quinta-feira, 24 de março de 2011
Amor em tempo real:
Lélia Almeida.
(Os feeds que compõe Amor em tempo real foram postados no Facebook de 19 de janeiro a 22 de março de 2011 e acompanhados por um público leitor que dava sugestões no formato e no conteúdo da história. A história literária terminou quando a história real começou.)
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Hoje ele contou do tempo em que viveu na casa que tinha sido um estábulo. Uma casa pequena e aconchegante. Quando chegava em casa não tinha ninguém eperando por ele. Lembra desse vazio. E do alemão que cuidava do lugar e que tinha um cão, um husky que tinha um olho azul e outro verde. Durante muitos meses aquele cão era isso e nada mais. Alguém que o esperava.
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Quando eu abraçar você no aeroporto vão ter de chamar a polícia para nos separar. Adoro, eu digo, adoro os seus excessos, o seu exagero. Ele disse, não é exagero, é fome.
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Hoje tomamos vinho. Usei o colar de pérolas, o de duas voltas, com o vestido preto. Belíssima, ele disse, belíssima, você! Ouvimos música e nos balançamos muito distraídos. Ele disse, parece que você está num barco, à deriva. Eu disse, eu estou, meu amor, estou à deriva, estou perdida.
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Hoje ele trouxe as fotos. Tem uma em preto e branco, numa praia do sul do país. Na foto ele é um menino franzino de sobrancelhas grossas e segura uma bóia que é um pato. As mesmas sobrancelhas, eu penso, e amo o menino que ele foi também.
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A conexão está péssima hoje. Ele diz que é por conta da neve, da umidade. Sinto a sua falta, ele diz, nem sei como isso é possível, mas sinto a sua falta. A luz é pouca, vejo apenas o contorno do rosto dele e ouço a voz definitiva: eu gostaria de ter tido um filho com você. Eu também, digo soluçando.
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Como uma pêra na frente da cam. Seguro a pêra com as mãos enfiadas nas luvas de renda preta. Depois tiro as luvas e lambo os dedos. Ele olha. Chega muito perto da câmera e sussurra. Um dia eu vou comer você assim, tão suave e vorazmente como você come esta pêra.
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Ele perguntou se eu acreditava que o mundo ia acabar em 2012. Chorei como uma menina perdida e disse a ele que vamos ter pouco tempo, muito pouco tempo para viver este amor sem fim. E que não é justo perdê-lo agora que sei que ele existe.
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A conexão caiu e só voltou duas horas depois. Ficamos irritados, desesperados. Expliquei que tinha visto no noticiário sobre uma explosão do sol e sobre as partículas de plasma que estavam sendo jogadas na atmosfera, e que a repórter tinha explicado que por conta do fenômeno a conexão ia ser afetada. “Foi-me dado amar você num mundo estranho e difícil”, ele disse.
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Você gosta de ser olhada, então. Eu não sabia que gostava, expliquei, descobri isto agora, com você. Pode se exibir à vontade, ele disse, eu não canso de olhar pra você. Somos insaciáveis um do outro, curiosos, crianças outra vez.
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Tela-a -tela. Quando ele me olha ele não me vê. Quando eu olho pra ele, baixo os olhos. Vejo a mim mesma olhando pra ele. Estou enamorada de nós. Faço poses, a que ele vê não sou a que eu vejo. Desencontro dos olhares. A voz num sussurro. Promessas, quantas promessas. Como na vida real. Projeções, tela-a-tela.
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Hoje desligamos a cam. E falamos no telefone. A voz dele é mais doce ainda e os sussurros mais profundos. Fecho os olhos. Ele é outro, outro homem, e é o mesmo. Uma voz sem idade, ele me diz, você tem uma voz fora do tempo. Assim é a voz dos amantes, uma voz fora do tempo.
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Este tempo é só isto. Uma promessa. E eu que tinha tanta saudade de uma promessa, e eu que vivia de uma maneira tão previsível. Eu não preciso de mais nada neste momento, além desta suspensão do tempo. Eu prometo, ele diz. Eu espero, eu digo.
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Palavras novas, idioma novo. Palavras novas das coisas da vida pequena, a que importa. Olhos, nariz, sobrancelha, queixo, orelha, bochecha, testa, lábios, língua, cabelo, brincos, óculos, echarpe, camisola, anel, cobertor, travesseiro, boa-noite, meu amor.
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Você está distante, eu digo. Ele explica que deve ser por causa do tempo, faz frio e venta muito, acho que vai nevar, ele diz. Os olhos tão tristes. Não posso ver você assim, tenho o coração apertado. Boca de cereja, ele diz, você tem uma boca de cereja. A tristeza é irremediavelmente vermelha. Noite de frio e saudade.
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Não posso estar em outro lugar, tenho que estar aqui, ele diz. Eu entendo, digo, também me sinto assim. É aqui que me sinto em casa, como as pessoas que chegam em casa depois do trabalho e se contam o que fizeram durante o dia. Você é a minha casa, ele diz. E você a minha, eu digo.
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Vamos dançar? ele perguntou. De rosto colado. Eu seguro você, eu acarinho os seus cabelos enquanto dançamos. Fechos os olhos, ele escolhe a música, a nossa música, ele diz. Já temos uma música agora.
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Hoje eu resolvi fumar. Eu não sabia que você fumava, ele disse. Eu não fumo, só fumo quando bebo, expliquei. Queria acender o seu cigarro e depois beijar você com cheiro de cigarro e gosto vinho. Você é amável, eu disse. Sou mais do que um homem amável agora, ele disse. Agora eu sou um homem apaixonado por você.
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Eu sei quando você está pronta, ele diz, já aprendi. Conte-me, eu peço. É quando você começa a tocar a ponta da orelha e a girar o brinco, como se o brinco fosse um mamilo, eu gosto de pensar. E você, quando começa a enroscar o cabelo, eu digo, eu também já sei quando você está pronto. Venha então, minha adorada. Eu vou sim, sussurro, confiante.
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Mostrei uma foto minha hoje, onde estou com o meu filho, no dia da festa de aniversário de sete anos dele. Ele disse que o meu olhar era o de uma mãe amorosa e que o menino tinha os olhos expressivos como os meus. Na foto, o menino tem merengue no queixo e sorri envergonhado. Ele chega muito perto da cam e diz: Eu queria ser seu filho também, e seu pai, e o seu amor.
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Choro na frente da cam. Ele se sobressalta e pergunta o que houve de tão grave para que eu chore assim. Eu digo entre soluços que estou emocionada. Que procurei por ele a vida inteira e que ele estava ali, do outro lado do mundo, naquele país tão lindo, que está sob a neve agora. Ele diz que sou boba, que sou boba e linda e que queria beijar as minhas lágrimas e me abraçar.
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Há um vento muito estranho lá fora, acho que vai chover, ele conta. Estou arrasada com o terremoto, eu digo, não consigo parar de chorar quando vejo as cenas, um mundo devastado este, eu digo. Me sinto muito só hoje também, ele diz. São saudades, meu querido, saudades sem fim, eu explico para nós dois.
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Eu poderia desejar muitas coisas, das tantas que imaginei durante todo este tempo de espera, mas a que mais quero é esta, andar de mãos dadas com você, ele diz. Eu entendo, eu digo, não desejo outra coisa também, andar de mãos dadas com você. Somos simples.
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Você é o meu porto seguro, ele disse, e agora este espaço virtual é a nossa casa branca, a que vou construir para viver com você um dia. Porto seguro e casa branca. Já temos metáforas. Até parece um namoro de verdade.
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Hoje tiramos fotos com o celular. Fotos daquilo que podemos ver com a cam. Uma nova e estranha maneira de se encontrar, ele diz. Estamos conectados, eu disse, é o que importa. Vamos passar da distância absoluta para a intimidade absoluta. Como num salto, eu digo, como num salto vertiginoso.
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Amanhã não estarei aqui para o nosso encontro, ele diz, rindo baixinho. Estarei a caminho. Digo que terei olheiras horríveis depois de uma noite sem dormir. Ele diz que vamos ter tempo para dormir e descansar, finalmente. E que ainda precisa terminar de arrumar a mala.
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Fecho a porta do apartamento. Já estive muito nervosa, agora estou inexplicavelmente calma. Carrego uma pêra que parece pulsar na minha mão esquerda. È noite ainda. Subo no táxi e digo ao motorista: para o aeroporto, por favor.
sábado, 19 de março de 2011
As mães da guerra:
Lélia Almeida.
Acordei com o coração apertado no meio da noite, com medo da guerra. Fomos muitas esta noite, as mães que não dormimos e repetimos gestos iguais como no movimento de uma dança onde nos parecemos e reconhecemos. Levantei e fui tomar água e olhar o meu menino que dormia e meu coração ficou mais apertado, o meu e o delas também. É só um detalhe o que me separa das mães da Líbia esta noite, das mães americanas, das francesas, das italianas também, um detalhe e nada mais: um golpe de sorte. Sorte porque casualmente a guerra não é aqui, da maneira como é lá neste momento. Mas estamos todas despertas, alertas, tentando embalar o mundo nesta noite infindável e escura.
