que não nos gratificam mais e os amores que ficaram pra trás. Tem um dia que é o dia da partida. De arrumar uma mala pequena, onde se possa levar apenas o essencial, muito pouco, porque os começos pedem a leveza para os impulsos. Alguma coisa que já foi inteiramente nossa, não é mais, e não pode, então, partir conosco. No momento da partida pede-se a delicadeza da esperança, a fé no que não se conhece. Na hora da partida temos de saber que estamos indo ao nosso encontro. E com a certeza de que só tem uma vida nova quem entrega, definitivamente, a vida velha.
Lélia Almeida.
E chega um dia que aquela vida não serve mais, um gesto, um jeito de ser e de se portar, um jeito de gostar e de ser gostada, não serve mais. Não funciona mais a repetição automática de gestos e condutas, as mágoas nos deixam, cansadas de nós, as dores deixam de doer e os nossos sonhos também não são mais os mesmos. Tem um dia que é hora de partir, deixar os amigos que não perceberam as nossas transformações, os trabalhos que não nos gratificam mais e os amores que ficaram pra trás. Tem um dia que é o dia da partida. De arrumar uma mala pequena, onde se possa levar apenas o essencial, muito pouco, porque os começos pedem a leveza para os impulsos. Alguma coisa que já foi inteiramente nossa, não é mais, e não pode, então, partir conosco. No momento da partida pede-se a delicadeza da esperança, a fé no que não se conhece. Na hora da partida temos de saber que estamos indo ao nosso encontro. E com a certeza de que só tem uma vida nova quem entrega, definitivamente, a vida velha.
sábado, 2 de julho de 2011
Aos sábados eu vou ao céu. O céu sempre foi um lugar inimaginável para mim de tão vasto, infinito, imenso. Foi assim desde que eu era menina. Depois fiquei muitos anos sem pensar no céu, divorciada da transcendência e por demais ocupada com a materialidade da vida, e das mazelas terrenas. Atarefada demais para lembrar que tem um lado da gente que só o céu dá conta. Que é um lado de dentro. E que a gente só lembra dele quando o lado de fora não responde, não explica e não nos acolhe mais.
Meu filho esteve muito doente no ano passado. Agora ele está bem. Mas quando ele esteve doente, o mundo este onde eu me sentia tão a vontade e segura, não respondia mais ao desespero do meu coração. Ninguém quer saber de você quando você está desesperada. E não é porque as pessoas não lhe querem bem, é que o desespero funciona como uma espécie de espelho, quando você vê alguém desesperado, parece que o seu desespero acorda, a sua agonia desperta e então você lembra que as coisas terríveis que acontecem aos outros, também podem acontecer com você. E você se afasta, sai correndo, foge, quase sempre usando de expedientes do tipo, fulano está exagerando, não é pra tanto e esquece, esquece que a criatura existe e volta confortável para o seu mundo sem dores.
Atravessei a doença do meu filho como quem atravessa o deserto a nado. Esta era uma das imagens que me ocorria, a de um tempo estagnado que parecia não passar nunca, ele que só piorava e meu coração que ficava, a cada dia, mais apertado. Tudo o que era deste mundo deixou de servir e de ser importante. As respostas já não estavam mais ao meu alcance, as perguntas também pareciam ser sempre equivocadas. E me entreguei, finalmente, para a errância e para a escuridão do deserto. Eu e o meu filho com a alma perdida e o corpo quebrado. Foi quando voltei a pensar no céu. A olhar outra vez as estrelas e a ter a certeza de que quem olha para cima, olha para dentro. Tive de aprender de novo a olhar para o céu, eu que tinha estado desatenta por tanto tempo.
Todos partem quando você tem de atravessar o deserto sozinha, carregando um menino doente nos braços. É quando chegam os anjos para socorrer você, mas eles só aparecem quando você entende profundamente que está só, e que isto é o que lhe cabe. Cuidar do menino.
Os anjos, muitas vezes, aparecem disfarçados de amigas. E então elas levam você para uma igreja humilde e muito pequena, nos confins de um lugar chamado Ceilândia, na verdade, um lugar que se chama a extensão da Ceilândia, uma das cidades-satélites de Brasília.
Lá é o céu. E o céu não é dos ricos, o céu parece ser o único lugar do mundo que os ricos não podem e nem querem comprar. Apesar da hierarquia imprescindível – a ordem e a disciplina são sempre boas guias – o céu é um lugar democrático onde somos todos iguais aos olhos de Jesus, um Jesus de madeira e muito simples pendurado numa parede pintada de azulão.
Para entrar no céu, que é uma sala quadrada onde vários médiuns vestidos de branco dão passes, passamos por uma senhora que distribui senhas que ela retira de uma caixinha de madeira. O rigor com que ela administra as fichas de papel gasto me fez refletir muitas vezes sobre a maneira como trabalho e como prezo o meu ofício. E que a verdade dos gestos é que glorifica o ritual, seja ele qual for.
Ela é a guardiã do céu, não sei se uma versão de São Pedro com as chaves ou uma versão de Miguel e Gabriel quando pesam na balança os frágeis corações humanos para saber o tanto que fomos pecadores ou virtuosos.
A senhora que me atende, na primeira vez, é muito miúda, baixinha, com uma trança de cabelos brancos, toma a minha cabeça em suas mãos e começa a reza e me diz, a madama que é tão estudada, não sabe falar com Deus, tanto estudo que não serve pra nada! Pergunto a ela como faço para falar com Deus e ela responde, converse com ele, minha filha, e peça a ele para aliviar o seu coração porque isto não é jeito de sentir dor! Mas a gente só fala com ele quando tem fé. E ela me diz que traga um terço e água para benzer.
Volto lá todos os sábados. Gosto do hinário e daquelas vozes potentes de pessoas tão simples louvando a bondade e a beleza da Nossa Senhora, a proteção de São José e o amor do Menino. São homens e mulheres trabalhadores, que têm o rosto cansado da jornada da semana, e carregam as crianças da família que esperam pela hora do passe, brincando umas com as outras, comem salgadinhos, conversam e cantam como anjos pequenos.
Já tenho amigas novas. Como a Benedita e suas três netas pequenas, cada uma filha de um dos filhos que deixou a menina por ali e partiu. Benedita tem falhas enormes nos cabelos, e com o tempo, ela me conta, que tem dias que ela arranca os cabelos quando está com raiva. Ou quando está triste.
Ontem conheci a Vanusa, que trabalha numa ONG que cuida de animais abandonados, ela me disse, tivemos de abrir a ONG porque tinha muita gente abatendo os bichinhos para comer. Porque falta tudo no céu. O céu é precário. O céu é como o mundo. Um lugar de difícil sobrevivência. E cheio de dores e esperanças. Cândida e seus nódulos no peito, Inês e seu menino deficiente. Tem dias que ouço vozes, muitas mais, como se o número de médiuns fosse o dobro do número real. O que acontece dentro de uma casa de oração pode fazer a gente delirar, eu acho que não é delírio, eu acho que é milagre mesmo. Afinal, os loucos, as crianças, as mulheres, os pobres e os santos sempre andaram juntos.
Meu filho melhorou. O medo que eu senti, o medo de perdê-lo, entrou nos meus ossos e se instalou para sempre dentro de mim, numa espécie de frio. Com o tempo deixei de me sentir desesperada, o que eu sinto agora, de vez em quando, são calafrios. Levo um terço para benzer todo o sábado e quando o medo é muito forte me penduro no rosário como se fosse um cordão umbilical inquebrantável que me une e conecta com a Nossa Senhora.
Outro dia a Diva, a do filho craqueiro, me perguntou, o seu filho já não melhorou, o que é que você faz aqui então todo o santo sábado, eu disse a ela que venho para agradecer, para não esquecer que a gratidão é uma boa prática, para não esquecer que podemos sobreviver com muito pouco, um rosário pequeno de contas de madrepérola e muita água.
E para lembrar toda a semana que eu tenho tudo.
(Na foto, com as meninas Carla, Naiara e Emili, na Ceilândia.)
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Emily L. faz poemas, mas não fala sobre isso. Seu desejo é o de escrever. Seu desejo, ela o recebe como uma compulsão. Muito antiga. Antiga demais. Eu associo àquela que acometia os caçadores da pré-história, nas noites de primavera. Eu vejo a literatura assim, como um algo comparável à caça pré-histórica. Quando nenhuma palavra tinha sido escrita. Eu a vejo chegar assim. Com essa força que levanta os homens (...) Escrever é também isso, esse apetite de carne fresca, de matança, de marcha, de consumação da força. É também essa cegueira. (Marguerite Duras, in depoimento ao Nouvel Observateur)
quinta-feira, 30 de junho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
O fim da tristeza:
Lélia Almeida.
Um mar de lágrimas. Uma mulher muito branca atravessa, numa embarcação pequena, um mar de lágrimas. O céu é azul cobalto e as estrelas imensas. A mulher tem os cabelos grisalhos e vestes transparentes. Está em pé na embarcação e chora com as mãos no rosto, em tristeza profunda um pranto sem fim. A embarcação desliza lentamente, o pranto é desolador, as estrelas despencam do firmamento e deixam o mar brilhante, como papel laminado. Uma transformação acontece enquanto a embarcação avança e a mulher chora. É uma transmutação, na verdade. A mulher solta os braços sobre o corpo, levanta a cabeça e vê a chuva de estrelas que despenca do céu. O ar é leve agora, a mulher não chora mais, respira a plenos pulmões e compreende o milagre. Um dia a dor vai embora, um dia a dor não nos quer mais. E então a única aventura possível é rumar firme para a alegria. A mulher avança. A paisagem agora é solar e ela vai para o seu centro, depois da travessia da dor. Ela volta para casa, finalmente. Ela volta para ela.
Lélia Almeida.
Um mar de lágrimas. Uma mulher muito branca atravessa, numa embarcação pequena, um mar de lágrimas. O céu é azul cobalto e as estrelas imensas. A mulher tem os cabelos grisalhos e vestes transparentes. Está em pé na embarcação e chora com as mãos no rosto, em tristeza profunda um pranto sem fim. A embarcação desliza lentamente, o pranto é desolador, as estrelas despencam do firmamento e deixam o mar brilhante, como papel laminado. Uma transformação acontece enquanto a embarcação avança e a mulher chora. É uma transmutação, na verdade. A mulher solta os braços sobre o corpo, levanta a cabeça e vê a chuva de estrelas que despenca do céu. O ar é leve agora, a mulher não chora mais, respira a plenos pulmões e compreende o milagre. Um dia a dor vai embora, um dia a dor não nos quer mais. E então a única aventura possível é rumar firme para a alegria. A mulher avança. A paisagem agora é solar e ela vai para o seu centro, depois da travessia da dor. Ela volta para casa, finalmente. Ela volta para ela.
domingo, 26 de junho de 2011
O pão da alma:
Lélia Almeida.
Escritura é culinária. Você escolhe os ingredientes, mistura e deixa a massa descansar. A história cresce. Depois põe no forno e espera com paciência pela alquimia dos elementos. Depois do forno, a história cresceu, tá pronta. A comensalidade é quando partilhamos as experiências, e a literatura é o pão da alma.
Lélia Almeida.
Escritura é culinária. Você escolhe os ingredientes, mistura e deixa a massa descansar. A história cresce. Depois põe no forno e espera com paciência pela alquimia dos elementos. Depois do forno, a história cresceu, tá pronta. A comensalidade é quando partilhamos as experiências, e a literatura é o pão da alma.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Oração da mulher perdida:
Ai, Senhor, eu peço, nesta noite fria e escura, pela irreverência do meu espírito, pelo fogo das minhas convicções, pelas minhas esperanças, pela compreensão que me cabe, pela minha consciência e pela minha alegria, que sempre me livra da caretice e da estupidez. Eu peço por mim, Senhor, e por esta doida que não arrefece dentro do meu peito, e que acorda pela manhã com uma única certeza. Eu quero mais. Conserva-me digna, Senhor, de mim e de Ti, em todos os meus descaminhos. Amém.
Ai, Senhor, eu peço, nesta noite fria e escura, pela irreverência do meu espírito, pelo fogo das minhas convicções, pelas minhas esperanças, pela compreensão que me cabe, pela minha consciência e pela minha alegria, que sempre me livra da caretice e da estupidez. Eu peço por mim, Senhor, e por esta doida que não arrefece dentro do meu peito, e que acorda pela manhã com uma única certeza. Eu quero mais. Conserva-me digna, Senhor, de mim e de Ti, em todos os meus descaminhos. Amém.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Nós, as vadias:
Lélia Almeida.
Vou começar este texto avalizando integralmente o editorial do Sul21 que diz “Mais uma vez as aspirações populares, as contestações públicas e a política de modo amplo se renovam e mais uma vez os políticos, os partidos e muitos dos que se apregoam “de esquerda” (mesmo que se digam atualizados) demoram a perceber as mudanças em curso, seu significado e sua importância. É preciso que eles se esforcem para estar sintonizados com seu tempo e para que não sejam atropelados pelos acontecimentos.”