A qualquer momento as bombas vão começar a cair, a qualquer momento a poderosa máquina da guerra, um trambolho tecnológico e imenso, movido pelo ódio e a insensatez e que acorda e adormece como um monstro de muitas vidas, estará em movimento outra vez. Por isso estamos alertas. Acendo velas no meu oratório e me persigno junto com todas elas, no meio desta noite escura. Somos muitas e oramos. Estamos vestidas de preto e oramos. Somos as mães do mundo, as mães gregas, as mães de Guernica, as da Praça de Mayo, as japonesas, as colombianas, as judias, as bósnias, as salvadorenhas, as afegãs, as iraquianas, as brasileiras, as americanas também. E os nossos filhos foram para a guerra. Os nossos meninos, promessas de amor e sonhos das nossas vidas: a semente, o fruto e a flor. Não há explicação que justifique perder a vida para uma morte insana, os nossos meninos ainda em flor oferecem suas vidas ao monstro devorador e a noite cai sobre nossas almas, numa condenação. Oramos, pranteamos o mundo e o desejo de morte de alguns. Nossas mãos fortes feitas para o amor estão aflitas, se contorcem, nossos olhos em pouco tempo estarão secos, de pedra, duros de incomprensão. Nosso pranto é um lamento, uma cantiga de ninar, um hino de amor à vida, de não à morte, à guerra, os meninos estão em perigo. Mas ninguém nos ouve. Somente nós, as mães do mundo, ouvimos um poderoso murmúrio subterrâneo que nos desperta e nos irmana nesta noite. Ouvimos o nosso pranto e nossa oração.
A história então se repete. É sempre a mesma. Uma mãe é despertada por um eficiente oficial do exército, num povoado deserto, semi-abandonado, na véspera da guerra, onde metade dos moradores locais já partiram para os campos de refugiados. O oficial é breve e tem pressa. Seu filho morreu ontem, numa manobra preparatória. A mulher, vestida de preto como nós, as mães do mundo e da guerra, pede para ver o menino, não pode acreditar, o oficial impaciente diz que é impossível, o corpo do menino explodiu pelos ares, mas traz enrolado num jornal os pertences do bravo soldado e parte apressado. A mãe, na porta da casa que tem de abandonar, abre o pacote e vê o par de sapatos do seu príncipe, do seu menino em flor, sapatos destruídos, rotos, furados, cheios de terra e sangue misturados. Cheira os sapatos, lambe, abraça junto ao corpo, ao colo, beija, lava os sapatos. Como se lavasse o corpo do seu menino, seus pés pequenos de ontem, os pés fortes de hoje, tira a terra misturada com o sangue seco e pensa em todos os gestos que lhe roubaram, limpar-lhe o rosto de olhos fechados, lavar-lhe o corpo destruído, curar-lhe as feridas. Acarinhá-lo, vestir-lhe roupas limpas, lembrar sua vida breve, honrar sua morte prematura. Beija os sapatos, enfia seu rosto de olhos secos no espaço côncavo entre os dois sapatos, um espaço vazio, e fica ali para sempre enquanto cai a escuridão da noite.
As bombas vão começar a cair, dizem, a qualquer momento. A mulher parte, vestida de preto, um ponto preto minúsculo numa multidão de mães perdidas mundo afora com as mãos vazias e os peitos secos. A nossa oração não pára, o pranto também não, levaram nossos meninos, assim como levaram os pais dos nossos meninos, e como levaram os avós dos nossos meninos um dia. O pranto e a reza atravessam o mundo e os nossos corações, os das mães do mundo e da guerra.
Que o saldo da guerra nunca foi a paz. O saldo da guerra é sempre a morte.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Os amantes que vinham do Sul:
Lélia Almeida.
Isabel Allende, a escritora chilena, perdeu uma filha ainda mocinha, com vinte e poucos anos, de doença rara. Largou tudo e caiu num luto escuro e profundo como é o das mães que perdem os seus filhos. Largou a escrita também. Depois de alguns anos, um belo dia, sonhou que nadava numa piscina de arroz doce. Entendeu que tinha saído, então, do fundo do poço. Voltou à vida. E, para celebrar escreveu um livro chamado Afrodite, um dos mais belos tratados sobre comida e erotismo. Ela tinha voltado a viver. Sua alma e seu corpo não queriam mais saber da frugalidade da dor, da austeridade da falta, da escassez dos afetos, da fome dos sentidos. Eles queriam arroz doce. Uma piscina de arroz doce, e a nudez alegre e solta de quem se lambuza numa piscina inteira de arroz doce.
Depois que enviuvei também fiquei alguns anos com o corpo e a alma exilados. Não me queixo destes períodos sagrados quando temos de nos recolher e prantear os mortos. Isso faz parte da vida e eles serão, cada vez mais, em maior número.
Esta noite tive um sonho. Eu estava num congresso com rapazes uruguaios e argentinos, éramos poucas mulheres e eu podia assim andar com muitos deles ao mesmo tempo. Lindos aqueles rapazes do sul. Discutíamos literatura e livros, e falávamos em espanhol, latinos, exibidos. Eu dava aulas de literatura da fronteira para aqueles rapazes. Em algum momento eu explicava a nossa literatura do sul e misturava com citações do Carlos Fuentes e aparecia uma figura maya enorme esculpida numa rocha, um dado muito fora de contexto. Depois íamos beber, numa espécie de despedida de um encontro de muitos dias de trabalho. Eu estava vestida como uma colegial.
Contei aos rapazes que quando eu era uma menina em Sant’Ana do Livramento, freqüentava um clube de golfe, que foi o primeiro a ser construído no país, uma construção enorme, muito inglesa, o campo maravilhoso e que era para atender os funcionários de um frigorífico que, na verdade, era americano. Meu pai foi médico do sindicato do frigorífico muitos anos. E havia uma classe média emergente que freqüentava o clube de golfe e se achava muito chique porque jogava golfe. Na sua maioria, no entanto, eram pessoas muito toscas e simples, que adquiriam uma espécie de verniz social caminhando pelos campos, com suas poses de ingleses. Eram os mesmos que iam para as praias do Uruguai no verão.
O grande momento do ano era o fim de semana quando se encontravam jogadores dos três países e podíamos namorar os argentinos e uruguaios. Lembro da espera, da expectativa, aqueles homens lindos, que só nos encantavam porque nos distraiam do produto local, doméstico, caseiro.
No sonho eu contava do que eram aqueles dias para mim, o encantamento de olhar para o estrangeiro desconhecido, que falava em outro idioma. O idioma que escolhi para a minha vida. Enquanto conto, no sonho, esta história, os rapazes do sonho, começam a me acariciar, timidamente, como se fossem os mesmos de então, uma carícia tímida, contida, incandescente. Estamos numa sala de aula, eu falo de literatura e de livros, eles procuram o meu corpo sob as roupas comportadas de colegial e eu tenho a intensidade, o desejo e o frescor daqueles anos. Sou uma menina faminta de arroz doce outra vez. Eles me tocam tímidos e eu desperto.
Sei agora que o tempo da viuvez acabou. Soube esta noite, neste sonho que me lembrava das mãos fortes e quentes dos homens sobre o meu corpo, enquanto eu falava dos livros. Os amantes que vinham do sul. E uma mulher louca de desejo e apaixonada por sexo e beijos, aquela que eu tento domesticar a minha vida inteira, sem sucesso, desperta outra vez.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Ah, sim! Os seres humanos. É necessário um biólogo corajoso para aplicar estas novas descobertas sobre infidelidade entre os animais ao estudo das pessoas, pessoas que vociferam e continuam a insistir em conceitos como livre-arbítrio, consciência e imprevisibilidade. Ocorre que há um número considerável de intrépidos teóricos e muitos propõem que a enorme vontade humana de trair tem uma base na evolução.
Os bebês precisam de cuidados por muito tempo, o que, provavelmente, levou os casais a terem uma ligação forte logo no início de nossa evolução. Mas mesmo um homem feliz em seu casamento pode ser levado a uma escapada pela vontade de espalhar um pouco mais de seus genes na população. A mulher, por sua vez, pode querer ter relações sexuais com um homem que parece ter genes melhores ou que, pelo menos, lhe ofereça um pedaço de carne de zebra em troca de seus favores. Muitos biólogos especializados em evolução afirmam que os lapsos na monogamia ajudaram a desenvolver o ciúme sexual do macho, trazendo as desagradáveis manifestações culturais como a desfiguração genital das mulheres, o costume chinês de prender os pés das meninas para que estes não cresçam, e outros mecanismos pelos quais os machos controlaram os desejos das fêmeas. Embora a mulher tenha boas razões para sentir-se também com raiva das infidelidades do esposo, esta é geralmente em menor grau. Além disso, a mulher terá maior dificuldade para segurar o homem o tempo necessário para envolver os testículos dele em um protetor de ferro.
Mas as mulheres não são completamente indefesas. A evolução dotou-as de meios que as poupam de serem controladas de perto pelos homens, graças sobretudo à dádiva da ovulação críptica. Ao contrário das fêmeas dos macacos resos, as nádegas das mulheres não ficam vermelhas quando elas ficam férteis. Ao contrario das mariposas, elas não mandam para o ar feromônios que irradiam sua situação, nem ficam miando na janela como as gatas. Assim fica difícil para o macho controlá-la nos dias de ovulação.