Estive na Marcha das Vadias aqui em Brasília no sábado, 18 de junho. Cheguei cedo no Conjunto Nacional e fiquei vendo as tribos chegarem para a marcha, tribos, gentes de todas as idades, crenças, credos, roupas, homens, mulheres, e sentamos todos na calçada para escrever as palavras de ordem da marcha, todas elas contra o machismo: “Vem pra luta vem, contra o machismo, vem”; “A nossa luta é todo o dia, mulher não é mercadoria”; “Mexeu com uma, mexeu com todas!”; “Machismo mata!”; “Estupro não é piada!”; “Somos todas camareiras”; “Não é não!”; “O corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser”; “Decote não é crime, estupro é”.
Inscrições e símbolos pintados no corpo, no rosto, homens e mulheres vestidas de vadias, de freiras, com burcas, maçãs na boca, todos envoltos em símbolos e dizeres que tinham um mesmo significado, o protesto contra a violência sexual contra as mulheres.
Mais de 800 pessoas numa manhã esplendorosa em Brasília, numa marcha pacífica e cheia de vigor saindo do Conjunto Nacional, passando pela rodoviária e indo para a Torre da TV. Fui para ver as gentes, fui para ouvir, sentir, fazer parte da cidade, da muvuca das marchas, da farra. E fiz uma verdadeira volta ao túnel do tempo, lembrando da alegria e da fé daqueles tempos que ocupávamos as ruas para brigar pela democracia e por tantas liberdades imprescindíveis.
Durante a marcha a mistura das pessoas da cidade, que andavam pelas ruas e perguntavam do que se tratava. Um gari me disse, mas doutora, a senhora não acha estranho defender mulé vadia? Expliquei pra ele que o propósito da marcha era denunciar a violência contra as mulheres e contra a máxima de que são as proprias mulheres que provocam situações de violência ao se vestirem desta ou daquela maneira, sendo assim, duplamente vitimizadas. Inútil aprofundar muito a discussão ali no calor dos gritos e das músicas, ele disse, é, pode ser e ficou coçando a orelha. Uma senhora que carregava uma menina pela mão me perguntou se mulher decente podia participar, eu perguntei a ela se ela estava vendo alguma mulher ali que não era decente, ela sorriu cúmplice e disse, meu marido me mata se me encontra aqui, mas eu não vou perder isso por nada deste mundo e nem ela, disse apontando pra filha, e dei o meu apito pras duas.
Sempre que as mulheres dão as mãos e saem às ruas, o mundo muda, não duvidem disso jamais, revisitem a história do mundo, mesmo que pareça que caminhamos em círculos sem fim, já que as repetições são insanas, e os retrocessos absurdos. Sempre que as mulheres saem às ruas para brigar contra as injustiças alguma coisa acontece, ainda que as mudanças tardem e a gente sempre tenha que relembrar, refazer, retornar aos motivos essenciais, primeiros, e ajudar as mais jovens a lembrar o quanto é importante não esquecer. Êita movimento de mulheres este, idas e vindas, avanços e tantos atrasos. Nunca foram criadas tantas políticas para as mulheres como nestes tempos e nunca se viu tanto retrocesso, números alarmantes de toda sorte de violência, a discussão sobre o aborto negligenciada, rifada, como tantas outras que ainda nos concernem sim, e que fazem parte das nossas vidas e das vidas das nossas filhas.
Não vi nenhuma senadora, nenhuma deputada, nenhuma ministra na marcha em Brasília, vi as gentes comuns, as mulheres das ruas, donas-de-casa, estudantes, prostitutas, as que vivem a dureza da cidade e da vida real. E entendi que quando as políticas se institucionalizam elas perdem o fogo do espírito. Este mesmo fogo que a gente só recupera na ciranda das marchas, no calor das mãos dadas, ao som das palavras de ordem que traduzem atos de fé e que reverberam para além dos votos e das alianças vãs.
Gostei de voltar pra casa repetindo “A-vio-lên-cia-con-tra-a-mu-lher-não-é-o-mun-do-que-a-gen-te-quer!”, suada, a cara pintada, as mãos sujas de tinta, os pés cansados, o cartaz amassado embaixo do braço, certa de que sempre termino por encontrar a minha turma. Estas gentes esquisitas que sabem e sentem que o mundo está pulsando, que os vulcões adormecidos estão despertando, que as placas subterrâneas estão se deslocando, que impérios antiquíssimos estão ruindo, e que acreditam que não só um outro mundo é possível, mas que há um mundo que, definitivamente, está deixando de existir.
Lélia Almeida.
Vou começar este texto avalizando integralmente o editorial do Sul21 que diz “Mais uma vez as aspirações populares, as contestações públicas e a política de modo amplo se renovam e mais uma vez os políticos, os partidos e muitos dos que se apregoam “de esquerda” (mesmo que se digam atualizados) demoram a perceber as mudanças em curso, seu significado e sua importância. É preciso que eles se esforcem para estar sintonizados com seu tempo e para que não sejam atropelados pelos acontecimentos.”
Estive na Marcha das Vadias aqui em Brasília no sábado, 18 de junho. Cheguei cedo no Conjunto Nacional e fiquei vendo as tribos chegarem para a marcha, tribos, gentes de todas as idades, crenças, credos, roupas, homens, mulheres, e sentamos todos na calçada para escrever as palavras de ordem da marcha, todas elas contra o machismo: “Vem pra luta vem, contra o machismo, vem”; “A nossa luta é todo o dia, mulher não é mercadoria”; “Mexeu com uma, mexeu com todas!”; “Machismo mata!”; “Estupro não é piada!”; “Somos todas camareiras”; “Não é não!”; “O corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser”; “Decote não é crime, estupro é”.
Inscrições e símbolos pintados no corpo, no rosto, homens e mulheres vestidas de vadias, de freiras, com burcas, maçãs na boca, todos envoltos em símbolos e dizeres que tinham um mesmo significado, o protesto contra a violência sexual contra as mulheres.
Mais de 800 pessoas numa manhã esplendorosa em Brasília, numa marcha pacífica e cheia de vigor saindo do Conjunto Nacional, passando pela rodoviária e indo para a Torre da TV. Fui para ver as gentes, fui para ouvir, sentir, fazer parte da cidade, da muvuca das marchas, da farra. E fiz uma verdadeira volta ao túnel do tempo, lembrando da alegria e da fé daqueles tempos que ocupávamos as ruas para brigar pela democracia e por tantas liberdades imprescindíveis.