Para melhor confundir os homens as mulheres têm seios. Entre os grandes macacos, peitos cônicos sinalizam que a fêmea está lactante e, portanto, tem baixo valor reprodutivo. Mas, entre os humanos, os seios permanentemente cheios são ambíguos e não revelam facilmente aos machos se elas estão férteis ou lactantes, novamente confundindo os esforços dos homens para restringir as atividades reprodutivas femininas. Talvez isso explique por que os homens são fixados em seios: eles estão procurando pistas. Pena é que eles estão olhando para os lugares errados.
NATALIE ANGIER em A beleza da fera. Novas formas de ver a natureza da vida. Ed. Rocco, 1998.
Os bebês precisam de cuidados por muito tempo, o que, provavelmente, levou os casais a terem uma ligação forte logo no início de nossa evolução. Mas mesmo um homem feliz em seu casamento pode ser levado a uma escapada pela vontade de espalhar um pouco mais de seus genes na população. A mulher, por sua vez, pode querer ter relações sexuais com um homem que parece ter genes melhores ou que, pelo menos, lhe ofereça um pedaço de carne de zebra em troca de seus favores. Muitos biólogos especializados em evolução afirmam que os lapsos na monogamia ajudaram a desenvolver o ciúme sexual do macho, trazendo as desagradáveis manifestações culturais como a desfiguração genital das mulheres, o costume chinês de prender os pés das meninas para que estes não cresçam, e outros mecanismos pelos quais os machos controlaram os desejos das fêmeas. Embora a mulher tenha boas razões para sentir-se também com raiva das infidelidades do esposo, esta é geralmente em menor grau. Além disso, a mulher terá maior dificuldade para segurar o homem o tempo necessário para envolver os testículos dele em um protetor de ferro.
Mas as mulheres não são completamente indefesas. A evolução dotou-as de meios que as poupam de serem controladas de perto pelos homens, graças sobretudo à dádiva da ovulação críptica. Ao contrário das fêmeas dos macacos resos, as nádegas das mulheres não ficam vermelhas quando elas ficam férteis. Ao contrario das mariposas, elas não mandam para o ar feromônios que irradiam sua situação, nem ficam miando na janela como as gatas. Assim fica difícil para o macho controlá-la nos dias de ovulação.
Para melhor confundir os homens as mulheres têm seios. Entre os grandes macacos, peitos cônicos sinalizam que a fêmea está lactante e, portanto, tem baixo valor reprodutivo. Mas, entre os humanos, os seios permanentemente cheios são ambíguos e não revelam facilmente aos machos se elas estão férteis ou lactantes, novamente confundindo os esforços dos homens para restringir as atividades reprodutivas femininas. Talvez isso explique por que os homens são fixados em seios: eles estão procurando pistas. Pena é que eles estão olhando para os lugares errados.
NATALIE ANGIER em A beleza da fera. Novas formas de ver a natureza da vida. Ed. Rocco, 1998.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
POLITICK MEMORYHOUSE STROKE
Pedro Domingues.
Depois de um dia de dor seca com essa família de eternos estranhos
vem uma memória que me faz chorar e me trás de volta:
a baleia que canta "Fígaro" com três gongos de goela.
O amor de mãe vem pelas árvores
correndo em minha direção
eu me sinto, eu sinto ela.
Eu me lembro quando ela fez pipoca
tentando nos trazer de volta da horrível monotonia de um domingo perdido.
Estou sob sua asa novamente,
sentindo seu coração,
enquanto a baleia do desenho animado canta por um futuro em um mar escuro e
por um futuro sem tanto medo.
Minha mãe é minha baleia,
minha mãe é meu perdão para longe de todos os venenos
que correm pela terra.
Minha mãe é meu amor,
todas as mulheres do começo ao fim.
Ela é meu furacão
numa terra de comodidade emocional e negação.
As lágrimas ainda correm por dentro
deste mar atrás do olho
que eu aprendi a observar através dela.
Ele começa onde esta terra seca termina,
este segundo poder.
Então me transformo em poeta novamente
para estar próximo dela
para atravessar como um furacão
novamente ao mar com todos os membros
desta doce e brutal resistência
VIVA LA RESISTENCE!
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Para o Zé, de Adélia Prado:
Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer te amo.
Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba.
Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho.
Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Fui buscar a Sofia na escola, a minha sobrinha. Fim de tarde, avós, pais e mães buscando as crianças, uma confusão de gentes e correria. Vejo a minha menina procurando,os olhos dela me encontram, duas jabuticabas sorrindo. Ela vem correndo e se abraça em mim. Delícia de abraço. Menina suada, fim de tarde, vamos rumo ao entardecer as duas, de mãos dadas e felizes.
Amor é reconhecimento.
Amor é reconhecimento.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Declaração de amor:
A coisa precisa ficar séria. Estive muito sozinha, mas nunca vivi sozinha. Quando estava com alguém, me sentia feliz, mas, ao mesmo tempo tudo parecia coincidência. Aquelas pessoas eram meus pais, mas poderiam ter sido outras. Por que esse rapaz de olhos castanhos é meu irmão e não aquele de olhos verdes do outro lado da plataforma? A filha do taxista era minha amiga, mas eu poderia ter igualmente ter colocado o braço em torno do pescoço de um cavalo. Estive apaixonada por um homem. Eu poderia igualmente tê-lo abandonado e partido com um estranho que cruzou conosco pela rua. Olhe para mim ou não. Me dê sua mão ou não. Não, não me dê sua mão, desvie o olhar. Hoje é noite de lua nova, noite muito tranqüila, sem derramamento de sangue pela cidade. Nunca brinquei com ninguém, apesar disso nunca abri os olhos e disse: “Agora é sério”. “Finalmente é sério”. Assim, fiquei mais velha. Era eu a única que não era séria? O tempo não tem nada de sério? Nunca fui solitária, nem quando estive sozinha nem acompanhada. Mas eu teria gostado de ser solitária. Solidão significa o seguinte: finalmente estou inteira. Agora posso afirmar isso, pois hoje me sinto solitária. As coincidências precisam ter um fim. Lua nova das decisões. Não sei se existe destino, ma existe decisão! Decida! Nós agora somos o tempo. Não apenas a cidade, mas o mundo todo tem parte na nossa decisão. Agora nós dois somos mais do que dois. Encarnamos algo. Estamos na praça do povo e a praça está cheia de gente que deseja o mesmo que nós. Estamos decidindo o jogo de todos. Estou pronta. Agora é a sua vez. O jogo está em suas mãos. Agora ou nunca. Você precisa de mim. Você vai precisar de mim. Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais. Veja os meus olhos. Eles são o retrato da necessidade, do futuro de todos os que estão na praça. Ontem à noite sonhei com um estranho, com o meu homem. Apenas com ele eu poderia ser solitária, me abrir para ele, totalmente. Recebê-lo em mim como um ser inteiro. Envolvê-lo num labirinto de felicidade partilhada. Eu sei que ele é você.
Cena, quase final, do filme "Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.
A coisa precisa ficar séria. Estive muito sozinha, mas nunca vivi sozinha. Quando estava com alguém, me sentia feliz, mas, ao mesmo tempo tudo parecia coincidência. Aquelas pessoas eram meus pais, mas poderiam ter sido outras. Por que esse rapaz de olhos castanhos é meu irmão e não aquele de olhos verdes do outro lado da plataforma? A filha do taxista era minha amiga, mas eu poderia ter igualmente ter colocado o braço em torno do pescoço de um cavalo. Estive apaixonada por um homem. Eu poderia igualmente tê-lo abandonado e partido com um estranho que cruzou conosco pela rua. Olhe para mim ou não. Me dê sua mão ou não. Não, não me dê sua mão, desvie o olhar. Hoje é noite de lua nova, noite muito tranqüila, sem derramamento de sangue pela cidade. Nunca brinquei com ninguém, apesar disso nunca abri os olhos e disse: “Agora é sério”. “Finalmente é sério”. Assim, fiquei mais velha. Era eu a única que não era séria? O tempo não tem nada de sério? Nunca fui solitária, nem quando estive sozinha nem acompanhada. Mas eu teria gostado de ser solitária. Solidão significa o seguinte: finalmente estou inteira. Agora posso afirmar isso, pois hoje me sinto solitária. As coincidências precisam ter um fim. Lua nova das decisões. Não sei se existe destino, ma existe decisão! Decida! Nós agora somos o tempo. Não apenas a cidade, mas o mundo todo tem parte na nossa decisão. Agora nós dois somos mais do que dois. Encarnamos algo. Estamos na praça do povo e a praça está cheia de gente que deseja o mesmo que nós. Estamos decidindo o jogo de todos. Estou pronta. Agora é a sua vez. O jogo está em suas mãos. Agora ou nunca. Você precisa de mim. Você vai precisar de mim. Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais. Veja os meus olhos. Eles são o retrato da necessidade, do futuro de todos os que estão na praça. Ontem à noite sonhei com um estranho, com o meu homem. Apenas com ele eu poderia ser solitária, me abrir para ele, totalmente. Recebê-lo em mim como um ser inteiro. Envolvê-lo num labirinto de felicidade partilhada. Eu sei que ele é você.
Cena, quase final, do filme "Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Rituais I:
As pessoas me perguntam: Quais são os rituais que podemos adotar? Bom, antes disto é importante perguntar, para que se quer um ritual? Deveriam ter um ritual para sua própria vida. Todo ritual concentra as mentes naquilo que se está fazendo. Por exemplo, o ritual do casamento é uma meditação sobre o passo que se está dando, o aprendizado de ser parte de um par em vez de ser um indivíduo só. O ritual nos permite fazer o trânsito.
O ritual nos introduz ao sentido do que está acontecendo.
Uma ação de graças antes das refeições faz com que saibamos que vamos comer algo que já esteve vivo.
Todo o ritual é desta ordem; põe a mente em contato com o que realmente estamos fazendo.
O principal ritual na maioria dos ritos de iniciação da puberdade é um ritual onde mudam o seu nome. Morre-se para o nome anterior e renasce-se com outra identidade.
O menino tem de “representar” a sua transformação num homem. A menina tem que “compreender” que é uma mulher. A vida o exige.
O homem jamais tem uma experiência semelhante. É por isto que muitos rituais de iniciação masculinos são tão violentos, tanto que o homem sabe com segurança que já não é uma criança. E é por isto que um jovem tem de ser separado da sua mãe. Na nossa cultura há mães que compreendem isto e ajudam na separação. Nas culturas primitivas, ele são separados definitivamente.
Rituais II:
Por isto está este ritual que permite a mulher deixar o seu filho homem partir. Ao longo dos anos o capelão da família, o guru, vem e lhe pede algo valioso que ela deve entregar. Começa com alguma jóia (que são praticamente as suas únicas posses) e depois ela tem que abandonar uma comida que gosta muito. Tem que apreender a desprender-se de coisas que valoriza. Depois vem a época em que o seu filho já não é mais um menino e então a mulher já aprendeu que as coisas mais apreciadas na sua vida podem partir.
J. Campbell.
As pessoas me perguntam: Quais são os rituais que podemos adotar? Bom, antes disto é importante perguntar, para que se quer um ritual? Deveriam ter um ritual para sua própria vida. Todo ritual concentra as mentes naquilo que se está fazendo. Por exemplo, o ritual do casamento é uma meditação sobre o passo que se está dando, o aprendizado de ser parte de um par em vez de ser um indivíduo só. O ritual nos permite fazer o trânsito.
O ritual nos introduz ao sentido do que está acontecendo.
Uma ação de graças antes das refeições faz com que saibamos que vamos comer algo que já esteve vivo.
Todo o ritual é desta ordem; põe a mente em contato com o que realmente estamos fazendo.
O principal ritual na maioria dos ritos de iniciação da puberdade é um ritual onde mudam o seu nome. Morre-se para o nome anterior e renasce-se com outra identidade.
O menino tem de “representar” a sua transformação num homem. A menina tem que “compreender” que é uma mulher. A vida o exige.
O homem jamais tem uma experiência semelhante. É por isto que muitos rituais de iniciação masculinos são tão violentos, tanto que o homem sabe com segurança que já não é uma criança. E é por isto que um jovem tem de ser separado da sua mãe. Na nossa cultura há mães que compreendem isto e ajudam na separação. Nas culturas primitivas, ele são separados definitivamente.
Rituais II:
Por isto está este ritual que permite a mulher deixar o seu filho homem partir. Ao longo dos anos o capelão da família, o guru, vem e lhe pede algo valioso que ela deve entregar. Começa com alguma jóia (que são praticamente as suas únicas posses) e depois ela tem que abandonar uma comida que gosta muito. Tem que apreender a desprender-se de coisas que valoriza. Depois vem a época em que o seu filho já não é mais um menino e então a mulher já aprendeu que as coisas mais apreciadas na sua vida podem partir.
J. Campbell.
Sobre esquecer, trabalhar e amar:
(...) Cinco dias antes de deixar aquele país, encontrei-me com Phaly Nuon, que já fora candidata ao Prêmio Nobel da Paz e estabelecera um orfanato e um centro para mulheres deprimidas em Phnom Penh. Ela obtivera um enorme sucesso em ressucitar mulheres cujas aflições mentais eram tamanhas que outros médicos as haviam abandonado à morte. De fato, o seu sucesso fora tão grande que a equipe de seu orfanato é quase inteiramente formada por mulheres que ela já ajudou, e que criaram uma comunidade de generosidade em torno de Phaly Nuon. Se você salva as mulheres, dizem, elas por sua vez salvarão as crianças, e assim, traçando uma cadeia de influências, pode-se salvar o país.
(...) No início dos anos 70, Phaly Nuon trabalhava para o Departamento Cambojano do Tesouro e Câmara do Comércio como secretária, datilógrafa e estenografa. Em 1975, quando Phnom caiu em poder de Pol Pot e do Khmer Vermelho, ela foi tirada de sua casa com o marido e os filhos. Seu marido foi enviado para um lugar desconhecido, e
Phaly Nuon não tinha idéia se fora executado ou continuava vivo. Ela foi colocada para trabalhar no campo com sua filha de 12 anos, o filho, de três e o bebê recém-nascido. As condições eram terríveis e a comida escassa, mas ela trabalhava ao lado de seus companheiros, “jamais dizendo a eles coisa alguma e nunca sorrindo, nenhum de nós sorria porque sabíamos que a qualquer momento poderíamos ser mandados para a morte”. Após alguns meses, foi despachada para outra localidade junto com sua família. Durante a transferência, um grupo de soldados amarrou-a a uma árvore e a obrigou a assistir enquanto sua filha era violentada pelo bando e depois assassinada. Alguns dias depois, Phaly Nuon foi levada com alguns outros trabalhadores para um campo fora da cidade. Amarraram suas mãos atrás das costas e ataram suas pernas unidas. Depois forçaram-na a se ajoelhar a amarraram-na a uma vara de bambu, fazendo com que se inclinasse para a frente num campo lamacento de modo que suas pernas tivessem que ficar tensas ou ela perderia o equilíbrio. A idéia era que, quando finalmente caísse de exaustão, ela afundaria na lama e, incapaz de mover-se, se afogaria. Seu filho de três anos gritava e chorava a seu lado. A criança foi amarrada a ela para se afogar na lama quando a mãe caísse: Phaly Nuon mataria seu próprio filho.
Ela então contou uma mentira. Disse que, antes da guerra, trabalhara para um dos membros da cúpula do Khmer Vermelho, que fora sua amante e que ele ficaria zangado se ela fosse morta. Poucas pessoas escaparam dos campos de morte, mas um capitão que talvez tenha acreditado na história de Phaly Nuon posteriormente disse que não podia suportar o som de seus filhos gritando e que as balas que os matariam rapidamente eram caras demais para serem desperdiçadas. Então, ele desarmou Phaly Nuon e lhe disse para correr. Com o bebê num dos braços e o filho de três anos no outro, ela disparou adentrando profundamente a selva do nordeste cambojano. Ficou na selva por três anos, quatro meses e 18 dias. Jamais dormia duas vezes no mesmo lugar. Enquanto perambulava, colhia folhas e desenterrava raízes para alimentar a si e sua família, mas a comida era difícil de encontrar e outros ceifadores, mais fortes que ela, haviam deixado a terra nua. Gravemente desnutrida, começou a definhar. O leite de seus seios logo secou, e o bebê que ela não pode alimentar morreu em seus braços. Ela e o filho remanescente se agarraram à vida com todas as suas forças e atravessaram o período de guerra.
A esta altura da narrativa de Phaly Nuon, nós dois já tínhamos trocado nossos lugares pelo chão, e ela chorava balançando-se para frente e para trás, enquanto eu me sentava com os joelhos sob o queixo e uma das mãos no ombro dela, um abraço que seu estado de transe permitia. Ela continuou quase sussurrando. Depois de a guerra acabar, ela encontrou seu marido que, gravemente espancado na cabeça e no pescoço, sofreu uma perda significativa de sua capacidade mental. Ela, o marido e o filho foram colocados num campo de fronteira próximo à Tailândia, onde milhares de pessoas viviam em abrigos temporários feitos de lona. Sofreram abusos físicos e sexuais por alguns dos funcionários do campo, e foram ajudados por outros. Phaly Nuon era uma das únicas pessoas instruídas ali e, conhecendo línguas, podia falar com os funcionários encarregados da assistência. Tornou-se uma parte importante da vida e do campo, sendo dada a ela e sua família uma cabana de madeira que era considerada luxuosa, em comparação com o resto. “Ajudei em certas tarefas de assistência naquela época”, lembra. “O tempo todo em que andei por ali, vi mulheres em péssimo estado, muitas delas paralisadas, não se moviam, não falavam, não se alimentavam e não davam a mínima para os próprios filhos. Vi que embora tivessem sobrevivido à guerra, iam agora morrer de depressão, de um estresse pós-traumático totalmente incapacitante.” Phaly Nuon fez um pedido especial aos funcionários encarregados da assistência e criou em sua cabana uma espécie de centro de psicoterapia.