Durante a marcha a mistura das pessoas da cidade, que andavam pelas ruas e perguntavam do que se tratava. Um gari me disse, mas doutora, a senhora não acha estranho defender mulé vadia? Expliquei pra ele que o propósito da marcha era denunciar a violência contra as mulheres e contra a máxima de que são as proprias mulheres que provocam situações de violência ao se vestirem desta ou daquela maneira, sendo assim, duplamente vitimizadas. Inútil aprofundar muito a discussão ali no calor dos gritos e das músicas, ele disse, é, pode ser e ficou coçando a orelha. Uma senhora que carregava uma menina pela mão me perguntou se mulher decente podia participar, eu perguntei a ela se ela estava vendo alguma mulher ali que não era decente, ela sorriu cúmplice e disse, meu marido me mata se me encontra aqui, mas eu não vou perder isso por nada deste mundo e nem ela, disse apontando pra filha, e dei o meu apito pras duas.
Sempre que as mulheres dão as mãos e saem às ruas, o mundo muda, não duvidem disso jamais, revisitem a história do mundo, mesmo que pareça que caminhamos em círculos sem fim, já que as repetições são insanas, e os retrocessos absurdos. Sempre que as mulheres saem às ruas para brigar contra as injustiças alguma coisa acontece, ainda que as mudanças tardem e a gente sempre tenha que relembrar, refazer, retornar aos motivos essenciais, primeiros, e ajudar as mais jovens a lembrar o quanto é importante não esquecer. Êita movimento de mulheres este, idas e vindas, avanços e tantos atrasos. Nunca foram criadas tantas políticas para as mulheres como nestes tempos e nunca se viu tanto retrocesso, números alarmantes de toda sorte de violência, a discussão sobre o aborto negligenciada, rifada, como tantas outras que ainda nos concernem sim, e que fazem parte das nossas vidas e das vidas das nossas filhas.
Não vi nenhuma senadora, nenhuma deputada, nenhuma ministra na marcha em Brasília, vi as gentes comuns, as mulheres das ruas, donas-de-casa, estudantes, prostitutas, as que vivem a dureza da cidade e da vida real. E entendi que quando as políticas se institucionalizam elas perdem o fogo do espírito. Este mesmo fogo que a gente só recupera na ciranda das marchas, no calor das mãos dadas, ao som das palavras de ordem que traduzem atos de fé e que reverberam para além dos votos e das alianças vãs.
Gostei de voltar pra casa repetindo “A-vio-lên-cia-con-tra-a-mu-lher-não-é-o-mun-do-que-a-gen-te-quer!”, suada, a cara pintada, as mãos sujas de tinta, os pés cansados, o cartaz amassado embaixo do braço, certa de que sempre termino por encontrar a minha turma. Estas gentes esquisitas que sabem e sentem que o mundo está pulsando, que os vulcões adormecidos estão despertando, que as placas subterrâneas estão se deslocando, que impérios antiquíssimos estão ruindo, e que acreditam que não só um outro mundo é possível, mas que há um mundo que, definitivamente, está deixando de existir.
domingo, 12 de junho de 2011
Parto, de partir:
Lélia Almeida.
Quando o menino nasceu, minhas mãos se encheram de afazeres, meu coração de preocupações e meus dias de pequenas e inusitadas alegrias. Vê-lo crescer, ali, ao pé da árvore hesitante que eu também era me deu, finalmente, o sentimento de pertença que eu buscara durante toda a minha vida. Pois não foi como filha, nem como esposa, nem como profissional que eu achei o meu lugar no mundo. Foi a maternidade que me fez encontrar a minha turma, o meu lugar, junto às outras mães. Estes seres anônimos e sempre tão parecidos e previsíveis, e que repetem uma coreografia inerente, trazida como herança na mais recôndita genética e que é sempre simples e compreensível em qualquer lugar do mundo. Alimentar o menino, vesti-lo, aconchegá-lo depois do tombo, limpar-lhe o joelho destampado, tênis novo, furado, chulé, pano quente no ouvido com otite no meio da noite, caderno com orelha e letra incompreensível, “- Come, por favor, pára de falar e come.”
Descortinamos as verdades do mundo e nos tornamos um pouco filósofas, médicas, mediadoras, físicas, na troca comum da descoberta dos dias. Estamos na praia de noite, caminhando e ele diz agarrado na minha mão,
“-Ué, e não é que apagaram a luz do céu e ficou tudo escuro!” Choro copiosamente no dia em que o Ayrton Senna morreu, ele acompanha os dias do velório, a espera para o enterro e pergunta solene, “- Por que tem pessoas que quando morrem são enterradas embaixo da terra e outras que vão pro céu?”
Catchup, batata frita, gelatina de cereja, ovo molinho e bife milalêis, bicicleta, gato, Cavaleiros do Zoodíaco, Príncipe da Pérsia, Lego, The Strokes, Chaves, Friends, pipoca, moleton com capuz, tatoo, piercing, reunião dançante com cachorro-quente, cinema e cortar o cabelo, unhas pretas, imundas, mais chulé, outro gato, ódio à matemática, Allstar cor-de-rosa, chupão no pescoço, “-Não fica triste mãe, nem sempre dá certo, é assim mesmo, a vida tem vida própria”, ele me explica. Baseado, porres, contas absurdas de celular, noites sem aparecer e sem avisar, namoros relâmpagos, outros nem tanto, a primeira viagem de excursão da escola, circo, competição de natação, baterista numa banda chamada Blue Velvet.
Aprendi tudo o que sei com ele, tudo o que é realmente importante, que são as coisas da vida pequena. Arroz branco com gema de ovo, beijo de borboleta, beijo de esquimó, mais noites em claro com otite, febrão. A porta abre, depois de dias de ausência, vou dormir aliviada, ele está vivo. Cabelo montanha, olho remelento, meia furada. Barba, bigode, uma força e uma fome descomunais.
Os dias cheios, as mãos fartas de tantas tarefas e eu cheia de ciência, de sabedoria, exibida, competindo com todas as mães do mundo que contam as histórias simples dos seus filhos como as maiores façanhas e conquistas da humanidade. Ele aprendeu a amarrar os sapatos, a abotoar a camisa, a ler, a escrever, a dirigir.
E um dia, você está ali, as mãos no mesmo movimento nervoso de sempre, dobrando as camisas, arrumando a mala, fechando a mala, vendo ele partir, ele ir embora. É o segundo parto. E você não chora, porque você sempre disse que era isso mesmo o que ele tinha que fazer. Procurar a sua turma, seu rumo, seu norte. O menino parte. Abana de longe, no embarque do avião que vai levá-lo para outra cidade, no outro extremo do país. Você cambaleia enquanto volta pra casa. E quando entra em casa, abre a porta e o silêncio da ausência dele enovela os seus dias e desassossega as suas noites. Você percebe então uma coisa muito simples, que as suas mãos, de uma hora para outra, ficaram vazias. De uma noite para uma manhã, as suas mãos tão cheias, ficaram vazias. E sem utilidade.