Ela usava a medicina tradicional khmer (feita com porções variáveis de mais de 100 ervas e folhas) como primeiro passo. Se aquilo não funcionava suficientemente bem, ela usava medicina ocidental quando disponível, como às vezes ocorria. Eu escondia estoque de quaisquer antidepressivos que os funcionários da assistência pudessem trazer”, disse, e “tentava ter o suficiente para os casos piores.” Ela levava as pacientes para meditar, mantendo em sua casa um altar budista enfeitado com flores. Conquistava a confiança das mulheres para que se abrissem. Primeiro, levava três horas para que cada mulher lhe contasse sua história. Depois, fazia visitas de acompanhamento regulares para obter mais detalhes, até que finalmente obtivesse a total confiança das mulheres deprimidas. “Eu precisava conhecer a história que essas mulheres tinham para contar”, explicou, “porque queria entender bem especificamente o que cada uma tinha que superar.”
Uma vez que a iniciação fosse concluída, Phaly Nuon prosseguia num sistema formulado por ela. “Eu o aplico em três etapas”, disse. “Primeiro, ensino-as a esquecer. Temos exercícios que fazemos a cada dia, para que a cada dia elas possam esquecer um pouco mais as coisas que jamais esquecerão inteiramente. Durante esse tempo, tento distraí-las com música, bordado, tecelagem ou com concertos, com uma hora ocasional de televisão, com qualquer coisa que pareça funcionar, com qualquer coisa que elas me digam que gostam. A depressão está sob a pele, toda a superfície do corpo tem a depressão logo abaixo de si,e não podemos tirá-la fora; mas podemos sim tentar esquecer a depressão mesmo que esteja bem ali.
“Quando suas mentes estão limpas do que esqueceram, quando aprendem bem o esquecimento, eu as ensino a trabalhar. Seja qual for o tipo de trabalho que querem fazer, eu descubro um modo de ensiná-lo a elas. Algumas treinam apenas limpar casas ou cuidar de crianças. Outras aprendem habilidades que possam usar com os órfãos, e algumas voltam-se para uma verdadeira profissão. Elas precisam aprender a fazer tais coisas e se orgulhar delas.
“E então, quando finalmente já dominaram o trabalho, eu as ensino a amar. Construí uma espécie de anexo e fiz ali um banho a vapor. Agora tenho um similar, só que mais bem construído, em Phnom Penh. Então levo-as para lá para que todas fiquem limpas, e as ensino a fazer as mãos e os pés umas das outras, e como cuidar das unhas, porque elas se sentem bonitas com isso, e querem muito se sentir bonitas. Isso também as coloca em contato com os corpos de outras pessoas e faz com que se distraiam de seus corpos para cuidar de outros. Isso as resgata do isolamento físico, que é uma aflição habitual entre elas, e conduz à quebra do isolamento emocional. Enquanto estão juntas lavando-se e pintando unhas, começam a conversar, pouco a pouco aprendem a confiar umas nas outras e, no final de tudo, aprenderam a fazer amigas, de modo que jamais terão que ser tão solitárias e tão sós novamente. Suas histórias – que não contaram para ninguém a não ser para mim -, elas começam a contar umas para as outras.”
Phaly Nuon mostrou-me depois os instrumentos de sua profissão de psicóloga: os pequenos frascos de esmalte colorido, a sala de vapor, as varetas para empurrar as cutículas, as lixas de unha, as toalhas. A limpeza e o cuidado com elas e com os outros é uma das formas primordiais de socialização entre os primatas, e essa volta aos cuidados básicos como uma força socializante entre os humanos me pareceu curiosamente orgânica. Eu disse a ela que acha difícil ensinar a nós mesmos e aos outros a esquecer, a trabalhar e a amar e ser amado, mas ela disse que não era tão complicado se você próprio puder fazer essas três coisas. Contou-me como as mulheres que ela tem tratado formaram uma comunidade e como se dão bem com os órfãos de quem tomam conta.
“Há um último passo”, disse-me ela depois de uma longa pausa. “No final, eu lhes ensino o mais importante: que essas três habilidades – esquecer, trabalhar e amar – não são isoladas e sim parte de um enorme todo. É a prática dessas três coisas juntas, cada qual como parte das outras, que faz a diferença. É o mais difícil de transmitir”, ela ri, “mas todas passam a entender isso e, quando o fazem, estão prontas para entrar de novo no mundo.” (p.34-36)
SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio-Dia. Uma anatomia da depressão. Tradução de Myriam Campello. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
(...) Cinco dias antes de deixar aquele país, encontrei-me com Phaly Nuon, que já fora candidata ao Prêmio Nobel da Paz e estabelecera um orfanato e um centro para mulheres deprimidas em Phnom Penh. Ela obtivera um enorme sucesso em ressucitar mulheres cujas aflições mentais eram tamanhas que outros médicos as haviam abandonado à morte. De fato, o seu sucesso fora tão grande que a equipe de seu orfanato é quase inteiramente formada por mulheres que ela já ajudou, e que criaram uma comunidade de generosidade em torno de Phaly Nuon. Se você salva as mulheres, dizem, elas por sua vez salvarão as crianças, e assim, traçando uma cadeia de influências, pode-se salvar o país.
(...) No início dos anos 70, Phaly Nuon trabalhava para o Departamento Cambojano do Tesouro e Câmara do Comércio como secretária, datilógrafa e estenografa. Em 1975, quando Phnom caiu em poder de Pol Pot e do Khmer Vermelho, ela foi tirada de sua casa com o marido e os filhos. Seu marido foi enviado para um lugar desconhecido, e
Phaly Nuon não tinha idéia se fora executado ou continuava vivo. Ela foi colocada para trabalhar no campo com sua filha de 12 anos, o filho, de três e o bebê recém-nascido. As condições eram terríveis e a comida escassa, mas ela trabalhava ao lado de seus companheiros, “jamais dizendo a eles coisa alguma e nunca sorrindo, nenhum de nós sorria porque sabíamos que a qualquer momento poderíamos ser mandados para a morte”. Após alguns meses, foi despachada para outra localidade junto com sua família. Durante a transferência, um grupo de soldados amarrou-a a uma árvore e a obrigou a assistir enquanto sua filha era violentada pelo bando e depois assassinada. Alguns dias depois, Phaly Nuon foi levada com alguns outros trabalhadores para um campo fora da cidade. Amarraram suas mãos atrás das costas e ataram suas pernas unidas. Depois forçaram-na a se ajoelhar a amarraram-na a uma vara de bambu, fazendo com que se inclinasse para a frente num campo lamacento de modo que suas pernas tivessem que ficar tensas ou ela perderia o equilíbrio. A idéia era que, quando finalmente caísse de exaustão, ela afundaria na lama e, incapaz de mover-se, se afogaria. Seu filho de três anos gritava e chorava a seu lado. A criança foi amarrada a ela para se afogar na lama quando a mãe caísse: Phaly Nuon mataria seu próprio filho.
Ela então contou uma mentira. Disse que, antes da guerra, trabalhara para um dos membros da cúpula do Khmer Vermelho, que fora sua amante e que ele ficaria zangado se ela fosse morta. Poucas pessoas escaparam dos campos de morte, mas um capitão que talvez tenha acreditado na história de Phaly Nuon posteriormente disse que não podia suportar o som de seus filhos gritando e que as balas que os matariam rapidamente eram caras demais para serem desperdiçadas. Então, ele desarmou Phaly Nuon e lhe disse para correr. Com o bebê num dos braços e o filho de três anos no outro, ela disparou adentrando profundamente a selva do nordeste cambojano. Ficou na selva por três anos, quatro meses e 18 dias. Jamais dormia duas vezes no mesmo lugar. Enquanto perambulava, colhia folhas e desenterrava raízes para alimentar a si e sua família, mas a comida era difícil de encontrar e outros ceifadores, mais fortes que ela, haviam deixado a terra nua. Gravemente desnutrida, começou a definhar. O leite de seus seios logo secou, e o bebê que ela não pode alimentar morreu em seus braços. Ela e o filho remanescente se agarraram à vida com todas as suas forças e atravessaram o período de guerra.