Não sei o que fazer com as minhas mãos que eram tão atarefadas, tenho medo de emburrecer sem as perguntas dele que moviam as minhas repostas. Não durmo. Ouço-o chegando no meio da noite e descubro que estava sonhando. Ouço uma música no meio do Shopping e meu coração paralisa numa saudade difícil de contar.Não tenho vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas descobri que continuo pertencendo à mesma confraria. A de outras mães, agora. Como esta senhora que senta ao meu lado no metrô e me mostra uma foto do filho que foi para uma missão no Haiti. Ela me conta, “- Não tenho vontade de nada, não tenho vontade de voltar pra casa, sabe, e o pior é que nem posso contar isso pra ninguém, porque pensam que a gente é doida, grudenta, possessiva. Mas não é nada disto, ela me diz. É o tal do ninho vazio, eu tenho saudade do menino, e da minha vida com ele.” E ela aperta o meu braço entendendo que sei do que ela está falando, porque soluçamos abraçadas no embalo do metrô. Não estamos sós. Continuamos a repetir a coreografia que nos irmana. As duas vamos chegar a casa em poucos minutos, uma casa imensa agora, o silêncio será absoluto, forjado nestas noites mal dormidas e sem fim e vamos cumprir a sina, a de reinventar a vida possível no ninho vazio.
Quando nos despedimos no metrô ela disse, meu médico disse que as mulheres na menopausa devem fazer alguma coisa com as mãos, eu acho que vou voltar a bordar e a tecer agora que tenho tempo. Faça isso também, ela me aconselhou. Faça algo com as mãos.
Mãos vazias, eu pensei. Mãos vazias podem ser úteis para quem gosta de escrever, eu pensei antes de dormir. E agradeci a Deus pela minha nova amiga.
Lélia Almeida.
Quando o menino nasceu, minhas mãos se encheram de afazeres, meu coração de preocupações e meus dias de pequenas e inusitadas alegrias. Vê-lo crescer, ali, ao pé da árvore hesitante que eu também era me deu, finalmente, o sentimento de pertença que eu buscara durante toda a minha vida. Pois não foi como filha, nem como esposa, nem como profissional que eu achei o meu lugar no mundo. Foi a maternidade que me fez encontrar a minha turma, o meu lugar, junto às outras mães. Estes seres anônimos e sempre tão parecidos e previsíveis, e que repetem uma coreografia inerente, trazida como herança na mais recôndita genética e que é sempre simples e compreensível em qualquer lugar do mundo. Alimentar o menino, vesti-lo, aconchegá-lo depois do tombo, limpar-lhe o joelho destampado, tênis novo, furado, chulé, pano quente no ouvido com otite no meio da noite, caderno com orelha e letra incompreensível, “- Come, por favor, pára de falar e come.”
Descortinamos as verdades do mundo e nos tornamos um pouco filósofas, médicas, mediadoras, físicas, na troca comum da descoberta dos dias. Estamos na praia de noite, caminhando e ele diz agarrado na minha mão,
“-Ué, e não é que apagaram a luz do céu e ficou tudo escuro!” Choro copiosamente no dia em que o Ayrton Senna morreu, ele acompanha os dias do velório, a espera para o enterro e pergunta solene, “- Por que tem pessoas que quando morrem são enterradas embaixo da terra e outras que vão pro céu?”
Catchup, batata frita, gelatina de cereja, ovo molinho e bife milalêis, bicicleta, gato, Cavaleiros do Zoodíaco, Príncipe da Pérsia, Lego, The Strokes, Chaves, Friends, pipoca, moleton com capuz, tatoo, piercing, reunião dançante com cachorro-quente, cinema e cortar o cabelo, unhas pretas, imundas, mais chulé, outro gato, ódio à matemática, Allstar cor-de-rosa, chupão no pescoço, “-Não fica triste mãe, nem sempre dá certo, é assim mesmo, a vida tem vida própria”, ele me explica. Baseado, porres, contas absurdas de celular, noites sem aparecer e sem avisar, namoros relâmpagos, outros nem tanto, a primeira viagem de excursão da escola, circo, competição de natação, baterista numa banda chamada Blue Velvet.
Aprendi tudo o que sei com ele, tudo o que é realmente importante, que são as coisas da vida pequena. Arroz branco com gema de ovo, beijo de borboleta, beijo de esquimó, mais noites em claro com otite, febrão. A porta abre, depois de dias de ausência, vou dormir aliviada, ele está vivo. Cabelo montanha, olho remelento, meia furada. Barba, bigode, uma força e uma fome descomunais.
Os dias cheios, as mãos fartas de tantas tarefas e eu cheia de ciência, de sabedoria, exibida, competindo com todas as mães do mundo que contam as histórias simples dos seus filhos como as maiores façanhas e conquistas da humanidade. Ele aprendeu a amarrar os sapatos, a abotoar a camisa, a ler, a escrever, a dirigir.
E um dia, você está ali, as mãos no mesmo movimento nervoso de sempre, dobrando as camisas, arrumando a mala, fechando a mala, vendo ele partir, ele ir embora. É o segundo parto. E você não chora, porque você sempre disse que era isso mesmo o que ele tinha que fazer. Procurar a sua turma, seu rumo, seu norte. O menino parte. Abana de longe, no embarque do avião que vai levá-lo para outra cidade, no outro extremo do país. Você cambaleia enquanto volta pra casa. E quando entra em casa, abre a porta e o silêncio da ausência dele enovela os seus dias e desassossega as suas noites. Você percebe então uma coisa muito simples, que as suas mãos, de uma hora para outra, ficaram vazias. De uma noite para uma manhã, as suas mãos tão cheias, ficaram vazias. E sem utilidade.
Não sei o que fazer com as minhas mãos que eram tão atarefadas, tenho medo de emburrecer sem as perguntas dele que moviam as minhas repostas. Não durmo. Ouço-o chegando no meio da noite e descubro que estava sonhando. Ouço uma música no meio do Shopping e meu coração paralisa numa saudade difícil de contar.Não tenho vontade de levantar da cama pela manhã.