A esta altura da narrativa de Phaly Nuon, nós dois já tínhamos trocado nossos lugares pelo chão, e ela chorava balançando-se para frente e para trás, enquanto eu me sentava com os joelhos sob o queixo e uma das mãos no ombro dela, um abraço que seu estado de transe permitia. Ela continuou quase sussurrando. Depois de a guerra acabar, ela encontrou seu marido que, gravemente espancado na cabeça e no pescoço, sofreu uma perda significativa de sua capacidade mental. Ela, o marido e o filho foram colocados num campo de fronteira próximo à Tailândia, onde milhares de pessoas viviam em abrigos temporários feitos de lona. Sofreram abusos físicos e sexuais por alguns dos funcionários do campo, e foram ajudados por outros. Phaly Nuon era uma das únicas pessoas instruídas ali e, conhecendo línguas, podia falar com os funcionários encarregados da assistência. Tornou-se uma parte importante da vida e do campo, sendo dada a ela e sua família uma cabana de madeira que era considerada luxuosa, em comparação com o resto. “Ajudei em certas tarefas de assistência naquela época”, lembra. “O tempo todo em que andei por ali, vi mulheres em péssimo estado, muitas delas paralisadas, não se moviam, não falavam, não se alimentavam e não davam a mínima para os próprios filhos. Vi que embora tivessem sobrevivido à guerra, iam agora morrer de depressão, de um estresse pós-traumático totalmente incapacitante.” Phaly Nuon fez um pedido especial aos funcionários encarregados da assistência e criou em sua cabana uma espécie de centro de psicoterapia.
Ela usava a medicina tradicional khmer (feita com porções variáveis de mais de 100 ervas e folhas) como primeiro passo. Se aquilo não funcionava suficientemente bem, ela usava medicina ocidental quando disponível, como às vezes ocorria. Eu escondia estoque de quaisquer antidepressivos que os funcionários da assistência pudessem trazer”, disse, e “tentava ter o suficiente para os casos piores.” Ela levava as pacientes para meditar, mantendo em sua casa um altar budista enfeitado com flores. Conquistava a confiança das mulheres para que se abrissem. Primeiro, levava três horas para que cada mulher lhe contasse sua história. Depois, fazia visitas de acompanhamento regulares para obter mais detalhes, até que finalmente obtivesse a total confiança das mulheres deprimidas. “Eu precisava conhecer a história que essas mulheres tinham para contar”, explicou, “porque queria entender bem especificamente o que cada uma tinha que superar.”
Uma vez que a iniciação fosse concluída, Phaly Nuon prosseguia num sistema formulado por ela. “Eu o aplico em três etapas”, disse. “Primeiro, ensino-as a esquecer. Temos exercícios que fazemos a cada dia, para que a cada dia elas possam esquecer um pouco mais as coisas que jamais esquecerão inteiramente. Durante esse tempo, tento distraí-las com música, bordado, tecelagem ou com concertos, com uma hora ocasional de televisão, com qualquer coisa que pareça funcionar, com qualquer coisa que elas me digam que gostam. A depressão está sob a pele, toda a superfície do corpo tem a depressão logo abaixo de si,e não podemos tirá-la fora; mas podemos sim tentar esquecer a depressão mesmo que esteja bem ali.
“Quando suas mentes estão limpas do que esqueceram, quando aprendem bem o esquecimento, eu as ensino a trabalhar. Seja qual for o tipo de trabalho que querem fazer, eu descubro um modo de ensiná-lo a elas. Algumas treinam apenas limpar casas ou cuidar de crianças. Outras aprendem habilidades que possam usar com os órfãos, e algumas voltam-se para uma verdadeira profissão. Elas precisam aprender a fazer tais coisas e se orgulhar delas.
“E então, quando finalmente já dominaram o trabalho, eu as ensino a amar. Construí uma espécie de anexo e fiz ali um banho a vapor. Agora tenho um similar, só que mais bem construído, em Phnom Penh. Então levo-as para lá para que todas fiquem limpas, e as ensino a fazer as mãos e os pés umas das outras, e como cuidar das unhas, porque elas se sentem bonitas com isso, e querem muito se sentir bonitas. Isso também as coloca em contato com os corpos de outras pessoas e faz com que se distraiam de seus corpos para cuidar de outros. Isso as resgata do isolamento físico, que é uma aflição habitual entre elas, e conduz à quebra do isolamento emocional. Enquanto estão juntas lavando-se e pintando unhas, começam a conversar, pouco a pouco aprendem a confiar umas nas outras e, no final de tudo, aprenderam a fazer amigas, de modo que jamais terão que ser tão solitárias e tão sós novamente. Suas histórias – que não contaram para ninguém a não ser para mim -, elas começam a contar umas para as outras.”
Phaly Nuon mostrou-me depois os instrumentos de sua profissão de psicóloga: os pequenos frascos de esmalte colorido, a sala de vapor, as varetas para empurrar as cutículas, as lixas de unha, as toalhas. A limpeza e o cuidado com elas e com os outros é uma das formas primordiais de socialização entre os primatas, e essa volta aos cuidados básicos como uma força socializante entre os humanos me pareceu curiosamente orgânica. Eu disse a ela que acha difícil ensinar a nós mesmos e aos outros a esquecer, a trabalhar e a amar e ser amado, mas ela disse que não era tão complicado se você próprio puder fazer essas três coisas. Contou-me como as mulheres que ela tem tratado formaram uma comunidade e como se dão bem com os órfãos de quem tomam conta.
“Há um último passo”, disse-me ela depois de uma longa pausa. “No final, eu lhes ensino o mais importante: que essas três habilidades – esquecer, trabalhar e amar – não são isoladas e sim parte de um enorme todo. É a prática dessas três coisas juntas, cada qual como parte das outras, que faz a diferença. É o mais difícil de transmitir”, ela ri, “mas todas passam a entender isso e, quando o fazem, estão prontas para entrar de novo no mundo.” (p.34-36)
SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio-Dia. Uma anatomia da depressão. Tradução de Myriam Campello. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Escritora putinha:
Lélia Almeida.
Escrevi um artigo sem a menor importância sobre sexo virtual depois de ter passado o ano inteiro escrevendo coisas muito mais sérias e relevantes sobre as mulheres e o momento político do país. O momento histórico em que tivemos duas mulheres disputando a presidência da república, por um lado, e milhões de mulheres brasileiras, decidindo o seu voto, por outro. Nenhum dos textos que escrevi sobre este assunto fez tanto sucesso quanto o que teci meia dúzia de bobagens sobre sexo virtual.
Recebi num curto espaço de tempo mais de 350 e-mails e quatro convites de editoras para a publicação do meu livro que ainda não está pronto, o que fala da personagem que navega pelos submundos da rede.
Adelaide Carraro publicou em 1978 um livro chamado “Escritora Maldita?” onde publica as cartas que ela recebia dos seus leitores. Padres, marinheiros, donas-de-casa, homossexuais, secretárias, prostitutas, lésbicas e todo tipo de leitor escreveram cartas que quase sempre diziam que a escritora salvou-lhes a vida ao trazer a público determinados temas tabus.
Fiquei tentada a fazer uma publicação parecida, pois todos os candidatos a escritores de literatura erótica do país me enviaram seus originais, todos os tarados se manifestaram e outros que não se inserem em nenhuma destas categorias, mais homens do que mulheres, também enviaram sugestões e comentários quase sempre muito interessantes. Gostei, particularmente, da carta de um pastor que quis me converter, argumentando que uma mulher que escreve sobre sexo está tomada pelo demônio; e de outro senhor que depois de muito considerar a qualidade do meu texto, parabenizar a minha ousadia e atrevimento ao tratar do tema, termina, de maneira muito sincera por dizer que ele é, na verdade, igual a todos os que vagueiam sem rumo pelos confins da rede e o que ele queria, em suma, era também, comer o meu rabinho (cito).
Mulheres que gostam de sexo ou de falar e escrever sobre o tema são seres mal vistos na nossa cultura. Ainda são vistas como pessoas pouco sérias não importando se escrevem bem ou se pensam de maneira inteligente ou original sobre o tema. Sexo, definitivamente, não é um tema adequado para as mulheres. Alguns blogs que reproduziram o texto colocaram fotos sugestivas de um sutiã ou calcinhas daquelas de sex-shop em cima de um teclado e coisas do tipo.
Telefonei para os editores que escreveram pedindo que eu enviasse imediatamente os originais de Anêmona Bristol para que fosse emitido um parecer e uma proposta editorial explicando que o texto encontra-se em momento de finalização, mas que tenho outros quatro textos prontos e encalhados e de todos recebi a mesma resposta, não estamos interessados, queremos este que trata sobre sexo virtual.
Talvez esta tenha sido a minha grande e última oportunidade desperdiçada de me tornar uma escritora famosa, publicada, de me tornar uma celebridade, de fazer um calendário posando nua com trechos do romance e, finalmente, fazer deslanchar uma carreira de escritora até agora anônima, difícil, trabalhosa, como a da maioria das pessoas que quer escrever neste país.
Gosto de falar sobre sexo porque acho divertido, acho divertido o vocabulário e as narrativas. E porque acho que a experiência sexual ainda se constitui num território onde podemos exercer a nossa liberdade e a nossa humanidade. Voltamos um pouco a ser crianças quando estamos desnudados na frente do outro, fuçando no corpo do outro, quando abraçamos as nossas imperfeições, quando nos enroscamos, quando podemos ser ridículos e podemos dar ao corpo o que é do corpo. Quase sempre é engraçado desnudar-se diante do outro. E ainda que a cama como outros lugares que não garantem a mesma experiência lúdica possa ser o lugar de grandes enganos, é também o lugar de encontros maravilhosos.
Tive de explicar aos editores que não sou uma escritora de literatura erótica, que acho esta arte por demais sofisticada de trabalhar e que o sexo, na minha vida e na minha escrita, ocupa o mesmo lugar de outras experiências afetivas e que posso escrever sobre todas elas, como de fato faço, sem a supervalorização de nenhuma delas em detrimento de outras.
Ontem assisti Roberto DaMatta no programa Roda Viva sendo entrevistado por várias pessoas. Uma entrevista brilhante que finalizou com o antropólogo falando sobre a experiência dramática de, aos 70 anos, deparar-se com a perda de um filho de 42 anos vítima de um infarto fulminante e da doença de sua companheira amada, que tem Alzheimer. Num tom muito comovido disse que estas experiências ensinaram-lhe duas coisas. Que não temos garantia de nada nesta vida, que nem Deus, nem o dinheiro, nada nos protege dos infortúnios e da morte. E que diante desta evidência ele passou a se perguntar sobre o que é suficiente para uma vida.
Talvez eu tenha perdido a chance de ser uma escritora famosa num percurso meteórico. Talvez eu não queira ser uma escritora putinha porque antevi de maneira muito clara como é fácil e rápida a construção de um estigma, que funciona como um carimbo, uma tatoo: esta aqui vende sexo!
Roberto DaMatta lembrou que diante da inevitabilidade da morte e das experiências dramáticas que nos tocam a cada um, a única coisa que vale a pena é viver uma vida com valores claros, autênticos e que nos expressem verdadeiramente. E que o seu grande refúgio, naqueles momentos, foram os livros. Esta foi a sua medida ao se perguntar sobre o que era suficiente.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Escritora putinha não é aquela que escreve sobre sexo, mas pode ser aquela que vende a alma para um público fácil e para editoras preguiçosas que precisam lucrar rapidamente com os temas de sempre, sejam os relativos à violência, sexo, vampiros, anjos e outros bem cotados no mercado.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Aliás, tenho achado cada vez mais difícil inclusive tentar ser uma escritora. Que viver cada dia até o fim e não enlouquecer, para mim, já está de bom tamanho.
Este é o meu suficiente.
Lélia Almeida.
Escrevi um artigo sem a menor importância sobre sexo virtual depois de ter passado o ano inteiro escrevendo coisas muito mais sérias e relevantes sobre as mulheres e o momento político do país. O momento histórico em que tivemos duas mulheres disputando a presidência da república, por um lado, e milhões de mulheres brasileiras, decidindo o seu voto, por outro. Nenhum dos textos que escrevi sobre este assunto fez tanto sucesso quanto o que teci meia dúzia de bobagens sobre sexo virtual.
Recebi num curto espaço de tempo mais de 350 e-mails e quatro convites de editoras para a publicação do meu livro que ainda não está pronto, o que fala da personagem que navega pelos submundos da rede.
Adelaide Carraro publicou em 1978 um livro chamado “Escritora Maldita?” onde publica as cartas que ela recebia dos seus leitores. Padres, marinheiros, donas-de-casa, homossexuais, secretárias, prostitutas, lésbicas e todo tipo de leitor escreveram cartas que quase sempre diziam que a escritora salvou-lhes a vida ao trazer a público determinados temas tabus.
Fiquei tentada a fazer uma publicação parecida, pois todos os candidatos a escritores de literatura erótica do país me enviaram seus originais, todos os tarados se manifestaram e outros que não se inserem em nenhuma destas categorias, mais homens do que mulheres, também enviaram sugestões e comentários quase sempre muito interessantes. Gostei, particularmente, da carta de um pastor que quis me converter, argumentando que uma mulher que escreve sobre sexo está tomada pelo demônio; e de outro senhor que depois de muito considerar a qualidade do meu texto, parabenizar a minha ousadia e atrevimento ao tratar do tema, termina, de maneira muito sincera por dizer que ele é, na verdade, igual a todos os que vagueiam sem rumo pelos confins da rede e o que ele queria, em suma, era também, comer o meu rabinho (cito).
Mulheres que gostam de sexo ou de falar e escrever sobre o tema são seres mal vistos na nossa cultura. Ainda são vistas como pessoas pouco sérias não importando se escrevem bem ou se pensam de maneira inteligente ou original sobre o tema. Sexo, definitivamente, não é um tema adequado para as mulheres. Alguns blogs que reproduziram o texto colocaram fotos sugestivas de um sutiã ou calcinhas daquelas de sex-shop em cima de um teclado e coisas do tipo.
Telefonei para os editores que escreveram pedindo que eu enviasse imediatamente os originais de Anêmona Bristol para que fosse emitido um parecer e uma proposta editorial explicando que o texto encontra-se em momento de finalização, mas que tenho outros quatro textos prontos e encalhados e de todos recebi a mesma resposta, não estamos interessados, queremos este que trata sobre sexo virtual.
Talvez esta tenha sido a minha grande e última oportunidade desperdiçada de me tornar uma escritora famosa, publicada, de me tornar uma celebridade, de fazer um calendário posando nua com trechos do romance e, finalmente, fazer deslanchar uma carreira de escritora até agora anônima, difícil, trabalhosa, como a da maioria das pessoas que quer escrever neste país.
Gosto de falar sobre sexo porque acho divertido, acho divertido o vocabulário e as narrativas. E porque acho que a experiência sexual ainda se constitui num território onde podemos exercer a nossa liberdade e a nossa humanidade. Voltamos um pouco a ser crianças quando estamos desnudados na frente do outro, fuçando no corpo do outro, quando abraçamos as nossas imperfeições, quando nos enroscamos, quando podemos ser ridículos e podemos dar ao corpo o que é do corpo. Quase sempre é engraçado desnudar-se diante do outro. E ainda que a cama como outros lugares que não garantem a mesma experiência lúdica possa ser o lugar de grandes enganos, é também o lugar de encontros maravilhosos.
Tive de explicar aos editores que não sou uma escritora de literatura erótica, que acho esta arte por demais sofisticada de trabalhar e que o sexo, na minha vida e na minha escrita, ocupa o mesmo lugar de outras experiências afetivas e que posso escrever sobre todas elas, como de fato faço, sem a supervalorização de nenhuma delas em detrimento de outras.
Ontem assisti Roberto DaMatta no programa Roda Viva sendo entrevistado por várias pessoas. Uma entrevista brilhante que finalizou com o antropólogo falando sobre a experiência dramática de, aos 70 anos, deparar-se com a perda de um filho de 42 anos vítima de um infarto fulminante e da doença de sua companheira amada, que tem Alzheimer. Num tom muito comovido disse que estas experiências ensinaram-lhe duas coisas. Que não temos garantia de nada nesta vida, que nem Deus, nem o dinheiro, nada nos protege dos infortúnios e da morte. E que diante desta evidência ele passou a se perguntar sobre o que é suficiente para uma vida.
Talvez eu tenha perdido a chance de ser uma escritora famosa num percurso meteórico. Talvez eu não queira ser uma escritora putinha porque antevi de maneira muito clara como é fácil e rápida a construção de um estigma, que funciona como um carimbo, uma tatoo: esta aqui vende sexo!
Roberto DaMatta lembrou que diante da inevitabilidade da morte e das experiências dramáticas que nos tocam a cada um, a única coisa que vale a pena é viver uma vida com valores claros, autênticos e que nos expressem verdadeiramente. E que o seu grande refúgio, naqueles momentos, foram os livros. Esta foi a sua medida ao se perguntar sobre o que era suficiente.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Escritora putinha não é aquela que escreve sobre sexo, mas pode ser aquela que vende a alma para um público fácil e para editoras preguiçosas que precisam lucrar rapidamente com os temas de sempre, sejam os relativos à violência, sexo, vampiros, anjos e outros bem cotados no mercado.
Eu não quero ser uma escritora putinha. Aliás, tenho achado cada vez mais difícil inclusive tentar ser uma escritora. Que viver cada dia até o fim e não enlouquecer, para mim, já está de bom tamanho.
Este é o meu suficiente.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Túnel:
Lélia Almeida.
Meu filho no msn. Mãe, encontrei com ele hoje, depois de todos estes anos. Eu sempre imaginei este encontro, mas foi horrível. Olhei bem nos olhos dele e ele não me reconheceu, não reconheceu ou fez que não viu, porque baixou os olhos. Eu encarei ele mas ele desviou o olhar. Não reconheceu, eu disse, você era um menino e agora você é um homem. Foi horrível ele repetia. Vi o túnel outra vez se estendendo dentro de mim, um túnel que mantenho soterrado e sem luz e que por vezes vislumbro e depois esqueço. É assim mesmo, eu disse, o amor é reconhecimento, quando ele acaba as pessoas não se reconhecem mais. Mas mãe, ele insistiu, como é possível, foram anos de convivência diária. Eu sabia do que ele falava. Dos anos de uma parte da infância dele, de todas as refeições compartilhadas, das viagens, dos natais, dos aniversários, das lutas e das cócegas quando ele era um menino, das férias, das conversas infindáveis, dos livros, das músicas, das risadas. Eu não entendo, não adianta, ele não me viu. Como é possível? Não tente entender, eu disse a ele, nem Shakespeare conseguiu explicar porque as pessoas deixam de se amar. Rimos os dois, magoados com Shakespeare. O túnel respira dentro de mim. O túnel que sempre me leva a ele. Estou de mãos dadas com a minha mãe, é domingo e é verão, meu pai vai embora numa Variant azul, com os óculos de lentes verdes, parte para uma vida onde não vamos mais ter lugar. Naquele dia minha mãe também deve ter sentido o túnel arfar dentro dela, o pai partindo também, no dia em que a mãe morreu. Caminho rápida pelas quadras de Brasília, a lua cheia num céu esplendoroso, vejo a minha sombra projetada na calçada enquanto suo a angústia e a raiva. Olho para o contorno do meu corpo e repito para mim mesma, eu vejo você, eu reconheço você. E penso no meu filho e na sua tristeza por ter perdido este homem que ensinou tanto a ele, que segurou a sua mão quando ele era um menino. Eu reconheço voce, eu queria dizer ao meu filho. E também queria dizer a ele que o túnel deve ter um fim, em algum lugar. Nunca me detive a pensar sobre isto, se um túnel tem fim, só fico assombrada com esta engenharia da repetição. Mas em algum lugar que eu ainda não conheço, o túnel deve acabar.