Mas descobri que continuo pertencendo à mesma confraria. A de outras mães, agora. Como esta senhora que senta ao meu lado no metrô e me mostra uma foto do filho que foi para uma missão no Haiti. Ela me conta, “- Não tenho vontade de nada, não tenho vontade de voltar pra casa, sabe, e o pior é que nem posso contar isso pra ninguém, porque pensam que a gente é doida, grudenta, possessiva. Mas não é nada disto, ela me diz. É o tal do ninho vazio, eu tenho saudade do menino, e da minha vida com ele.” E ela aperta o meu braço entendendo que sei do que ela está falando, porque soluçamos abraçadas no embalo do metrô. Não estamos sós. Continuamos a repetir a coreografia que nos irmana. As duas vamos chegar a casa em poucos minutos, uma casa imensa agora, o silêncio será absoluto, forjado nestas noites mal dormidas e sem fim e vamos cumprir a sina, a de reinventar a vida possível no ninho vazio.
Quando nos despedimos no metrô ela disse, meu médico disse que as mulheres na menopausa devem fazer alguma coisa com as mãos, eu acho que vou voltar a bordar e a tecer agora que tenho tempo. Faça isso também, ela me aconselhou. Faça algo com as mãos.
Mãos vazias, eu pensei. Mãos vazias podem ser úteis para quem gosta de escrever, eu pensei antes de dormir. E agradeci a Deus pela minha nova amiga.
domingo, 22 de maio de 2011
À SOMBRA DA CHAMA DE UMA VELA:
Lélia Almeida.
O que não é visto não é lembrado.
(Ditado Popular)
Aquilo sobre o que ninguém escreve
ou fala não existe.
(Érico Veríssimo)
Também tenho encontrado
mulher de todo pêlo
morocha, castanha, ruiva
rica, pobre, remediada
gorda, negra, alta, baixa
moça de família, china rampeira
mulher com medo de rato
e fêmea que briga como macho.
Mas fui aprendendo aos pouquinhos
que hai moças e moças
e que é sempre bom a gente atentar
no que diz a língua do povo:
Em São Borja e São Vicente,
Pra casar não se demora
Que as moças lá desses pagos
Cortam a gente de espora!
Lá na terra de Pelotas
As moças vivem fechadas.
De dia fazem biscoito,
De noite bailam caladas.
Ó moço, se eu le contasse,
Vancê diria que eu minto:
As moças de Livramento
Usam pistola no cinto!
A fala acima é de José Fandango, tropeiro conhecedor dos pagos gaúchos, um dos tantos personagens de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e que, neste momento, cruzando o segundo volume de O continente, "num verão muito seco (...) foi levar a tropa a São Gabriel". E revela, de modo exemplar, a lenda da mulher gaúcha como forte, viril, varonil, em suma, a lendária mulher de faca na bota.
É também o texto de Érico Veríssimo o que mais amplamente se ocupou de retratar uma diversificada galeria de personagens femininas, vivíssimas para sempre no imaginário do público leitor gaúcho.
Ana Terra, Bibiana, Luzia são, sem dúvidas, personagens femininas fortes, inesquecíveis e com uma força arquetípica constatável nos inúmeros solares, edifícios, projetos "Ana Terra", ou nas inúmeras também Anas Terras e Bibianas nascidas até hoje no Rio Grande do Sul a fora, num movimento recorrente como é o movimento que solidifica a força dos mitos. Mitos de mulheres de força, teimosia, perseverança, garra, determinação.
No caso de Ana Terra, por exemplo: tendo a casa paterna destruída pelos castelhanos e mortos pai e irmãos e o corpo violentado, parte cheia de coragem para reconstruir sua vida no pequeno povoado que se transformará na cidade de Santa Fé, cenário e palco onde se desenvolvem os duzentos anos de história da família Terra/Cambará.
Ana Terra não é movida apenas pelo ódio à violência provocada pelos castelhanos; sua força e determinação, sua teimosia e perseverança (típica dos Terra) são fruto de um sentimento poderoso, absoluto: é preciso criar seu filho Pedro, torná-lo homem, sobreviver. E é desta brava figura que depende a vida do menino. Investida de fúria e vontade, Ana Terra parte com um menino pela mão para conquistar seu território, e a maternidade é o sentimento, a função que lhe dá esta fúria, sua força.
Bibiana Terra, neta de Ana Terra, tem igual destino. É obstinada como a avó, briguenta. Enfrenta o pai para casar com o Capitão Rodrigo e cria três filhos em meio a esperas, perigos, solidão e às idas e vindas do marido a guerras e a outras mulheres. Para ambas, cuidar da terra é mais do que parece: cuidar da terra é cuidar da descendência e da manutenção da sobrevivência que é, afinal, o que importa e o que concerne às mulheres. É assim que Bibiana, com uma praticidade e objetividade agudas, casa o filho Bolívar com Luzia Silva, num casamento de interesses contratuais, conseguindo reaver assim sua casa de infância, seu quintal, a tradição da família Terra, e investir o filho e o neto de poder político e prestígio social.
Nada que um bom pai de família não fizesse por uma filha casadoira. Bibiana, como a avó, é teimosa, perseverante, briga sem limites e pruridos pelo que quer e consegue sempre o que deseja. Para ela, como para Ana Terra, o que importa é a família, a descendência, o filho, o neto.
Ana Terra e Bibiana se consolidam na nossa literatura como mulheres indubitavelmente fortes, e toda a crítica especializada usa de qualificativos masculinizantes para legitimar esta força: são poderosas, viris, varonis. E esta força que tem uma expressão masculina nasce de um motivo específico, feminino, que é a maternidade.
Ana Terra e Bibiana são bravas e fortes mulheres, e são mães; acima de tudo são mães.
A contrapartida destas figuras exemplares pautadas no arquétipo da Grande Mãe, Mãe Terra, é Luzia, neta de Aguinaldo Silva e mulher de Bolívar Cambará, nora, portanto, de Bibiana. Inscrita na capítulo "A Teiniaguá", no segundo volume de O Continente, reforça com seu comportamento feminino diferenciado aspectos significativos da lenda. Luzia é bonita, rica, sedutora, vem da cidade grande, toca cítara, faz versos, emite opiniões próprias, é cruel e não se situa dentro de um modo de ser feminino proposto às personagens femininas ao longo do texto, quiçá
ao longo de toda a nossa literatura. Um modo de ser feminino idealizado, muito distante do modo como as mulheres são e vivem realmente. Luzia desempenha papel de estrangeira; nem ela nem o avô são originários de Santa Fé. Ele nordestino, ela órfã e adotiva, o que obscurece e mitifica mais sua origem, reforçando a percepção trágica do Dr. Winter, que a nomeia significativamente de Melpômene. Esta Lorelei perversa, de olhos de réptil, tem sua força e seu poder na sedução a que sucumbe Bolívar e numa determinação que a põe em guerra com Bibiana, numa disputa por Licurgo e pelo Sobrado até sua morte, vitimada por um tumor maligno.