Lélia Almeida.
Meu filho no msn. Mãe, encontrei com ele hoje, depois de todos estes anos. Eu sempre imaginei este encontro, mas foi horrível. Olhei bem nos olhos dele e ele não me reconheceu, não reconheceu ou fez que não viu, porque baixou os olhos. Eu encarei ele mas ele desviou o olhar. Não reconheceu, eu disse, você era um menino e agora você é um homem. Foi horrível ele repetia. Vi o túnel outra vez se estendendo dentro de mim, um túnel que mantenho soterrado e sem luz e que por vezes vislumbro e depois esqueço. É assim mesmo, eu disse, o amor é reconhecimento, quando ele acaba as pessoas não se reconhecem mais. Mas mãe, ele insistiu, como é possível, foram anos de convivência diária. Eu sabia do que ele falava. Dos anos de uma parte da infância dele, de todas as refeições compartilhadas, das viagens, dos natais, dos aniversários, das lutas e das cócegas quando ele era um menino, das férias, das conversas infindáveis, dos livros, das músicas, das risadas. Eu não entendo, não adianta, ele não me viu. Como é possível? Não tente entender, eu disse a ele, nem Shakespeare conseguiu explicar porque as pessoas deixam de se amar. Rimos os dois, magoados com Shakespeare. O túnel respira dentro de mim. O túnel que sempre me leva a ele. Estou de mãos dadas com a minha mãe, é domingo e é verão, meu pai vai embora numa Variant azul, com os óculos de lentes verdes, parte para uma vida onde não vamos mais ter lugar. Naquele dia minha mãe também deve ter sentido o túnel arfar dentro dela, o pai partindo também, no dia em que a mãe morreu. Caminho rápida pelas quadras de Brasília, a lua cheia num céu esplendoroso, vejo a minha sombra projetada na calçada enquanto suo a angústia e a raiva. Olho para o contorno do meu corpo e repito para mim mesma, eu vejo você, eu reconheço você. E penso no meu filho e na sua tristeza por ter perdido este homem que ensinou tanto a ele, que segurou a sua mão quando ele era um menino. Eu reconheço voce, eu queria dizer ao meu filho. E também queria dizer a ele que o túnel deve ter um fim, em algum lugar. Nunca me detive a pensar sobre isto, se um túnel tem fim, só fico assombrada com esta engenharia da repetição. Mas em algum lugar que eu ainda não conheço, o túnel deve acabar.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Baltasar, Gaspar e Melquior sabiam que se seguissem a estrela encontrariam o menino.
Os milagres são sempre simples e penso que esta é uma boa maneira de se conduzir: acreditar na luz da boa estrela, ir leve pelos caminhos, carregar ouro, incenso e mirra e reverenciar sempre o nascimento do menino.
Feliz Dia de Reis!
Os milagres são sempre simples e penso que esta é uma boa maneira de se conduzir: acreditar na luz da boa estrela, ir leve pelos caminhos, carregar ouro, incenso e mirra e reverenciar sempre o nascimento do menino.
Feliz Dia de Reis!
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Neto é filho com açúcar:
Lélia Almeida
A relação entre a minha mãe e o meu filho, confesso, beira a indecência. Este vínculo que surgiu há doze anos, com o nascimento dele, se fortaleceu e hoje, virou isso, uma relação indecente. Ele nasceu enquanto eu fazia o curso de Mestrado, uma mãe estressadíssima em meio a tese, mamadeiras, disciplinas e monografias quase sempre atrasadas e a torcida de muitas pessoas que diziam, você não vai conseguir conciliar as duas coisas. E eu pensava, ele é muito pequeno pra ser tão poderoso, vou conseguir sim. Mas, fundamentalmente consegui porque esta superavó esteve sempre ali, presente, incansável, com ele. Não era por mim e nem pelo Mestrado, era por ele e por ela, que já começavam, desde então, esta relação incomum.
Quando decidi que ele iria para a creche, alguns dias por semana e somente meio turno, para que nós duas, mãe e avó pudéssemos atender nossos trabalhos e vidas com mais mobilidade, ela cortou relações comigo para sempre e me disse que eu era um monstro. Voltou dois dias depois, morta de saudades do neto e magoadíssima comigo, para sempre. No aniversário de dois anos ela confeccionou uma roupa de Batmam para ele, indumentária esta que ele usou sistematicamente dos dois aos três anos, convencido da sua nova identidade, e quando ela ia levá-lo na creche, eles subiam no ônibus e ele dizia em tom autoritário, vamos batgirl, venha. E lá iam os dois, batmam neto e batgirl avó, em mais uma aventura.
Caxumba, catapora, dentes que nascem, dentes que caem, primeiras palavras, a testa aberta, pontos, ela firme, ele também, neste amor indecente, que se aprimora ano após a ano da existência dos dois.
Assim foram realizadas inúmeras viagens juntos, passeios, livros lidos, filmes vistos. Foi ela quem o iniciou em filmes de adultos ainda em tenra idade quando o levou pra ver Independence Day, fascinada ela por aquela nave imensa que atravessava os céus e alimentava a nossa imaginação paranóide. Ele deixou para trás pra sempre as pequenas sereias, belas e feras, e entrou definitivamente no mundo das naves e viagens e do cinema. Entre este ano e o ano passado mataram de uma sentada todos os Harry Potter e Senhor dos Anéis, filmes e livros, numa corrida de quem terminava primeiro para adiantar os episódios um ao outro. Ouvem músicas juntos, se criticam, compram cds e fazem o que as avós fazem com os netos há muitos séculos juntos, nada, se mimam e se adoram. Ela, que foi uma mãe superdisciplinada virada em uma avó que levanta dos seus afazeres a qualquer hora do dia e da noite pra fazer de pipocas doces a batatas fritas. Ele, aquele filho meio-disciplinado virado em sultão usufruindo dos mimos avoengos.
Eu, é claro, estou sumariamente excluída do romance e dos programas, aceita eventualmente pra não ficar chato. Porque afinal de contas a minha única função na vida foi essa e não outra: ser a filha dela e a mãe dele para que assim eles pudessem ser isso, a avó e neto amantíssimos. Isto feito, posso partir. Mas é assim mesmo, quando ela está por perto, ele consegue brigar melhor comigo, e embora ela sempre concorde com ele, me defende também, como corresponde a uma mãe. Vamos tecendo nossas vidas e nossos papéis, os que nos cabem na malha da ancestralidade. Eles, em idílio e festa, eu, encantada, de fora. Porque mãe é extrato de tomate concentrado: escova os dentes, faz os temas, arruma o quarto, guri. E vó é extrato de tomate diluído e sem pressão, dá sabor à pizza, ao cachorro quente, à farra grossa.
Porque com esta avó tudo é bom, horas de temas escolares feitos em conjunto pelo telefone, ambos competindo e se exibindo de quem sabe mais, sabe melhor, descobre mais coisas. E ela esclarece, é que eu trato o meu neto como gente, não como se fosse uma criança idiota. Ou, acontece que ele é especial, não adianta. E barbaridades como estas, por aí afora.
Sábado de noite depois do cinema, do MacDonalds, do cd novo, etc., programas eventuais e saboreadíssimos pelo neto de avó professora. Na frente da tv, os dois cansados da tarde movimentada. Ela cochila com os óculos caídos no nariz e o jornal no colo, ele recostado nela e o gesto que denuncia o menino, o menino que ele ainda é, o menino que ele foi e cresceu ao pé da árvore sólida, sobranceira: belisca suavemente o cotovelo dela, a pele que sobra, enrugada , e adormece como quando era um pequeno batman.
Eu entendo o que ela diz, "neto é filho com açúcar" e aceito o papel que me cabe nesta relação indecente: elos de uma corrente, a mão dela enrugada e envelhecida, a minha mão entre as deles, a dele, firme e pequena ainda. E o entendimento definitivo da eternidade, de que a gente não morre, de que a gente fica, se perpetua, que a imortalidade é isso: energia, calor, vínculo, amor.
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