Se a terra e as boas águas nutrem o nosso imaginário, quando falamos em Ana Terra e Bibiana, com Luzia o que aparece é o fogo destruidor, poderoso, sedutor, como quer seu próprio nome e a lenda na qual seu perfil está calcado. Luzia é também uma forte, mas sua força, ao contrário de Ana Terra e Bibiana, não tem motivação na sublime função materna, mas na sexualidade que seduz e aniquila Bolívar, uma sexualidade que vemos muito mais explicitada na desejo do Dr. Winter e no ódio de Bibiana, do que na conduta propriamente dita de Luzia. Esta força sexual, por assim dizer, é representativa ao longo do texto, sobretudo se recordarmos que Helga Kunz evocava à jovem Bibiana os olhos da Teiniaguá e que, na tradição das "outras" dos varões Terra/Cambará, Ismália Caré evocará à velha Bibiana um jeito, alguma coisa de Luzia.
Na contrapartida das mães dignas e fortes: Ana Terra, Bibiana, Flora e Silva, estão as "outras" no rastro de Luzia-Teiniaguá-Lorelei-Melpômene, as Helga Kunz, Ismália Caré, Toni Weber, Roberta Ladário, Sônia Fraga, Mary Lee, Mandy. A princesa moura é estrangeira, como o desejo é estrangeiro. As "outras", todas estrangeiras, perigosas, ameaçadoras, excluídas tanto do âmbito cultural como da classe social dos Terra/Cambará, encarnam uma sexualidade impulsiva e destruidora.
A equação é simples, recorrente ao longo da representação e construção das personagens femininas na literatura: o corpo feminino dividido entre um corpo materno digno e um corpo prostituído indigno; ou bem Marias ou bem Evas, ou bem santas ou bem putas, como se sabe.
Submetidas à prescrição patriarcal "parirás na dor", as tais mães fortes e poderosas expiam a culpa do pecado original e vêem-se deslegitimadas na própria maternidade ao terem seu corpo dividido com as "outras". E o desfecho de cada uma delas é revelador: Ana Terra pede para enterrarem a roca de fiar com ela para que Bibiana não seja mais uma escrava; Bibiana já velha, ao saber da morte da bisneta Aurora, sente-se aliviada ao pensar que será uma a menos a amargar um destino de mulher; Luzia é sacrificada por um tumor maligno.
Entre elas, no entanto, esquecida pela crítica, no rastro do próprio anonimato criado pelo texto, Maria Valéria Terra, com uma vela na mão, perpassa O tempo e o vento suscitando questões, subvertendo um modo de ser feminino que subjaz às normas e condutas.
A trilogia O tempo e o vento de Érico Veríssimo abre com a cena do Sobrado sitiado, os homens em guerra e dentro do Sobrado, Alice, mulher de Licurgo Cambará entra em trabalho de parto e viemos a saber, com os demais homens da casa, que a criança nasceu morta e que era uma menina. Este episódio, bastante significativo ao longo do texto, suscitou nossas primeiras indagações de como a maternidade tem sido representada pelo imaginário literário e a minha suspeita de haver um silêncio ao redor desta experiência, tipicamente feminina, mas que, ao legitimar a função única da mulher dentro da cultura patriarcal, deveria estar mais exposta, mais festejada, melhor presenciada. Viemos, nós leitores, e aqueles homens cansados, suados, semimortos, em meio a uma guerra, a saber do parto de Alice Cambará, por Maria Valéria, sua irmã.
Maria Valéria apresenta-se, por assim dizer, de início, como a porta-voz de uma experiência típica do mundo e do corpo das mulheres, que, no entanto, ela jamais experimenta. Com a morte de Alice Cambará, Maria Valéria torna-se a referência materna por excelência na vida dos meninos Rodrigo e Toríbio Cambará e para os filhos destes para quem até a velhice, ela será a Dinda, a Madrinha, aquela que não é mãe mas que cuida e protege.
Maria Valéria aqui traça um contorno que - ao contrário do que quer a crítica - não a nivela como uma mãe a mais dentro de uma entidade feminina homogênea, mas que é inovador: desmistificando a idéia de uma natureza feminina feita indistintamente para a reprodução, Maria Valéria propicia uma leitura, bastante em voga em espaços interdisciplinares, de que a maternidade, o sentimento materno, o instinto maternal são construções culturais, ideológicas e que, muito além do determinismo biológico, a maternidade é apenas um afeto como outro qualquer (BADINTER, 1985) e que a figura materna é aquela que cuida.
Maria Valéria, a Madrinha, a Dinda, cuida e protege sem ser mãe. Não gesta, não pare. Está à margem da prescrição patriarcal às mulheres que expiam a culpa do pecado original: "parirás na dor". Tal prescrição se configura como castigo imposto ao corpo feminino pelo pecado original e tem como resultado a cisão definitiva do corpo feminino: o corpo virgem-materno-digno e o corpo prostituído-impuro-indigno. Essa tem sido a representação do corpo feminino ao longo da literatura: madonas, prostitutas, dignas esposas, indignas amásias.
A maternidade, historicamente, passa a ser o espaço da falta de identidade, da impossibilidade de auto-realização da mulher, da sua dependência e infantibilidade, da ausência do desejo e da sexualidade. Disso também o texto nos fala. Maria Valéria ao matar-se virgem, casta, ao não ter o corpo fendido (para cada Cambará macho há uma esposa e uma amante), não sofre a punição da ordem patriarcal e parece sentir-se muito à vontade, portanto, tanto com a experiência feminina como com a convivência masculina. O silêncio que permeia a experiência da maternidade, aqui, incluiria a experiência feminina com o próprio corpo como um todo: virgindade, menstruação, perda da virgindade, iniciação de uma vida sexual adulta, gravidez, gestação, parto, amamentação, etc. Tais aspectos da vivência do corpo feminino como um todo são de importância vital dentro da idéia de que é a partir do corpo, nossa matriz primeira, que construímos uma identidade, questão bastante problemática para as mulheres.
Este silêncio que é aparente (estas experiências são silenciosas, mas presentes em todas as personagens femininas do texto) parece reclamar uma "imperfeição" a mais do corpo feminino e que historicamente foi muito difícil de ser equacionada (MILES, 1989): a de que para que haja uma gestação tem de se admitir o corpo feminino como um corpo sexuado. É, afinal, o mistério de Maria, típico, cristão, constituinte do "eterno feminino" no imaginário masculino. Maria Valéria passa incólume por tais questões. Cuida dos filhos de Alice sem tê-los parido, é companheira de Liburgo sem submeter-se sexualmente a ele.
A castidade de Maria Valéria questiona a violência do relacionamento heterossexual a quem eram submetidas as mulheres. Não sendo mãe nem esposa, Maria Valéria, livre de determinadas atribuições intrinsícas a tais funções, transita com relativa liberdade e bastante determinação numa fronteira absolutamente delineada ao longo do texto e demarcada em total afirmativa pela crítica: a fronteira entre um território feminino e um território masculino. É uma mulher no mundo do dentro e do fora da casa, por onde acontecimentos políticos, guerras, nascimentos de crianças e tachos de marmelada se mesclam de tal maneira que o espaço dicotômico criado pelo patriarca aqui não se sustenta, se mescla.
Maria Valéria aparece também no texto como a figura central, ela herda um conhecimento de Ana Terra e Bibiana e o transmite a Flora e Sílvia. Essas, mesmo esposas e mães, têm na Dinda uma confiança inabalável para a resolução dos problemas, dos mais prosaicos aos mais existenciais. É assim que Maria Valéria intervém no episódio de Alicinha e seu descontrole com o roubo da boneca pelos meninos, resolvendo a questão, ou sendo quem controla Flora quando Rodrigo vai para a guerra, diminuindo a dramaticidade destas idas e vindas dos homens num movimento que para ela é absurdo, ilógico.
Mas a sombra também fala, pouco, mas fala: seguindo o que na atualidade temos mais condições de avaliar, a oralidade, a sabedoria transmitida oralmente, sem registro escrito histórico, encontra em Maria Valéria um discurso cheio de ditos e falares, prática feminina histórica por onde experiência, sabedoria, conhecimento e criatividade se juntavam. Uma leitura desta voz, direta e espontânea, mostra a modalidade de seus diferentes timbres. É surpreendente também que o fato de que, mesmo sendo mulher, vivenciando a clausura, a espera, a solidão, Maria Valéria seja a única personagem feminina do texto que não maldiz a condição feminina. Ana Terra, ao trazer a neta Bibiana ao mundo, pede que enterrem com ela a roca de fiar para que a neta não padeça como ela. Em outro momento, Bibiana, octogenária e à beira da morte, ao saber da morte da bisneta Aurora a bendiz por não ter que sofrer. Luzia é sacrificada com um tumor maligno e lemos pelos olhos de Licurgo, seu filho, tempos depois da morte da mãe, um depoimento onde ele atesta que sua vida foi um suicídio lento e constante. Anita, Aurora e Alicinha morrem. Flora, com os filhos adultos e a morte de Rodrigo, percebe-se absolutamente desamparada, transformando-se numa quase filha-protegida de Floriano. Traça para si um final de resignação e sacrifício, atributos que dignificaram estas personagens femininas ao longo do texto e da crítica. Triste legado esse.
Maria Valéria não morre. Octogenária, cega, tateia pela casa carregando uma vela acesa, uma chama que não se apaga. Vemos no fogo desta chama um significado de conhecimento, ao invés do fogo simbolizado por Luzia, de destruição. Opõe-se também à terra/água nutrientes e protetoras de Ana Terra.
O procedimento narrativo cada vez que Maria Valéria entra em cena é de aparição, "surgiu", "uma presença", "um vulto", o que a caracteriza como sombra, "o fantasma predileto" de Rodrigo Cambará.
Por fim, características como a castidade, o anonimato, a inteireza, a sabedoria, a introspecção (para citar alguns), encontram ecos no arquétipo de Héstia, o que nos permite supor que Maria Valéria, ao invés da sombra que reduplica o arquétipo fundado por Ana Terra, funda um arquétipo novo, retirando-a assim da já tradicional tríade instituída pelo texto e pela crítica composta por Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. Floriano Cambará, pretenso crítico do machismo gaúcho, ao questionar seus mitos e valorizar a "raça" das mulheres, não consegue safar-se da maldição da feminino estereotipado: ama Sílvia mas é amante de Mandy. Mas Floriano, como Érico Veríssimo, mantém a chama da vela acesa, a sombra permanece, "o Sobrado está vivo", diz Floriano Cambará no início-fim de O tempo e o vento ao ouvir os passos da Dinda pela casa.
Este trabalho, seu motivo, persegue uma pergunta, simples: como se ilumina uma sombra? Há caminhos e descaminhos quando se pensa a história das mulheres, os arquétipos, mitos, estereótipos que petrificaram, cristalizaram seus corpos e vozes. Como se ilumina uma sombra?
A pergunta permanece, permanece ainda.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
A mãe de mim:
Lélia Almeida.
Começou na sexta-feira o chorinho do bebê. O choro de um bebê tão pequeno que o meu primeiro impulso foi o de sair no meio da noite e procurá-lo na rua, lembrando das histórias das mães desesperadas que abandonam seus filhos no lixo na calada da noite. Fui tomada por uma angústia atroz ao ouvir aquele chorinho frágil e intermitente. Chamei o meu filho para que ouvisse o choro comigo na janela, pronta para descer e procurar no lixo o corpo de um bebê que eu imaginava ser uma menina muito pequena. Meu filho não ouviu nada. Sentou ao meu lado na cama, segurou a minha mão e disse que o choro devia vir de algum apartamento vizinho. Ficou comigo até que eu adormecesse. Voltei a ouvir o choro do bebê por mais algumas noites mas não me atrevi a buscá-lo na rua escura no meio da noite. O choro este que vem de dentro de mim. Um choro represado de quem nunca soube como era sentir, numa casa onde sentir era um luxo. E não gostar um luxo maior ainda. Quando foi que ela desistiu de mim, eu me pergunto, e como é que se desiste de uma filha. Eu já sei de algumas respostas e elas são isto e nada mais, respostas prováveis. O desassossego do meu coração não entende as explicações. Uma herança maldita esta, que eu tento reverter, reiventar, quase sempre sem conseguir. A noite é quieta. Sei que a menina voltará a chorar muitas vezes. Tenho que aprender a cuidá-la, tenho de poder acalmá-la, aninhá-la entre os meus braços e meus peitos envelhecidos. Sentir seu corpo pequeno convulsionado pelo choro e seus incômodos. Minha voz será forte e serena para que eu possa consolá-la com firmeza. E ela adormecerá nos meus braços, entregue, uma menina que sou eu, agora que eu sou ela e sou a mãe de mim.
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